Café Literário Cronópios




Nuance autobiográfica
por Denise Alves dos Santos




 
ALGARAVÁRIA


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Alfredo Suppia
      
21/9/2006 19:31:00 
Poesia vária


Por vários autores




Paulo de Toledo

 








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Angélica Freitas


 

r.c.

os grandes colecionadores de mantras pessoais não saberão a metade/ do que aprendi nas canções/ é verdade/ nem saberão/ descrever com tanta precisão/ aquela janela da bolha de sabão/meu bem eu li a barsa/ eu li a britannica/ e quando sobrou tempo eu ouvi/ a sinfônica/ eu cresci/ sobrevivi/ a privada de perto/ muitas vezes eu vi/ mas a verdade é que/quase tudo aprendi/ ouvindo as canções do rádio/ as canções do rádio/quando meu bem nem/ a verdadeira maionese/ puder me salvar/ você sabe onde me encontrar/quando meu mundo cair/ e a luz faltar/ num cantinho do meu quarto/ vou estar/com um panasonic quatro pilhas AAA/ ouvindo as canções do rádio

 



oh jack, estou voando

pra você, de blusa verde, e pra você, que teve um dia de merda hoje

meu bem, vou comprar a varig
é tudo que sempre quis
meu bem, vou comprar a varig
e salvar este país

pode parecer besteira
gastar milhares
de milhas e dólares
pra sarar a altaneira

companhia voadora
pra depois que estiver sã
tantararantantan
chegar a american

vai querer comprar, a american
mas não estará a venda, ó american
decola logo daqui, vai american
manda um beijo pro bush, tá american

e depois vai chegar
numa espécie de transe
oh la la
a air france

vá-se embora daqui, vas-y
nem adianta sivuplê, beibê
vamos servir croissant, benhê
no dejeuner du matin, manhê

e depois vai aterrissar
aquela que não descansa
ach du lieber gott
a lufthansa

nein nein nein, non tá pra fenda
guarde os óirros pra gasolina
que amanhã no aerofristique
nós fai serrrrfir uns berliner

meu bem, vou comprar a varig
que nos eua vira verig
na argentina enfim é barig
e aqui não tá varigud

mas meu bem, vou comprar a varig
é tudo que eu sempre quis
meu bem, vou comprar a varig
e salvar este país

 

 
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Daniel Sampaio

 


Cabíria



a noite sarra a barra de tua saia

a vida são sempre mambos & mambos pra putas & putas

(menos tu)

e se fosse pra sofrer, deixa a gueixa

andar pierrô

 


 

Claro enigma




perdido
atrás da porta:

ouve-se um barulho,
houve-se só

claro enigma
na conversão do escuro

frente à porta
da parede surda

 

 

 

 



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Thiago Ponce

 


Sorrateira

É torcer para não fugir
Um estalo
Foi -
Seria

 


 

Mirabilia


parar por ora esse
monumento mínimo

movimenta-se em
dúvida

inseparável face
ao acolhimento
amanhã desejado,
ele existe

uma urna, excitação
em si
nua mudez
do gesto
miúda
a se
por sua vez
insinuar

rasas

curvaturas, oras,
, estreitas, ínfima
figura posta
entre
lapsos

embora rezes
imprecisas
preces supliques
hesitas
disparar

 

 

 


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Franciele Spohr


 

(sem título)

 

Não vale a impressão
Odeio ser tão seca e vazia.
E ter que fazer tanto alvo e terra e tanta carne dessa própria aridez.
Nunca é exagero ou forçado, mas a verdade é que o sertão sou eu,
e nem posso pleitear assistência nem benefício,
não pego nem bem o folclore ou o suplício,
eu nem tenho o direito adquirido
por legítimo pitoresco
de rimar.
Pode me chamar de ?o meio?,
por onde eu me rasgo,
espichando as pernas cada vez mais,
um lado me chamando no outro.
Eu me penduro em janelas opostas
como uma calça se esvaindo no esquecimento da disputa,
onde mesmo eu queria ser?
Já não dá tempo de ser roubada.
O que não sobra de mim também se desperdiça.
Foi o mundo que nasceu apertado, ou eu que evaporei.
Nova hora de o chapeleiro trocar de cabelo.

 


Dá pra fazer sol de longe

Eu me concentro na luz do amarelo pra caber num cordão verde que nunca desamarre.
Pode parecer patriotismo, mas minha terra tem mais cores do que cabe contar;
parece charada, mas é o que não era mas seríamos se tivesse sido na semana passada há tempos atrás;
quem não gosta de passear de tapete
nos cabelos, pela realidade que faz fora lá dentro?
Eu me concedo não ser pecado nos dias santos,
por isso,
pra quem está mesmo vivo,
pode tudo trezentos e sessenta e todos os outros dias por ano.
Eu existo todos os pedaços,
como se fosse o balanço no abraço com pimenta de açúcar e um salto pra cima até cair no mar do que.
Ponto infinito
de lã
macio pra rima e pro frio.
Eu me concentro na luva.

 



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Carlos Besen


 

Pulso de vestígio


I

O leito:

uma câmara de ecos
para os apelos da pele.

O corpo queima
suas paisagens
sob os lençóis.

Durmo,
estou vestido
como pálpebra.


II

Meus anseios rotos
são esféricos
como pupila,
rolo amarelo.

