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11/3/2006 00:48:00
Em busca de um método pós-crítico de análise de discurso



Por Eliana Pougy







 

         Continuando em busca de uma base teórico-metodológica pós-crítica de análise de discurso, proponho que mergulhemos nas idéias de Deleuze e Guattari em relação aos diversos estratos do agenciamento, principalmente em relação àquilo que os filósofos chamaram de estrato linguageiro, onde a significação se dá. A questão que se coloca, então, é como se dão as estratificações? Como se dão a nomeação e a identificação das coisas? Quando os signos surgem?

Segundo os filósofos: “[...] é difícil expor o sistema dos estratos sem parecer introduzir entre eles uma espécie de evolução cósmica ou mesmo espiritual, como se eles se ordenassem em estágios e passassem por graus de perfeição” (DELEUZE; GUATTARI, 1995a, 86). Entretanto, os estratos não seguem uma seqüência ordenada, eles possuem pressuposição recíproca, disseminam-se uns nos outros. Um estrato serve de substrato a outro, fazendo com que o agenciamento maquínico funcione como um metaestrato. O que varia de um estrato a outro é a natureza da distinção entre conteúdo e expressão.

A filosofia deleuzeana define três tipos de diferenciação entre as formas de expressão e de conteúdo, sendo que nas três há sempre uma distinção real entre expressão e conteúdo:

 

·                    Distinção real-formal, onde se instaura uma ressonância de expressão. Nesse estrato, geológico, conteúdo e expressão diferem-se pela dimensão, e ligam-se por indução, por sugestão. Aqui, a expressão determina o conteúdo, como se fosse um molde. Por exemplo: um cristal expressa sua forma a um meio amorfo que lhe é exterior, mas que, ao mesmo tempo, é interiorizado e incorporado pelo germe que originou o cristal. Meio e cristal se comunicam por indução, estratificando um bloco de devir germe-meio-cristal..

 

·                    Distinção real-real, onde se instaura uma linearidade de expressão. Nesse estrato, orgânico, expressão e conteúdo possuem a mesma dimensão, mas diferem realmente, e se ligam por transdução, por um processo pelo qual uma energia se transforma em outra de natureza diferente. Aqui, a expressão vai de um estado a outro, continuamente, ela se reproduz, ela é autônoma, e possui um limiar de desterritorialização. Por exemplo: a molécula expressa porque ela percebe e reage em relação a outras moléculas com as quais troca energia e cria vida, constituindo o meio associado, produzindo novos estratos, inclusive, cruzando espécies, interferindo nelas. Um vírus, por exemplo, comunica-se com as outras espécies por transdução, estratificando um bloco de devir macaco-virus-homem.

 

·                    Distinção real-essencial, onde se instaura uma sobrelinearidade de expressão. Nesse estrato, linguageiro, a forma do conteúdo torna-se lingüística, opera por símbolos compreensíveis e opera modificação no mundo exterior. Conteúdo e expressão, aqui, se ligam por tradução. Aqui, a expressão se dá por intermédio dos signos, a partir de sujeitos, que não são necessariamente uma essência humana. Aqui, a expressão desterriotorializa as coisas do mundo e dos seres, criando novas funções, novos usos, novas ferramentas. Por exemplo: a mão, como forma geral de conteúdo, se prolonga nas ferramentas. Além desse aspecto, a expressão compõe conjuntos de traços formais, as línguas formais, que também transforma as substâncias e as coisas, desterritorializando-as. Por exemplo: a desterritorialização da boca, que perde sua função de receber alimentos, para liberar palavras e sons codificados (id., ibid, 73-78). Nesse estrato, a comunicação se dá por tradução, estratificando um bloco de devir sujeito-signo-ferramenta-objeto. A tradução é diferente em cada agenciamento, não seguindo um padrão de significação transcendente.

 

A unidade elementar da linguagem que se dá no estrato linguageiro não é o signo, é a palavra de ordem. Segundo Deleuze e Guattari (1995b):

 

Chamamos palavras de ordem não uma categoria particular de enunciados explícitos (por exemplo, no imperativo), mas a relação de qualquer palavra ou de qualquer enunciado com pressupostos implícitos, com atos de fala que se realizam no enunciado, e que se podem realizar apenas neles. (id., ibid., 16).

