Café Literário Cronópios

Federico García Lorca: o menestrel da Andaluzia
por Antonio Naud Júnior





 
Coluna:
ANARCHICO ARCHAICO
Glauco Mattoso


[44] Faxina na lixeira
por Glauco Mattoso




[43] Chicho, um vivo mimo
por Glauco Mattoso




[42] Choro de perdedor
por Glauco Mattoso




[41] O baralho encardido e o 'arame fallado'
por Glauco Mattoso




[40] Uma conclusão sobre a reclusão
por Glauco Mattoso




[39] No tempo em que eu enxergava... se fallava...
por Glauco Mattoso




[38] Um estudo sem escrupulos do estupro
por Glauco Mattoso




[37] Sadomasochismo massificado? O que é isso, roommate?
por Glauco Mattoso




[36] Uma baixinha para os baixinhos
por Glauco Mattoso




[35] De bocca fechada não sae gralha
por Glauco Mattoso




[34] Dia de mentira sem ser dia da mentira
por Glauco Mattoso




[33] Sadismo e sansonismo com lyrismo
por Glauco Mattoso




[32] O melhor vidente é aquele que quer ver
por Glauco Mattoso




[31] Contactos immediatos sem grau e com lente preta
por Glauco Mattoso




[30] Tapando o cu com a peneira
por Glauco Mattoso







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
07/11/2009 00:16:00 
[11] Nem tanto ao mar, nem tanto a marte


Por Glauco Mattoso 


Fallava eu de conciliação dos extremos porque sei como tendemos a ser radicaes quando defendemos nossas idéas. Eu mesmo fui victima da forçação de barra quando, para contestar os reformistas que queriam transformar "acreano" em "acriano", extendi a desinencia "eano" até a adjectivos que não precisariam leval-a, como "oswaldiano", "petrarchiano", "bilaquiano" ou "mattosiano". Na verdade, a terminação adjectiva em "ano" teria que ser precedida, si fosse o caso, da vogal "E" apenas quando o substantivo terminar em "E" e precedida da vogal "I" quando o substantivo terminar em outra vogal ou em consoante. Tracta-se duma regra relativa que, embora às vezes confunda, na practica funcciona sem extranheza.

Assim, si os substantivos forem Pessoa, Alagoas, Piracicaba, Cuyabá, Curityba, Cuba, Venezuela, America, Africa, Angola, Roma, Esparta, a terminação dos adjectivos será simplesmente "ano". No caso de Colombia, India, Bahia, Australia, Italia, Ucrania, California, Kenia, Esthonia, Siberia, Victoria, Bolivia, Acacio, Julio, Gregorio, Diluvio, o "I" que ja faz parte do nome se reflectirá, obviamente, na terminação "iano". Dahi a razão de grapharmos "borgiano" si a palavra for allusiva ao sobrenome Borgia, differentemente de "borgeano", allusivo a Borges.

Si os substantivos forem Borges, Rodrigues, Menezes, Acre, Sade, Gide, Bocage, Shakespeare, Voltaire, Sartre, Appalaches, Euclides, Camões, a terminação dos adjectivos será "eano". Inclusive, obviamente, quando o "E" preceder a vogal final do substantivo, qualquer que seja esta, como em "craneo" ou "varzea".

Si os substantivos forem Torquemada, Gonzaga, Obama, Sahara, Guevara, Bandeira, Zaratustra, Caucaso, Machado, Neptuno, Parnaso, Drummond, Hollywood, Freud, Jung, Reich, Bach, Orwell, Iran, Lacan, Juppiter, Venus, a terminação dos adjectivos será "iano", na qual o "I" apparece addicionalmente.

Si os substantivos forem Haiti, Vivaldi, Verdi, Fellini, Pasolini, Mussolini, Khomeini, Caymmi, Dali, Gaudí, Mogy, a terminação "ano" apenas se accrescenta.

Si os substantivos forem Itu, Pagu, Peru, Ubu, as vogaes "E" ou "I" nunca occorrem.

Claro está que a questão nem se colloca quando o adjectivo dispensar outra vogal antes de "ano", independentemente da lettra final do substantivo, como em "Alemtejo", "Athletico", "Mexico", "Francisco", "Luthero", "Pernambuco", "Rheno", "Sergipe", "Moçambique", "Goyaz", "Texas", "Elizabeth", "Nazareth", etc.

Duvidas sempre nos assaltam, comtudo. Ao repassarmos adjectivos extraterrenos como "juppiteriano" ou "venusiano", immediatamente nos occorre o mais commum: "marciano". Si o planeta Marte tem seu nome vindo do latim nominativo "Mars", alguem poderá achar que a palavra deveria ser "marsiano", com "S". Si considerarmos que a origem está no genitivo "Martis", que daria em portuguez "Marte", nossa regra mandaria graphar "marteano". Donde a forma "marciano", então? Succede que de "Martis" veiu "Martius", que deu "Marcio" em portuguez, com o "T" que habitualmente se converte em "C", como em "patientia" dando "paciencia". Dahi o adjectivo: "marciano", com "C" mesmo.

E para não perder a deixa, faço jus ao vicio poetico e divago um pouco: si os habitantes do planeta vermelho são, sabidamente, verdes, que cor teriam os habitantes da Lua, que por signal não são "lunaticos" nem "lunianos", e sim "selenitas"? Si forem prateados, poderiam ser scientificamente classificados, em termos substantivos, como "argyrodermes", que tal? Sendo amarellos, seriam "xanthodermes"; si brancos, "leucodermes"; si azues, "cyanodermes"; si verdes, "chlorodermes"; si vermelhos, "erythrodermes"; si dourados, "chrysodermes"; si pardos, "pheodermes", e assim por deante... Basta brincar com os radicaes gregos, com os quaes se podem formar quaesquer palavras, tanto antepondo como pospondo, a exemplo de "gynandro", que significa "mulher macho", ou de "androgyno", que significa "homem femea". Qualquer hora vou postar um glossario desses radicaes, me aguardem.

Voltando à vacca fria, fecho com um soneto que baptizei de "paulopolitano" por ser allusivo à cidade de São Paulo, assim como "soteropolitano" allude à cidade de Salvador, ja que "salvador" ou "protector" em grego é "sotero".



SONETO PAULOPOLITANO [110]

Alguns passos alem do Marco Zero
a cathedral da Sé, quasi acabada,
resume em neogothico a salada
humana e deshumana onde me gero.

No leste nordestino ja fui vero
bambino da rural Villa Invernada.
Nasci, porem, na Lapa, que é pegada
à toca dum poeta que é panthero.

Elyseos, Campos, Braz, Bixiga e Mooca,
Belem, Limão, Carrão, Pary, Moema:
Qual minha casa, cova, taba, toca?

Não fosse eu paulistano tão da gemma!
Na rua Lavapés me desembocca
a lingua, que alli lave, goze e gema!



                                              * * *


[Attenção! Quaesquer textos assignados por Glauco Mattoso estarão em desaccordo com a orthographia official, pois o auctor adoptou o systema etymologico vigente desde a epocha classica até a decada de 1940.]


Glauco Mattoso
(paulistano de 1951) é poeta, ficcionista e ensaísta, autor de mais de trinta títulos, entre os quais as antologias "VÍCIOS PERVERSOS: CONTOS ACONTECIDOS" e "POESIA DIGESTA: 1974-2004", além dos romances "MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR: AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS" e "A PLANTA DA DONZELA".
E-mail:
glaucomattoso@uol.com.br 


  http://www.tvcronopios.com.br/bitniks06/

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Glauco Mattoso no Cronópios.