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Alfredo Suppia
      
1/3/2009 21:55:00 
Antes e depois


Por Solange Rebuzzi

 

Nos últimos vinte anos o mundo mudou completamente. Às vezes, chego a pensar que a cidade do Rio de Janeiro, onde nasci, desapareceu.

Diante das inúmeras cenas carnavalescas que a cidade nos apresenta, neste verão de 2009, podemos observar, entre os jovens que circulam não apenas na zona sul carioca – nas dezenas de blocos de rua –, uma forma de viver que faz brilhar a herança recebida por seus pais. Fruto ainda da ditadura que atingiu o país durante muitas décadas? Esses jovens, em suas fantasias inocentes e estilizadas ou não, buscam incessantemente o riso e a dança. Eles parecem compor o estado de alienação de nosso país!

Podemos tropeçar nos blocos de rua dos bairros da cidade e, de repente, tanto faz se são 10.00 horas da manhã ou 16.00 horas da tarde, desviar a rota e ficar a observar. Alguns não foram nem anunciados nos jornais durante os quatro dias de carnaval, que, agora, se estendem por uma semana ou mais. Os grupos de jovens desfilam com os seus amigos carregando latinhas de cerveja e celulares; seus pares inseparáveis.

Nada contra o samba. Mas, faz tempo que sabemos que todos nós, independentemente das classes sociais nas quais estamos inseridos, somos incentivados pelas propagandas a beber e a consumir mais e mais.



*

 

 

O que hoje retorna, enquanto possibilidade de pensamento me leva a morder a questão que não mais me surpreende, mas ainda incomoda. Éramos todos filhos da ditadura. E assim, continuamos.

Ficamos muito amarrados nessa estrutura. depois conseguimos perceber que, em nossos dias, enquanto a banda passa... nós continuamos os mesmos. Somos aquilo que a sociedade de espetáculo espera de nós. Ou seja: agimos dentro de um protocolocarnavalesco”, nem sempre belo, nem sempre alegre, apenas fazendo o que é esperado e com as fantasias que nos são cedidas dentro da alienação na qual estamos colocados, ao longo desses dias longos e encalorados dos trópicos.

 

 

*

 

 

Por que os nossos jovens não são incentivados também a fazer manifestações de outra ordem que não apenas essas de sambar e beber?

Acaso, vimos eles se levantarem para alguma passeata com blocos e batucadas, visando preservar, por exemplo, a nossa tão gigantescamente poluída Baía da Guanabara?

Seria um movimento de dimensão colossal responsabilizá-los e ajudá-los a se mover e a pensar a sua força, em campanhas contra as questões sérias que nos atingem diariamente. Um bloco contra as queimadas na Amazônia (20% nos últimos 2 anos, segundo noticiou a TV francesa ou alemã!).

Se a cidade guarda tantas desigualdades quanto belezas naturais, a nossa juventude, a minha, e a sua também, poderia ter sido cultivada na direção de atender e atentar para o que nos rodeia. Mas, o que presenciamos está na direção oposta a isso: o pensamento cada vez mais obstruído pela falta de leituras críticas, e, mesmo pelas festas e seus excessos que levantam os jovens e os movem noite adentro, deixando-os bêbados e drogados, navegando ao léu.

Incentivados cada vez mais pela indústria cultural que aliena, respiramos dentro desse movimento no qual vivemos e permanecemos cada vez mais aprisionados.

 

 

*

 

 

Escutei outro dia que alguns cursos de língua estrangeira, em nossa cidade, desmontam as suas bibliotecas, jogando fora inúmeros livros porque a juventude não se interessa mais pela leitura. Capturados pelas imagens e pela proliferação do que é visível, em detrimento do invisível, esses jovens parecem se afastar cada vez mais do que é da ordem da reflexão e da leitura, tanto quanto da memória.

Para onde foi o desejo de conhecer mais do que o de ser informado? A subjetividade de um sujeito consegue se desenvolver se ele, esse sujeito, não for incentivado a ler e a pensar frequentemente? O desejo de descobrir, fazendo uso do imaginário, no prazer da leitura se instala se assim conseguir o leitor se ligar ao texto lido, noite adentro, viajando em letras sem passaporte e atravessando povos e línguas.

 

 

*

 

 

Estamos, muitos de nós, preocupados em preservar o mundo e o ar em que vivemos. Mas que crianças e que jovens estamos deixando para habitar esse mundo?

Como podemos pensar o nosso legado nas mãos de adultos que nunca lerão Machado de Assis, Franz Kafka, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Proust, Borges, Calvino, Beckett, Drummond e tantos outros. Um mundo sem as impressionantes horas de intimidade e mistério?

Constato que as bibliotecas sofrem com esse momento de transformação, e com o lugar dado ao livro. Em 2008, vários sebos de Paris fecharam as portas simplesmente. Outros esperam que a internet ocupe esse espaço. No Brasil, há os que, de fato, acreditam que se dá tal processo.

Entre os escritores as opiniões divergem.

Nunca recebi pelo correio tantos livros como agora. Será que a procura primordial para quem escreve é por leitores?

O livro e sua força, sua densidade, continuam a existir.

O livro como uma outra mão, nos ajuda a firmar a vida.

 

 

*

 

 

Filhotes da alienação ou não, precisamos sair desse sono perturbador.

Alguns professores afirmam que nas universidades eles têm um trabalho infinito buscando transmitir leituras importantes e, ainda, o respeito que parece não ter tanto lugar no mundo de hoje.

 

Nesse mundo sem memória, a atividade intelectual parece também padecer da fadiga que lhecomo remédio a superficialidade, a diversão e a festa!

 

 

 

Solange Rebuzzi é carioca, poeta e psicanalista. Publicou Leblon, voz e chão e o ensaio Leminski, guerreiro da linguagem (7Letras). Site: www.solrebuzzi.com E-mail: solrebuzzi@uol.com.br

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