Café Literário Cronópios











O rabo do jumento
por Bráulio Tavares





 
Coluna:
CONSTELAÇÃO DE SALIVA
Carlos Emílio C. Lima


Os cadernos das devorações felinas
por Carlos Emílio C. Lima




Silencioso como o paraíso, o livro-mente de Vicente Cecim
por Carlos Emílio C. Lima




No Antigo Egito
por Carlos Emílio C. Lima




Cabeças decapitadas
por Carlos Emílio C. Lima




Róia!
por Carlos Emílio C. Lima




Orbitação
por Carlos Emílio C. Lima




Jagarananda
por Carlos Emílio C. Lima




O que aconteceu antes
por Carlos Emílio C. Lima




Sempre ao redor de Wuêé
por Carlos Emílio C. Lima




Uma história de volta para o cego Lim... de Laudbaer
por Carlos Emílio C. Lima




Aproximação
por Carlos Emílio C. Lima




A pedra Knalp
por Carlos Emílio C. Lima




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por Carlos Emílio C. Lima




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por Carlos Emílio C. Lima




Barilaê a chegar
por Carlos Emílio C. Lima







 


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15/7/2009 14:58:00 
Os cadernos das devorações felinas


Por Carlos Emílio C. Lima


      Mas então há centenas de pessoas que ainda são comidas por onças no Brasil,e em muitos lugares desse mundo tão pouco ainda conhecido? E fazem estatística, ainda prestam-se a isso, a verificar se existe isso, sistematicamente? Voce conhece alguém que participe dessas pesquisas, a alga de alguém desse teor? Gente que vai à procura, contar, catar quantos foram comidos, devorados por onças, pelo jaguar imenso domo, uma nuvem mastigando-se dentro dos olhos? Quantos tipos de onça ainda existem no Brasil? Você sabe, na América do Sol? Nós precisamos saber para vencer o calor, o torpor, o vazio, todas esssas coisas que nos devoram, que pretendem nos devorar. O calor pode ser uma onça desde sempre pronta a abocanhar nosso cérebro para levá-lo num jato de flautas submarinas bem pra fora do espaço. Desistirmos? A onça do calor abocanhar parte do cérebro comer seus tendões de chuva da atmosfera...
     
Essas onças são violentamente buscadas por mutissimo muitos, aqueles pois que perderam seus parentes. Elas são caçadas, num ajuste de contas, sempre, onças internas vagando pelo sistema fluvial do tempo com suas veias de fogo e destreza e seus olhos de tição, o algarismo infinito desenhado nas córneas com muita sede.
     
Então existem essas pessoas que catam essas informações com destreza, saber onde foram comidas as gentes, os lugares para onde a onça arrastou os corpos, que partes foram devoradas, que outras não foram, cada pedaço melando-se nas memórias?
     
