Café Literário Cronópios











Jerônimo, o Matador
por Marcelino Freire






 

Vício-virtude na fala
por Omar Khouri




O tempo em que poetas eram levados a sério (sobre a poesia e a ensaística de Jaa Torrano)
por Claudio Willer




Retraços do poeta de quando nem em Marte nem em Terra
por Marco Aqueiva




A construção biográfica: a ilusão da reposição de vidas pela narrativa
por Mozahir Salomão Bruck




Andara: viagem ao lugar da reminiscência narrativa
por Karina Jucá




Poeta dos lamentos solidários
por Hélio Pólvora




Primeira Epístola a Geraldo Lima
por Homero Gomes




Lições de resistência em O altar das montanhas de Minas
por Márcio Almeida




Agá dois horas
por Carlos Pessoa Rosa




A música das caravelas - leitura poética do livro Mar Paraguayo de Wilson Bueno
por Bárbara Lia




A visão do negativo
por Homero Gomes




Rascunhos do Absurdo: os poemas transcendentes de Jorge Elias Neto
por Gustavo Felicíssimo







 
12/2/2006 17:22:00
A moral e o Romance (1925)



Por D. H. Lawrence
(Tradução de Tiago Seixas Themudo)







A finalidade da arte é revelar as relações existentes entre o homem e o universo que o envolve, no instante presente. E como a humanidade está sempre ocupada, debatendo-se em armadilhas de velhas relações, a arte está sempre à frente de sua “época” que, por sua vez, está sempre atrás do instante presente.

Quando Van Gogh pinta girassóis, ele revela, ou realiza, as relações vivas existentes entre ele mesmo, enquanto homem, e o girassol, enquanto girassol, num instante preciso. Sua pintura não representa o girassol em si mesmo. Nós nunca saberemos o que é o girassol em si mesmo. E além do mais, o aparelho fotográfico pode registrar o girassol de maneira bem mais perfeita do que Van Gogh.

A imagem da tela é uma terceira realidade, completamente intangível e inexplicável, é o produto do próprio girassol e do próprio Van Gogh. A imagem é eternamente irredutível às dimensões da tela, da pintura, de Van Gogh enquanto organismo humano, do girassol enquanto organismo vegetal. Não se pode pensar, nem medir nem mesmo descrever a imagem da tela. Na verdade, ela existe apenas nesta quarta dimensão tão debatida. Ela não existe no espaço tridimensional.

Ela é a revelação da relação perfeita existente num dado momento entre um homem e um girassol. Ela não é nem o homem diante do espelho, nem a flor diante do espelho, assim como não está acima, abaixo ou dentro de alguma coisa. Ela se situa entre todas as coisas, na quarta dimensão.

Esta relação perfeita entre o homem e o universo envolvente é, para a humanidade, a própria vida. Ela tem esta qualidade de quarta dimensão, que é a mesma da eternidade e da perfeição. E, no entanto, é momentânea.

O homem, assim como o girassol, se afasta desse momento à medida que novas relações são estabelecidas. A relação entre as coisas muda de um dia para o outro, de maneira rápida e sutil. Eis porque a arte, que revela ou cria uma outra relação perfeita, será sempre nova. Ao mesmo tempo, o que existe no espaço não dimencional das relações puras não conhece nem a morte nem a vida, e é eterno. Quer dizer, nos dá a impressão de estar para além da vida e da morte. Dizemos que um leão assírio ou uma cabeça de falcão egípcia estão “vivos”. O que queremos dizer, na realidade, é que eles estão para além da vida e, portanto, da morte. É esta a impressão que eles nos causam. E deve existir algo em nós que esteja igualmente para além da vida e da morte, pois esta “impressão”, causada por este leão assírio ou por esta cabeça de falcão egípcia, nos é muito preciosa. Este puro cintilar de relação entre o dia e a noite é caro ao homem desde a origem dos tempos, como a estrela da tarde.

Se refletirmos, veremos que nossa vida consiste em estabelecer essa relação pura entre nós e o universo vivo que nos envolve. É assim que “salvo minha alma”, estabelecendo uma relação pura entre mim e uma ou mais pessoas, entre mim e um país, uma raça, entre mim e os animais, os astros ou as flores, a terra, o céu, o sol, as estrelas, a lua. Uma infinidade de relações puras, grandes e pequenas, como as estrelas do céu. Eis o que faz nossa eternidade, de cada um: eu e a madeira que corto, as linhas de força que sigo, eu e o trigo de que necessito para fazer meu pão, eu e o élan que me faz escrever, eu e o pouco ouro que consegui. Isto, se o soubéssemos, é nossa vida e nossa eternidade: a relação sutil, perfeita entre mim e todo universo que me rodeia.

