Café Literário Cronópios

A poesia telegráfica de Zeca de Magalhães
por Miguel Carneiro



 
Coluna:
CHAMA NO CRISTAL
Marcelo Tápia


A morte do meu chapéu
por Marcelo Tápia




Novas vozes para Joyce
por Marcelo Tápia




Pranto seco: breve resenha crítica do livro A estrela fria, de José Almino
por Marcelo Tápia




Escada de minha mansarda
por Marcelo Tápia




A um poeta que se foi
por Marcelo Tápia




Ditos mínimos
por Marcelo Tápia




Incursão em
“Arte & música”

por Marcelo Tápia




Nas trilhas de Carpentier e Nabuco
por Marcelo Tápia




Poesia existe?
por Marcelo Tápia




Uma antiga conversa com Hilda Hilst
por Marcelo Tápia




A poesia e o coração
por Marcelo Tápia




A crença na inspiração
por Marcelo Tápia




O prazer e o sofrimento de traduzir poesia
por Marcelo Tápia




Uma imagem e poucas palavras
por Marcelo Tápia




Instâncias da queda
por Marcelo Tápia







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
03/07/2012 17:06:00 
Novas vozes para Joyce


Por Marcelo Tápia


        Ulysses

       Jovial, o velho gigante James Joyce ressurge luzente em nosso horizonte literário. Com nova voz, resultante de dez anos de labor, veste-se sóbrio, à imagem da edição da Penguin em língua inglesa: sem notas e com a densa introdução de Declan Kiberd. Isto, segundo o tradutor Caetano Galindo, para apresentar o Ulysses “como o que ele deve sempre ser”: “um romance, talvez o maior romance de todos, e não um quebra-cabeça exemplar”. Um convite à simples leitura desse complexo e divertido livro, desprovido de um sumário de seus capítulos (promete-se um “guia” ao romance, publicado à parte).
      
Conheci trechos da versão de Galindo, lidos, ao longo dos anos, no Bloomsday de São Paulo. E testemunho, com base neles, a busca do tradutor pelo aprimoramento de suas soluções. Se, antes, Cunningham perguntava, na carruagem que conduziria Bloom e companheiros ao enterro de Dignam, “Estamos todos aqui agora?”, ele passa a dizer “Já está todo mundo aqui?”. Tanto faria? Não. Por trás das escolhas, há questões difíceis a resolver, como a grande variedade de registros da prosa joyciana, que transita do tom mais coloquial ao mais “literário” ou ao mais inusitado. Pode-se ver o Ulysses como um colossal poema: sua tradução será re-criação do intrincado sistema de relações construído pelo criador do périplo de Bloom. No início do capítulo “Gado do Sol” (relativo ao episódio das vacas do deus Hélio, na “Odisseia”), Galindo mostra ter encontrado (como em muitos outros casos) uma solução plena para “Send us, bright one, light one, Hornhorn, quickening and wombfruit”: “Dai-nos, leve, luzente, Hornhorn, fertilidade e frútero”. Parece fácil? Se sim, esta será uma qualidade do bem resolvido.
      
Nesse capítulo, passado na maternidade – em que Joyce imita estilos literários e esboça a história da língua inglesa –, Galindo colhe um dos frutos mais atraentes de seu esforço, ao valer-se de recursos como o arcaísmo e o tom vulgar para recriar a diversidade linguístico-estilística: “Daquela casa A. Horne é senhor. Setenta litros ele i mantém por que as madres na sua hora delas i venham parir e dar à luz crias sãs como o anjo de Deus a Maria disse”; “Dormiu aonde ontonte? [...] Lá onde o Juda perdeu as bota e achou uns trapo véio”...
      
Será esta nossa tradução definitiva de Ulysses? Não, isso não existe: cada recriação é obra autônoma, embora interaja com o original e com as demais traduções dele. A que ora nos chega tem a vantagem (e a desvantagem) da anterioridade de dois notáveis trabalhos: o de Antônio Houaiss, pioneiro, e o de Bernardina Pinheiro, de 2005. Esta versão resolve mais satisfatoriamente a multiplicidade estética do texto de Joyce: não incorre no criticado “rebuscamento” geral da primeira ou no resultado explicativo e “normalizador” da segunda, que dilui a polifonia joyciana. Mas certas soluções de Houaiss continuam as mais instigantes, e o texto de Bernardina permanecerá como fonte mais fluida de leitura. Opções que se somam para compor a inesgotável pluralidade de Ulysses.

      
Ulysses, de James Joyce. Tradução de Caetano Galindo. Edição Penguin / Companhia das Letras, 2012.


