Café Literário Cronópios











A centopéia no arame farpado
por Ivan Guardia





 
Coluna:
ANARCHICO ARCHAICO
Glauco Mattoso


[18] Verso livre obrigatório versus forma fixa voluntária
por Glauco Mattoso




[17] Desalongando o pappo e desmedindo forças
por Glauco Mattoso




[16] Bacchanal buccoanal ou suruba cubuccal?
por Glauco Mattoso




[15] Enquadrado na quadrilha dos quadrinhistas
por Glauco Mattoso




[14] Macacos soltos no laboratório
por Glauco Mattoso




[13] De volta para o presente
por Glauco Mattoso




[12] Graecum est, non legitur
por Glauco Mattoso




[11] Nem tanto ao mar, nem tanto a marte
por Glauco Mattoso




[10] Atropelos nos Anthroponymos
por Glauco Mattoso




[9] Topicos Tupynicos e Toponymicos
por Glauco Mattoso




[8] Idiosyncrasias idiomaticas
por Glauco Mattoso




[7] Quando o vice-versa é versão do vicio
por Glauco Mattoso




[6] Das escrituras demolidoras às releituras edificantes
por Glauco Mattoso




[5] Lettra que te quero lettra
por Glauco Mattoso




[4] Você sabe com quem está escrevendo? Com seu computador fallante!
por Glauco Mattoso







 


Micheliny Verunschk


Sebastião Nunes


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Márcia Denser


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


José Inácio Vieira de Melo


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


João Filho


Eduardo Milán


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Márcio Souza


Leda Tenório da Motta


Laure Limongi


Frederico Füllgraf


Lau Siqueira


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Cláudio Soares


Alfredo Suppia


Artur Matuck
    
3/12/2009 12:22:00 
[12] Graecum est, non legitur


Por Glauco Mattoso
 


O dictado latino que dá titulo a este capitulo dá tambem uma idéa de como Roma encarava os alphabetos extrangeiros. Dahi a expressão "isto para mim é grego", no sentido de inintelligivel.

Com effeito, o latim fallado e escripto absorveu innumeros hellenismos, principalmente no que tange aos ramos mais eruditos do latim ecclesiastico e scientifico, mas nem todas as lettras gregas podiam ser, digamos, litteralmente translitteradas, para sermos necessariamente pleonasticos.

Por exemplo, o "phi", equivalente ao nosso "F", precisou de duas lettras para representa-lo, de modo que não fosse confundido com a consoante eventualmente dobrada das palavras typicamente latinas. Assim, "officio" tem clara origem latina, emquanto "ophidio" vem do grego; "effectivo" e "ephemero" se differenciam da mesma forma.

Outros phonemas que, no portuguez, acabaram soando practicamente da mesma maneira são o "CH" grego e o "QU" latino, que entretanto não se confundem, como não se confundiam na pronuncia original. Assim, um nariz "aquilino" vem da aguia latina, emquanto um calcanhar "achilleu" vem do grego Achilles. No latim, a vogal "U" soava tanto em "aqueducto" quanto em "aquatico", emquanto "ecchymose" jamais soaria como "equinoccio".

Mais confusos são os nossos dois sons de "I" e os dois de "T" do alphabeto grego, correspondentes, respectivamente, às lettras iota comparada com ypsilon (originalmente upsilon), dum lado, e tau comparada com theta, do outro. Dahi a coexistencia, no portuguez, dos radicaes "philo" e "phyllo", que os phoneticistas reduziram, indevidamente, a um único "filo". Assim, um animal "phyllophago" é o que se alimenta de folhas vegetaes, emquanto um animal "philosopho" se alimenta, figuradamente, de folhas impressas. Pelo mesmo caminho, um ser "aletophyto" é apenas uma planta errante, emquanto um ser "alethophilo" é uma pessoa em busca da verdade. Um "podophilo" jamais se confunde com um "podophyllo", mesmo que o fetichista em questão seja um botanico...

Por ahi se vê como a orthographia etymologica é fundamental para sabermos differenciar um texto "eschatologico" (philosophico) dum texto meramente "escatologico" (fecal), ainda que, no fundo, seja tudo a mesma merda. Quem tem practica não troca as bolas na hora de descrever a cor da crista do gallo, a transparencia do copo de crystal e os espinhos da coroa de Christo...

O importante é conhecer os radicaes gregos, que, a rigor, não se mixturam com os latinos, excepto nos hybridismos. Assim, tanto pode haver um "T" como um "TH" em palavra originalmente grega, a exemplo de "necroterio" (onde o "terio" significa "logar") e em "megatherio" (onde o "therio" significa "fera"), bem como inexiste o "F" em palavra typicamente grega, como "phosphoro", "photographo" ou "philosopho". No caso de "chloroformio", "hyposufficiente", "gypsifero" ou "hydrofugo", o segundo elemento é latino, characterizando o hybridismo.

Si todos usassemos o systema etymologico, ficaria mais facil de entender uma lettra como a da canção "Lingua", de Caetano, quando elle compara os termos "patria", "matria" e "phratria", sendo os dois primeiros latinos e o terceiro grego, este significando "tribu" e trocadilhando com o sentido latino da fraternidade. O hybridismo intencional ficaria mais claro si graphassemos correctamente os hellenismos "hippodromo" e "hypothese", onde "hippo" significa "cavallo" e "hypo" significa "abaixo". Em hypothese nenhuma alguem mixturaria um termo de origem afro como "samba" e um grego como "dromo", mas o brasileiro, anthropophagicamente, consegue transformar um valor cultural afrodescendente em aphrodisiaco, jogando o "F" e o "PH" no mesmo sacco, phenomeno que, como pretendeu Caetano, mais se valoriza quando os phonemas se synthetizam na escripta.

E ja que é para embolar o meio de campo, escolhi como illustração um soneto bem dialectico, tanto no sentido da prosodia quanto na mixtura de procedencias. Até 2010!




SONETO SOLETTRADO [375]

Decifre um abecê no abracadabra.
Deduza o delta errado do programma.
A formula se grapha com o gamma.
Viado tem hiato na palavra.

John Kennedy deu bode; o Lampe é cabra.
Mamãe amammentando, o nenê mamma.
Do opiparo quitute o aroma chama.
O russo arreda o rico e a roça lavra.

Um esse se assemelha ao saxophone.
O tu, segundo o verbo, é uma pessoa.
Ve dabliu é rei plebeu, sem quem desthrone.

O xiz parece a cruz, que se abençoa.
Tem cara de forquilha o pissilone.
O ze ziguezagueia, zurze e zoa.







Glauco Mattoso (paulistano de 1951) é poeta, ficcionista e ensaísta, autor de mais de trinta títulos, entre os quais as antologias "VÍCIOS PERVERSOS: CONTOS ACONTECIDOS" e "POESIA DIGESTA: 1974-2004", além dos romances "MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR: AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS" e "A PLANTA DA DONZELA".
E-mail:
glaucomattoso@uol.com.br 


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