Café Literário Cronópios

A insubordinação da palavra
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Frederico Füllgraf


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Isabelle Eberhardt, a filha de Rimbaud
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A queda do muro, segundo Heiner Müller
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23/03/2012 16:42:00 
No café com a Stasi


Por Frederico Füllgraf

Crônica: O recém-eleito Presidente da Alemanha, Joachim Gauck, foi fiel depositário e investigador dos arquivos secretos da StaSi, a polícia secreta da ex-RDA. E esta é uma crônica de um encontro deveras insólito.

*

A Alemanha tem um novo Presidente: Joachim Gauck, eleito em 18 de março de 2012, pela Assembleia Federal Alemã, ganhou fama como primeiro Delegado Federal para a investigação dos arquivos secretos da Stasi, a polícia política da ex-RDA.

Embora não fosse figura de proa do movimento popular que culminou com a queda do Muro, em 1989, Gauck, cujo pai fora sequestrado e preso na União Soviética, encarna como poucos alemães o embate traumático entre as razões de Estado de uma república socialista, autoritária, e o postulado das liberdades individuais: milhares de cidadãos foram espionados, denunciados, tiveram suas vidas devassadas, sofreram repressão, e impedidos de exercerem suas profissões.

Já quem vivia em Berlim Ocidental, de cuja perspectiva é narrada a presente crônica, desfrutava o privilégio do "trânsito", isto é, podia visitar Berlim Oriental quando bem entendesse, mas não quem quisesse. Eis, pois, os ruídos na linha que soíam surpreendê-lo durante suas incursões ao território hostil.

- O número para o qual você ligou, está desativado há mais de um ano, você deve ter conversado com o serviço de espionagem (gargalhadas).

Com esta troça, Wolf Biermann, poeta e músico, recebeu-me à porta de seu apartamento do quarto andar da Chaussee Strasse, que dava para a sala, em cuja sombra se recortavam as figuras da estudante do conservatório de música (a ainda não roqueira) Nina Hagen, e sua mãe (uma das ex-amantes de Biermann), Tine (a então mulher do poeta) com o filho recém-nascido no colo, e vários outros artistas de Berlim Oriental. Tomando chá, deblateramos até o sol se pôr no oeste, atrás do muro, tentando elucidar como aquele antigo número de telefone se instalara em minha agenda. Não teria sido por um engano ou ato falho do próprio Biermann? – Enfim... - concluiu, perspicaz, o bardo: - Não desativaram a linha, mantêm-na grampeada e mapeiam meus contatos ocidentais que, como você, ainda não dispõe do número novo…


Ruídos na linha


A confusão tinha começado assim: era início de tarde de um dia de outono, gris, quando liguei de Berlim Ocidental, anunciando minha visita ao "outro lado". Estranhamente, o poeta pareceu não reconhecer-me ou lembrar-se do encontro previamente marcado, para uma entrevista. Sua reação surpreendeu-me. E o que dizer da estranha vibração daquela voz! Intrigado, mergulhei no túnel do metrô com o percurso mais doidivano do mundo daqueles dias: a linha Zôo – Märkisches Viertel, que partia do centro do mais coruscante cartão postal do capitalismo, se embrenhava nas entranhas do “primeiro estado operário camponês em solo alemão” e, feito toupeira distraída, reemergia por baixo deste muro, vinte quilômetros adiante, em pleno Ocidente, definido como território do "inimigo de classe" – uma dupla ironia, geográfica e ideológica, e aventura simultânea no túnel do tempo, pois a cada estação subterrânea em território já oriental, o metrô reduzia sua velocidade, proibido de parar, policiado desde as plataformas fantasmáticas, abandonadas desde os anos 60, por guardas de fronteira com fuzis Kalashnikov em punho.

Alcançada a histórica estação Friedrichstrasse, em plena fronteira da cidade dividida, e desembaraçado do controle de passaportes, fiz nova ligação à casa do poeta para confirmar que já pisava seu território. E na outra extremidade da linha, agora atendia-me uma mulher; pelo seu tom de voz, uma mulher jovem. Perguntei se era Tine, a namorada de Biermann, e ela tropeçou na resposta, agravando minha apreensão. Mas não lhe fiz caso e logo alcancei o prédio antigo da Chaussee-Strasse, com frontispício Jugendstil, barbaramente agredido por intempéries e sinais de guerra, e agora em irônica vizinhança com a “representação diplomática da República Federal da Alemanha”.

Por instantes, parei na calçada, e sob a alça da mira do olhar perscrutante dos policiais orientais, que do outro lado da rua protegiam aquela pseudo embaixada, encimada pelo brasão nacional da inimiga Alemanha Ocidental, não contive o riso ao sentir-me encarado pela imensa águia preta, de maus bofes, ironizada como “gavião da rapina” numa das faiscantes canções políticas do bardo que eu deveria avistar nos próximos minutos. E depois de alguns lances na velha escada rangente, bati então à porta do apartamento e abriu-a o próprio, Wolf Biermann, de queixo caído quando lhe cobrei os dois telefonemas. Mas havia também algum desconcerto em sua atitude, espécie de pedido de desculpas sussurrado de viés, alguma vergonha por um constrangimento só admitido sob pressão.


