Em nossa imaginação, um objeto querido vive e sente; emprestamos alma e sentimentos a tudo que vemos como extensão de nosso ser. Tais ilusões infantis persistem por toda nossa existência, e são capazes de emocionar plateias adultas que assistem a filmes de carros humanizados, por exemplo. Nossa própria capacidade de sentir parece ser suficiente para animizar objetos – e o mundo, e a natureza – e dotá-los de capacidade semelhante.
Minha última experiência do gênero foi intensa: perdi um chapéu, não um qualquer, mas exatamente aquele único que se encaixava perfeitamente a meu um tanto avantajado crânio. Parecia feito para mim, com alguma folga exata na medida, que eu via como certa generosidade, e que o acomodava com o desejado arejamento confortável. Nascido entre muitos, num local incerto entre miríades de fábricas chinesas, ingressou na comunidade pelas mãos judaicas de uma intermediária israelense, que o nominou devidamente, em hebraico. Quando, na ocasião de minha primeira visita a Israel, o vi exposto, à espera de adoção, estava só, único em sua matéria e em seu feitio. Toquei-o, experimentei-o, e foi amor ao primeiro uso.
Desde sempre, tratei-o bem: resistente, mas sensível, exigia cuidados. Não permiti que se sujasse, ou se prejudicasse de algum modo. Em minha casa, tinha um cantinho seu. Quando era conveniente, levava-o para passear: em simbiose perfeita, exibia-se sob o sol, enquanto minha calva se protegia dos ameaçadores raios luminosos. Viajou comigo em muitas ocasiões: em visita à minha terra natal e a outras cidades do interior e do litoral de São Paulo; deu-se bem com a brisa marítima, sempre me protegendo carinhosamente.
Emprestava-me um tanto de sua personalidade marcante: atribuía-me mais jovialidade e diferenciação. Assim ficamos, unidos, por quase quatro anos. Apesar de sua identidade distinta entre os meus outros chapéus, que são apenas chapéus, não lhe dei outro nome que não o mesmo: Chapéu. A inicial maiúscula poderia ser, creio, motivo de seu relativo orgulho.
Mas nosso convívio estava fadado a findar-se: sem dúvida, tratou-se de destino definido e insondável. Veja-se o sucedido: novamente de viagem a Israel, país em que minha filha escolheu viver, priorizei a companhia do Chapéu, que voltou comigo a estas terras em que o conheci. Não sei bem por que motivos, poupei-o de andar comigo pelo inverno da região; mantive-o quieto, em seu aconchego, até ontem, dia de nova visita às ruínas da antiquíssima cidade de Massada, no coração do deserto.
Decidi levá-lo comigo, num dia especial de viagem pelo espaço e pelo tempo. No caminho, ao lado do Mar Morto, logo avistamos, minha mulher e eu, a atmosfera carregada de um tom avermelhado, dado pela areia em suspensão. Ventava bastante. Massada, construída por Herodes, fica no alto da montanha, palco de um passado singular, rico, difícil, rude e sofisticado, opulento e trágico. Tomada por romanos após a morte do rei idumeu, no ano 4 a.C., a cidade foi ocupada de surpresa, sete décadas depois, por um grupo de judeus rebeldes ao domínio romano. Lá, diante da retomada inevitável do lugar por soldados romanos que o sitiaram, os rebeldes decidiram não se submeter à violência e à escravidão: optaram pela morte coletiva.
Milênios depois, a atmosfera, ainda que carregada de areia, é leve; traz a superficialidade das visitas turísticas, que tomam conhecimento da história da cidade e vislumbram sua original configuração pelo que restou de suas construções.
Ventava muito forte, ontem, em Massada. O vento parece aliviar o passado trágico, elevando-o às alturas; os ares rodopiam em destino incerto e múltiplo. As pequenas histórias e relações pessoais diluem-se na grandiosidade etérea do tempo longínquo.
Mas eu, este humilde mortal, posso ter sido alvo certeiro do capricho de um deus, não do Deus hebraico, envolvido com o terreno amplo e árido demais de toda a história de seu povo, mas um deus que ressurge, por um átimo, do seio da sua existência mítica para dar o ar efêmero de sua graça... Andava eu com meu pobre e insignificante, mas único e amigo, Chapéu, escudo meu contra o sol desértico, devidamente preso sob minha mão, a protegê-lo do vento ameaçador. Mas um período de calmaria aconteceu, durante o qual o deixei livre, pousado em minha cabeça. Súbito, a lufada mais intensa invade o lugar, e o arrebata com preciso impulso. Pensei ser Bóreas, o Vento do Norte, com seu conhecido ímpeto; mas tive a visão do mesmo resplandecente Apolo cujo golpe destituía Pátroclo de seu escudo: em tempos banais como estes, sem glórias heroicas, o recurso guerreiro pode ser um humílimo Chapéu...
Voando alto pela rajada, o Chapéu quase foi apanhado por alguém que tentou prestar-me auxílio; mas ele, parecendo mover-se por conta própria, deu nova pirueta, escapando aceleradamente daquelas mãos e das minhas vistas. Se foi vítima de um agente ou se foi agente de sua própria peripécia, não saberei ; só sei que desapareceu para sempre nas encostas da montanha árida e avermelhada, só, bem mais só do que quando o encontrei. Esta noite, em sonho, ouvi um chamado longínquo; aproximando-me, senti um sopro breve de despedida.
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Marcelo Tápia, poeta, é doutor em teoria literária pela USP, diretor da Casa Guilherme de Almeida – Centro de Estudos de Tradução Literária e co-organizador do Bloomsday em São Paulo. E-mail: marcelotapia@superig.com.br