Eu penso em As mil e uma noites: falava-se, narrava-se
até o amanhecer para afastar a morte, para adiar o prazo
deste desenlace que deveria fechar a boca do narrador.
Michel Foucault
A primeira metáfora é o rio, as grandes águas... Como bem escreveu Jorge Luis Borges. Águas narrativas sempre em movimento que rompem diques e promovem o encontro de narradores tão distantes e ao mesmo tempo tão próximos.
Das noites no deserto para o crepúsculo na selva tropical. As mil e uma noites refletidas no último jardim do Éden. A imagem da princesa Sherazade espelhada nas águas turvas do gigante Amazonas. Inspiração para o autor brasileiro, nascido em Manaus, descendente de libaneses. Milton Hatoum se inspirou e deu voz à personagem mais famosa da literatura árabe. Os narradores criados por ele também contam histórias para não morrer. Não sucumbirem de saudade e não se deixarem soterrar pelos fantasmas do drama familiar e pelos pedaços da casa que se desfaz. O tempo é deles carrasco quase implacável.
Mas, feito Sherazade, os narradores hatounianos tiram vida das palavras. Afinal, o sangue árabe corre nas veias do escritor manauara. O pai e os avós maternos de Milton Hatoum imigraram do Líbano. Os avós falavam mal o português; a avó rezava em francês, era cristã maronita educada num colégio de freiras em Beirute. Seu pai cresceu no Líbano, sob o mandato francês, e conheceu oficiais e membros da França colonialista. Seu avô paterno era muçulmano, casado com uma cristã. Ambos libaneses, ele do sul, e ela de Batroun (uma cidade à beira-mar, perto de Beirute). O pai de Hatoum também era muçulmano; a mãe era católica e muito religiosa.
Baudelaire escreveu que “o gênio literário consiste na habilidade de concentrar a infância no futuro”. E Milton Hatoum demonstra que segue à risca esta regra defendida pelo poeta francês. No jogo intertextual praticado pelo autor há “pistas” de sua base narrativa. A família árabe o inspirou a dialogar com as técnicas de construção de As Mil e Uma Noites. Como afirma Jorge Luis Borges:
Esse é um dado típico de As Mil e uma noites. Pode-se pensar naquelas esferas chinesas dentro das quais há outras esferas ou nas bonecas russas (...) E tudo isso dentro de um vasto relato central (...) Com contos que estão dentro de contos produz-se um efeito curioso, quase infinito, como uma sorte de vertigem (Obras Completas, p. 265, v. 3).
Sherazade se utilizou da técnica narrativa chamada mise-em-abime, em que as histórias são colocadas umas dentro das outras. Assim, num determinado conto, um personagem narra uma história para o outro... E assim vamos, com narrativa dentro de narrativa, até chegar o momento em que é necessário desatar o nó. Esse método, aliado a suspenses magníficos, prendia a atenção do príncipe e mantinha Sherazade viva.
A técnica narrativa usada pela princesa persa equivale à usada pelos narradores de Milton Hatoum, seja no seu primeiro romance Relato de um certo Oriente, e, especialmente por Nael, o narrador do romance Dois Irmãos, afirma o pesquisador Marcos Frederico Krüger Aleixo, no ensaio O Mito da Origem em Dois Irmãos:
Ambos são os narradores principais, aos quais se acrescentam outros. A diferença, entretanto, persiste: no livro maior da literatura árabe, há vários narradores que convergem para um só (Sherazade), mas as histórias são tantas quantos são os narradores; em Dois Irmãos, também os narradores convergem para um só (Nael), mas a história narrada é tão somente uma: a saga da família libanesa que migrou para a Amazônia. Embora haja vários narradores que se expressam através de um só – Nael –, a estrutura não é mais em moldura ou em mosaico. Digamos que é narrativa em afluência, numa metáfora expressiva do sistema híbrido da região amazônica (2007, p. 186).
Ao definir seu primeiro romance, Relato de Um Certo Oriente, Hatoum afirmou: “é uma história narrada por um Sherazade do Amazonas”.
Segundo o crítico John Barth, Sherazade é uma narradora que jorra narrativas sem parar; é emblema do pós-moderno em seu desejo de contar histórias.
Milton Hatoum se apropria da figura de Sherazade para orquestrar suas histórias e as vozes dos seus muitos narradores.
Afirma Stefania Chiarelli no livro Arquitetura da Memória:
A referida maneira de narrar, somada à própria arquitetura do romance, além da alusão direta à personagem Sherazade, são chaves de leitura que remetem diretamente ao modelo da novelística oriental. A possibilidade de estabelecer o diálogo entre obras distantes entre si no tempo e no espaço enriquece a obra de Hatoum, revelando a presença oriental não só no nível temático – personagens, ambientação, práticas culturais –, como no que se refere ao próprio legado da cultura árabe no plano da linguagem. No ato de narrar, morte, loucura e desagregação são provisoriamente interrompidas. (Sherazade no Amazonas – a pulsão de narrar em Relato de Um Certo Oriente, 2007, p.40 e 44).
Zana, a mãe que escolheu amar mais um filho do que o outro, também tem seu momento Sherazade. Para sobreviver à culpa ela escreve histórias ao filho que desprezou e mandou viver longe dela. “... As cartas que ela escreveu. Dezenas? Centenas, talvez. Cinco anos de palavras.” (HATOUM, 2000, p. 23).
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Lucius de Mello é escritor , jornalista, mestrando em Literatura Hebraica (USP), pesquisador do LEER - Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da Universidade de São Paulo, pesquisador do ARQSHOAH- arquivo virtual do holocausto e antissemistismo. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2003 com a biografia Eny e o Grande Bordel Brasileiro,- Ed. Objetiva. Também é autor do romance histórico A Travessia da Terra Vermelha – Uma Saga dos Refugiados Judeus no Brasil e do romance Mestiços da Casa Velha. Twitter: @luciusdemello
E-mail: luciusdemello@uol.com.br