Nosúltimos vinte anos o mundo mudou completamente. Às vezes, chego a pensarque a cidade do Rio de Janeiro, onde nasci, desapareceu.
Diante das inúmeras cenas carnavalescas que a cidadenos apresenta, neste verão de 2009, podemos observar, entre os jovensque circulam nãoapenas na zonasulcarioca – nas dezenas de blocos de rua –, uma forma de viverque faz brilhar a herança recebida porseuspais. Frutoainda da ditaduraque atingiu o paísdurante muitas décadas? Essesjovens, emsuasfantasiasinocentes e estilizadas ounão, buscam incessantemente o riso e a dança. Eles parecem compor o estado de alienação de nossopaís!
Podemos tropeçarnosblocos de rua dos bairros da cidade e, de repente, tanto faz se são 10.00 horas da manhãou 16.00 horas da tarde, desviar a rota e ficar a observar. Algunsnão foram nem anunciados nosjornaisdurante os quatrodias de carnaval, que, agora, se estendem por uma semanaoumais. Os grupos de jovens desfilam com os seusamigos carregando latinhas de cerveja e celulares; seusparesinseparáveis.
Nadacontra o samba. Mas, faz tempoque sabemos quetodosnós, independentemente das classessociais nas quais estamos inseridos, somos incentivados pelas propagandas a beber e a consumirmais e mais.
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O quehojeretorna, enquanto possibilidade de pensamentomeleva a morder a questãoquenãomaisme surpreende, masainda incomoda. Éramos todosfilhos da ditadura. E assim, continuamos.
Ficamos muito amarrados nessa estrutura. Sódepois conseguimos perceberque, emnossosdias, enquanto a bandapassa... nós continuamos os mesmos. Somos aquiloque a sociedade de espetáculoespera de nós. Ou seja: agimos dentro de umprotocolo “carnavalesco”, nemsemprebelo, nemsemprealegre, apenas fazendo o que é esperado e com as fantasiasquenossão cedidas dentro da alienação na qual estamos colocados, ao longo desses diaslongos e encalorados dos trópicos.
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Porque os nossosjovensnãosão incentivados também a fazermanifestações de outraordemquenãoapenas essas de sambar e beber?
Acaso, já vimos eles se levantarem para alguma passeatacomblocos e batucadas, visando preservar, porexemplo, a nossatãogigantescamente poluída Baía da Guanabara?
Seria ummovimento de dimensãocolossal responsabilizá-los e ajudá-los a se mover e a pensar a suaforça, emcampanhascontra as questões sérias quenos atingem diariamente. Umblococontra as queimadas na Amazônia (20% nosúltimos 2 anos, segundo noticiou a TV francesa ou alemã!).
Se a cidadeguarda tantas desigualdades quantobelezasnaturais, a nossajuventude, a minha, e a suatambém, poderiater sido cultivada na direção de atender e atentarpara o quenosrodeia. Mas, o que presenciamos está na direçãooposta a isso: o pensamentocadavezmais obstruído pelafalta de leiturascríticas, e, mesmo pelas festas e seusexcessosque levantam os jovens e os movem noiteadentro, deixando-os bêbados e drogados, navegando ao léu.
Incentivados cadavezmaispelaindústria cultural que aliena, respiramos dentro desse movimento no qual vivemos e permanecemos cadavezmais aprisionados.
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Escutei outrodiaquealgunscursos de línguaestrangeira, emnossacidade, desmontam as suasbibliotecas, jogando fora inúmeros livrosporque a juventudenão se interessa maispelaleitura. Capturados pelas imagens e pelaproliferação do que é visível, emdetrimento do invisível, essesjovens parecem se afastarcadavezmais do que é da ordem da reflexão e da leitura, tantoquanto da memória.
Paraonde foi o desejo de conhecermais do que o de ser informado? A subjetividade de umsujeito consegue se desenvolver se ele, essesujeito, não for incentivado a ler e a pensar frequentemente? O desejo de descobrir, fazendo uso do imaginário, no prazer da leitura se instala se assimconseguir o leitor se ligar ao texto lido, noiteadentro, viajando emletrassempassaporte e atravessando povos e línguas.
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Estamos, muitos de nós, preocupados empreservar o mundo e o aremque vivemos. Masquecrianças e quejovens estamos deixando parahabitaressemundo?
Como podemos pensar o nossolegado nas mãos de adultosquenunca lerão Machado de Assis, Franz Kafka, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Proust, Borges, Calvino, Beckett, Drummond e tantosoutros. Ummundosem as impressionanteshoras de intimidade e mistério?
Constato que as bibliotecas sofrem comessemomento de transformação, e com o lugardado ao livro. Em 2008, váriossebos de Paris fecharam as portassimplesmente. Outros esperam que a internet ocupe esseespaço. No Brasil, há os que, de fato, acreditam quejá se dá talprocesso.
Entre os escritores as opiniões divergem.
Nunca recebi pelocorreiotantoslivroscomoagora. Será que a procuraprimordialparaquem escreve é porleitores?
O livro e suaforça, suadensidade, continuam a existir.
O livrocomo uma outramão, nosajuda a firmar a vida.
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Filhotes da alienaçãoounão, precisamos sair desse sono perturbador.
Algunsprofessores afirmam que nas universidadeseles têm umtrabalhoinfinito buscando transmitirleiturasimportantes e, ainda, o respeitoque parece nãotertantolugar no mundo de hoje.
Nesse mundosemmemória, a atividadeintelectual parece tambémpadecer da fadigaquesólhe dá comoremédio a superficialidade, a diversão e a festa!
Solange Rebuzzi é carioca, poeta e psicanalista. Publicou Leblon, voz e chão e o ensaio Leminski, guerreiro da linguagem (7Letras). Site: www.solrebuzzi.comE-mail: solrebuzzi@uol.com.br
Publicações de um autor no Cronópios
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