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Um litrão de amor
por Fabrício Carpinejar





 
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Guido Bilharinho


Medéia: lenda e arte
por Guido Bilharinho




Os vivos e os mortos
por Guido Bilharinho




O universo fechado
de Cornélio Pena

por Guido Bilharinho




Teatro, romance e cinema - Do Convencional ao Inventivo
por Guido Bilharinho




Martín Fierro - O Poema e o Filme
por Guido Bilharinho




A nova arte
por Guido Bilharinho




Coyote e Papa-Léguas - Contingências e Circunstâncias
por Guido Bilharinho




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por Guido Bilharinho







 


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25/07/2010 19:08:00 
Medéia: lenda e arte


Por Guido Bilharinho



      
  


          A Lenda

        Se não há nada - e não há - mais grandioso em imaginação, poesia e sabedoria do que a mitologia grega, não há nela, provavelmente, nada mais trágico e sanguinário do que a lenda de Medéia.
       
Os crimes mais espantosos e a violência mais inaudita percorrem as sagas mitológicas, mas nenhum deles atinge a exacerbação, a maldade, o cálculo frio e o desespero agônico de Medeia, que oscila e age nos pólos adversos de amor intenso e total e de ódio e vingança ilimitados.
       
Quando o filme Medéia (Medea, Dinamarca, 1987), de Lars von Trier, inicia, a protagonista e Jasão já estão em Corinto, fugidos e exilados.
       
Contudo, antes disso e para se entender o que vai ainda acontecer, constituindo o episódio mais conhecido e divulgado da trajetória de Medéia, é necessário recapitular, conforme relatado nas obras que tratam do assunto, mesmo que sumariamente os antecedentes que os levaram, a ela e a Jasão, seu esposo, onde se encontram ao iniciar-se o filme.
       
A origem de tudo remonta a Iolco, onde reina Éson, pai de Jasão, que à semelhança do pai de Hamlet é atraiçoado pelo próprio irmão, Pélias. Depois de salvo pelo estratagema dos pais, em episódio análogo ao mais tarde ocorrido com Herodes a buscar Cristo menino para assassiná-lo a fim de eliminar um concorrente, passado algum tempo Jasão volta, dá-se a conhecer, desafia Pélias e é-lhe prometido o trono se trouxer o Tosão de Ouro.
       
Construída a maior embarcação até então, a Argo, Jasão reúne o grupo de guerreiros que irá acompanhá-lo na aventura, que encontra paralelo nas andanças marítimas e terrenas de Ulisses.
       
Em Quios, o grupo perde o herói Hilas, aprisionado pela ninfa que por ele se apaixona, bem como Hércules, que não voltaria ao navio.
       
Na península da Propôntida, onde aportam, acontece a festa de casamento do rei Cizico e sucede inesperada tragédia, após a qual Jasão e seus amigos partem.
       
Na Trácia, os argonautas travam batalha com as harpias, que atazanavam a vida do rei Fineu, detentor de dom profético, que delineia ao grupo seus próximos passos até a Cólquida, onde se acha o Tosão de Ouro.
       
Aí Jasão conhece Medéia, filha do rei Eetes, que por ele se apaixona e o auxilia, após vários perigos e peripécias, a conquistar o Tosão, traindo o pai e a pátria e fugindo com o amado e o referido troféu.
       
No mar, perseguida a Argo pela frota de Eetes, Medéia comete seu primeiro grande crime hediondo, matando e retalhando o corpo de seu irmão, Absirto, e jogando seus membros ao mar, onde a frota do rei, reconhecendo-os, dedica-se a recolhê-los, dando tempo para o grupo fugir, livrando-se da perseguição.
       
Finalmente, na ilha onde governa o célebre rei Alcínoo, a frota encontra a Argo, que, protegida por esse rei e sua esposa, mais uma vez livra-se da perseguição e prossegue viagem rumo à Grécia.
       
Em Iolco, Pélias recebe o Tosão de Ouro e nega-se a cumprir a promessa de devolver o trono a Jasão, desenhando-se então a perspectiva de luta entre eles.
       