 

As palavras de ordem redundam nas palavras e nos atos, na disciplina da gramática. Para os filósofos, é a palavra de ordem que faz da palavra, ou de qualquer outra unidade de linguagem, uma enunciação nos moldes foucaultianos: uma função que possui um conjunto de condições de existência. As palavras de ordem são pressupostos implícitos, são regimes de signos que perpassam a sociedade e formam regimes mistos, que se transformam, redundando as mesmas palavras. É o discurso indireto, sempre presente, sempre imanente.

 

O discurso indireto é a presença de um enunciado relatado em um enunciado relator, a presença da palavra de ordem na palavra. É toda a linguagem que é discurso indireto. Ao invés de um discurso indireto supor um discurso direto, é este que é extraído daquele, à medida que as operações de significância e os processos de subjetivação em um agenciamento se encontram distribuídos, atribuídos, consignados, ou à medida que as variáveis do agenciamento estabelecem relações constantes, por mais provisórias que sejam. (id., ibid., 23).

 

Entretanto, existe uma outra função da linguagem que acontece no estrato linguageiro e que ultrapassa os limites e os restitui à equivalência infinita de um devir ilimitado, de uma identidade infinita. Quando nessa função, a linguagem pode não ser um código, não ser transmissão de informações. Segundo Deleuze e Guattari (ibid.), o que se opõe à linguagem-palavra de ordem não é aquilo que chamamos de ruído, mas a indisciplina das linguagens sem ordem, sem estrutura, a linguagem agramatical. No movimento de desterritorialização dos devires, a expressão se dá desordenadamente.

Ele justifica a existência dessa função não como algo ruim, errado, falso. A significação, para Deleuze (2003) não é a verdade ou a mentira, é apenas uma condição da linguagem. Portanto, a significação não fundamenta a verdade, ela a condiciona.

O uso menor da linguagem pode ser entendido como a produção de arte, e o uso menor da língua como a produção de literatura. Segundo Julia Almeida (2003)

 

O modo de expressão da literatura seria o da criação proliferante de potências gramaticais, tendendo o conjunto ao agramatical, que não é simplesmente uma expressão desviante a que se chega, mas está lá, desde o início, na proliferação de gramaticais, na descoberta de novas potências gramaticais, na compossibilidade dos divergentes, na elevação da série a um finito-ilimitado. (id., ibid., 218) [grifo nosso]

 

Dessa forma, compreende-se que a linguagem não é apenas representação, uma imagem do mundo, nem que sua função principal seja comunicar informações. A linguagem é sempre relativa a um agenciamento, aos processos de territorialização e desterritorialização, no meio de um rizoma. É um processo que não para de se formar, feito de dimensões, direções movediças, que não tem começo nem fim, um processo feito de platôs que estão sempre no meio de agenciamentos do desejo que trabalham sobre fluxos semióticos, fluxos materiais e fluxos sociais.

 

O pensamento complexo e a comunicação como redundância

 

A filosofia da Diferença enquadra-se no pensamento complexo. A teoria do pensamento complexo entende que pensamento (ou consciência), linguagem, verdade, razão, sujeito, objeto são inseparáveis, e não partes separadas que possuem uma existência em si. Elas são partes que se inter-relacionam e se confrontam, para poder existir. Dessa forma, a linguagem mistura-se com o pensamento e com o conceito de sujeito, e passa a ser encarada como uma rede de significações e atribuições, e não apenas uma representação do real.

Para o pensamento complexo, aquilo que entendemos como homem está em constante transformação, em constante organização paradigmática, constantemente se autoproduzindo. Essa autoprodução acontece em relação à linguagem, ao objeto, à verdade, à razão, e aceita uma causalidade circular: o efeito é ao mesmo tempo causa. Nesse sentido, a significação não está presente apenas no signo, que precisa ser interpretado por alguém. Ela é uma busca imanente porque a busca pelo sentido é imanente. Por isso, para o pensamento complexo, o signo é uma unidade que faz parte do processo contínuo e infinito de produção de sentido. Em outras palavras, para o pensamento complexo a combinação de signos está presente na significação, mas a própria significação, entendida como criação de sentido, está sempre em suspenso, sempre imanente.

