
Wislawa Szymborska | 1996 | Foto de Ulla Montan | Divulgação
“Sou quem sou.
Inconcebível acaso
Como todos os acasos.”
[Wislawa Szymborska, 1923-2012, Prêmio Nobel de Literatura 1996, na primeira estrofe do poema Entre Muitos, tradução de Regina Przybycien]
Repenso, propenso, chão incerto sobre o espanto contido, como fez a mão inacabada maior do que a dor, estirada num capítulo que se anuncia. Adormecido ocaso do sonho na velhice a alma se instala. Do alto, respira eternidade. Da superfície, verso no céu. Telas procuram Caravaggio e Rubens, suaves tilintar de pincéis silenciosos do tempo. Quanto a ela, na sua inquietude e sensibilidade, uma simplicidade disfarçada no estilo, sofisticada, suave luva enobrece os dedos, reflexo de sombras e sentimentos dramáticos do mundo ao provocar os dois lados do rosto no recital da aurora.
Teus olhos de coração branco e vermelho, afirmando que nada afirma bate à porta da pedra, num trago de cigarro. Como a luz curva de cristais sem palavras presentes velam o corpo, sem a certeza vazia, folhas nuas suspensas no voo mortal de rosas sobem de encontro à escrita. Quase todos na nave louca de um tempo distante endereçando sinais, alguma coisa necessária, até desaparecer no horizonte. O que deveria ser amanhã começa de novo, nos entreatos da leitura, desafiando leis, normas, espaços e tragédias.
Disse quase tudo e mais um pouco. Polaca. Floresce como uma dama de passagem ao piano sozinha e mansa na relva de Van Gogh com a certeza do acaso na imensidão que tudo gera parecer livre. O movimento do rosto, no mundo de perdas, examinar as sutilezas das conciliações dos contrários nas imagens de Rafael e retas de Mondrian. Alerta à solidão, horrores da guerra, construções enfáticas dentro de finitudes e as companhias do gênio Michelangelo e o humanismo de Da Vinci, um grito de solidariedade para os olhos fechados, abertos pela cidade, que virou fumaça, um cenário urbano feito de sangue. Em receios conhecidos, encobre a bomba o retrato de mulher nas tintas de Chirico e abstrações de Kandinsky o contraste de Botero, uma mosca zunindo pela folha em branco, cena sem ensaios na ameaça da urgência, na qual o próximo e o longe se esclarecem.
Do lado Leste, a caverna de Platão desvenda os pesares da terra e a desigualdade da névoa sobre o corpo e a mente. E nela como tudo e nada nas profundezas do encanto da ilha deserta, o vaso sempre cheio mostra como o universo mastiga a fruta mais próxima de Goya, as bailarinas de Degas. Paisagem com fundo e sensação de estar caindo na onda, inventando a poesia até o fim. Nos dois pontos não obrigatórios do humor resvalam ironias sobre a condição humana coberta de escamas, estrofes e metáforas cortantes que se rastejam. Polvorosa eternidade ao arrancar dos verbos os movimentos e fazer arder os retalhos que se desmancham em asas. E, assim, o desencanto desmedido desampara o claro-escuro, rasgando o sagrado cotidiano, apreciando o equilibrista no circo. Sua vida está em seus versos.
Das testemunhas dos antepassados, a vista se oculta atrás das nuvens. O inverno da política pouco salutar e testamentos, como flores de espinhos retangulares naquele olhar sobre vida e morte, penhor de anomalias e torturas, o grito da inocência lúcida caminha. Do longo corredor cor de palha, o cinza incerto da existência aumenta o temor e acrescenta uma foto na orelha seduzida por vozes. Clarice resolução prefere o cinema, os gatos de Dickens, lembra Drummond com o excepcional vigor expressivo. E uma válvula, transfigurando que no meio do caminho tem o outro. Não há decifrações herméticas. Há o encontro. Experiências enraizadas no lirismo, aspectos em ritmos soltos, securas contidas no discernimento do arrepio a densidade, que resgata o entendimento. Possibilidades de zeros soltos entre criaturas e temas movediços, instáveis, que desestabilizam parte do convencional, riscos acrescidos de pitadas de risos, estranhamentos extraordinários na linguagem e ironias ao ler seus poemas, influências e diálogos preciosos com a biologia, mitos, artes e a história.
O ponto principal é a liberdade do fim ao começo, nada mais que nada, embora tudo reflete imagens, tão refletidas. Pois cada começo é o desenlace de um longo sonho acordado, uma luz no meio do túnel, a imaginação. Uma possibilidade inevitável que ninguém pode sufocar entre muitos desejos de criação, para quem não teve muitas escolhas no decorrer da vida. No epílogo, sussurros conversam com o tempo, e primaveras acontecem no frutificar de várias vozes no silêncio da poesia, em especial, num sublime sentido, uma tábua de salvação resplandece na literatura, a transcendência.
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José Aloise Bahia (Belo Horizonte/MG). Jornalista, escritor, pesquisador, ensaísta, colecionador e crítico de artes plásticas e literatura. Estudou Economia (UFMG). Graduado em Comunicação Social e pós-graduado em Jornalismo Contemporâneo (UNI-BH). Autor de Pavios curtos (Belo Horizonte: Anomelivros, 2004). Participa das antologias O achamento de Portugal (Lisboa: Fundação Camões/Belo Horizonte: Anomelivros, 2005) e H2HORAS (São Paulo: Cronópios/Dulcinéia Catadora, 2010), dos livros Pequenos milagres e outras histórias (Belo Horizonte: Grupo Galpão, Editoras Autêntica e PUC-Minas, 2007), Folhas verdes (Belo Horizonte: Edições A Tela e o Texto, FALE/UFMG, 2008) e Poemas que latem ao coração! (São Paulo: Editora Nova Alexandria, 2009). E-mail: josealoise@gmail.com