
foto: Bjame Riesto
No dia 17 de novembro de 2010 fui ouvir Alberto Manguel no pequeno auditório da livraria Travessa-Leblon. O encontro previsto para ser uma conversa sobre o seu mais recente livro Todos os homens são mentirosos, da editora Cia das Letras em tradução de Josely Vianna Baptista, propiciou muito mais. Eu diria, para aqueles que não estavam lá, que foi a oportunidade de escutá-lo em uma conversa também permeada de confidências sobre a sua vida, a escrita e a leitura, além de informações sobre a imensa Biblioteca que mantém no sul da França, em “un pueblo” onde mora atualmente: o vilarejo de Poitou-Charentes.
Manguel se reconhece como um escritor argentino sim, mas só em parte, pois viveu em inúmeros países. Morou sete anos em Israel onde o pai era embaixador. Aprendeu primeiro inglês e alemão, e o castellano só entrou como língua importante mais adiante, na volta da família para Buenos Aires. Tanto é assim que as falas dirigidas ao irmão J., que o acompanhava aqui no Rio, eram ditas em inglês (um hábito alimentado desde a infância). Esclareceu: “sou um escritor canadense, nascido na Argentina e que vive na França”.
Mas o escritor considera que a ditadura da Argentina impôs o tema de sua literatura. “A ditadura dos anos 70, assim como o holocausto na Alemanha, concretizou o inferno”. Neste livro, agora traduzido entre nós, o personagem torturador foi o mais difícil de ser construído. E a cidade de Buenos Aires é também rememorada como uma “grande dame” que aparece “vestida de cetim e de salto alto, com um toque de batom nas esquinas”. No texto ele revisita algumas pessoas do passado, os gestos e as vozes dos personagens estão entranhados em alguns bairros da antiga cidade de B. A. e a narrativa “desliza” pelos cômodos das casas com objetos e perfumes como quem entra em uma caverna.
De sua imensa Biblioteca de quase 40 mil livros, arrumados em ordem alfabética pelo nome do autor, mas, também porque Manguel acredita que “cada leitor cria a sua própria biblioteca e a sua história da literatura”, alguns exemplares estão organizados separados como as novelas policiais, os livros de cozinha (e seus próprios livros que ficam ao lado da biblioteca). Há nesta Babel, de fato, livros em várias línguas, embora ele afirme ler bem em quatro idiomas e mal em dois, sem defini-los. Estão ali, por exemplo, os livros de Borges traduzidos ao chinês e alguns exemplares dos Antigos que foram escritos em grego.
Não há porque duvidar da afirmativa de Manguel de que “mí pátria son los libros”, lembrando Marguerite Yourcenar autora traduzida por ele. Nem questionar a delicadeza de outra confidência; a que contém na imagem de Dulcinéia de Cervantes - a musa de “olhos sóis” de Don Quixote - a certeza da “importância da fé na relação amorosa”.
Eu me despedi do escritor convencida de que “uma biblioteca se multiplica de noite”. (Possivelmente... enquanto sonhamos e buscamos habitar nossos fantasmas).
Extrato de Todos os homens são mentirosos
“Agora tenho em comum com aquele Bevilacqua, se não o corpo esquálido, decerto o tom grisalho. E eu também, inconcebivelmente, envelheci, fiquei barrigudo; já ele continua tendo a idade de quando o conheci, aquela que hoje ainda chamamos de idade jovem e que na época se chamava de madura. Pois bem, eu continuei a leitura daquela narrativa que iniciamos juntos, ou que Bevilacqua iniciou numa Argentina que já não é nossa. Conheço os capítulos que sucederam sua morte (ia dizer “desaparecimento”, mas essa palavra, meu caro Terradillos, está proibida para nós). Ele não, claro. Quero dizer que sua história, essa que ele teceu e desteceu tantas vezes, agora é minha. Eu decidirei seu destino, eu darei sentido a seu itinerário. Essa é a missão do sobrevivente: contar, recriar, inventar, por que não?, a história alheia. Pegue um punhado qualquer de fatos da vida de um homem, distribua-os como quiser, e você terá ali um certo personagem, de uma verossimilhança incontestável. Distribua-os de maneira um tantinho diferente e, caramba!, o personagem mudou, é outro, mas igualmente verdadeiro. Tudo o que posso dizer é que vou lhe contar a vida de Alejandro Bevilacqua com o mesmo cuidado com que eu gostaria que o meu narrador, chegada a hora, relatasse a minha.” (p.16-17)
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Solange Rebuzzi é escritora e psicanalista. Publicou, mais recentemente, o ensaio O idioma pedra de João Cabral (Ed. Perspectiva, 2010) e o livro de poemas Estrangeira (Ed. 7Letras, 2010). Escreve também no blog: www.solrebuzzi.blogspot.com