Os dissidentes

Biermann acabara de lançar seu quinto ou sexto LP, com dois títulos que, pela primeira vez em sua carreira, faziam referência à América Latina: a brilhante versão alemã da canção cubana, Comandante Che Guevara, de Carlos Puebla, e a Balada do Cinegrafista – arrepiante poema musical sobre o fuzilamento do cinegrafista argentino, Leonardo Henrichsen, que durante o tancazo de junho de 1973, em Santiago do Chile, aponta sua câmera para um soldado. Este se volta enfurecido para o cinegrafista, aponta sua arma, mira e… então as cordas do violão de Biermann sonorizam a macabra contagem regressiva do vídeo-clipe, tal como o vimos na TV, até a imagem tremular, sinal de que a câmera ainda empunhada por seu operador começava a despencar, e Henrichsen filma sua própria morte... Este disco era um forte motivo para a entrevista.

O outro, era a estória de sua dissidência, como um dos intelectuais mais inquietos e prestigiados do “socialismo realmente existente” – autodefinição daquela república alemã, cuja perversão autoritária, paranoica e repressiva estava fazendo inveja às ditaduras latino-americanas

Filho de pai comunista (e judeu), militante das Brigadas Internacionais, morto na Guerra Civil Espanhola, Biermann optara voluntariamente pela RDA, mudando-se de Hamburgo, sua cidade natal, para a Berlim da Guerra Fria dos anos 50. Lá conhecera e estudara com Bertolt Brecht e fizera carreira, amealhando a aura do “intelectual orgânico”, confiável. Até o início dos anos 70. Quando se solidarizara com a revolta estudantil em Berlim Ocidental (esquerdista demais para o paladar do partido único SED, oriental), o poeta fora percebido como “influência nefasta”; considerado “renegado”, e sua obra submetida à censura. Sem recursos, passara então a publicá-la em editoras ocidentais, as únicas que, para seu enorme desgosto, impediram que morresse de fome.

Começa então a crônica da perseguição anunciada de Biermann, sua ex-mulher Sarah Kirsch, o físico nuclear Robert Havemann, a roqueira Nina Hagen e sua mãe, e muitos outros, alguns presos e narcotizados em Niederschönhausen; a penitenciária política da Stasi (abreviatura de MfS, “Ministerium für Staats-Sicherheit” = [Ministério] da Segurança do Estado), espécie de Gestapo com fraseado “socialista”.

Havemann - ilustre militante da resistência contra Hitler - morreria pouco tempo depois, Biermann seria expulso da RDA em 1976, Nina Hagen e sua família também. E durante mais treze anos, a Stasi com seus 200 mil agentes - e uma rede de 150 mil informantes “voluntários”, alcaguetes, dedos-duros, para uma população que não passava de 18 milhões (um agente para cada 60 habitantes) - continuou bisbilhotando, achacando, desestabilizando e arruinando A Vida dos Outros – Das Leben der Anderen – filme alemão premiado com o Oscar, em 2007.


O filme

Sendo guiado agora pela câmera dentro daquele apartamento do personagem Dreymann, infestado de microfones escondidos sob tapetes, reboco, vão de portas e janelas, assento de cadeiras e vaso sanitário, percebo finalmente por que em certos momentos de suas conversas no apartamento de Biermann, sobretudo quando ele falava da boca para fora, habituado como estava no Ocidente, parecia instalar-se certo constrangimento, o poeta e seus amigos entreolhando-se; às vezes em silêncio, noutras, mudando subitamente de assunto.

Mas observando na tela, a namorada do personagem Dreymann (emblema do intelectual trágico, porque oportunista, comendo da mão do regime) sendo acoimada e molestada pela Stasi, abriu-se uma janela para outro “filme”, risível, do qual eu mesmo fora protagonista, cujo título deveria ser: No Café com os Secretas… – um prato cheio, roteiro hílare.

Garoto ainda, mal tinha colocado os pés no setor ocidental da cidade dividida, e revoltado com a violação dos direitos humanos no Brasil, certo dia assaltara-me um repente, e com a aura dos heróis, do paladino de justa causa, rumei à fronteira, e às portas do paraíso socialista pedi para falar com o oficial de plantão.

Enquanto aguardava alguma resposta naquela recepção do céu de São Pedro comunista, presenciei e não entendi por que um trabalhador turco, de simples vestimentas, mal conseguindo expressar-se satisfatoriamente em alemão, fora agredido, maltratado com ofensas e violentos pontapés, aos pés da bandeira socialista, expulso da pátria dos proletários… Aquilo me indignara além da conta, evocara imagens do nazismo (a propósito: a semelhança daqueles uniformes!). E então tinha aparecido um guarda, que cara de anjo não tinha, marcando um encontro para a semana seguinte.

