7/2/2009 17:34:00 O ser é nada ou O inexistencialismo
Por Mathilda Kóvak
Dizem que sou pessimista, mas, como vocês podem perceber, pelas últimas notícias, sou apenas realista. Penso, logo inexisto (sic). Faço parte do Movimento Inexistencialista, ou Ignezistencialista, e previ o fim do capitalismo, há 10 anos, no cabalístico dia 29 do nove de 1999, como alguns amigos que estiveram comigo em Nova York podem atestar. As medidas protecionistas de Barack Hussein decretam o fim do neoliberalismo, ufa!. Entretanto, voltamos ao mercantilismo com seu protecionismo, como sistema econômico, e ao regime feudal, na Europa Continental, ao Absolutismo Monárquico, na Grã-Bretanha, às capitanias hereditárias no Brasil, com Sarney e derivados de vento em popa, e à miséria em toda parte, bem ao gosto da Idade Mídia, née Idade Média. Então, pergunto, do alto de minha ilibada ignorância dos assuntos mundanos: a quem a queda do Muro de Berlim beneficiou?!
Parece claro que, ao decretar o fim da URSS, medida acordada entre Clinton e Gorbachev – que traz a marca da besta na testa – o sistema capitalista perdeu seu maior aliado: o socialismo. A gruerra fria cedeu ao terrorismo quente e a uma iminente guerra mundial. Wall Street despencou tanto quanto o outro muro. Mas a resposta à pergunta anterior é, dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três: quem respondeu “a Rússia”, vai ganhar fornecimento de gás no próximo inverno de 50 graus celsius negativos. Assim, com a guerra comercial declarada por Obama, o Osama do Partido Democrata, o mundo todo unido pela globalização, imposta na maciota por Clinton e agora puxada pra trás por... Clinton, yes!, vai se unir aos camaradas russos para guerrear, desta feita, não contra a Alemanha, mas contra o maior exército do mundo: os EUA. E caput! Fuckemo-nos todos! Porque agora o buraco é bem mais embaixo e o chumbo bem mais grosso.
De quem é a culpa desta e de outras catástrofes?! De todos nós. Ninguém é santo, nem inocente, neste mundo. Ninguém. É por isto que acendo velas todo dia pra São Estricinino - como chama a brilhante Cecília de Medeiros - o visionário Pastor Jim Jones. Só mesmo tomando uma sopa de estricnina, porque como somos burros! Como é possível acreditar em Bill Clinton, membro da máfia irlandesa, cujos escândalos por corrupção foram abafados com o ataque de 11 de setembro?! Como é possível acreditar ainda em outro Bill, o Gates, que agora exorta o mundo a ajudar os pobres, quando já foi o homem mais rico do planeta e não fez nada a não ser teclar e se locupletar?! Como acreditar em Al Gore que, depois que garantiu seus milhões amealhados com uma fazenda de tabaco, migrou pra Inglaterra e virou pin-up ambientalista?! Como acreditar em Gorbachev, que agora é verde, quando deu força pra o expansionismo neoliberal e o país que mais atira gases poluidores na atmosfera?! O judaísmo considera a hipocrisia um dos maiores pecados capitais. E meu corolário é: a hipocrisia é o maior pecado do Capital!
Mas esta nossa espécie me diverte. Num dia, o Obama é o novo messias. No outro, é o demônio. Ora: o Cristo e o Anti-Cristo são a mesma coisa. Não existe salvador, nem São Benedito. Existiram, sim, pensadores como Joshua Ben Josef, vulgo JC, e muitos outros, ao longo de nossa sangrenta história, que tentam trazer um pouco de lucidez ao gênero humano e, não raro, acabaram pregados à cruz ou com uma bala na cabeça. Ainda resta, creio, uma esperança no fundo da caixa de Pandora: admitir que o projeto humano não deu certo e virar outra espécie. Como disse o mago Saramago: “se houve um Criador, está claro que se desinteressou de sua criação.” No lugar dele, eu estaria fugindo das reviews. Fez uma escultura de barro, deu vida a ela e ela se volta contra si mesma. Pigmaleão é pinto.
Existe, no evolucionismo contemporâneo, uma tese de que, depois de dizimar os neanderthais, o homo sapiens não se viu sozinho no planeta. Uma outra espécie, menos aquinhoada intelectualmente, se desenvolveu, em paralelo. Acho que esta espécie foi a que prevaleceu. Que saída teríamos, além de virarmos um bicho mais inteligente do que nós?! Admitir que somos todos iguais e igualmente patetas. Não sabemos nos organizar, de forma que vivamos em harmonia, sem agredir a nossa casa, que é a Terra, como chamou Leonardo – Da Vinci Uno – Boff. Só munidos desta autocrítica – prefiro autocrítica à humildade – é que poderemos enxergar uma luz no fundo da caverna iluminista.
O cientista, Enrique Lins, diretor do Museu de Astronomia do Rio de Janeiro, uma vez me disse: “na natureza, ao contrário do que se pensa, sobrevive o mais fraco.” Ele contou da experiência que uns cientistas fizeram: encheram uma piscina com sardinhas e um grupo de tubarões. Depois de devorar muitas sardinhas, os tubarões começaram a brigar e a disputar um grupinho de sardinhas sobreviventes. Mataram-se entre si. E as sardinhas se multiplicaram e prevaleceram. Muitas sardinhas vão ser devoradas, outras irão para a lata, em conserva, nesta nossa cena patética, mas algumas, as mais frágeis, as que Adolf Hitler teria mandado pros campos, estas vão sobreviver. Estas que já são versadas nesta arte, que cresceram na pobreza, que enfrentaram doenças fatais, estas que já estão acostumadas ao sofrimento, estas vão rir por último, ainda que não seja rir melhor.