Coroamento solitário,
guerreio para devolver
os fósforos celestes
às pestanas,

retorço córneas gastas.


III

A noite me envolve,
envelope,
sempre para o mais escuro.


IV

Remetido para a lucidez,
o dia encarna para os olhos.

A flor da íris repõe em mim
o coração lusco-fusco.

 

 

Pedagogia do rio


I

Um rio pedagogo:
o abraço da água alfabetiza
o esforço do equilíbrio.

Eu me embaralho,
as pernas:

dois lábios esquecidos
do destino de boca.


II

Rio,
um lírio desigual.


III

Minha mão colhe a correnteza
e a constelação da alga:

o rio corre o céu,
espelho de coral.


IV

A água que se alastra
como a estação no pássaro:

estrutura mineral do fogo,
quando anda.


V

Esfriar a assimetria
com que passo:
permito cicatrizes
para desaparecer,

cesso a impureza
para advir.


VI

A alegria do rio chia
os favos da labareda,

o cansaço de proibir
um segredo.


VII

A água ensina a macular
para dividir.

 

 

 

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Daniela Ramos

 



(sem título)

 

- É assim que a vida passa
a proa
os passageiros atrás
em direção ao rio mar delta
ainda não o delta, nem tenho amor
mas um dia em Parnaíba ou em comunidades ribeirinhas,

da amurada deste barco
não há mais os seios da sereia
já não o que era o que acontece no meio do caminho que muda e as pegadas se apagam e então se perde e então se ganha e então se acha tudo de novo e uma alegria e outra e depois o deserto, e rio,

disposição triangular.

 


(sem título)

 

Me escreve junto,

com as piores dores ressentidas, um poema não tem forma. Ele vaga (rasga), encarna. Estamos igualmente damaged.
Damaged people. Permanentemente danificados.

 

 




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Carol Custodio

 


Virtuoso(a)(e)

De si
Nunca diria nada
Apenas dividiria
Coisas sem importância
Coisas de fazer
rir
De si
Mas nunca diria nada.

 


Casa Antiga

Andar por dentro de tuas fronteiras macias, tua arquitetura
Sendo você como se faz, assim, minha casa
Teus salões, olhos
Tua pele, o fino cal que transcende
Pelo sol sobre as paredes calmas.

O vento espalma o temperamento das alturas
O leite derrama seus insucessos
Os olhos emergem como plumas negras
Faz-se novamente a dança
Em teu perfume azeite
Em tuas costas chãs

E me pergunto e volto se volto
Envolta em teus lacres sagrados
Três dobras em três noites perpétuas

Devolva meu sentido.

 

 




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Douglas Dias

 


(sem título)

 

o menino que em mim ainda brinca de chuva
retém a dor das noites vazias
enquanto deságua esperanças afluentes
inventando felicidade na beira do rio

[rememora]

nessas águas barrentas de deserta candura
nesse peito encharcado por lembranças ribeirinhas
aos que partem, roga
aos que ficam, ora

 


(sem título)

 

pequenos homens
feitos de silêncio e medo
escondem a esperança
debaixo das vestes
e sob os olhos de deus
e sob a graça dos anjos
ruminam nosso destino
cuspindo dor
evacuando sonhos
&
selando-nos os olhos

nós

os que padecemos na fé
os que fingimos na dor
os que escrevemos lamentos
os que sangramos poesia
os que fomos um dia
abortados de toda aurora
esquecidos de todo amor
acamados de todo sorriso
qual criança sem cata-ventos
num domingo azulado
quando o que mais se quer
é tão somente
um instante de carinho

 

 




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Felipe K.

 

 

tankas

I

rumor de sombras:
som de mar numa concha
lua a calcinar
o teu rosto na areia -
ébrio de amor te avistei.

II

rajar de vento
onda cravada no chão
água pelos pés -
nossos passos na areia
assistem à ressaca

III

de novo noite
solitária entre vultos
de estrelas - você
aflora junto à lua
como se ferisse o céu

 


 

tankas sobre a infância

I

"como cresceste!"
seis anos numa frase
da tia no hall -
infância de demoras
como o tempo a se estirar

II

cinco pessoas:
pai mãe dois filhos homens
e uma menina -
retrato para o sempre -
velha sépia a contrapor

III

certa vez ouvi:
"ojiichan foi pro céu!"
não dei ouvidos
à noite fui buscá-lo
em minha nave azul

IV

da janela vi
o telhado da casa
um gato saltou
sobre o muro mais alto
(depois acho que cresci)

 




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Pablo Araújo

 

 

(fragmento)


a sarça
......o fogo que a engole.
as coisas quase posicionadas
.....:.....sempre será preciso partir.
os trabalhos e os crimes são enormes.
......outros nomes.
o instinto das convocações
......:......pois têm de ser feitos
o fogo
......a sarça......as coisas......:......fazemos
mas não fazemos.
......o nome enquanto.

 


 

(fragmento)



fúria
.......:.......e não destrói as coisas.
coloca-se cada coisa no próprio lugar
arruma-se
.........e pronto.......:.......o que não há de chegar
o que há
.......:.......não move sequer um passo
o centro do gesto
.........inteiro.........definitivo.
antes e depois
.........ainda enquanto.
.............................:.......por quantas vezes
ler tudo isto
............e não se sabe ler.

 



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