A vida tem seus amores. Há tempos entrevistei aqui a escritora e blogueira Fal Azevedo. Exatos três anos. O tempo, implacável, passa. Não leva as rugas nem as alegrias – ainda bem. As dores, bem, de alguma forma se amenizam com Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite: o novo livro da Fal, lançado no dia 2 de setembro pela Rocco, em Sampa de Mário de Andrade e todos os desvairados de plantão. Agora a vez é do Rio de Janeiro. Tomem nota: no dia 9 de outubro, quinta-feira, a partir das 19h30, todos têm um encontro marcado na deliciosa livraria Prefácio, em Botafogo, com a deliciosa Fal. Ops, eu falei “deliciosa”, gente? Abafa... Calcanhotto comeu Caetano em verso, eu faço o mesmo com a Fal em reverso... minúsculos assassinatos... entendam. Poderia também uma nova entrevista com a Fal? Sim, quem desejar coloque o dedo na palma da mão antes que se feche. Mas por agora fico aqui, ensimesmada, com reminiscências daquilo que não vi, não vivi, porque...
Não. Eu não estava lá. Não vi as luzes da noite, não senti o cheiro, não percebi a vibração. Não. Eu não estava lá. Não me afoguei no abraço, não senti amassos, não percebi sorriso qualquer. Não. Eu não estava lá. Não vi os olhos brilhantes, não senti a respiração ofegante, não percebi a empolgação de ninguém. Não. Eu não estava lá. Não sentei junto à mesa, não bebi nenhuma cerveja, não percebi a madrugada passar. Não. Eu não estava lá. Não participei de conversa alguma, não ouvi as conversas alheias, não percebi olhares ao léu. Não. Eu não estava lá. Não vi os amigos chegarem, não registrei fãs descabelarem, não percebi as horas voarem. Não. Eu não estava lá. Não fiquei confusa, não fiquei tímida nem tonta, não percebi o tropeço do moço. Não. Eu não estava lá. Não sei como estava vestida, não sei se ficou distraída, não percebi a ressaca pousar. Não. Eu não estava lá. Não enfrentei congestionamento, não sofri nenhum tormento, não percebi a fumaça do bar. Não. Eu não estava lá. Não me senti dentro do ninho, não entrei devagarinho, não percebi os sonhos em vão. Não. Eu não estava lá. Não passei as mãos nos cabelos, não senti os fios macios, não percebi a euforia total. Não. Eu não estava lá. Não sei que batom usava, não vi a roupa trajada, não percebi o que a desnudava. Não. Eu não estava lá. Não ouvi o som da voz, não contribuí com a bagunça, não percebi se santa ou algoz. Não. Eu não estava lá. Não vi as digitais, não levei Goreman nem ais, não percebi nada de nada. Não. Eu não estava lá. Não vi gente (des)conhecida, não falei abobrinha, não percebi o calor infernal. Não. Eu não estava lá. Não brindei vodca nem uísque, não comi nenhum petisco, não percebi a conta aumentar. Não. Eu não estava lá. Não matei trabalho na terça-feira, não matei tia nem lavadeira, não percebi a mentira inventar. Não. Eu não estava lá. Não fui assassinada, não cheirei ou tomei copo de leite, não percebi a crepúscula romã. Não. Eu não estava lá. Você estava. Mágica, linda, eu sei. Pungente, pensativa, também. Talvez. E simplesmente não perdôo a ausência. Por que eu, simplesmente, não estava lá.

Ana Laura Diniz é jornalista, escritora, professora, produtora musical, letrista e atriz. É diretora-geral do site jornalístico “Primeira Fonte” (www.primeirafonte.com) e co-autora do premiado livro-reportagem Contos de Bordel - A prostituição feminina na Boca do Lixo de São Paulo e da antologia Um Sábado no Paraíso do Swing e outras reportagens sobre sexo. E-mail: alauradiniz@gmail.com