Então foi isso, sempre foi isso , não sabemos como continuam a acontecer essas devorações assírias por toda parte,as onças comendo seres humanos todos os dias e noites apesar da insistência predileta das montanhas, dos pensamentos das nuvens, apesar das chuvas absorvidas, sempre , ainda haviam essas comilanças rituais da natureza em zonas vagas, antigas, antros, pocilgas redondas de devoração? Pois que sim, que tem gente assim. Ontem mesmo fui procurar alguém, simplesmente um homem, que se especializara nisso ainda, gente urbana, sem canoa, sem lastro com ave e com árvore remota, que se dedicava a fazer registros desses acontecimentos noturnos, quase mesmo impensáveis, que continuam existindo nos territórios como uma formigação. Segui para o apartamento de um desses imersores com olhos abertos num berro mudo de galáxias sentado no brancor de uma sala ampla cheia de sussurros, as paredes marcadas por rastros. Disse-me ele - não posso dizer o seu nome agora - que ia sempre a lugares antigos para estabelecer contatos com as presenças oscilantes ventosas de pessoas agora atmosféricas que foram devoradas pelas onças, tem cadernos inteiros ali, dezenas de cadernos com esses pousos caligráficos os quais transcreve com canetas de ouro, outras de prata, cada matéria, cor, tipo de estilete, ponta narrativa de pele viva para cada um dos tipos de onça que os devorou e foi me mostrando o acúmulo dessas derivações de tintas extintas, dessas escritas espantosas de ramos de sangue fino, traduzidas das vozes errantes rasgadas a sobrevoar a Terra, porque os registros não se limitam aos ocorridos mais próximos às cidades, mas se intimam de toda as partes onde houve devorações abertas, clareiras-bocarras cheias de araras tontas. Eu disse-lhe que essas escritas felinas, o sumo mesmo embolado de todas essas tintas íntimas, autodesenhando-se, dariam uma livro antes inconcebível, bebível, um livro mesmo pelos ouvidos muito fora de si esmo. O livro dos devorados do jaguar do ar, dos gritos de cristal, o livro das desfigurados pela onça preta da espreita, o livro dos triturados pela jaguatirica pobre, livros-tambores, expostos à atenção giratória das nuvens tentadoras, ele ria indo com a estória, dizia que não era essa sua intenção, o único propósito que tinha era o puro registro caligráfico ouro disso tudo, em gotas de sangue pingando no papel quando tudo no espaço se comprimia muito até ali. Achei por bem acalmar-me, não mostrar interesse em mergulhar com olhos desatados em todo esse material embebido de novas escaligrafias escabrosas. Perguntei-lhe quantas mensagens ele havia colhido em suas peregrinações pelas regiões impregnadas em busca das presenças caligráficas dos engolidos, dos dilacerados pelos grandes felinos, e ele disse que quando tivesse reunido o número-rumor untado de mil de todas elas, todas essas manchas rupestres nos seus mata-borrões, terminaria a busca porque então sua biblioteca-estaca de ranhuras, com suas escritas misteriosamente unhadas de argila estaria, pelos menos para ele, completa. Depois desse trabalho de prospecção, assimilação, captação ele passaria ao simples admirar concentrado folha por folha, destruiria as gravações sonoras que capturara quando as escritas desciam borrifando nos campos aptos ,ficando apenas com as palavras mais encardidas de arco-íris...
     
Perguntei-lhe qual é o tempo morno de uma onça do cerrado devorar um ser humano. Dependendo do estado, do estalo fundo de sua fome, para eles, esses quase não-bichos, somos nuvens, depois de mastigados consubstancialmente devorados, elas fixam com carícia de estômago sagrado os olhos humanos fora do corpo, pois sempre antes de devorar o corpo ainda trêmulo de um homem, ainda ele agitando-se, as células esganiçadas de terror querendo fugir ,o sangue todo escapar pelas feridas em busca de um outro corpo imediato de uma vez num relâmpago alucinógeno , bem, elas arrancam os olhos meticulosos meia intactos manchados crispados esganiçados do próprio saque de sangue, ainda vivos, de suas presas humanas e os depositam com a boca furiosa com premeditado cuidado numa pedra que sempre escolhem para eles em excitação, sim, som, lactação, pois nunca os devoram, guardam-nos como pedras preciosas, como nos guardamos nosso tesouros.Foi descoberta há anos numa caverna onde habitavam gerações e gerações de tigres entrelaçados com neblina, bem, foi descoberta uma quantidade extraordinariamente confusa de olhos humanos encobertos fossilizados preservados pelas tribos dos terríveis felinos de unhas antenuentes e dentes de sabre sempre prontos a agir sobre o que acontece com os espíritos dos devorados, como eles retornam à Terra, sei que eles retornam com pulsações de enguia, sei que isso insiste demais nessas inscrições em existir, ele vírou-se para mim enquanto acendia um cigarro primitivo, logo depois de um gole áptero de café … bem sei que eles retornam nestas desenhações unhadas , os cadernos são como anzóis planos onde retornam com energia essas imagens propagadas, sombras, borrifos mentais umedecendo o papel em que se lhes oferece a possibilidade de um rio interminável de vida. Mas acontece que, segundo certas tradições, essas pessoas que foram comidas por onça perderam qualquer ligação com as forças terrestres como se tivessem sido desligadas em definitivo desse tipo de espaço e não pudessem nunca mais voltar mais à Terra, você sabe, elas foram, partes delas, literalmente transformadas em bostas dos felinos quando expelidas. Bem, isso me parece, para todos eles tornou-se inaceitável e sem justificativa. Compreendi com o sorriso contínuo floreado das perguntas mais imprecisas.
     