Por esse prisma, a comunicação como transmissão de mensagens por um canal com o mínimo de ruído possível, torna-se um idealismo. É impossível negar o ruído na comunicação, porque o ruído, entendido como a não decodificação da mensagem pelo receptor, faz parte da complexidade do processo de significação. Ele é a desterritorialização presente no agenciamento. As subjetividades, os sentimentos, as sensações, as cargas ideológicas, as tradições culturais, estão sempre presentes e fazem parte desse processo interferindo no fluxo de informações, elas interferem no processo de transmissão de mensagens. Entender a transmissão de mensagens como algo límpido, puro, sem interferências, é irreal, ou, ideal.

Quando pensamos a comunicação dentro da complexidade, percebemos o quanto ela faz parte da produção de sentido feita em conjunto com todos os elementos do processo de significação e com a realidade que permeia esse processo. Nesse sentido, a comunicação se dá nos agenciamentos. Dessa forma, mais que transmissão de mensagens, podemos compreender a comunicação como uma redundância de mensagens em um agenciamento. Como já foi dito no primeiro capítulo dessa dissertação, para a teoria da informação de Shannon, na economia dos processos comunicacionais, uma informação pode ser mais ou menos codificável, ou seja, ela possui um determinado coeficiente de comunicação. A esse coeficiente dá-se o nome de redundância. Quanto mais redundante, mais decodificável é a informação (MATTELART, A. e M., 2002).

Essas idéias estão de acordo com a pesquisa que vem sendo realizada pelo departamento de Filosofia da Comunicação da ECA-USP (Filocom), coordenado pelo professor Ciro Marcondes Filho. Desde meados dos anos 80, o Filocom vem buscando uma nova Teoria da Comunicação. A introdução maciça das novas tecnologias digitais, a crise dos modelos ideológicos de diagnóstico da realidade e o novo quadro social inaugurado pela chamada pós-modernidade foram as causas da revisão conceitual proposta pelo Filocom. O departamento realiza uma proposta, ainda em fase de construção, para o campo das ciências da comunicação capaz de renovar o campo teórico, de incorporar a nova realidade e de apresentar um outro método de investigação científica para os processos de comunicação.

No livro “O escavador de silêncios”, Ciro Marcondes Filho (2005) propõe que a:

 

Comunicação é o resultado de três seleções: um agente sinaliza alguma coisa, eu percebo nisso uma intenção de comunicar e, por fim, eu entendo que esse agente está se comunicando comigo. Ou então, a síntese entre um sinalizar, um informar e um entender a diferença entre o sinalizar e o informar. [...] para haver comunicação é preciso, pelo menos, haver dois agentes: um Ego e um Alter, que não são necessariamente pessoas, mas elementos de um sistema, ou mesmo, de certas circunstâncias, os próprios sistemas enquanto agentes da comunicação. Eles estão num mesmo universo de referência ou contexto de relação, o que viabiliza o contato. [...] quando eu entendo a intencionalidade do outro, é a comunicação. (id., ibid., 458).

 

Para o grupo, a comunicação é um processo social, um acontecimento, uma combinação de múltiplos vetores (sociais, históricos, subjetivos, temporais, culturais), que se dá pelo atrito dos corpos e das expressões, algo que ocorre num ambiente, permitindo que se realize, a partir dela, algo novo. Os grandes meios de comunicação – a televisão, os jornais, as emissoras de rádio, as publicidades de rua – podem veicular signos comunicacionais, mas isso não significa necessariamente que eles comuniquem, pois é preciso que ocorra o evento comunicacional. Este não acontece necessariamente entre pessoas que se relacionam para essa finalidade, mas acaba necessariamente acontecendo na presença muda, nos olhares, no contato dos corpos. O tempo dessa comunicação se realiza apenas no momento em que se identifica a distinção entre um mero sinal e uma informação. Para haver entendimento, é necessário que haja uma continuidade de comunicação, é preciso que haja a criação de um processo comunicacional, uma seqüência de seleções.

