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02/12/2010 11:08:00 
TAIKO - Os tambores do Japão no Brasil


Por Paula Valéria Andrade



                                                                                Foto: grupo Osasco Todorokidaiko


A batucada japonesa existe. E é tão boa quanto a afro-brasileira. Ou mesmo a cubana. Sim, para surpresa minha – e provavelmente sua – a percussão da música nipônica pode fazer sacudir, requebrar e vibrar! Os tambores ecoam o som da paixão, o suingue e o siriguidum. E os nossos japoneses – brasileiríssimos - sabem dar a alma necessária aos instrumentos que reverberam um som e uma alegria contagiantes.

E lembre-se que sou carioca. Da gema e da alma lavada no mar. Criada brincando desde menina nos blocos de carnaval de bairros, aqueles que saem a cada esquina, que não tem o glamour das avenidas e nem as plumas das celebridades. Blocos feitos por vizinhos e locais, gente comum que sai cantando e dançando na folia do samba. Sim, os gritos de carnaval, os blocos de tamancos, chinelos e bate-latas. Não me engano com batuque e muito menos sou de surpreender-me com percussão que não seja das boas. Original e intensa. Do ritmo das veias. Da verdade de quem bate nos tambores, nos pandeiros, nos gongos e de quem ecoa o bumbo e bate com vontade nele. Energia das baterias.


                                                                                Foto: grupo Osasco Todorokidaiko

Mas, como tudo em São Paulo nos revela uma surpresa em cada esquina, foi na
Fundação Cultural Ema Gordon Klabin (www.emaklabin.org.br), numa tarde musical - entre os jardins de Burle Max – que este encontro estava marcado. Foi “amor ao primeiro som”. Ou audição, para fazer mais sentido. O grupo TODOROKI DAIKO se apresentava. E que performance, em desempenho!

Meus ouvidos destilavam esta arte de percussão milenar japonesa com uma intimidade de quem cresceu no batuque. Não no pagode, veja bem... no batuque mesmo. Senti a verdadeira diversidade do país ali. O “caldo cultural” de que tanto falamos. A multiplicidade dessas raças e caras do Brasil varonil. E fiquei por várias vezes me perguntando lá no fundo, como que nossos japoneses – mais azeitados do que os de lá – conseguiram me fazer vibrar como se eu estivesse num ensaio de escola de samba em véspera do desfile na avenida, ou numa aula de música caribenha ‘a beira-mar de Cuba, ou na ala da bateria em um ensaio aberto, do enredo que vai ser um estrondo. Aliás esse nome mesmo, “estrondo” é a tradução e o significado de “TODOROKI”, algo que já se auto-denomina forte e vibrante, caracterizando assim a energia com a qual o grupo executa as suas músicas.

Fundado em 2003 com 12 membros, o grupo nasceu e vive em Osasco, São Paulo. Atualmente cresceu para 45 membros cujas idades variam de 7 a 66 anos. E o mais emocionante dessa apresentação, foi perceber – além de escutar – a alegria desses participantes jovens, que no caso ali, estavam representados até seus 25 anos. Todos intensos e muito focados, compenetrados; porém com uma desenvoltura, uma linguagem corporal do requebrado, da malemolência do corpo e das mãos, realmente incríveis. E com o charme brasileiro.


                                                                                Foto: grupo Osasco Todorokidaiko

A vontade que dava era de dançar sem parar, bater palmas, sacudir a emoção e os sentidos como num sonho louco. Mas era tudo realidade. E uma realidade surpreendente. De forças e rostinhos iluminados de paixão pela música, pelo ritmo, pelo borogodó brasileirinho, que ferve nas veias quando se toca um tambor.

Neste caso aqui, tambores estes que se utilizavam para a comunicação entre as aldeias, cujo som pode alcançar longas distâncias, como os sinais de fumaça outrora foram, e eram ferramentas de puro “noticiário” entre os povos. Por isso a tradição milenar. O Taiko (ou Daiko no plural) foi um dos primeiros instrumentos musicais utilizados. No Japão, há cerca de seis a oito mil anos, na era Joumon e Yayoi, foram encontradas - entre os objetos - evidências de que eles já existiam.

Assim como em outras culturas também, na África, por exemplo. E nas tribos mais primitivas, por todo planeta.

O grupo criado há 7 anos, tem se empenhado em difundir e manter a tradição da percussão japonesa, se apresentando em festivais, campeonatos e comemorações em diversos locais, entre eles: Ginásio do Ibirapuera, Assembléia Legislativa de São Paulo, Universidade de São Paulo USP, Hospital do Câncer, instituições culturais, clubes e museus além da comemoração dos “100 anos de Imigração Japonesa” no Sambódromo do Anhembi.

Acabou também de receber, o título de “Campeão” na categoria júnior e na categoria Odaiko do VII Festival Brasileiro de Taiko de 2010. Agora, eles se preparam para representar o Brasil na 13th Nippon Taiko Junior Contest, a realizar-se em Nagoya, província de Aichi no Japão, em março de 2011.

Como já dizia Gilberto Gil em sua canção, “Se Oriente rapaz (...)”, pois o futuro da percussão é aqui.

A alegria do batuque vem morar aqui. Seja pelo negro, o índio, o latino-americano, ou o japonês. Vem pra sacudir.

O Brasil é a bola da vez.

O tambor que ecoa. No calor, ou na garoa.




                                                                                Foto: grupo Osasco Todorokidaiko

 

NOTA: O significado profundo da alma do Taiko é:

- A confirmação da nossa vitalidade e do grito da nossa própria alma
- O compartilhamento de sentimentos com os próximos
- O estímulo e o encorajamento recíproco


Site Oficial: http://www.osascotodorokidaiko.com.br



                                               * * *

Paula Valéria Andrade nasceu carioca, vive em São Paulo e atua como poeta, escritora, webcolunista de teatro e designer. Publicou “IriS digiTaL Poesy(a)” 2005 Editora Escrituras; seis livros infantis com prêmios Jabuti, APCA, FNLIJ, White Ravens ; "A Arte em Todos os Sentidos", sobre arte & tecnologia multimidia, 2000 Editora do Brasil e participou de algumas antologias. Blog: http://paulagruber.blogspot.com  E-mail: paulavaleriandrade@hotmail.com

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