Uma rápida observação de diferenças

      
Para observar diferenças entre as três traduções brasileiras de Ulysses, leiam-se as versões para três fragmentos do livro. No primeiro, início do romance e da parte relativa a Stephen Dedalus, certas escolhas dos tradutores já revelam sua orientação, como as duas primeiras palavras, incomuns, usadas pelo filólogo Houaiss, a tendência de Bernardina Pinheiro à coloquialidade (embora use um estranho “penhoar”) e a dicção mais “versátil” de Galindo. O segundo trecho, que introduz Leopold Bloom no romance, permite que se observe, entre outros aspectos, o recurso de inversão da ordem das primeiras frases, usado por Galindo, provavelmente para manter, na tradução, a inicial “M” do original: assim como Houaiss, o tradutor conserva as mesmas iniciais das partes do livro em inglês – S, de Stephen, M, de Molly, e P, de Poldy (apelido de Bloom), conforme se supõe. Por fim, veja-se um fragmento do episódio “Nausícaa”, no qual Bloom flerta com Gerty MacDowell e se masturba, na praia de Sandymount: referindo-se ao estouro de fogos de artifício, o trecho alude ao clímax de Bloom; note-se nele, em particular, a função sonora das palavras escolhidas.

(1)

James Joyce:

Stately, plump Buck Mulligan came from the stairhead, bearing a bowl of lather on which a mirror and a razor lay crossed. A yellow dressing-gown, ungirdled, was sustained gently behind him by the mild morning air.

Antônio Houaiss:

Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan vinha do alto da escada, com um vaso de barbear, sobre o qual se cruzavam um espelho e uma navalha. Seu roupão amarelo, desatado, se enfunava por trás à doce brisa da manhã.

Bernardina da S. Pinheiro:

Majestoso, o gorducho Buck Mulligan apareceu no topo da escada, trazendo na mão uma tigela com espuma sobre a qual repousavam, cruzados, um espelho e uma navalha de barba. Um penhoar amarelo, desamarrado, flutuando suavemente atrás dele no ar fresco da manhã.

Caetano W. Galindo:

Solene, o roliço Buck Mulligan surgiu no alto da escada, portando uma vasilha de espuma em que cruzados repousavam espelho e navalha. Um roupão amarelo, com cíngulo solto, era delicadamente sustentado atrás dele pelo doce ar da manhã.

(2)

James Joyce:

Mr Leopold Bloom ate with relish the inner organs of beasts and fowls. He liked thick giblet soup, nutty gizzards, a stuffed roast heart, liver slices fried with crustcrumbs, fried hencod’s roes.

Antônio Houaiss:

Mr Leopold Bloom comia com gosto os órgãos internos de quadrúpedes e aves. Apreciava sopa de miúdos de aves, moelas amendoadas, um coração assado recheado, fatias de fígado empanadas fritas, ovas de bacalhoa fritas.

Bernardina da S. Pinheiro:

O Sr. Leopold Bloom comia com prazer os órgãos internos de aves e de outros animais. Ele gostava de uma sopa grossa de miúdos de aves, moela com nozes, um coração recheado assado, fatias de fígado fritas à milanesa, ovas de bacalhau tostadas.

Caetano W. Galindo:

Mastigava destemperadamente, o senhor Bloom, as vísceras de aves e quadrúpedes. Gostava de sopa grossa de miúdos, moelas acastanhadas, um coraçãozinho recheado assado, fatias de fígado fritas com farinha de rosca, ovas de bacalhoa fritas.

(3)

James Joyce:

And then a rocket sprang and bang shot blind and O! then the Roman candle burst and it was like a sigh of O! and everyone cried O! O! in raptures and it gushed out of it a stream of rain gold hair threads and they shed and ah! they were all greeny dewy stars falling with golden, O so lively! O so soft, sweet, soft!

Antônio Houaiss:

E então um foguete disparou e estrondeou em estampido cego e oh! então a vela romana encandeou e era como se um suspiro de oh! e todos gritaram oh! oh! em êxtases e ele golfou de si uma torrente em chuva de caracóis de cabelos dourados e eram todos verdes estrelas rociadas caindo douradas, oh tão vívidas! oh, tão boas, doces, boas!

Bernardina da S. Pinheiro:

E então um rojão saltou e atirou ruidosamente às cegas e Ó! então o foguete explodiu e foi como um suspiro de Ó! e todo mundo gritou Ó! Ó! extasiado e jorrou dela uma chuva de fios de cabelo dourado e eles se derramaram e ah! e eles eram todos estrelas orvalhadas esverdeadas caindo dourado, Ó tão lindas, Ó tão suaves, delicadas, suaves!

