
www.veredasecenarios.com.br
O divinopolitanuniversal Osvaldo André de Mello, desde o início de sua produção, nos anos 60, é lúcido, coerente, responsável por sua própria liricidade barrotelúrica, criativo, condutor de uma linguagem muito sensível, poeta poeta do mesmo modo que, à feição de Augusto de Campos, a poesia poesia.
Osvaldo André de Mello assumiu, em tenra idade, viver a poesia e pela poesia, seja como ator shakespeareano em incursões poéticas frequentes com esquetes de Emily Dickinson, Walt Whitman, Adélia Prado, Lázaro Barreto, seja de sua própria lavra transparente, extraída da própria poesia sem as adiposidades experimentais, o que o tornou caso típico reverenciado em teses e outras modalidades de trabalhos acadêmicos.
Traduzido em várias línguas, o poeta, que agora lança o primoroso – em todos os sentidos, As mesmas palavras, na coleção Obras e Dobras da Editora Veredas & Cenários, com ilustrações e contracapa do mestre guignardiano Petrônio Bax, putérrimos projeto gráfico e diagramação supimpa, livro acrescido de uma antologia que reúne a seleta de sua produção e textos críticos de Melânia Silva Aguiar e Alba Valéria Niza Silva, - corrobora a lucidez lírica, a inventiva cometida sem excessos, a religiosidade edênica, a imensa força do saber dizer com palavras simplesmente palavras em estado quase inaugural sob o viço dos minérios das veias poéticas, que se nascem em Minas, vão se estender com refinamento incomum pelo mundo grego de Maria Callas, que cantava tão convicta de celebrar o infinito que “guardou só para si a voz” como “muda” para “a fuga da excelência necessária a um louvor exigente e justo”; das flores da relva de Walt Whitman, que “ensinou o procedimento para uma nova linguagem” e (pasme: pela imagem!) a “celebrar o corpo como ritual de passagem para a alma”; dos ardores rubros de Libertad Lamarque, que “cantava como se mastigasse a letra”; de Emily Dickinson, cujas “insignificantes notações” tomou “a partitura dos hinos – com seu espanto que acordara um ritmo jamais ouvido.”
Osvaldo André de Mello não desdenha sentido com metáforas inúteis. O que ele diz, diz, e fica dito. E fica dito de modo bonito, definitivo, que inclui sentimentos nobres nesta orgia de nada que voçoroca a linguagem em busca de repetições que não acrescentam à poesia que poesia.
É incrivelmente ótimo poder ler neste livro que árvores ciliares no rio das Ostras “ostentam cachos de garças imaculadas”; que em Salvador há ruazinhas tortas que “ninguém sabe onde vão ter” porque brincam de se esconder de si mesmas; onde do mercado se percebe “namoros à antiga – quase presumindo escadas de seda e sabiás na varanda”. E onde, por ossos do ofício, “o padre Vieira espreita” como quem confere no cheiro azinhavre do tempo que não corrói achados, o relicário de antigas sabedorias.
As mesmas palavras são um orgasmo poético. O livro traz de volta a “camélia que freme no poema de Henriqueta Lisboa” – “o melodioso chamado que se multiplica para as orações no silêncio e na penumbra das mesquitas”, lá na igreja de Santa Sofia, Istambul. O poeta viaja, literalmente, seja porque “uma pessoa vira pensamento”, porque “as teias da eternidade se tecem muito longe de nós” (valendo aí a ambiguidade polissêmica), seja pela impossibilidade de “não responder aos olhos que vasculham a sua alma”, sobretudo alguém que “soube ser desenho na minha pele.”
A fina percepção do poeta leva o leitor a perceber emoções raras como a de “cigarras [que] acabaram de enlouquecer”, a noite “com seu cobertor de brumas”, “a visão preparada para ver o que não se vê”, um “silêncio cauteloso”, a “condição imaginária” ou que “a poesia ganhou sangue.” Ou, então, da reflexão de que “a palavra nasce da meditação”, que o poema é “roca invisível que fia a manhã”, e de que “tempo algum bebe o orvalho das palavras.”
Osvaldo André de Mello fala por si mesmo. Sem aspas. Sua principal referência é a própria poesia. A que está aí per si. Pronta para quem a busca pela poesia. Para quem tem um lado de dentro receptivo.
O poeta quer dizer à conturbada época das anulações de tudo que a poesia perdura e vige porque experimenta a linguagem sem meios radicais, mas por insistir e reler a sua própria essência, que é ser poesia.
A poesia de Osvaldo André de Mello é “um piscar de espírito”, como enfatizou Leminski. Poesia sem manipulação de regras, de ideologias, poesia necessária como o ar, a poesia poesia porque é assim que ela existe. Em busca do aspecto temporal do poema, o poeta encontra a sua própria poesia. “A poesia [como] esse existir selvagem, rebelde aos códigos resistentes aos apriorismos e [que] se revela onde não é posta, e recusa-se a aparecer onde querem pô-la.” A poesia com “o gosto de sentir a existência verbal”, como afirmou, sapiente, Drummond.
As mesmas palavras fazem a diferença não apenas na produção de Osvaldo André de Mello, mas na poesia que insiste em ser só poesia. Porque, ele o diz, ao poeta “cabe chegar ao arquétipo, ao difícil reflexo da beleza.” Porque isto requer, com décadas de experiência e vivência, “a linguagem incorporada de correta perfeição.” Osvaldo André de Mello está a caminho disto. E, para quem já traçou ”régua e compasso, chegar à poesia plena é questão de ser mais lido, mais reconhecido, mais emocionado aos olhos fundos dos leitores.
* * *
Márcio Almeida é poeta, crítico de raridades, cronópio do Cronópios.
E-mail: marcioalmeidas@hotmail.com