Por Glauco Mattoso

Recurso muito usado pelos torturadores nos interrogatórios, a venda nos
olhos (seja em forma de máscara, seja de capuz, seja no improviso dum
pano amarrado) comprovadamente reduz a mobilidade e as defesas (físicas
e psicológicas) da vítima. O fato de não poder ver seu carrasco torna o
refém mais vulnerável e inseguro. Portanto, funciona como estímulo à
satisfação do sádico numa relação SM, além de preencher a fantasia dos
masoquistas eventualmente obcecados por essa faceta do "bondagismo" que
é a oclusão visual.
No livro O QUE É TORTURA (volume de bolso da coleção "Primeiros Passos",
que a editora Brasiliense publicava na década de 1980), escrevi que "A
tortura é antes de tudo um choque, uma surpresa. Por mais que você pense
estar preparado para uma situação dessas, vai estranhar logo de cara o
`ambiente`. Para que o ambiente seja estranho ao máximo, é preciso que
NÃO SAIBA exatamente onde está. Daí o primeiro fator comum à maioria dos
depoimentos: o olho vendado. Às vezes até durante a sessão, às vezes só
até chegar à oficina. Uma MÁSCARA já dá para desorientar, mas um CAPUZ é
mais usado (de fato, é raro ver um capuz novo), geralmente complementado
pela manietação."
Apesar de toda minha vivida experiência como masoquista (experiência
que, depois de ter ficado cego, virou condição permanente, em tempo
real), somente uma vez fui submetido, amarrado, a uma sessão de
disciplina na qual tive de suportar o capuz. Isso ocorreu ainda na
década de oitenta, quando me restava a visão do olho esquerdo. Foi
assim: numa visita que fiz ao apê da dominadora Wilma Azevedo (que então
morava em São Paulo), fui apresentado ao dominador Xenofonte
(chamá-lo-ei assim por ser tão espartano quanto socrático), que me deu
carona na volta. No carro comentávamos a profusão de apetrechos
colecionados por Wilma, ao que enalteci a variedade disponível no
mercado americano. Quando citei o capuz com bocal "mijável" visto num
catálogo, Xenofonte riu e disse que possuía um exemplar. Mostrei-me
curioso e ele impôs que, se eu quisesse examinar o objeto, teria que
experimentá-lo em mim mesmo, sob as ordens do dono. Só perguntei se não
iria correr sangue nem ocorrer dor forte, mas ele riu de novo e
respondeu sinistramente: "Depende de você..." Mudado o itinerário, fomos
para o apê de Xenofonte, onde pude conhecer aquela espécie de touca
ninja feita dum material que imitava couro e provida duma abertura
cilíndrica na posição da boca, na qual o carrasco podia introduzir
comodamente o pênis: o dispositivo era chamado, no catálogo, de "piss
gag". Para que a cena ficasse mais autêntica, deixei-me acorrentar,
seminu e genuflexo. Antes de me submeter à micção intrabucal e à felação
(condições já pactuadas durante o trajeto), Xenofonte me surpreendeu com
uma pergunta engraçada: "Pra que time você torce?" Para não revelar que
sou torcedor só de times perdedores, fingi ser, digamos, são-paulino
(que na época era sinônimo de campeão ou, pelo menos, de favorito), ao
que ele retrucou: "Pois agora cê tá na mão dum palmeirense!" Aquilo
bastou para atiçar de tal maneira o clima de tripúdio, que foi com
verdadeiro delírio que ingeri a urina do rival, lambi-lhe o esmegma à
volta do prepúcio e chupei a glande até sentir na garganta o jato
gosmento, menos copioso e menos líquido que as golfadas anteriores. O
tempo todo Xenofonte cantarolou refrões da Mancha Verde (torcida
uniformizada do Palmeiras), entremeando-os com abusos verbais do tipo
"Ooolé! Chuuupa!" contra o suposto "tricolor pó-de-arroz" que eu
representava. Refleti depois que, caso eu me tivesse declarado
palmeirense, Xenofonte ficaria muito à vontade para se assumir como
corintiano ou santista, por exemplo.
Isso demonstra que a sugestão pode ser bem mais excitante que o próprio
ato executado, seja este uma tortura corporal ou moral. Por isso mesmo é
que não voltei a envergar qualquer tipo de capuz ou venda: ao perder por
completo a visão, já estou definitivamente vendado e moralmente
acorrentado, como que à disposição dum Xenofonte virtual, ao qual
confessarei, enfim, que torço pelo Juventus ou pelo Olaria... Eis por
que escolhi o soneto abaixo, dedicado a todos os seqüestradores
brasileiros, certamente torcedores de algum time grande e competitivo.
Apreciem vocês, e até a próxima!
SONETO SEQÜESTRADO [Glauco Mattoso]
Quem quer mesmo entender o que acontece
atente ao que colhi de muito estudo.
O termo "cativeiro" já diz tudo:
"escravo" é o que um refém mais me parece.
Não é só privação, tortura, estresse...
As ordens vão além: trabalhar mudo,
chupar bastante a ponta do bicudo,
rezar mexendo a língua sem ser prece!
Abrir a boca, enchê-la de improviso,
porém não com comida, e sim com asco!
Não ver o estuprador: ouvir-lhe o riso!
Até o gogó tragar novo carrasco,
levar grosso de sebo e deixar liso,
ser Mengo e estar na mão dos fãs do Vasco!
///
Glauco Mattoso (paulistano de 1951) é poeta, ficcionista e ensaísta,
autor de mais de trinta títulos, entre os quais as antologias "VÍCIOS PERVERSOS: CONTOS ACONTECIDOS" e "POESIA DIGESTA: 1974-2004", além dos romances "MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR: AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS" e "A PLANTA DA DONZELA". E-mail: glaucomattoso@uol.com.br