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07/09/2007 18:17:00
Crise aérea & escritores



Por Márcia Denser




Em artigo recente[1], Affonso Romano de Sant’Anna relata, sem deixar pedra sobre pedra, a hecatombe que foi a compra da Varig pela Gol, aliás, sentida na pele: indo para Frankfurt, quando pediu algo para comer ao comissário, este lhe ofereceu seu “kit sobrevivência” pessoal: 1 maçã, 2 barrinhas de cereal e 1 pãozinho, que dividiu com Marina Colasanti, sua mulher. Pouco antes, no aeroporto, a companhia os obrigara a mudar suas passagens da classe executiva para a econômica porque: 1) trocara de aeronave; 2) não pode perder dinheiro; 3) junta vários vôos num só; 4) e o passageiro que se lixe. O vôo já estava bastante atrasado, mas ainda fez escala extra em Salvador para reabastecer (lá a gasolina é mais barata).
 

A Gol, que só oferece barrinhas de cereal, usa os passageiros como faxineiros e explora o nome da Varig. Durante o vôo internacional não passa filme, não oferece música, nem ar refrigerado, pois a saída fora obstruída por uma bola de papel (provavelmente enfiada ali por algum passageiro que não gostou de bancar o faxineiro). Finalmente em Frankfurt, descobrem que haviam perdido a conexão (já paga) para Copenhagen. Daí em diante é indescritível a via-crucis de 48 horas de ambos entre aeroporto/hotel/retorno ao aeroporto/novamente retorno ao hotel, à espera e à cata duma outra conexão. Se perdessem a próxima, perderiam também a viagem de 12 dias de navio, também já totalmente paga (depois se descobriu que se poderia processar a empresa por vários danos).

Nessas idas e vindas, contam sua tragédia a um ex-piloto da Varig, mas a dele é muito pior: fora demitido pela Gol depois de 28 anos de trabalho, sem indenização nem aposentadoria, tendo que recomeçar a vida depois dos 50, pilotando na Coréia e afastado da família. Dos 1.700 pilotos da ex-Varig, 890 trabalham no exterior. Mais: o salário das comissárias de bordo baixou 70% que, além do mais, têm que ficar quietas senão perdem o emprego.

Affonso finaliza: “A bordo desse avião da Gol travestido de Varig, leio uma entrevista do atual proprietário onde fala da ‘cultura da Varig’ e ‘cultura da Gol’. Desculpe, meu caro, mas isso não é cultura, é barbárie”.

Já Ignácio de Loyola na crônica Pessoas numa sala de embarque[2], abordando a questão duma outra perspectiva, elege os passageiros como objeto de análise. E também não deixa pedra sobre pedra.

Indo para Porto Alegre, vôo atrasado, para matar o tempo ocioso, Loyola observa o que fazem as pessoas na sala de embarque: 7 lêem livros, das quais 3 escolheram O Segredo, gênero auto-ajuda, 1 um manual de informática, 1 Luís Fernando Veríssimo, 1 Marçal Aquino e a última Em Busca da Idade Média de Jacques Le Goff, na página que conta o surgimento duma nova categoria, o mercador-banqueiro; 5 mulheres resolvem palavras cruzadas, 2 mais difíceis e 3 mais fáceis; nada menos que 19 liam revistas de fofocas, 12, jornais, sem contar 36 executivos com laptop e celular ligados!  

Quanto ao último item, é a melhor parte da crônica, e a crítica mais corrosiva.

Ele comenta que executivos adoram usar laptops e celulares em público. Não descansam nunca ou estão só se exibindo? ”Dia desses, ao lado de um jovem, abri meu caderno Opus, comecei a escrever. O sujeito me olhou, olhou para o caderno, mexeu-se inquieto, finalmente tirou um laptop de última geração e, cheio de orgulho, ligou-o, me fazendo saber que eu era da idade da pedra e ele o símbolo da modernidade. Até o final da viagem a caneta e o caderno concorreram com o laptop”.

Bom, às vezes é uma questão de conteúdo: já flagrei muitos jogando paciência eletrônica, quer dizer, utilizando todo um aparato tecnológico para nada, significando nada além de mera exibição idiota. Eu jamais escreveria (ficção ou não) num laptop em trânsito, há chances enormes de: 1) perder o serviço: 2) perder o laptop. Nessa ordem. Porque o trabalho é importante, não o laptop. Para mim, naturalmente. Sim, caderno e caneta. É definitivamente mais seguro.

Ignácio continua o inventário da sala de embarque: 4 dormiam nas poltronas, 2 casais se agarravam, 11 homens falavam de negócios citando grandes cifras para impressionar, 4 comiam chocolates, 1 criança ouvia o iPod com olhar catatônico, 7 sujeitos usavam bonés com logomarcas,etc.etc.etc.

Ele finaliza: “Nos alto-falantes, as desculpas habituais: devido ao tráfego intenso, devido ao nevoeiro, como se fôssemos todos bobos. E somos, porque engolimos tudo!”.

Agora, a pergunta que não quer calar: a “cultura da Gol” – ou a barbárie das empresas aéreas – triunfa por que agora o passageiro (pós-passageiro?) se identifica com ela?

 

 



[1]
“Gol Contra a Varig”, Estado de Minas e Correio Brasiliense, 12/8/2007.

[2] “Pessoas numa sala de embarque”, Caderno 2, 10/8/2007.


 

Márcia Denser é paulistana. Publicou, entre outros, Tango Fantasma (1977), O Animal dos Motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora (1986), Toda Prosa (2002) e Caim (2006). Participou de várias antologias importantes no Brasil e no exterior. Organizou três delas - uma das quais, Contos eróticos femininos, editada na Alemanha. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura brasileira contemporânea, jornalista e publicitária. E-mail: mdenser@uol.com.br

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