Medéia, com artimanhas, consegue que as próprias filhas de Pélias, que muito o amavam, o matem, decorrendo da descoberta do crime a fuga de Jasão e Medéia, que se dirigem a Corinto.
       
Aí acontece a grande tragédia de sua vida, que a celebriza como a figura mais trágica (e obsessiva) da mitologia grega.


          O Filme

        Trier, inspirado em antigo projeto de Carl Theodor Dreyer, com base na peça homônima de Eurípedes, inicia o filme no ponto em que Medéia foi repudiada por Jasão para se casar com Creúsa, filha do rei Creonte.
       
Na peça, sua lamentação é explícita e expressa: “Como sou infeliz! Que sofrimento o meu,/ desventurada/ Ai de mim! Por que não morro? [....] Pobre de mim! Que dor atroz! Sofro e soluço/ demais”, conforme tradução de Mário da Gama Curi (Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1991). Ou “Ah! Como sou infeliz! Sofrimentos cruéis! Ai de mim! Ai de mim! Por que não posso morrer? [....] Ai de mim! Sofro, desventurada, sofro, e não posso conter meus gritos de dor”, na versão de Miroel Silveira e Júnia Silveira Gonçalves (São Paulo, Vítor Civita Editor, 1976).
       
Isso, porém, é teatro, que se concretiza e existe por meio de palavras. Em cinema, o que se tem (e sempre se deve ter) é muita imagem e pouco verbo, que é o que Trier faz, num filme belíssimo, em décors e locações depuradas como o eram nas apresentações teatrais gregas, no qual o desespero de Medéia configura-se pela imagem inaugural de mulher abandonada na praia, sob o preto das vestes contrastantes com as cores da areia e do mar, que pouco a pouco a encobre e quer tragar em abraço tão macio quanto mortal, em simbolismo físico da condição emocional da personagem, bloqueada e massacrada sentimental e emocionalmente, mas, que sob os perigos mortais do engolfamento aquático e emocional, reage com vigor e começa a trançar as teias da vingança mais atroz que é possível ser realizada.
       
O cineasta constrói tomada por tomada, cena por cena, ângulo e enquadramento por ângulo e enquadramento, essa trajetória sob as cores ambientais pontuadas pelo negror da veste de Medeia.
       
Sob a máscara de fisionomia serena, mas, expressiva, o sofrimento, que no filme não se lamenta, mas, interiorizado, é vivido, vai tomando forma e consolidando-se em deliberação que se concretiza em atos executados com a artimanha da sabedoria e do conhecimento da maldade, como exprime o rei Creonte para justificar a expulsão de Medeia de Corinto, que, por sua vez, lhe diz que “nada provoca mais dor do que o amor”.
       
A ação fílmica desenvolve-se criativamente, estando cada imagem e o que nela se contém estruturados pictórica (na expressividade das cores, dos objetos, das vestes e dos quadros imagéticos com eles formados), teatral (na postura e movimentos das personagens) e cinematograficamente (na reunião e síntese desses e dos demais elementos convocados à feitura do filme), construindo Trier desses e sobre esses fatores nova obra de arte na expressividade de cada objeto e no conjunto formado, em que as palavras são as essenciais e os diálogos, os indispensáveis. A ação, os objetos e suas imagens sobrepõem-se e impõem-se.
       
Por sua vez, a tragédia acontece. Porém, mercê do depuramento assinalado, destituída da fácil grandiloquência dos extravasamentos exagerados. A face horripilante dos fatos concentra-se na sua própria imagem e não em manifestações emotivas de desespero. Sua revelação visual basta a infundir-lhes e transfundir-lhes todo o horror trágico que contêm, perdurável, por sua força intrínseca, no imaginário humano transmitido, primeiro, pela tradição oral e, depois, pelo teatro e, mais recentemente, pelo cinema, no encontro da lenda e da arte, ambas produtos maiores da imaginação e da criatividade humana.





                                                 * * *



Guido Bilharinho é da cidade de Conquista na Região do Triângulo. É poeta, ensaísta, advogado e editor. Foi editor da revista internacional de poesia Dimensão e da revista Convergência da Academia de Letras do Triângulo Mineiro. É membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, da qual foi presidente. E-mail: institutotriangulino@yahoo.com.br

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