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09/07/2007 12:38:00
Os moveres de Grogotó!



Por Júlia Studart

 

Uma segunda edição de um livro sempre pode mostrar aquilo que na primeira edição era excesso, ou falta, ou esquecimento, ou desleixo, ou apenas algo que estava ali desnecessariamente, e agora é algo que pode ser revisto, ampliado, reduzido, modificado, apagado, entre tantas outras coisas. Ou seja, é um sem-fim de anotações, com um sem-fim de perguntas, com um sem-fim de possibilidades. São coisas como: o que se pode apagar de uma primeira edição em uma segunda?, ou ainda: o que se pode colocar numa segunda edição para dispor como leveza sobre a primeira?

Ora, certas segundas edições que têm ocorrido de alguns poucos, bons e rasgados autores brasileiros vivos, contemporâneos do agora, é quase sempre porque as edições de seus livros saem com pouquíssimos exemplares: 500, 600 (que é um número monocórdio entre inúmeras pequenas editoras), ou, quando muito, mil exemplares. Estes livros vendem pouco, quase nada, mas desaparecem com o passar dos anos, normalmente. O autor mesmo distribui entre os amigos, o que é muito comum; depois ele mesmo compra da editora e distribui novamente, vai a algo ali ou acolá e compra mais e distribui novamente, acha um exemplar em algum sebo e compra e distribui novamente, a editora vende um ou outro (se é que vende e quando vende). Mas o fato é que nenhuma editora sai perdendo, de fato, em nada: está lançando um novo autor, é importante para ela que na sua lista de preços exista ali dois ou três nomes estranhos ao mercado, são suas apostas ou seus aportes; e por aí segue uma série de imprecisões, ou contrastes, do mercado de livros. E retirando tudo isso do caminho, sobra o livro, como tal, este objeto quase sem importância, que pode ser dobrado, amassado, esquecido em qualquer canto, sem autor ou gesto; se pode até fazer uma cópia amarfanhada, e aí, qual livro, qual nada.

Mas o movimento contrário é quando um autor descolado de um veio de mercado - não só pelo seu texto, que se oferece como dobra sobre si mesmo, mas também muito por suas posturas de dignidade com o seu próprio trabalho - provoca uma escavação ao problema deste mesmo mercado editorial: é o caso de Grogotó!, primeiro livro de Evandro Affonso Ferreira, que teve sua primeira edição em 2000, pela Topbooks, do Rio de Janeiro, e que logo, logo desapareceu. Virou edição que existia, mas não se encontrava em parte alguma. Evandro, para se ficar sabendo, publicou, além deste Grogotó!, Araã!, em 2002, Erefuê, em 2004, Zaratempô!, em 2005, e Catrâmbias!, em 2006, o seu último. E a alegria de nossos afetos com a palavra cresce quando um livro do qual se gosta muito volta às livrarias. E possivelmente esta segunda edição não aparece pelo fato de Evandro propor um interessante percurso vertiginoso ao seu texto, ou por causa de suas personagens estúpidas e pueris, muito menos porque sua literatura não tem verbete nos manuais forçados desta enxurrada de livros ruins da prosa brasileira contemporânea, que é quase toda ela articulada para certo carreirismo literário e afins.

O importante é que esta segunda edição está aí, agora pela Editora 34 (112 págs., R$ 27), um pouco mais charmosa, muito mais bonita; o livro perde suas medidas menores e recebe o tamanho padrão e, principalmente, os textos estão lá como na primeira edição, sem tirar nem pôr. A orelha escrita por Bernardo Ajzenberg também, antes, permanece ali, posta como tal. Mas é o prefácio do livro, escrito por José Paulo Paes, que, juntamente ao fato do livro voltar às livrarias, garante, e muito, o mover desta segunda edição. Na primeira edição há um aviso na capa de que o prefácio está ali: "Prefácio de José Paulo Paes". Mas não está. Sempre achei que o aviso e a ausência do prefácio eram um jogo proposto por Evandro, mestre em lacunas e espaços vazios ao texto, à vida de suas personagens, no abandono da matéria, do ar, das coisas, dos objetos de uma memória sempre em apagamento. Mas numa visita a ele, em seu sebo de nome Avalovara, perguntei pelo prefácio, ou melhor, pelo convite ao prefácio na capa de Grogotó!. Nenhum jogo e nenhuma surpresa. O que se aponta num prefácio é o gesto para um baú de afetos, também; acredito que um prefácio é um lance de dados entre amigos, não mais que uma conversa de amigos, uma amizade. E é isso. Tomei nas mãos duas folhas de papel, guardadas com o maior cuidado, com aquelas letrinhas dispostas em cada sulco provocado no papel por uma tecla poderosa de uma antiga máquina de escrever. Evandro ria leve enquanto me mostrava estas duas páginas do amigo, redigidas em 1998, também o ano em que morre José Paulo Paes. O prefácio não saiu publicado antes apenas por uma falha na primeira edição do livro.

"Zé Paulo foi um bom amigo", disse. E é sabido a delicadeza e o silêncio de José Paulo Paes - "toda a minha trajetória de poeta se orientou para a conquista de uma voz própria, fraca que fosse, mas minha" - , poeta e tradutor dos raros neste país, autor de coisas como A poesia está morta mas juro que não fui eu e Prosas - seguidas de Odes Mínimas, e tradutor de William Carlos Williams e Konstantinos Kaváfis (pra dizer apenas dois bons extremos de poema). A segunda edição de Grogotó!, palavra que manifesta lamento, pesar, lástima em função de algo que se perdeu ou que se tornou irreversível; agora é tarde!, acabou-se!, este livro, todo composto de pequenas narrativas a que Evandro chama de minicontos, pois cumpre especialmente a tarefa de se dar a ver o apuro de um bom leitor crítico e de um perscrutador aos primeiros textos de Evandro: o José Paulo Paes do prefácio desaparecido: "Sobre a exuberância dessa fala constrói-se, paradoxalmente, a escrita concisa de Evandro Affonso Ferreira, que se empenha em transferir para o domínio do conto o ideal do multum in parvo do epigrama".

Assim, não só pelo prefácio interessantíssimo, mas por trazer de volta um texto que não se encontrava mais, é que é muito importante a reedição desse livro. Principalmente para quem (os raros) se debruça sobre a possibilidade de uma literatura que é um contradiscurso ao mercado de livros, um contradiscurso às façanhas de articulação de quem antes da literatura já se promove como escritor, e que o escritor mesmo, a meu ver, é aquele que se digna ao seu silêncio, à sua posição política no mundo como interdição, interferência, perturbação e que não se permite aos jogos falseados de uma leitura oportunista para os espaços, para a institucionalização, para as vilezas apressadas do livro antes da literatura. E me parece agora, vendo esta capa branca com azul e linhas pretas, arredondadas, que Grogotó! é todo ele uma escritura precisa e tensa, digna e serena; é todo ele uma literatura.

 

 

 

 

 

 

 

 



Júlia Studart é mestranda em Teoria Literária, UFSC, e autora de Wittgenstein e Will Eisner - se numa cidade suas formas de vida (Lumme Editor, 2006).   

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