Dessa forma, parte-se para um segundo nível de comunicação, que é a comunicação no plano dos sistemas sociais, fora da intersubjetividade, a comunicação como manutenção da autoprodução desses mesmos sistemas. Os sistemas sociais produzem comunicação entre eles e entre eles e o meio, dessa forma, o meio externo é observado pelo sistema e vice-versa. Ou seja, quando os atores da comunicação não estão perto uns dos outros, quando eles estão distantes, o que os une é a comunicação que um sistema faz ao outro através da comunicação sobre o meio externo àquele sistema social (sobre o clima, sobre os fatos acontecidos, sobre a política, sobre um outro sistema social, etc...). Nessa forma de comunicação é muito difícil haver o entendimento e a compreensão das mensagens de forma imediata, por isso, requer repetição.

Comunicar não é transmitir mensagens. É redundar informações num pulsar constante, é a seletividade que se constrói no processo de comunicação.  O entendimento é um entendimento passageiro, e não chega a ser um consenso, é um acordo passageiro. Nesse sentido, os meios de comunicação não são apenas os meios diretos e os meios de massa, são também os meios simbolicamente generalizados de comunicação, os meios improváveis.

 

[...] [Esses meios] são componentes dos sistemas sociais e sua função é assegurar possibilidades de sucesso à comunicação, transformando improbabilidade em probabilidade. Esses meios são o poder, a verdade cientifica, o dinheiro, o amor, a arte, os valores. Aceita-se uma comunicação antes improvável porque, caso contrário, paga-se multa, porque se trata de uma verdade científica, porque se ama a pessoa, etc.. estes meios vinculam seleção e motivação e tornam possível que a seleção de Alter seja base para as posteriores seleções de Ego. Isso não implica que o sistema psíquico tenha sido cooptado. Pode-se aceitar mantendo-se internamente a recusa. (id., ibid., 467).

 

Dessa forma, a comunicação é aceita como um mecanismo de auto-regulação, um modo como um sistema observa-se a si próprio e aos outros, ou mesmo, ela é que torna possíveis os sistemas sociais. Os signos gerados na comunicação são um julgamento, sempre em movimento, em busca de sentido, e os media, são elementos que podem ser livremente acoplados ao processo de comunicação, são como uma forma criada durante o processo, uma singularidade que surge e que pode se desmanchar a qualquer momento.

A comunicação é uma forma de possibilidade de formação de estratos, de territorializações que tornam atuais as verdades, que são múltiplas. A comunicação funciona tanto como um processo, no qual acontece a produção de diferenças e também como uma observação, que cria o sentido. Tanto o processo quanto a observação se dão no movimento, no fluxo. Quanto mais redundante for uma mensagem, mais ela se torna presente num determinado sistema ou agenciamento. Uma mensagem, que não possui um emissor original, mas vários, vindos de uma longa cadeia de emissores no tempo e no espaço, e pode manter-se num determinado agenciamento com uma potência mais forte ou mais fraca.

 

Linguagem e poder

 

Os agenciamentos são passionais, e são, por isso, agenciamentos do desejo. Segundo Deleuze e Guattari (1995a), o desejo nada tem a ver com uma determinação natural ou espontânea, só há desejo agenciado, maquinado. É em agenciamentos do desejo que podemos reconhecer os dispositivos de poder, já que, para os filósofos, o poder é uma afecção do desejo. É nos agenciamentos que se dão as formas subjetivas e os processos de subjetivação, que “dobram” os fluxos de imagem, de som, de palavras, de matérias orgânicas, de sentimentos (ALMEIDA, 2003).

Para Deleuze e Guattari (1996), em toda relação de poder existe uma mescla de macro e micropolítica, uma fina textura que está entre os dois pólos da luta pelo poder. Essa mescla e essa textura

[...] encontram aí ao mesmo tempo o princípio de sua potência e o fundo de sua impotência. E longe de se oporem, a potência e a impotência se completam e se reforçam mutuamente, numa espécie de satisfação fascinante que encontramos entre os mais medíocres homens de Estado, que define sua “glória”. (id., ibid., 107).

 

Essa textura, o terceiro elemento da relação de poder, é o desejo, um processo imanente que varia entre potência e impotência. No caso especifico do desejo do poder, ele pode se processar tanto na sua potência quanto na sua impotência ao rebater de um lado, nos que controlam, e de outro, nos que são controlados. Por isso, a luta não se restringe apenas ao plano da economia política, ela abrange também o plano da economia subjetiva, abrange o modo como os indivíduos e grupos entendem viver sua existência.

