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15/09/2008 18:31:00 
DFW


Por Caetano Waldrigues Galindo



Não tem nem uma hora que eu soube do suicídio de David Foster Wallace. Mal dei conta da notícia, quando uma ex-aluna mandou um linque para um obituário. Simplesmente não parecia possível. Como a morte. Como a morte de alguém querido.

 

Não parecia concebível.

 

E, não, eu não conhecia David Foster Wallace. Jamais o vi. Nunca trocamos duas palavras. Mas, por mais sem sentido que isso possa te parecer, eu o contava entre as pessoas que me eram efetivamente caras nesse mundo.

 

Li tudo que ele publicou. Em livros, em revistas literárias, na imprensa. De um artigo sobre Roger Federer como exemplo da experiência religiosa à ficção de juventude que ele preferia provavelmente que ninguém lesse. Tenho como meu conto favorito de autor vivo (vivo...) um conto que ele jamais pubicou, mas leu em voz alta em uma palestra. Já ouvi aquele conto (ou talvez fosse um fragmento de um romance), se não me falha a memória, pelo menos cinco vezes. A última delas há menos de quinze dias.

 

Comecei pelo catatau Infinite Jest, romance de 1079 páginas que muito rapidamente virou objeto de culto entre um grande grupo de leitores. Depois li o primeiro romance, The Broom of the System, e os livros de contos (um deles, Breves entrevistas com homens hediondos, publicado no Brasil), inclusive Oblivion, que para mim é sua obra-prima, os ensaios... Tudo.

 

Escrevi sobre ele para este jornal, falei dele em aulas com quase todos os meus alunos, analisei minuciosamente por dois semestres seguidos um de seus contos curtos, publiquei traduções em revistas literárias online e de papel, imitei seu estilo, plagiei suas piadas. Estava na verdade revisando outro texto sobre ele para uma revista quando soube da morte.

 

Porque eu não valho nada. Não é por mim que eu estou te dizendo isso.

 

O que me levou a correr desse jeito atrás dos textos de David Foster Wallace (eu comprei uma primeira edição autografada de Infinite Jest, minha única extravagância dessa natureza até hoje) foi uma enorme vontade, que só foi crescendo com quanto mais eu lia, de abraçar o cara.

 

Metafórica e literalmente.

 

Queria assimilar o que ele produziu e queria realmente dar tapinhas nas costas daquele cara. Apertar o indivíduo e agradecer. (Tenho no meu computador uma carta de agradecimento que jamais enviei.)

 

Ele provavelmente é o escritor que mais mudou a minha forma de ver o mundo e as pessoas. Ele e Joyce. Mas na verdade ele foi responsável por uma mudança no meu jeito de ler Joyce. No fato de meu interesse dentro da literatura ter se deslocado um pouco da forma para as pessoas, a gentinha, os cada-uns.

 

E ele era bom formalmente, incrivelmente inventivo com a língua e com os moldes literários. Original, profundo, criativo, único mesmo.

 

Mas o que dele mais ficava em mim, depois do pasmo diante da infinita capacidade do fulano de transformar, de novo, o inglês na língua mais plástica do mundo, de reconhecer o peso e a graça de todas as variedades possíveis do inglês e de a todas elas dar o seu toque mágico pessoal, o que mais me tocou foi o quanto aquele cara parecia generoso.

 

A persona que se depreendia dos ensaios, especialmente, era, sim, a de um sujeito torturado. Mas, acima de tudo, de um sujeito muito interessado nos outros, no que todos temos de igual, de humano, de doloroso e de bonito.

 

Todos agora vão lembrar de um conto chamado Good old Neon, das Breves entrevistas, em que ele narra o que seria uma putativa conversa dele (David Wallace, no conto) com um amigo que, ele soube, cometeu suicídio.

 

Mas, para mim, o que mais há de ficar como lembrança dele, e do paradoxal gesto de desespero cometido pelo cara que mais que qualquer um me ensinou a tentar ver o mundo e os outros com simpatia, empatia, compreensão, interesse é o discurso de formatura que, há poucos anos, ele fez para uma turma de alunos da universidade Kenyon. Você pode procurar na internet, se lê inglês.

 

O que existe ali é uma bela aula de humanismo, aquela coisa que David Foster Wallace parecia prezar acima de qualquer outra em sua literatura, em suas reflexões publicadas.

 

Aquela coisa perfeitamente encapsulada na frase mais importante da literatura clássica, o sou humano e nada de humano me é estranho, de Terêncio.

 

Perfeitamente encapsulada, também, numa conversa que tive com o Joelso, entregador de livros da livraria cultura que, quase citando, talvez sem saber, aquele dito discurso de formatura, me contava.

 

Eu, quando alguém me fecha no trânsito, não saio gritando e xingando que nem muito motoqueiro por aí. Eu penso assim, vai que aquela pessoa teve um dia difícil, uma notícia ruim. E dou um desconto. Humanismo, né?

 

É. O Joelso tem razão.

 

David Foster Wallace também concordaria com isso.

 

E é por isso, quase que unicamente por isso que eu não posso dizer que acho incompreensível o gesto daquele homem de 46 anos, encontrado enforcado quando sua mulher chegou em casa na sexta-feira passada, 12 de setembro (será mera coincidência a proximidade com o 11/9?).

 

Ele era humano. Só ele entendia a sua dor, mas ele me fez entender que posso, eu também, compreendê-la como possivelmente minha, como parte do meu mundo.

Como a dor, como a morte de um amigo.

 

Descanse em paz, David Foster Wallace.

 

Eu vou ficar com muita saudade de você.

 

Lembre, você que está lendo, que ele morreu, mas deixou tudo aquilo que, nas palavras de uma crítica americana, pode te deixar menos sozinho entre as pessoas e mais humano junto a elas.

 

Leia.



                

 

 



Caetano Waldrigues Galindo é professor de lingüística histórica na Universidade
Federal do Paraná. Já publicou traduções do romeno (Lucian Blaga), do inglês (Djuna Barnes, Charles Darwin e John Gay. No prelo: Christopher Marlowe, com Luís Bueno) e do italiano (Il comico, D’angeli e Paduano). É o pierremenárdico autor de uma tradução inédita do Ulysses, de James Joyce. E-mail: olapaonahileia@hotmail.com

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