Café Literário Cronópios

Escritura: liturgia pós-canônica
por Flávio Viegas Amoreira





 
Coluna:
O MENTIROSO
Maurício Paroni de Castro


Renato Borghi e Nelson Rodrigues, o casamento eternamente feliz
por Maurício Paroni de Castro




Tio Vanja brasileiro
por Maurício Paroni de Castro




Grand Guignol, o gênero degenerado
por Maurício Paroni de Castro




Influenza solitária de palco
por Maurício Paroni de Castro




Ruínas de uma arquitetura teatral em São Paulo
por Maurício Paroni de Castro




O corte da tarja preta
por Maurício Paroni de Castro




O desenho angustioso do limite
por Maurício Paroni de Castro




O velório indecente
por Maurício Paroni de Castro




Satyros, Sons, Furyas
por Maurício Paroni de Castro




Devedores de Pirandello
por Maurício Paroni de Castro




O Aleph, uma vela e um olho
por Maurício Paroni de Castro




A mão do gato
por Maurício Paroni de Castro




Do Filme A Via Láctea -
por Maurício Paroni de Castro




O Mentiroso Mergulha em Shakespeare de Verdade
por Maurício Paroni de Castro




Mini-artigo sobre a malvadeza (complementar a “Quando a vida se liberta da obra”)
por Maurício Paroni de Castro







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
15/11/2011 12:19:00 
Tio Vanja brasileiro


Por Maurício Paroni de Castro


       O prazer de ver Tchekhov para mim é lembrar-me de quando o fiz como ator, na Itália, em 1988. O prazer de certa atmosfera que se respira no palco. Do silencio atento do publico que percebe a densidade das emoções entre as palavras, mas provocada por estas. Pelas informações que elas trazem e fazem o teatro - somente aquele de qualidade - acontecer na mente do publico. Você as profere e a mente do escutador as decodifica e se emociona. E, diga-se, se é Tchekhov de verdade, enquanto publico entenda-se o ator que está na frente de outro ator. Aquele com quem contracena.
      
Isso gera o clima único de suas peças. Como declarava o próprio autor a Dancenko/Stanislavskij, ele escrevia muito mais comedias que dramas. Mas sempre decodificados como dramas. Sem exceção, suas personagens agem assim: assistem ao drama do próximo, sem nada poder fazer para socorrê-lo ou afundá-lo ainda mais. O publico pode até rir disso, mas o que se passa é a cena de sempre, imutável, que determina a oralidade e a extrema musicalidade de qualquer sua peça. Nisso, ele antecipa Beckett, com a diferença de que o que se encena em Tchekhov é coincidente na exatidão com a vida “real”.
      
A montagem de Yara de Novaes leva ao onírico, explora o espetáculo que acontece na mente de algumas personagens, intui o que poderia ocorrer, vibra com a verdadeira sensualidade. A sensualidade das mulheres comuns e sofridas, não a dos desenhistas de moda ou dos diretores afetados por misticismo empregatício de subvenções ou de bilheteria. Acho que Olga Knipper era assim. Para minha surpresa, a montagem evoca um degrau passado, no bom sentido da expressão: o da amargura de Gogol, presente no texto desde sempre, mas raramente percebido pelos artistas que o encenam.
      
Vale ressaltar a obsessão de Gogol: a inutilidade do trabalho humano inerente ao jogo de interesses sociais. Inutilidade desesperadora já na acepção “política” peculiar a Tchekhov. Quer dizer: todas as personagens têm as suas origens e posições sociais claramente demarcadas pela dicção dos atores que as interpretam. Foge-se do clichê do sotaque, aproxima-se do Brasil, aprofunda-se na desesperança da província profunda, mas também se dá o devido credito causal de tal desespero à preguiça e à hipocrisia das personagens citadinas. Dialética impecável aponta-se a causa: o insulto da própria existência, seguido da negação de respeito à natureza, aos impulsos genuínos, à própria afetividade.
      
Tudo está presente desde sempre na obra prima que é Tio Vânia, mantido e trabalhado com precisão pelos atores e pela direção. Não conheço profundamente o trabalho do Grupo Galpão, mas o que vi desenha no palco um mapa precioso dos movimentos históricos da grande literatura cênica russa e aponta um futuro critico instigador.
      
Assisti a uma réplica vespertina dominical com casa lotada no SESC Vila Mariana. Casualmente, sentei-me ao lado de um procurador da prefeitura aposentado, mais de cinquenta anos de fórum; certamente passado dos oitenta anos de idade. Estava emocionado, mas prestava racionalmente atenção à estória. Estava livre das veleidades estéticas e ideológicas justificadoras de subvenções que normalmente destroem a fruição dos clássicos. A atenção maior daquele senhor estava nos mecanismos funcionais da vida. Era ele mesmo uma figura perfeitamente tchekhoviana. Uma extensão do palco ou o palco ali era uma extensão da plateia. Isso é Brecht. Espetáculo surpreendente.




                                                 * * *

Maurício Paroni de Castro é diretor teatral, professor residente na RSAMD (Royal Scottish Academy of Music and Drama) e associado à Companhia Suspect Culture de Glasgow, Escócia. Ensina e dirige regularmente também no Brasil e na Itália. É co-autor do roteiro de Crime Delicado, de Beto Brant. Dedica-se apaixonadamente à culinária histórica e regional italiana.
E-mail: paronidecastro@gmail.com

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