Encontro?! Momentaneamente senti a vertigem do mergulho no escuro, naquelas tramas de Green e Le Carré, grande parte inspiradas em Berlim, praça globalizada da Guerra Fria, maior concentração do mundo de espiões por metro quadrado: esbirros do Circus (M-16 britânico) caçando os de Karla (KGB soviética), os Primos (CIA) bisbilhotando ambos; todos admiradores do mitológico Alm. Canaris, o quase infalível oráculo de Delfos, digo: de Adolfo, o austríaco.


No café com a Stasi

E no dia e hora marcados, aproximara-me pela calçada daquela imensa avenida, zombeteira alegoria da inevitável “transição para o socialismo”, pois iniciava no Ocidente como Kaiserdamm (= esplanada do Imperador) e terminava do outro lado do muro como Stalin-Allee (= Avenida Stálin); nome logo corrigido, quando o georgiano caiu em desgraça e sua imagem fora obliterada das fotos históricas do Politburô.

Acomodados a uma mesa próxima à entrada, estavam dois senhores engravatados. Um deles apressara-se em apresentar-se como Herr Professor, e lembro-me que consenti a mentira. E então lhes entreguei em mãos o motivo de minha intempestiva visita: o pedido de divulgação, através da Rádio Berlim Internacional, de uma lista do comitê brasileiro pela anistia. A emissora levava ao ar um programa em português, e seu locutor sem dúvida era membro do nosso "partidão"; filiação que não era a minha, logo se via, com aquela pinta de “foquista”...

Matreiros, tentaram empanturrar-me com torta de cereja rançosa e café de sabor indecifrável, enquanto num canto daquele histórico e agora decadente Café Unter den Linden, ouvíamos poutpurrís desafinados, arrancados de seus instrumentos por um pianista coxo e um violinista que parecia surdo. E marcaram novo encontro para confirmar a divulgação da lista de presos políticos da ditadura militar brasileira, que corriam risco de vida...

Pontualmente, outra semana depois lá estava eu flanando no trottoir (melodioso galicismo que desde a passagem de Napoleão ainda designa as calçadas em Berlim) socialista, confundindo os passantes cabisbaixos com as figuras imaginárias de Brecht, Piscator e Tucholsky, ou de Fritz Lang e G.W. Pabst entrando e saindo dos cafés e bistrôs da arruinada Praça Potsdam, quando já adentrava o Unter den Linden. E lá estavam novamente dois obsidiantes, um deles, novo, e desta vez eu me abstivera da torta de cereja e do café. Mal lembrando, pedira uma dose dupla de vodca russa e saudara - nasdrovje! Mas os anfitriões agradeceram - “não bebemos em serviço”...

Então os dois cavalheiros começaram a circunavegar o motivo do encontro, comendo pelas bordas, feitos gatos (certamente a lista brasileira estava sendo analisada, perscrutada, esmiuçada, a textura do papel inclusive…). E trocando o atacado pelo varejo, assaltaram-me com perguntas sobre minha jubilosa vida de estudante. Insinuaram que no Ocidente a vida não deveria ser fácil, mas que poderiam dar um jeito nisso, “uma mão na roda”. Como assim, senhores camaradas? - eu não conseguia acreditar o que estava ouvindo. Ora, certa “ajuda de custo em troca de algumas observações”, provocou a dupla cara dura e generosa – e eu quase vomitei no colarinho do “professor”, a vodca revolvendo minhas entranhas, meus olhos encharcados de aguardente, buscando o sorriso salvador de Brecht, mas deparando-se com a figura apoquentada dos dois instrumentistas aleijados.

Dei um “bolo” no terceiro tête-à-tête com a Stasi, e apostei que abririam uma ficha com meu nome naquele imenso, perverso arquivo sobre A vida dos outros, que ainda hei de consultar.

E no caminho de volta, do Oriente para o Ocidente, reparei no Muro uma intrepidez impossível de denunciá-lo como mero outdoor – quem imaginaria que poucos anos depois “tudo o que é sólido se desmancha[ria] no ar”, e que – insólita ironia – o que caía não era exatamente a velha e odiada burguesia...





                                                * * *


Frederico Füllgraf, estudou na FUB-Universidade Livre de Berlim e na DFFB-Academia Alemã de Cinema e Televisão, também em Berlim, até seu mestrado (MA) em Comunicação Social. É escritor (A bomba ´pacífica´- o Brasil e outros cenários da corrida nuclear, Brasiliense, 1988), roteirista e diretor de cinema. É colunista da revista eletrônica Speculum, de arte e cultura, e das revistas impressas Caros Amigos, Idéias e ETC (Travessa dos Editores). Frederico reside em Curitiba). E-mail: f.fuellgraf@gmail.com

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