Por Andréa del Fuego

José Aloise Bahia fez no último Mezanino um raio x do site: entre outras coisas, questionou a interatividade, a super população de colunistas, a possível inibição dos leitores por conta do cadastro. É nesse último que me estendo.
O Café tem platéia, e seus atores mais apaixonados sabiam disso quando, anônimos, espargiram gotas de ácido. Alguns quase entraram em auto-combustão, tamanho prazer. Até que ponto um anônimo é anônimo? Por trás de um nome falso ele adquire a possibilidade de ser todos. Um torna-se todos, sua força vem daí. Força sim, que por eles o Café agora é mediado.
Já se falou desse desconforto. Pediu-se mais classe, educação e vergonha. Volto a este ponto, que acho ser o fígado do site, já que os textos são o coração. Não é no Café que se vê filtrado o fluxo do conteúdo, que separa o joio do trigo na opinião dos leitores?
Quando leio um texto, quero vê-lo reverberar também no outro. Porque esta reverberação dá continuidade ao texto. Sou leitora voraz de comentários, entro num mesmo blog 3 ou 4 vezes ao dia para ler os comentários. Ver como o autor responde, como outros leitores se comportam. Meu caso não é isolado, não requer tempo para aqueles que acham que o tenho de sobra. Basta um clique e você vê, pela fresta, o que fulano achou de sicrano.
Sou capaz de dizer quando beltrano apagou um comentário, mesmo que o tenha feito assim que o recebeu. Pois eu estava lá no momento em que foi publicado. Fascinante a liberdade de quem comenta, de quem permite tal coisa e a do leitor; me esbaldo.
Você se lembra do Prêmio Jaburu, promovido por Marcelino Freire em seu blog EraOdito? Uma versão irônica do Prêmio Jabuti, em que se premiaria o pior livro do ano. Aquilo foi um quiprocó de nego doido pra votar no pior escritor. Foi voto pra tudo que é lado, pro meu inclusive; tive três tortas na cara. Foi tanta volúpia, quase luxúria na liberdade do voto, que copiei e tenho até hoje todos os votos num arquivo de Word - duvido que Marcelino tenha isso. Eu mesma votei com pseudônimo, como se pra votar na Fernanda Young precisasse de anonimato.
Experimente o anonimato, é explosivo.
Fui ler novamente o arquivo Jaburu e notei linguagens parecidas com a que surgiu aqui no Café. A maioria dos autores permite felicitações pelo post ou texto. As críticas, quase todos apagam. Por que? O site vira quitanda com as frutas expostas na calçada. Passa moleque, passa dama, passa boiada.
Eis uma questão: até que ponto o texto somos nós?
Até que ponto os comentários são eles?
A internet é simulacro começando pelo navegador. É um conflito de linguagens, a que foi pretensamente elaborada (poema, conto, artigo), e a linguagem de janela de ônibus, do recado de porta de geladeira. Há verdade quando o simulacro se apresenta? A linguagem já não é um simulacro? Ninguém está nu em absoluto. Com exceção da literatura, que antes de ser exposta na rede, foi forjada na intimidade do Word e não nas ferramentas da alta rotatividade dos blogues e sites.
Comentário livre deixa o site aberto, significa transformá-lo em refúgio, um abrigo da opinião. Muito filtro, filtra até a opinião mais embasada. Passando por um editor, vira um castelo fortificado. Tem muita gente armada pro ataque, porque faz disso sustento do monólogo, e não do diálogo que ele sugere.
É preciso amadurecer não só o calabouço, mas o coração do Rei, que escreve seu verbo, publica e tem cavalaria treinada para deixar entrar os bons vizinhos. O Rei não vai abrir mão de sua propriedade, que é o que se tornou um espaço na internet. Mas há convidados do baile que não quer apenas uma taça de vinho, quer dar uns tapas na princesa. Ser da família a todo custo.
Ideal seria, se houvesse, um meio que contemple a civilidade e a espontaneidade, que aliás, também é construída.
O fôsso foi necessário, mas os crocodilos são mansos.
Que voltem os anônimos, agora sem o capuz. Cronópios desce a ponte para a sua travessia; venha de espada embainhada, aqui o banquete é pra todos, é só dar o nome. Diga o que pensa e não esconda a identidade, é tua legitimidade como leitor e opinante.
Andréa del Fuego é escritora paulistana. Publicou Minto enquanto eu posso. Bloga no http://delfuego.zip.net/ E-mail: delfuego@uol.com.br
OBS.: Desnecessário dizer, que as observações contidas nesta coluna são de responsabilidade da autora.