12/07/2011 00:49:00
Arte e representação em nossa sociedade pluralista e mutante
Por Amador Ribeiro Neto
 Botho Strauss - foto: Ruth Walz
Botho Strauss é alemão e hoje tem 67 anos de idade. Jornalista, poeta, ensaísta, romancista e dramaturgo, vive em Berlim e sempre usou o teatro como atividade motora de seu processo criativo.
Pense em alguém que conhece e domina a linguagem teatral. Possui um invejável repertório sobre pintura. Discorre sobre cinema a fundo. Tem olhos críticos para a sociedade contemporânea. E escreve deliciosamente bem, enfeixando todos esses elementos.
Você está diante de Botho Strauss e de seu romance Um homem jovem, em tradução de Lya Luft. Em tempo: esqueça a escritora água com açúcar: detenha-se na tradutora que sabe adentrar muito bem o universo straussiano.
Se no mundo atual o cotidiano é vazio, ou preenchido por futilidades, deixando o homem sem chão e sem utopias, a postura do autor é outra. Ele aposta na transformação das relações interpessoais e sociais.
À visão não-utópica do pós-modernismo, Botho Strauss contrapõe o elogio da crise enquanto princípio reorganizador da vida.
Em seu romance, Leon Pracht, o jovem diretor teatral, tem um ousado projeto: fundar um movimento da arte de representação. Sai-se bem na montagem de Senhorita Júlia, de Strindberg, mas é vencido com As criadas, de Genet. As atrizes se rebelam contra sua direção. Não enquanto atrizes: como personagens. E, mais uma vez, de Pirandello a Woody – A rosa púrpura do Cairo – Allen, passando pelas inumeráveis histórias em quadrinhos, as personagens enfrentam o seu criador.
A obra criada grita por sua autonomia.
Leon reconhece sua incapacidade: "Não tenho doutrina, teoria, visão de uma arte teatral", e quer recuar. Rumo à casa do pai – um porto seguro. Mas, sufocante.
Resta a rua e seu fascínio.
Mais que a rua: a floresta que há no final dela.
Assim como a força das personagens vence a resistência do diretor de teatro, o romance de Botho Strauss desafia a inteligência do leitor. À lógica o autor propõe a fantasia. Ao consciente, os arquétipos insondáveis do inconsciente. Ao raciocínio linear, a reflexão fragmentária.
Por isso o leitor não deve incomodar-se quando o chão lhe fugir aos pés – à semelhança do que acontece com a vendedora de pedras preciosas, que acorda com a cama a balançar solta no espaço por entre os edifícios.
Tudo é possível. Da procissão comandada pelo "Rei dos Pedreiros", bêbado, e seguida por cozinheiros, físicos, faxineiros, processadores de dados, motoristas de ônibus, modelos fotográficos ao enterro do "Pior dos Alemães" ao qual acorrem o Capitalismo, o Marxismo, o Mestre Progresso, Orgulho Nacional, os Superinformados, os Idiotas Intelectuais, etc. Sem contar o "Cabeça dos Alemães", ser híbrido de Carpa e Homem (do Homem, apenas a cabeça) movendo-se dentro de um aquário.
Ou os syks, habitantes de uma reserva ecológica a 25 km de Colônia, livres do trabalho e da luta pela sobrevivência. Amantes das relações lúdicas, para os quais "a combinação valia mais que a inovação" e a lógica do progresso era substituída pela fantasia unificadora.
Pacíficos, os syks, sem enfrentamentos com o Estado, a Natureza ou qualquer coisa, cultivavam a fábula e incentivavam a fantasia. Para eles todo o saber é feminino e, contrariamente ao princípio judaico-cristão, "o ser humano não é a coroação da Criação, mas o primeiro passo no caminho infinito do Universo".
Não é por menos que o narrador passa dias e noites entre os syks. Com eles está a morada do ser e da palavra. Das personagens e do narrador.
Quando é obrigado a deixar esta comunidade e está entre amigos da cidade (como Reppenfries, Almut, Yossica, Paula Dagmar), Leon sabe que "quem jamais amou direito a mulher certa quererá amar a todas". Segue-se um belíssimo diálogo sobre o Amor. O Banquete, de Platão, é revisitado sob o olhar da contemporaneidade.
Por fim, se a angústia de Almut avança com a tesoura contra uma tela de Morris Louis danificando-a e se Alfred Weigert se transforma em Ossia, um personagem que ele próprio criou para o cinema, é que a vida e a arte, embora distintas, possuem molduras flexíveis. Tão flexíveis, que para Ossia o nome do velho amigo Leon Pracht, 15 anos depois, "soa como um personagem de Julien Green" (!).
Ator/personagem. Personagem/ator. Personagem/personagem. A arte assume a função de instrumento decodificador da vida.
Um homem jovem. O romance é uma aula da arte de representar. E passa a ser uma aula da arte de re(vi)ver.
Com Botho Strauss estão atadas as duas pontas da vida: arte e representação numa sociedade pluralista e mutante.
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Amador Ribeiro Neto é professor de Teoria da Poesia e Literatura Comparada na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Mestre pela USP e Doutor pela PUC-SP. Autor de Barrocidade (poesia - Landy edit.) e organizador e co-autor de Muitos: outras leituras de Caetano Veloso (ensaios - Orobó Edições). E-mail: amador.ribeiro@uol.com.br |