A Global Editora vem publicando uma obra de suma importância para a poesia brasileira. Sob a direção de Edla van Steen, são títulos da série “Roteiro da Poesia Brasileira”.
Os volumes, com a escolha de poemas feita por diferentes profissionais, cobrem das “Raízes” (seleção e prefácio de Ivan Teixeira) aos anos 2000 (seleção e prefácio de Marco Lucchesi).
Das origens de nossa literatura até o Modernismo, cada volume cobre um movimento literário, a saber: Arcadismo, Romantismo, Parnasianismo, Simbolismo, Pré-Modernismo e Modernismo. A partir dos anos 30, cada década ganha um volume. Este roteiro dá ao leitor a oportunidade de (re)ler poetas e acompanhar o percurso da nossa poesia. Ora avançando, ora recuando em qualidade literária, mas sempre nossa poesia e sua história.
Cada título conta com um prefácio redigido pelo organizador do respectivo volume. Os títulos têm sido publicados à medida que ficam prontos, sem a obrigatoriedade de seguir a linha diacrônica, ou seja, sem prender-se à linearidade do tempo histórico. Ao final, teremos a coleção com 15 volumes.
Há muito sentíamos falta de uma coleção que pudesse recolher o que há de mais expressivo em nossa poesia. Há os manuais, escolares ou não. Há as antologias que cobrem determinados períodos históricos. Mas permanecia o vazio de uma expressiva coleção que cobrisse, em vários volumes, o que tem sido produzido de mais expressivo em cada movimento literário ou em cada década.
Claro que este “Roteiro” traz poetas discutíveis. Inclui quem deveria ficar de fora. E exclui quem deveria estar dentro. É preciso compreender que cada organizador tem um repertório pessoal e profissional que deve ser levado em conta e, acima de tudo, respeitado.
Dos organizadores, além dos dois citados, temos Domício Proença Filho, Antonio Carlos Secchin, Sânzio de Azevedo, Lauro Junkes, Alexei Bueno, Walnice Nogueira Galvão, Luciano Rosa, André Sefrin, Pedro Lyra, Afonso Henriques Neto, Ricardo Vieira Lima e Paulo Ferraz.
O recente volume lançado traz a poesia de 45 poetas que estrearam na poesia nos anos 2000. Dentre eles destaco Ana Rüsche, Delmo Montenegro, Eduardo Sterzi, Estrela Ruiz Leminsky, Micheliny Verunsky.
“Roteiro da Poesia Brasileira” não veio para agradar a gregos e baianos, na feliz expressão de José Paulo Paes. Ela sabe que isto é inviável. Veio pra mostrar a cara de novos poetas, ou novos (ou conhecidos) poemas de poetas canonizados.
Seu serviço à história da poesia no Brasil é indiscutível. Que seja polêmica. Mas que seja, antes de tudo, lida. Só da leitura derivam critérios sujeitos a discussões fidedignas.
Elenco alguns poemas dos poetas citados.
de Ana Rüsche:
minha nossa senhora das flores
gosto que assim:
que me leiam por inteira
com toda essa metalingüística sacana no canto da boca
contra o céu
colinas como elefantes brancos
grama molhada
a lua bochechuda gargalhando de estourar
ah, a bebedeira
de Delmo Montenegro:
(sem título)
cocaína-
elton john
: apneia-resort
homo-
Shiatsu
: sauna
água câncer
suor
sob
suor
hokusai
song
(sem título)
: gonorréia-tv
fevereiro
februárias
feridas abertas
de Eduardo Sterzi:
Desaparição
The inconceivable idea of the sun
Wallace Stevens
Sereno, à flor do tempo,
recomponho o desejo
de estar vivo. Vejo
entrar pela janela
o mesmo sol de sempre;
finjo que não conheço
seu calor, sua máscara
amarela, hepática.
Sei mais da natureza
das nuvens, e do vácuo
entre as estrelas, negra
matéria; no entanto,
quando me entrego ao sol,
integro-me ao ser sol:
narciso mais que cego,
narciso cegaluz.
Écloga
gravis cantantibus umbra
rouxinóis
e bem-te-vis
inútil natureza
noite (voz que vês)
- nascondere: nascer -
garganta miúda
canto claro
de longínqua beleza
a tarde carcome a folhagem
o
mais-que-perfeito
se desfez
renascer renascerá
talvez
no tempo
da feroz
delicadeza
de Estrela Ruiz Leminsky:
luz do sol
se esfrega na folha
frígida dorme-maria
(sem título)
Não querer ser sempre
para pra sempre ser
isso eu aprendi com o vento
Saudade eu tenho de tudo
o que a gente vai viver
mas ainda não teve tempo
de Micheliny Verunschk:
O livro
Havia de encontrar
alguma velha ferida
e nela, supurando ainda
teu rosto:
outonos e infernos
esquecidos
entre páginas amareladas
e a dor, essa inútil traça.
Violoncello
A louca dama, nua e fera
deita e luta
com o seu músico:
que a mantendo
por entre as pernas
vai aprendendo
músculo a músculo
o gemer denso
de madeira rouca
a doma intensa
o sexo acústico.
Amador Ribeiro Neto é professor de Teoria da Poesia e Literatura Comparada na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Mestre pela USP e Doutor pela PUC-SP. Autor de Barrocidade (poesia - Landy edit.), organizador e co-autor de "Literatura na Universidade" (ensaios - Idéia Edit.).
E-mail: amador.ribeiro@uol.com.br