O dictado latino que dá titulo a este capitulo dá tambem uma idéa de como Roma encarava os alphabetos extrangeiros. Dahi a expressão "isto para mim é grego", no sentido de inintelligivel.
Com effeito, o latim fallado e escripto absorveu innumeros hellenismos, principalmente no que tange aos ramos mais eruditos do latim ecclesiastico e scientifico, mas nem todas as lettras gregas podiam ser, digamos, litteralmente translitteradas, para sermos necessariamente pleonasticos.
Por exemplo, o "phi", equivalente ao nosso "F", precisou de duas lettras para representa-lo, de modo que não fosse confundido com a consoante eventualmente dobrada das palavras typicamente latinas. Assim, "officio" tem clara origem latina, emquanto "ophidio" vem do grego; "effectivo" e "ephemero" se differenciam da mesma forma.
Outros phonemas que, no portuguez, acabaram soando practicamente da mesma maneira são o "CH" grego e o "QU" latino, que entretanto não se confundem, como não se confundiam na pronuncia original. Assim, um nariz "aquilino" vem da aguia latina, emquanto um calcanhar "achilleu" vem do grego Achilles. No latim, a vogal "U" soava tanto em "aqueducto" quanto em "aquatico", emquanto "ecchymose" jamais soaria como "equinoccio".
Mais confusos são os nossos dois sons de "I" e os dois de "T" do alphabeto grego, correspondentes, respectivamente, às lettras iota comparada com ypsilon (originalmente upsilon), dum lado, e tau comparada com theta, do outro. Dahi a coexistencia, no portuguez, dos radicaes "philo" e "phyllo", que os phoneticistas reduziram, indevidamente, a um único "filo". Assim, um animal "phyllophago" é o que se alimenta de folhas vegetaes, emquanto um animal "philosopho" se alimenta, figuradamente, de folhas impressas. Pelo mesmo caminho, um ser "aletophyto" é apenas uma planta errante, emquanto um ser "alethophilo" é uma pessoa em busca da verdade. Um "podophilo" jamais se confunde com um "podophyllo", mesmo que o fetichista em questão seja um botanico...
Por ahi se vê como a orthographia etymologica é fundamental para sabermos differenciar um texto "eschatologico" (philosophico) dum texto meramente "escatologico" (fecal), ainda que, no fundo, seja tudo a mesma merda. Quem tem practica não troca as bolas na hora de descrever a cor da crista do gallo, a transparencia do copo de crystal e os espinhos da coroa de Christo...
O importante é conhecer os radicaes gregos, que, a rigor, não se mixturam com os latinos, excepto nos hybridismos. Assim, tanto pode haver um "T" como um "TH" em palavra originalmente grega, a exemplo de "necroterio" (onde o "terio" significa "logar") e em "megatherio" (onde o "therio" significa "fera"), bem como inexiste o "F" em palavra typicamente grega, como "phosphoro", "photographo" ou "philosopho". No caso de "chloroformio", "hyposufficiente", "gypsifero" ou "hydrofugo", o segundo elemento é latino, characterizando o hybridismo.
Si todos usassemos o systema etymologico, ficaria mais facil de entender uma lettra como a da canção "Lingua", de Caetano, quando elle compara os termos "patria", "matria" e "phratria", sendo os dois primeiros latinos e o terceiro grego, este significando "tribu" e trocadilhando com o sentido latino da fraternidade. O hybridismo intencional ficaria mais claro si graphassemos correctamente os hellenismos "hippodromo" e "hypothese", onde "hippo" significa "cavallo" e "hypo" significa "abaixo". Em hypothese nenhuma alguem mixturaria um termo de origem afro como "samba" e um grego como "dromo", mas o brasileiro, anthropophagicamente, consegue transformar um valor cultural afrodescendente em aphrodisiaco, jogando o "F" e o "PH" no mesmo sacco, phenomeno que, como pretendeu Caetano, mais se valoriza quando os phonemas se synthetizam na escripta.
E ja que é para embolar o meio de campo, escolhi como illustração um soneto bem dialectico, tanto no sentido da prosodia quanto na mixtura de procedencias. Até 2010!
SONETO SOLETTRADO [375]
Decifre um abecê no abracadabra. Deduza o delta errado do programma. A formula se grapha com o gamma. Viado tem hiato na palavra.
John Kennedy deu bode; o Lampe é cabra. Mamãe amammentando, o nenê mamma. Do opiparo quitute o aroma chama. O russo arreda o rico e a roça lavra.
Um esse se assemelha ao saxophone. O tu, segundo o verbo, é uma pessoa. Ve dabliu é rei plebeu, sem quem desthrone.
O xiz parece a cruz, que se abençoa. Tem cara de forquilha o pissilone. O ze ziguezagueia, zurze e zoa.
Glauco Mattoso (paulistano de 1951) é poeta, ficcionista e ensaísta, autor de mais de trinta títulos, entre os quais as antologias "VÍCIOS PERVERSOS: CONTOS ACONTECIDOS" e "POESIA DIGESTA: 1974-2004", além dos romances "MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR: AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS" e "A PLANTA DA DONZELA". E-mail: glaucomattoso@uol.com.br