Café Literário Cronópios

Ángel Crespo e Rosa Chacel: dois escritores espanhóis, duas leituras do Brasil
por Sérgio Massucci Calderaro





 
Coluna:
ANARCHICO ARCHAICO
Glauco Mattoso


[44] Faxina na lixeira
por Glauco Mattoso




[43] Chicho, um vivo mimo
por Glauco Mattoso




[42] Choro de perdedor
por Glauco Mattoso




[41] O baralho encardido e o 'arame fallado'
por Glauco Mattoso




[40] Uma conclusão sobre a reclusão
por Glauco Mattoso




[39] No tempo em que eu enxergava... se fallava...
por Glauco Mattoso




[38] Um estudo sem escrupulos do estupro
por Glauco Mattoso




[37] Sadomasochismo massificado? O que é isso, roommate?
por Glauco Mattoso




[36] Uma baixinha para os baixinhos
por Glauco Mattoso




[35] De bocca fechada não sae gralha
por Glauco Mattoso




[34] Dia de mentira sem ser dia da mentira
por Glauco Mattoso




[33] Sadismo e sansonismo com lyrismo
por Glauco Mattoso




[32] O melhor vidente é aquele que quer ver
por Glauco Mattoso




[31] Contactos immediatos sem grau e com lente preta
por Glauco Mattoso




[30] Tapando o cu com a peneira
por Glauco Mattoso







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
02/10/2005 19:09:00 
[10] Quando o goleiro cego engole um peru


Por Glauco Mattoso









Recurso muito usado pelos torturadores nos interrogatórios, a venda nos

olhos (seja em forma de máscara, seja de capuz, seja no improviso dum

pano amarrado) comprovadamente reduz a mobilidade e as defesas (físicas

e psicológicas) da vítima. O fato de não poder ver seu carrasco torna o

refém mais vulnerável e inseguro. Portanto, funciona como estímulo à

satisfação do sádico numa relação SM, além de preencher a fantasia dos

masoquistas eventualmente obcecados por essa faceta do "bondagismo" que

é a oclusão visual.

 

No livro O QUE É TORTURA (volume de bolso da coleção "Primeiros Passos",

que a editora Brasiliense publicava na década de 1980), escrevi que "A

tortura é antes de tudo um choque, uma surpresa. Por mais que você pense

estar preparado para uma situação dessas, vai estranhar logo de cara o

`ambiente`. Para que o ambiente seja estranho ao máximo, é preciso que

NÃO SAIBA exatamente onde está. Daí o primeiro fator comum à maioria dos

depoimentos: o olho vendado. Às vezes até durante a sessão, às vezes só

até chegar à oficina. Uma MÁSCARA já dá para desorientar, mas um CAPUZ é

mais usado (de fato, é raro ver um capuz novo), geralmente complementado

pela manietação."

 

Apesar de toda minha vivida experiência como masoquista (experiência

que, depois de ter ficado cego, virou condição permanente, em tempo

real), somente uma vez fui submetido, amarrado, a uma sessão de

disciplina na qual tive de suportar o capuz. Isso ocorreu ainda na

década de oitenta, quando me restava a visão do olho esquerdo. Foi

assim: numa visita que fiz ao apê da dominadora Wilma Azevedo (que então

morava em São Paulo), fui apresentado ao dominador Xenofonte

(chamá-lo-ei assim por ser tão espartano quanto socrático), que me deu

carona na volta. No carro comentávamos a profusão de apetrechos

colecionados por Wilma, ao que enalteci a variedade disponível no

mercado americano. Quando citei o capuz com bocal "mijável" visto num

catálogo, Xenofonte riu e disse que possuía um exemplar. Mostrei-me

curioso e ele impôs que, se eu quisesse examinar o objeto, teria que

experimentá-lo em mim mesmo, sob as ordens do dono. Só perguntei se não

iria correr sangue nem ocorrer dor forte, mas ele riu de novo e

respondeu sinistramente: "Depende de você..." Mudado o itinerário, fomos

para o apê de Xenofonte, onde pude conhecer aquela espécie de touca

ninja feita dum material que imitava couro e provida duma abertura

cilíndrica na posição da boca, na qual o carrasco podia introduzir

comodamente o pênis: o dispositivo era chamado, no catálogo, de "piss

gag". Para que a cena ficasse mais autêntica, deixei-me acorrentar,

seminu e genuflexo. Antes de me submeter à micção intrabucal e à felação

(condições já pactuadas durante o trajeto), Xenofonte me surpreendeu com

uma pergunta engraçada: "Pra que time você torce?" Para não revelar que

sou torcedor só de times perdedores, fingi ser, digamos, são-paulino

(que na época era sinônimo de campeão ou, pelo menos, de favorito), ao

que ele retrucou: "Pois agora cê tá na mão dum palmeirense!" Aquilo

bastou para atiçar de tal maneira o clima de tripúdio, que foi com

verdadeiro delírio que ingeri a urina do rival, lambi-lhe o esmegma à

volta do prepúcio e chupei a glande até sentir na garganta o jato

gosmento, menos copioso e menos líquido que as golfadas anteriores. O

tempo todo Xenofonte cantarolou refrões da Mancha Verde (torcida

uniformizada do Palmeiras), entremeando-os com abusos verbais do tipo

"Ooolé! Chuuupa!" contra o suposto "tricolor pó-de-arroz" que eu

representava. Refleti depois que, caso eu me tivesse declarado

palmeirense, Xenofonte ficaria muito à vontade para se assumir como

corintiano ou santista, por exemplo.

 

Isso demonstra que a sugestão pode ser bem mais excitante que o próprio

ato executado, seja este uma tortura corporal ou moral. Por isso mesmo é

que não voltei a envergar qualquer tipo de capuz ou venda: ao perder por

completo a visão, já estou definitivamente vendado e moralmente

acorrentado, como que à disposição dum Xenofonte virtual, ao qual

confessarei, enfim, que torço pelo Juventus ou pelo Olaria... Eis por

que escolhi o soneto abaixo, dedicado a todos os seqüestradores

brasileiros, certamente torcedores de algum time grande e competitivo.

Apreciem vocês, e até a próxima!

 

 

SONETO SEQÜESTRADO [Glauco Mattoso]

 

Quem quer mesmo entender o que acontece

atente ao que colhi de muito estudo.

O termo "cativeiro" já diz tudo:

"escravo" é o que um refém mais me parece.

 

Não é só privação, tortura, estresse...

As ordens vão além: trabalhar mudo,

chupar bastante a ponta do bicudo,

rezar mexendo a língua sem ser prece!

 

Abrir a boca, enchê-la de improviso,

porém não com comida, e sim com asco!

Não ver o estuprador: ouvir-lhe o riso!

 

Até o gogó tragar novo carrasco,

levar grosso de sebo e deixar liso,

ser Mengo e estar na mão dos fãs do Vasco!

 

///













Glauco Mattoso (paulistano de 1951) é poeta, ficcionista e ensaísta,

autor de mais de trinta títulos, entre os quais as antologias "VÍCIOS PERVERSOS: CONTOS ACONTECIDOS" e "POESIA DIGESTA: 1974-2004", além dos romances "MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR: AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS" e "A PLANTA DA DONZELA". E-mail: glaucomattoso@uol.com.br 

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