Por isso, ao contrário do modelo tradicional marxista que define a sociedade pelas suas contradições, a filosofia deleuzeana entende que “uma sociedade se define por suas linhas de fuga, que são moleculares “ (DELEUZE; GUATTARI, 1995a, 94).  Porque é nas linhas de fuga que acontece “o primado do desejo” (DELEUZE, 1994). O desejo se confunde com elas. A essa potência do desejo, Deleuze e Guattari (1996) chamam de revolução molecular, que acontece num nível micropolítico e que é o mesmo lugar do controle: a subjetividade.

 

Um processo de singularização [sic] da subjetividade pode ganhar uma imensa importância, exatamente como um grande poeta, um grande músico ou um grande pintor, que, com suas visões singulares da escrita, da música ou da pintura, podem desencadear uma mudança nos sistemas coletivos de escuta e visão. (GUATTARI; ROLNIK, 2005, 65).

 

Segundo Guattari (op. cit.), qualquer emergência de singularidade provoca dois tipos de resposta micropolitica: uma resposta normalizadora, que a ignora ou que a integra, ou uma resposta construtora, que busca levar a singularidade para a construção de um processo de mudança.

O traço comum entre os diferentes processos de singularização é um devir diferencial que recusa a subjetivação capitalística. Isso se sente por um calor nas relações, por determinada maneira de desejar, por uma afirmação positiva da criatividade, por uma vontade de amar, por uma vontade de simplesmente viver ou sobreviver, pela multiplicidade dessas vontades. É preciso abrir espaço para que isso aconteça. O desejo só pode ser vivido em vetores de singularidade. (id., ibid., 56).

Na sociedade capitalista, o controle da “massa”, através do processo de dominação da cultura de massa e dos media, acaba por se efetivar num controle de cada indivíduo, num controle atomizado. A sociedade capitalista, através do mecanismo da Identidade, mesmo que num tipo de identidade fragmentada e variável, as subjetividades são formatadas e modelizadas, invoca um Indivíduo especial que se distingue da massa, mas não uma singularidade que aconteça a partir de devires e de processos coletivos.

Vários pensadores, como Stuart Hall (2001), Zigmunt Bauman (1998, 2001), Lyotard (1998), Prost (1995) e Anthony Giddens (1991), nos alertam sobre a questão da privatização da vida pública, em nosso tempo. Não temos mais espaços públicos, não temos mais momentos de reunião e de consensos em que possamos exercitar um pensamento comum. O próprio modelo social da modernidade impôs essa privatização, que não é uma singularização e sim uma individuação.

Entretanto, Deleuze e Guattari (1996), ao perceber o processo dinâmico das transformações sociais e históricas, acreditam numa resistência biopolítica ao poder biopolitico: a vida como resistência, a resistência molecular, a revolução molecular, os processos de luta que se dão na liberação de fluxos de desejo fora dos padrões modelizados pelo sistema e fora dos padrões impostos na cultura popular tradicional. São individuações que acontecem fora dos padrões impostos pelo sistema social: são singularizações. O que move a singularização é o desejo, um profundo desejo de justiça que se vivencia também na profunda indignação com o sofrimento do povo pobre, oprimido e marginalizado. Nenhuma teoria crítica, por mais crítica que seja, será capaz de mover as ações humanas se não for capaz de agenciar os seus desejos.


 

 

 

 

 

Bibliografia

 

Livros:

 

ALMEIDA, Julia. Estudos deleuzeanos da linguagem. São Paulo: Unicamp, 2003.

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FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola. 1998.

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GALLO, Silvio. Deleuze e a educação. MG: editora Autentica. 2005.

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PELBART, P. O tempo não reconciliado. São Paulo: Perspectiva, 1998.

SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade, uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autentica, 2004.
























Eliana Pougy é mulher feita, mãe em andamento, artista em construção e professora em experiência. Já publicou em papel e em pixels, no Brasil e em Portugal. Recebe essa piada que são os direitos autorais brasileiros. É mestranda na FE-USP e professora universitária, além de capacitar professores em arte. Agora está aqui.

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