O prazer de ver Tchekhov para mim é lembrar-me de quando o fiz como ator, na Itália, em 1988. O prazer de certa atmosfera que se respira no palco. Do silencio atento do publico que percebe a densidade das emoções entre as palavras, mas provocada por estas. Pelas informações que elas trazem e fazem o teatro - somente aquele de qualidade - acontecer na mente do publico. Você as profere e a mente do escutador as decodifica e se emociona. E, diga-se, se é Tchekhov de verdade, enquanto publico entenda-se o ator que está na frente de outro ator. Aquele com quem contracena. Isso gera o clima único de suas peças. Como declarava o próprio autor a Dancenko/Stanislavskij, ele escrevia muito mais comedias que dramas. Mas sempre decodificados como dramas. Sem exceção, suas personagens agem assim: assistem ao drama do próximo, sem nada poder fazer para socorrê-lo ou afundá-lo ainda mais. O publico pode até rir disso, mas o que se passa é a cena de sempre, imutável, que determina a oralidade e a extrema musicalidade de qualquer sua peça. Nisso, ele antecipa Beckett, com a diferença de que o que se encena em Tchekhov é coincidente na exatidão com a vida “real”. A montagem de Yara de Novaes leva ao onírico, explora o espetáculo que acontece na mente de algumas personagens, intui o que poderia ocorrer, vibra com a verdadeira sensualidade. A sensualidade das mulheres comuns e sofridas, não a dos desenhistas de moda ou dos diretores afetados por misticismo empregatício de subvenções ou de bilheteria. Acho que Olga Knipper era assim. Para minha surpresa, a montagem evoca um degrau passado, no bom sentido da expressão: o da amargura de Gogol, presente no texto desde sempre, mas raramente percebido pelos artistas que o encenam. Vale ressaltar a obsessão de Gogol: a inutilidade do trabalho humano inerente ao jogo de interesses sociais. Inutilidade desesperadora já na acepção “política” peculiar a Tchekhov. Quer dizer: todas as personagens têm as suas origens e posições sociais claramente demarcadas pela dicção dos atores que as interpretam. Foge-se do clichê do sotaque, aproxima-se do Brasil, aprofunda-se na desesperança da província profunda, mas também se dá o devido credito causal de tal desespero à preguiça e à hipocrisia das personagens citadinas. Dialética impecável aponta-se a causa: o insulto da própria existência, seguido da negação de respeito à natureza, aos impulsos genuínos, à própria afetividade. Tudo está presente desde sempre na obra prima que é Tio Vânia, mantido e trabalhado com precisão pelos atores e pela direção. Não conheço profundamente o trabalho do Grupo Galpão, mas o que vi desenha no palco um mapa precioso dos movimentos históricos da grande literatura cênica russa e aponta um futuro critico instigador. Assisti a uma réplica vespertina dominical com casa lotada no SESC Vila Mariana. Casualmente, sentei-me ao lado de um procurador da prefeitura aposentado, mais de cinquenta anos de fórum; certamente passado dos oitenta anos de idade. Estava emocionado, mas prestava racionalmente atenção à estória. Estava livre das veleidades estéticas e ideológicas justificadoras de subvenções que normalmente destroem a fruição dos clássicos. A atenção maior daquele senhor estava nos mecanismos funcionais da vida. Era ele mesmo uma figura perfeitamente tchekhoviana. Uma extensão do palco ou o palco ali era uma extensão da plateia. Isso é Brecht. Espetáculo surpreendente.
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Maurício Paroni de Castro é diretor teatral, professor residente na RSAMD (Royal Scottish Academy of Music and Drama) e associado à Companhia Suspect Culture de Glasgow, Escócia. Ensina e dirige regularmente também no Brasil e na Itália. É co-autor do roteiro de Crime Delicado, de Beto Brant. Dedica-se apaixonadamente à culinária histórica e regional italiana. E-mail: paronidecastro@gmail.com
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