
Em 13 de julho de 1977, a Revista Veja publicava o obituário
do escritor Vladimir Nabokov.
O último (e inacabado) romance do escritor russo-americano Vladimir Nabokov, The original of Laura (TOOL), chega às livrarias de todo o mundo, depois de 32 anos.
Vladimir Nabokov, depois de meses de sofrimento, morreu em 2 de julho de 1977 (leia aqui obituário publicado na Veja em 13 de julho de 1977), deixando ordens expressas para que, acaso não conseguisse finalizar o romance no qual trabalhava febrilmente há meses, seus originais fossem queimados.
No ano passado, depois mais de 3 décadas de dúvidas, Dmitri Nabokov, seu filho, anunciou que TOOL seria publicado, dando início a um intenso debate mundial sobre a conveniência ou não do desrespeito às ordens do escritor.
TOOL, longe da vista de todos por 32 anos, é importante como curiosidade, não como obra em si, já que, através de suas páginas fragmentadas, são apresentados flashes do método de criação de Nabokov. É como se olhássemos por sobre os ombros do escritor, enquanto este dá vida aos seus personagens.
The original of Laura também é um romance para ser ‘montado’. Nos EUA, o livro traz fichas destacáveis que podem ser rearrumadas ao gosto do leitor, algo não muito distante da própria maneira como Nabokov compunha suas histórias, e que o aproxima, inevitavelmente, dos escritores que incorporam recursos hipertextuais à suas histórias. Não por acaso, Fogo Pálido, romance lançado por Nabokov de 1962, já fora definido por Ted Nelson, o criador do hipertexto, como um “proto-hipertexto arquetípico”
O renomado biógrafo de Nabokov, professor Brian Boyd (com quem participei em setembro de uma conferência na Academia brasileira de Letras sobre as obras Nabokov e Machado de Assis, dois grandes escritores enxadristas), foi um dos primeiros a ler TOOL e me disse em entrevista recente: ‘TOOL traz as jogadas iniciais do que poderia ter sido um grande jogo de xadrez’.
Enquanto o romance chega às livrarias, os verdadeiros ‘originais de Laura’, as 138 fichas manuscritas deixadas por Nabokov a partir das quais montou-se TOOL, o romance fragmentado, vão a leilão no início de dezembro. Quem quiser arriscar um lance, basta acessar o site da Christie’s.
Cláudio Soares é escritor, analista de TI e editor do Pontolit [http://www.pontolit.com.br/blog]. E-mail:souza.soares@gmail.com. É autor do romance Santos Dumont Número 8: O livro das Superstições [http://twitter.com/sd8], o primeiro romance brasileiro publicado em uma rede social on-line.