Quando você sai para a rua você se sente acompanhado por essas vozes porosas de caverna que você escutou por toda a terra? Não, ele não sentia nada disso, pois sua preocupação básica era bio-gráfica ,o captar dos grafemas, dos torvelhinhos mentais. O melhor que eu tinha que fazer era folhear os cadernos sem as gravações. Isso não havia mais , quaisquer vestígios dos ossos pulverizados sonoros.Teria que me contentar com esses depoimentos gráficos quase indecifráveis ,esses rabiscos registrados nas mais diversas línguas que tais, pois ainda novas desconhecidas escritas, uma língua-aragem universal dos espirogiros cujos antecedentes corpos humanos foram triturados pelas mandíbulas dentadas dos grandes felinos da terra. E porque ele não se interessara mais até agora pelos homens, mulheres, crianças devorados pelos leões totais? Não, de jeito nenhum! Só me interesso mesmo por aquelas devorações orquestradas pelos grandes felinos onços, dos grandes carnívoros da terra tenho acumulado apenas cadernos com depoimentos das vitimas comidas por eles em muitas regiões diferentes . São muito interessantes, viu? Muito, pra lá de formidáveis esses depoimentos, em alguns deles, onde jamais soa a letra m, as pessoas contam-gritam quando primeiro perdem a mão esquerda, depois o dedo de um pé, eles devoram, essas onças tamanhas com muita parcimônia, com muita delicadeza, pausas, afastam com as patas partes dos corpos, sabe? É uma canção berrada movediça fina, pois reservam para depois pedaços vivos intensos, mantas de carne só para saborear com maior atenção gustativa depois em vagares quase estelares de noite alta, a boca abrindo-se para imensidões e ai eles contam com eram, nessas gravações que pulverizei pra sempre, eles contam como ficaram berrantes mudos vendo suas pernas serem comidas por toda a porção de pequenas oncinhas, penduradas que ficam suas partes nuns galhos, vendo mesmo partes de si sendo comidas, você sabe que o corpo quando partido em pastas em postas passa a ver com a pele mesmo que já tenha tido seus olhos arrancados, tenazmente roubados, depositados nessas pedras mesetas imantadas cantadas de sangue sagradas para quente pouso de olhos humanos que os tigres tem preparadas herdadas dispostas escolhidas num ritual lá da religião deles profunda interior sem linguagem para nós. Então tem dessas gravações antigas que eu não depositei, não guardei, só lembro de uns trechos, e um deles é o que eu estou lhe dizendo agora, viu?
     
Mas o que essa gente conta de si bem depois que foi devorada, o que então acontece quando mergulham sua alma nas nuvens, o que vem lá de cima, o que então acontece? Bem, isso você verá ao ler os cadernos tenros, com concentração magnética, você perceberá, mesmo que muitos outros motivos que os levam a nem querer mesmo voltar, pelos menos, por enquanto, a todas essas pessoas devoradas pela sonnhonços, mais pelos jaguares pelas panteras, pelos quase leões, olhe, só mesmo me interesso dos trecos, dos secos úmidos, isso, em saber dessa parte dos filhos sonoros das das muitíssimas mais presentes devorações, gosto de querer saber a dor gelada que sentiam no interior dos estômagos-igrejas orgânicas abissais depois de mastigados destroncados, desocados, o que sentem descalços da alma, o que sentem na distância dos intestinos os seus restos fervendo amassados, e como se sentem quando foram expelidos que música fazem pelos ânus remotos dos felinos primordiais, isso!, isso que eu quero saber, o resalto dessas situações corporéas aéreas além de qualquer possibilidade engajada de linguagem conhecida, linguagem amolecida da carne sangrenta.
     