A moral é este equilíbrio difícil, sempre vacilante e mutante entre mim e o universo envolvente, que precede e acompanha toda relação verdadeira.

É aqui que vemos a beleza e o imenso valor do romance. Filosofia, religião e ciência estão todas ocupadas em fixar as coisas para chegar a um equilíbrio estável. A Religião, com seu Deus Único e bem postado que diz: - Tu Deves, Tu Não Deves, e que sempre bate firme; a filosofia, com suas idéias bem estabelecidas, a ciência com suas “leis”; todas querem constantemente nos pregar a uma árvore ou outra.

Mas não o romance. O romance é o exemplo mais nobre de sutil inter-relação que o homem já descobriu. Cada coisa é verdadeira em seu próprio lugar, tempo, circunstância, e falsa fora deles. Se você tentar fixar tudo no romance, ou você mata o romance ou ele se refaz eliminado aquilo que o está fixando.

A moral no romance é a fragilidade do equilíbrio. Quando o romancista apóia um dedo sobre um dos pratos da balança para fazê-la pender segundo seus desejos, é aí que aparece a imoralidade.

O romance moderno está se tornado cada vez mais imoral, pois o romancista tende a apoiar cada vez mais sobre um dos pratos da balança: seja sobre o amor, o amor puro, seja sobre a “liberdade” dos costumes.

O romance não é necessariamente imoral porque o romancista tem uma idéia ou um propósito dominantes. A imoralidade encontra-se na predileção irresistível, inconsciente do autor. O amor é uma grande emoção. Mas se você quer escrever um romance, estando você mesmo submetido às angústias de uma grande predileção pelo amor, pelo amor como supremo, como única emoção pela qual vale  a pena viver, então você escreverá um romance imoral.

Pois nenhuma emoção é suprema, nem constitui a única razão de existir. Todas as emoções contribuem para estabelecer uma relação viva entre um ser humano e outros seres humanos, criatura ou coisa, com as quais ele se liga puramente. Todas as emoções, inclusive o amor e o ódio, o furor e o carinho, contribuem à criação deste equilíbrio difícil, incerto, entre dois seres valorosos. Se o romancista coloca o dedo na balança para fazê-la pender para o amor, o carinho, a doçura, a paz, então age de forma imoral: ele impede a possibilidade de uma relação pura, da única coisa que conta, e torna inevitável a assustadora reação quando aponta seu polegar para o ódio, a brutalidade, a crueldade e a destruição.

A vida é feita de tal forma que os contrários oscilam ao redor de um ponto de equilíbrio instável. Os pecados dos pais recaem sobre os filhos. Se os pais fazem pender a balança para o lado do amor, da paz e da produção até a terceira ou quarta gerações, o prato tombará violentamente para o da destruição. Nós devemos manter o equilíbrio.

O romance exige mais do que qualquer outra forma de arte este equilíbrio difícil, oscilante. O romance “açucarado” é mais comercializado e, portanto, mais imoral que o romance de efeitos fortes.

O mesmo acontece com o romance elegante e repleto de cinismo, que declara serem pouco importantes nossas ações, pois,  de todo modo, as coisas se equivalem; declara que a prostituição é “a vida” assim como qualquer outra coisa.

Tal atitude está completamente fora da questão. Uma coisa não é “a vida” porque alguém a faz. Isso o artista deveria saber. O pequeno funcionário de banco que compra um novo chapéu não é absolutamente “a vida”: ele é apenas a existência, concordo, como o almoço cotidiano, mas não “a vida”.

O mesmo acontece com a prostituta. Se um homem tem com ela uma relação autêntica, mesmo que por um instante, será a vida. Mas, caso contrário, é só dinheiro, função. Não será nunca “a vida”, mas algo sórdido, uma traição à vida.

Se um romance revela relações vivas e autênticas, é uma obra moral; pouco importa a natureza das relações reveladas. Se o romancista honra as relações em si mesmas, ele escreverá um grande romance.

Mas há relações que não são autênticas! Quando o homem de Crime e Castigo assassina a velha mulher por quatro centavos, ele não consegue ser completamente verdadeiro. O equilíbrio entre o assassino é a velha mulher não existe mais; trata-se de pura enganação. Trata-se da verdade, mas não da “vida”, no sentido vivo da palavra.

 

O romance popular, por outro lado, oferece um reaquecimento de velhas relações: If Winter comes. Velhas relações reaquecidas são igualmente imorais. Mesmo esse pintor extraordinário que é Rafael apenas veste com novas roupas suntuosas relações já experimentadas. Isto dá à massa um prazer glutão: uma enorme sede de volúpia. Após  séculos, os homens dizem, com volúpia, que a mulher ideal “é uma virgem de Rafael”. E não faz muito tempo que as mulheres passaram a tomar isso como um insulto.

