Café Literário Cronópios











Nomadismos contemporâneos
por Carlos Azevedo





 
Coluna:
ANARCHICO ARCHAICO
Glauco Mattoso


[18] Verso livre obrigatório versus forma fixa voluntária
por Glauco Mattoso




[17] Desalongando o pappo e desmedindo forças
por Glauco Mattoso




[16] Bacchanal buccoanal ou suruba cubuccal?
por Glauco Mattoso




[15] Enquadrado na quadrilha dos quadrinhistas
por Glauco Mattoso




[14] Macacos soltos no laboratório
por Glauco Mattoso




[13] De volta para o presente
por Glauco Mattoso




[12] Graecum est, non legitur
por Glauco Mattoso




[11] Nem tanto ao mar, nem tanto a marte
por Glauco Mattoso




[10] Atropelos nos Anthroponymos
por Glauco Mattoso




[9] Topicos Tupynicos e Toponymicos
por Glauco Mattoso




[8] Idiosyncrasias idiomaticas
por Glauco Mattoso




[7] Quando o vice-versa é versão do vicio
por Glauco Mattoso




[6] Das escrituras demolidoras às releituras edificantes
por Glauco Mattoso




[5] Lettra que te quero lettra
por Glauco Mattoso




[4] Você sabe com quem está escrevendo? Com seu computador fallante!
por Glauco Mattoso







 


Micheliny Verunschk


Sebastião Nunes


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Márcia Denser


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


José Inácio Vieira de Melo


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


João Filho


Eduardo Milán


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Márcio Souza


Leda Tenório da Motta


Laure Limongi


Frederico Füllgraf


Lau Siqueira


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Cláudio Soares


Alfredo Suppia


Artur Matuck
    
8/8/2010 12:29:00 
[18] Verso livre obrigatório versus forma fixa voluntária


Por Glauco Mattoso


 




Bastante symptomatico é o facto de estar sahindo em livro o meu "Tractado de versificação" mais de um seculo depois da publicação do compendio homonymo de Bilac, em parceria com Guimarães Passos. Meu titulo original, typico das theses, era mais especifico e prolixo, "O sexo do verso: machismo e feminismo na regra da poesia", mas o character opinativo não collide com a fundamentação estichologica nem com o detalhamento theorico, essenciaes a toda obra de referencia que aborde tal especialidade litteraria.

Mesmo sendo unanimemente reconhecida a falta de obra analoga durante tantas decadas, não apparecia quem supprisse a lacuna, o que leva a inevitaveis reflexões sobre a necessidade de algo que os maiores interessados (os proprios poetas) não tinham coragem de admittir. Quaes seriam os motivos dessa pretensa indifferença dos auctores em relação à theoria e à technica, si a communidade academica e boa parte do publico leitor continuam attentas a um minimo criterio de avaliação da competencia no processo de creação poetica?

A questão me parece flagrantemente elementar: as ultimas gerações litterarias se accommodaram na desculpa de que, tendo as modernas tendencias "abolido" as formas fixas, todos os poetas estariam automaticamente desobrigados de dominar e até de conhecer regras de versificação. Isso me lembra um bando de alumnos relapsos que, certos da approvação pela "progressão continuada", consultam seus botões: "Estudar p`ra que, si ja passei de anno? Apprender a compor versos? P`ra que, si ja me considero poeta e ninguem me desmente?"

E, antes que me accusem de caretice, vou mais longe e digo o que penso dos vanguardismos tendentes a "abolir" regras. Sempre admirei auctores iconoclastas que ousaram transgredir valores vigentes, como Mario e Oswald no modernismo ou Augusto e Haroldo no concretismo, para não fallar na constante inquietação creativa de Bandeira e Drummond. Mas, quando reaffirmo que lhes applaudo a coragem e a irreverencia, é justamente por saber a que poncto conhecem, elles todos, cada norma que se propuzeram a contestar. Quando quizeram, tanto Mario como Augusto compuzeram impeccaveis sonetos, e só não os fizeram em quantidade porque estavam interessados em outras alternativas estheticas. Tracta-se de procedimento muito differente da attitude que observo nos poetas das gerações mais recentes (exceptuados uns tantos chordelistas, lettristas, trovadores e sonetistas): são, na maioria, arrogantes na defensiva de justificarem sua ignorancia technica com a supposta "obsolescencia" de quaesquer "regulamentos" no campo da arte. Ja ouvi muitos destes allegarem: "Metrica? Ora, cada um tem a sua! Rima? Ora, isso é coisa superada! Rhythmo? Ora, meu ouvido decide qual será!" Conversa molle! O Homem Legenda do Adão Iturrusgarai, si estivesse por perto, poderia traduzir taes desculpas assim: "Ora, si não sei escandir, digo que metrica é coisa individual... Ora, si não sei rimar, digo que não me prendo a processos ultrapassados... Ora, si não sei accentuar, digo que rhythmo é relativo a como o poeta declama..." Me enganna, que eu gosto!

A minha percepção, por outro lado, é a de que cada experiencia poetica mais transgressiva só tem razão de ser quando contrasta com um contexto mais retrogrado e burocraticamente mediocrizado. Como si o poeta de vanguarda nos advertisse: "Sim, estou quebrando regras, mas vejam bem!
Não estou rompendo com a monotonia da regra para inaugurar a monotonia da quebra! Não estou convidando todos os novos poetas a insistirem nesta tecla! O que talvez eu esteja fazendo é dar uma chacoalhada nessa mesmice e alertar para que as regras, que agora desrespeito, sejam practicadas com mais cuidado e maior rigor, ja que a rotina vem tornando a poesia muito mechanica e repetitiva!"

Eis como interpreto a acintosa intenção bandeiriana ou drummondiana naquelles poemas explicitamente livres, que os subbandeirianos e subdrummondianos passaram a macaquear "ad nauseam", o mesmo valendo para as aventuras mais radicaes da poesia dicta visual, contra a qual nada tenho só por ter ficado cego, ja que tambem a practiquei emquanto enxergava.

Em summa, sejamos honestos, intellectualmente honestos, si não no mercado editorial ou na midia cultural, ao menos nos bastidores das feiras litterarias e nos corredores academicos, e admittamos que, tal como os fundamentos para um jogador de futebol, os rudimentos estichologicos representam o preparo basico para quem se pretenda poeta.
Dahi a natural expectativa que venho constatando desde que, annos atraz, disponibilizei virtualmente o conteudo do volume que agora é lançado pela Annablume: sempre me questionavam por que não sahia a versão impressa e, si estivesse programmada a publicação, por que tardava tanto a sahir.

A resposta a estes e outros questionamentos cabe aos officinandos ou officineiros de creação poetica e aos pesquisadores na area de theoria litteraria, publico alvo, alem dos bardos propriamente dictos (ou maldictos), dum tractado do genero, cuja utilidade, descontados os meus pessoaes ponctos de vista, será indubitavel, ao menos quanto à consolidação dos innumeros conceitos e termos technicos que se achavam dispersos pelos diccionarios geraes da lingua e pelas exgottadas edições dos tractados precedentes. Ja é alguma coisa, não acham?



Mais info: http://www.annablume.com.br e http://normattoso.sites.uol.com.br/




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Glauco Mattoso (paulistano de 1951) é poeta, ficcionista e ensaísta, autor de mais de trinta títulos, entre os quais as antologias "VÍCIOS PERVERSOS: CONTOS ACONTECIDOS" e "POESIA DIGESTA: 1974-2004", além dos romances "MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR: AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS" e "A PLANTA DA DONZELA".
E-mail:
glaucomattoso@uol.com.br 


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