Caetano W. Galindo:

E então um foguete saltou e bum com bom tom som de estrondo Oh! então a bengala estourou e foi como um suspiro de Oh! e todos gritaram Oh! Oh! em êxtases e jorrou dela uma corrente de fios de cabelo de chuva dourada e se espalharam e ah! eram estrelas verdejantes de orvalho e dourado, Oh tão lindas! Oh, suaves, delicadas, suaves!


       Stephen Herói
e Dublinenses

      
Stephen Herói chega ao país, por iniciativa do tradutor José Roberto O’Shea, que acaba de publicar, também, nova versão da primeira obra em prosa de James Joyce, Dublinenses (1914), vinte anos depois de lançada a primeira tradução que realizou dela.
      
Mesmo quando pode ser lida e apreciada sem dificuldades (caso desses dois livros), uma obra de Joyce encerra alta complexidade nas tramas de sentido que propicia. Justificam-se, portanto, a dedicação e a persistência do tradutor dos contos de Dublinenses – verdadeiros ensaios sobre a “paralisia” e o medo de romper rotinas – cujo trabalho se mostra, agora, compromissado com o objetivo de corresponder mais fortemente a características sintáticas e estilísticas do original, aproximando-se de uma “literalidade da forma”. O cotejo da antiga com a nova tradução permite levantar questões cruciais sobre a tarefa do tradutor, dificílima nos casos de obras de natureza estética e com vários níveis de significação: a simples mudança do título do conto “Counterparts”, de “Cópias” para “Duplicatas”, permite entrever a busca pela melhor opção, que, contudo, revelará limitações talvez intransponíveis. Mas fica, diante desta versão do belo livro de Joyce, a impressão de que dele temos, em nossa língua, uma recriação amadurecida: por seu intermédio será possível reviver a atmosfera daquela Dublin cheia de símbolos e convenções, dos quais era tão difícil libertar-se.
      
Se Dublinenses é o livro pelo qual se sugere iniciar a leitura da obra de Joyce, devido à crescente complexidade de suas criações, espera-se que em seguida seja lido o Retrato do artista quando jovem. Este romance, porém, surgiu do abandonado Stephen Herói, desenvolvido em moldes literários mais tradicionais, a partir de um conto autobiográfico. Das estimadas mil páginas da obra, manuscritas por Joyce, restaram cerca de 400, publicadas em 1944 (três anos após a morte do escritor), que, no entanto, apresentam relativa unidade: compõem um “retrato” do personagem Stephen Dedalus (criado à semelhança do autor), num contexto estilístico de realismo mais social e menos psicológico que o do livro que viria a originar. O fragmento é um campo de descobertas para os leitores de Joyce, por sua riqueza de detalhes relativos a Stephen e a seu ambiente, e, também, à teoria estética proposta pelo personagem e à sua concepção de “epifania” (“súbita manifestação espiritual, na vulgaridade de uma fala ou de um gesto”), tão cara a Joyce na orientação de seu trabalho. O texto original encontra correspondência depurada na criteriosa tradução de O’Shea, que busca aprofundamento no diálogo estético com a obra joyciana: “Stephen não se apegava à arte com qualquer espírito de diletantismo jovial mas buscava penetrar o coração significativo de tudo. Mergulhava no passado da humanidade e vislumbrava a arte emergente como quem tem a visão de um plesiossauro emergindo de um mar de lodo”. Descubra-se Stephen, o Herói, em português.

Stephen Herói, de James Joyce. Tradução de José Roberto O’Shea. Editora Hedra, 2012 (à venda a partir de 1º de julho).
Dublinenses, de James Joyce. Tradução de José Roberto O’Shea. Editora Hedra, 2012.


 

NOTA: As resenhas aqui incluídas foram publicadas originalmente no caderno “Folha Ilustrada”, do jornal Folha de S. Paulo, nas datas 12 de maio (Ulysses) e 16 de junho (Stephen Herói e Dublinenses) de 2012; a comparação de trechos foi publicada na versão on-line do jornal, em 14 de maio.



                                                 * * *
 

Marcelo Tápia, poeta, é doutor em teoria literária pela USP, diretor da Casa Guilherme de Almeida – Centro de Estudos de Tradução Literária e co-organizador do Bloomsday em São Paulo. E-mail: marcelotapia@superig.com.br

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Marcelo Tápia no Cronópios.