De alguma maneira, novas relações e novas afinidades machucam quando são estabelecidas, e machucam sempre. Porque a verdadeira volúpia consiste em fazer funcionar antigas relações, ou melhor, em tirar delas uma espécie de prazer alcoólico, ligeiramente degradante.

Toda tentação de estabelecer uma relação nova com uma coisa ou ser, machuca necessariamente um pouco. Ela implica, de fato, a luta contra antigas relações e sua mudança, o que nunca é agradável. Uma adaptação, entre coisas vivas pelo menos, significa também uma luta, pois cada um deve, inevitavelmente, “buscar seu interesse” no outro e vê-lo recusar. Quando cada um dos dois busca de forma absoluta, trata-se de luta mortal. É o que acontece com aquilo que chamamos “paixão”. Por outro lado, quando um dos dois se entrega completamente ao outro, chama-se sacrifício, o que significa igualmente a morte. Assim, a Ninfa Fiel morre de seus oito meses de fidelidade.

Não é natural ninfas serem fiéis. Ela deveria ter sido fiel ao seu estado de ninfa. É inumano aceitar sacrifícios. Ele deveria ter se conformado com sua condição de homem.

Existe, portanto, um terceiro caso que não exige nem o sacrifício nem a luta mortal. É quando cada um procura apenas relações sinceras com o outro. Cada um, ou cada uma deve se mostrar segundo aquilo que é, segundo sua masculinidade ou sua feminilidade, e deixar as relações se estabelecerem por si mesmas. Em primeiro lugar, isto exige coragem, em segundo lugar, disciplina. A coragem de aceitar o élan vital em si e no outro; a disciplina de saber não exceder seus limites, o quanto pudermos evitar. A coragem, caso excedamos, de aceitar a coisa sem se lamentar.

É claro que a leitura de um romance verdadeiramente novo sempre machucará um pouco. Sempre haverá resistência. O mesmo acontece com a música, com quadros novos. Pode-se julgar sua realidade pelo fato de suscitarem uma certa resistência e forçarem, mais adiante, uma certa aceitação.

 

As grandes relações, para a humanidade, serão sempre aquelas entre o homem e a mulher. As relações entre homem e homem, e entre mulher e mulher, entre pais e filhos, serão sempre secundárias.

As relações entre homens e mulheres mudam sempre, e serão sempre a chave mais importante da vida humana. As relações são em si mesmas o nervo e a chave da vida, e não o homem, a mulher ou as crianças, que são apenas o resultado eventual dessas relações.

É inútil crer que você pode colocar uma etiqueta nas relações entre homens e mulheres, para conservar seu estatu quo. É impossível. També tentarão colocar uma etiqueta na chuva ou no arco-íris.

Quanto aos laços amorosos, vale mais dissipá-los quando ferem. É um absurdo dizer que os homens e as mulheres devem amar.

Homens e mulheres terão sempre relações sutis e mutantes; não há necessidade alguma de amarrá-los com “laços”. A única moral para o homem ou para a mulher é a de se mostrar fiel à sua masculinidade ou à sua feminilidade, deixando as relações se criarem por si mesmas, com toda honra. Pois isso é, para cada um, “a própria vida”.

Se quisermos ser morais, deixemos de colocar pregos nas coisas, quer seja em cada um de nós ou em nossas relações, que serão sempre a nossa alma. Toda crucificação sacrificatória exige cinco pregos, quatro pequenos e um grande, todos abomináveis. Mas se você tentar crucificar as próprias relações e escrever em cima Amor em vez de Eis aqui o Rei dos Judeus, você poderá continuar pregando pregos por muito tempo. O próprio Jesus chamou isso de Espírito Santo para te mostrar que você não poderá lhe colocar sal no rabo.

O romance é um excelente meio para nos revelar essa mudança em arco-íris que são nossas relações vivas. O romance pode, melhor do que qualquer outra coisa, nos ajudar a viver, pelo menos melhor do que o Evangelismo didático; isso se o romancista não apoiar seu dedo na balança.

Mas se o romancista o apoia, o romance torna-se um incomparável meio de perversão de homens e mulheres, sendo comparável, talvez, a esta grande calamidade de hinos sentimentais do tipo “Conduzam-no Judeus, Doce luz”, que contribuíram para apodrecer nossa geração até os ossos.

 

 

 

Segundo texto da série de cinco, e que estou chamando de “Estudos de Estética Vol 1”, isso porque há outros que discutirão pintura, música, etc.









Tradução: Tiago Seixas Themudo  E-mail: seixas@fa7.edu.br

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