Eu vivi os anos 60/70/80 – as últimas boas décadas de nossa história. Então, faço como Amy Winehouse, me divirto o mais que posso e não me levo a sério, porque o ser humano não é sério. De Gaulle disse que o Brasil não era sério. Mas o mundo todo é uma piada, em geral, de muito mau gosto. Se eu viver só mais 20 anos, contrariando as expectativas de minha longeva família, porque minha raça vai ser eliminada pela evolução anti-natural das espécies, eu já vivi muito. Mas quem tem filho, creio, deve arregaçar as mangas e ir à luta. Não é fazendo pacto com este sistema predata, se me permitem mais uma opinião, nem se iludindo, posto que a ilusão é a melhor amiga da desilusão, que vocês vão perpetuar sua espécie. É se conscientizando de nosso fracasso, e recriando a vida, a cada instante. Confesso minha impotência. Parefraseando Cecília, digo: “ai, palavras, que estranha impotência a vossa.” No princípio, era o Verbo, diz o Velho Testamento. No princípio era o Caos, diz o politeísmo grego – minha religião, visto ser helênica serelepe. Do caos, surgirá uma fulgurante bailarina – pensou Nietzsche.
O furacão Katrina foi uma amostra do que virá para os EUA. Como disse John Kenneth Galbraith: “a natureza não se rebela. Ela se vinga.” O Vesúvio acabou com o Império Romano. Sobreveio a Idade Média. Depois dela, o Renascimento. Acredito num neo-renascimento. Mas sou obrigada a admitir que haverá um grande hiato na evolução. Gerações futuras olharão para as ruínas da arquitetura imemorial do Projac e da Cidade da Música, como hoje admiramos as pirâmides incas e astecas, e as do Egito, e pensarão: “quem terá sido o grande homem que construiu obra tão grandiosa?!” César Maia e Roberto Marinho, os faraós hodiernos e odientos, serão estudados nos livros de história, lavrados na escrita cuneiforme. E os que já nasceram nostálgicos, como eu, por exemplo, terão certeza de que antigamente – o nosso agora - tudo era muito melhor. E a chuva ácida vai bater no teto das palhoças de nossos descendentes e, entre um filé de ratazana e outro, um churrasquinho de barata, eles pensarão em inventar a roda e a roldana, sem saber que a maior de todas as invenções humanas foi o abstrato rock´n roll.
Mas quem sou eu para arriscar previsões. A despeito de termos transformado a nave terrestre numa nau dos loucos de Foucault, eu devo ser a única criatura com passaporte carimbado para embarcar nela. Leiam os analistas econômicos, que previram tudo, menos o fim de Wall Street. Os scholars das universidades, que enfiam a cara nos livros, sem tempo de olhar a vida. Fiem-se na imprensa, que corre, sem pensar, para assinar colunas que, ainda por cima, ostentam fotos hediondas de seus autores. Acreditem nos mass media, porque, afinal, como ouço a torto e a direito, aliás, direita, não existe verdade. Então, manipular a verdade já virou norma e acreditar na verdade manipulada, um hábito que, com nossas bitolas fluorescentes, assimilamos, sem discussão. Porque discutir é uma prática do passado, entediante, cansativa e trabalhamos muito e corremos em nossas esteiras rolantes para o nada. Infelizmente, sou irremediavelmente romântica e minha Emily Dickinson continua a morrer pela Beleza e pela Verdade.
Sartre uma vez falou em entrevista que estava convencido de que sua literatura era mais importante do que sua obra filosófica. Ficcionistas, poetas, músicos..., previram o futuro, com muito mais competência. Baudrillard disse que, no hiper-real, isto é, na sociedade virtual, a imaginação seria o último reduto da realidade. Então, eu acredito na minha ficção. Ela é obra de uma escritora menor que nunca atingirá a maioridade. Concorrerei, com Orson Welles, ao título de enfant terrible mais velha do mundo. Ou enfant(e) gaté(e) mais mimada do mundo. E serei, igualmente, a bitch, porque aprendi com os caninos a morder, quando me puxam o rabo, e a lamber, quando me afagam.
No mais, abençôo as crianças e a feras, porque delas será o reino dos céus e o espaço sideral. Na minha arca de Noé, maiores de 12 ficam de fora. Apenas 20 anos luz da Terra, existe um planeta, que chamei de Amur, em homenagem a um leopardo extinto pela mão dos caçadores. Leva-se somente cem anos para se chegar a ele. Mas como a rotação de lá é mais rápida do que a da Terra, cem anos equivalem a dez aqui. Aurrevoir, les enfants , terrible et gatés! Embarquem e decolem logo, sem olhar para trás.
O último a sair, acenda a luz!
“Não sei como será a terceira guerra mundial. Mas a quarta será travada com paus e pedras.” (Albert Einstein)
“Quando as abelhas começarem a se extinguir, nós podemos nos preparar para a nossa extinção.” (Albert Einstein)
“Aos homens cabem as grandes decisões. Ás mulheres, as pequenas. E são as pequenas decisões que podem e devem transformar a história.” (Albert Einstein)
“The best government is no government at all.” (Henry Thorreau, “Civil Desobidience and other essays”)
“E se nada existir?! Neste caso, paguei caro demais pelo tapete da sala.” (Woody Allen)
Mathilda Kóvak é escritora, compositora, roteirista. Tem seis livros infantis editados e um sétimo no prelo - Rocco, além do livro "Contos da Era do Fax", Ed. Mondrian, e o CD "Mahatmathilda, a evolução de minha espécie". E-mail: madmath@uol.com.br
Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Mathilda Kovak no Cronópios.