Na literatura argentina, Gustavo Ferreyra é o “escritor dos escritores”, ou seja, seu nome sempre surge nas entrevistas e debates por aqui, mesmo não sendo tão famoso entre os leitores. Pelo menos até o lançamento de seu último livro, no final de 2010. Dóberman ganhou o prêmio Emecé desse ano e teve uma grande repercussão no mundo literário argentino, saindo um pouco do espaço normalmente ocupado por Ferreyra que desde 1994, quando saiu seu primeiro livro, El Amparo. Mesmo que tenha mudado a forma como é visto por outros, Ferreira continua causando estranhezas com suas histórias que misturam um realismo muitas vezes cru com um toque de transtorno que cria distorções na realidade, sendo uma literatura difícil de classificar.
Essa é uma marca importante de seu trabalho, desde El Amparo, talvez o mais influenciado por um clima kafkiano, que conta a história de um empregado num grande castelo encarregado de funcionar basicamente como um cinzeiro para os caroços do patrão durante as refeições.
Em Dóberman, a história se divide em três momentos específicos, tendo como pano de fundo os perdidíssimos anos 90 na Argentina menemista (afinal, se a década de 80 foi a “perdida” para a América Latina, o que teria sido a seguinte para um país que foi o “modelo do neoliberalismo”?).
A partir dessa base um personagem, Joaquín Riste, vai construindo seu caminho por essa Argentina que sonha em ser parte importante do mundo desenvolvido – o 1 peso igual a 1 dólar dava essa ilusão. A história começa com Riste vendo sua carreira de ator entrando em decadência, com uma relação difícil e até vagamente incestuosa com a irmã.
Na segunda parte, ele é o motorista de um importante burocrata do governo menemista que, em seus sonhos de grandeza, elabora planos para aproveitar a queda do comunismo e manda Riste numa missão para a Polônia, onde, sem saber a língua, sem saber qual era exatamente sua missão, passa os dias paranoicamente atrás dos últimos comunistas que, tem certeza, se escondem pelas ruas de Varsóvia. E a forma de encontrá-los é seguindo os muitos cães vira-latas da cidade. Sim, pois são os cães que escondem (ou seriam eles mesmos?) os comunistas.
Na última parte, um Joaquín Riste transformado em milionário, quase um doberman em sua transformação, sem uma perna e atormentado por dois empregados – Elena, a mais feia de todas as mulheres, e o mordomo Carlos, com deliciosos glúteos –, vai se aprofundando na loucura e na desconfiança. Desde sua casa acompanha as revoltas que acontecem fora, das toupeiras contra os dobermans e vê no casamento dos seus dois empregados, uma armadilha para acabar com sua vida.

O romance está organizado nessas três partes, com dois capítulos cada, sendo que estes não estão necessariamente na ordem em que se espera que estejam. Mas é na linguagem que Ferreyra aposta. Para um leitor argentino, o livro cria certo desconforto pelo uso de palavras estranhas, algumas antigas ou usadas em contextos um pouco diferenciados.
Como em seus últimos romances, entre eles El Director de 2005 e Piquito de Oro de 2010, o momento político – mesmo distorcido de acordo com as visões dos personagens – são parte importante da trama, o que abre novas perspectivas para as narrativas. El Director se passa durante a explosão de 2001, Piquito de Oro tem como base os piquetes que se armaram na segunda metade da década passada e agora Dóberman no começo dos anos 90.
Seu texto barroco e bem cuidado, com uma visão perturbadora e transtornada de realidades tão comuns e conhecidas, fez de Dóberman um dos melhores livros de 2010 na Argentina. Resta o Brasil conhecer esse grande autor.
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Marcelo Barbão (ou Barbon na Argentina) é escritor, tradutor e jornalista entre outras atividades (fotógrafo e músico). Publicou os romances Acaricia meu sonho, Amauta, 2007 e A mulher sem palavras, Vieira & Lent, 2010. Foi co-fundador do projeto Amauta Editorial. Agora vive em Buenos Aires. E-mail: marcelobarbao@gmail.com