Eu disse que iria voltar, mas num incerto outro dia e muito distante do que nos localizara naquela instante ótico do sol, num outro dia muito longe daqui, para então poder ler todos aqueles cadernos, e também tentar imaginar aqueles estampidos, aquelas perdidas adiadas gravações de vozes trituradas, de vozes matigaemendadas com sangue, urros de tripas, trinos de fibras quebradas, aí ele parou de olhar um oiti secreto imerso no invisível da sala branca acústica quase grande demais e me contou como se conta um segredo soprado por um rio através de um folha pendurada no uuvido que tinha um caderno especial com as canções que eram entoadas pelas carnes humanas mastigadas em martírio corroídas desfibradas pelos sucos gástricos dos estômagos ávidos dos tigres quase azuis da noite , das onças pardas, que eram canções calóricas, absorventes, bebedoras de toda umidade do ar, nitrogênias, canções carbônicas como espinhas medulares cantoadas, como ossos entoados, pastas mântricas musculares, fêmures-dialetos, ossos éolicos em excitação cromática.
     
Aí eu lhe perguntei num sussurro meio medroso, antes de sair para o corredor e o sol da noite novíssimo, se ele se comunicava também com as onças que haviam comido aqueles homens e mulheres, velhos, velhas,crianças, todo aqueles feixes de gente, então ele parou um pouco de pensar com a fala, piscou com os olhos todos os lados do corpo, passando a mão escamosa nos dourados cabelos estilizados de reflexos da lâmpada em vagação flexivel no teto ali e me disse que desconfiava muito muitisimo muito mesmo de que os tigres, as onças, os jaguares ões todos eles então todos mesmo estão todos todos todos todos renascendo estes mesmos que comeram com tanta dasapiedada desnecessidadade tanta gente humana incoerente inocente mais uma vez revivendo como seres humanos que serão comidos dessa vez por aqueles mesmos que eles foram antes, que bem lá no fundo não há nenhuma diferença quente entre os que comem e os que foram comidos que tudo isso é uma serpente-de-entes suspensa de encadeamentos que se espuma em todas as direções do tempo em diversos lugares herniosos do espaço para serem devoradas castigantadamente por sucessivas onças vibratórias sequenciais jagaresbananeiraspanteras, jangaaguaguatiricas... Mesmo que o próprio castigo que essas pessoas todas que foram devorados pelos felinos das matas matadores pelo mítico Jaguaré tinham mesmo sido antigamente isso que sim, tinha sido mesmo jaguares onças cruéis desmedidas de todas as cores e formas pelo universo e que era por isso que não poderiam mais voltar nunca mais às mesas imemóreas da terra. sim que isso é que era... Que desconfiava que era assim mesmo. Então ele sorriu e me deixou ir embora mas antes me fez um só pedido pouco antes de bater a porta com força sem querer que eu voltasse para fazer a primeira leitura-audição de um dos cadernos que trouxera do cerrado, que absorvera em suas páginas de todo um território de devorações felinas que este era o mais poético dos depoimentos dos devoramentos incessantes espasmos sobre o calor infinito sonorizações além dos próprios grafismos incorpóreos das invisíveis mastigações trilha sonora que estava compondo recebendo da atmosfera disso tudo em gradação por todo o felpudo pelo de som do universo...





 

Carlos Emilio C. Lima é escritor, poeta, editor, ensaísta, antidesigner. Publicou os romances
A cachoeira das eras - A Coluna de Clara Sarabanda (Ed. Moderna, 1979, cujo trecho acima foi extraído); Além, Jericoacoara e pedaços da história mais longe e o livro de contos Ofos. Seu livro mais recente é O romance que explodiu, publicado em capítulos no Cronópios e lançado pela editora da Universidade do Ceará. E-mail:
carlosemiliobarretocorrealima@yahoo.com.br 

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