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25/4/2006 19:41:00
Subjetividade e Objetividade nas Ciências Humanas



Por Léo Mackellene

 

 

¾ (com escárnio) Se não há objetividade, então não há discussão possível!

¾ (risos) Não. É justamente o contrário. Se houvesse objetividade possível é que não haveria discussão. Pode até haver dados objetivos mas a interpretação e a reunião desses dados é que é subjetiva. Só existe discussão possível porque tudo é subjetivo, ou seja, as interpretações sobre os dados objetivos, interpretações que são, por sua vez, subjetivas, é que permitem a discussão: a discussão de diferentes pontos de vista a respeito de um mesmo objeto. A própria ciência funciona assim, a própria filosofia, já dizia Hegel: primeiro a tese, depois a antítese (ou anti-tese) ¾ que é, em verdade, uma segunda tese, depois a síntese, que é por si uma terceira tese.

¾ (com um gesto largo que apanha  a taça e bebe um bom gole de vinho) Acontecimentos são objetivos.

¾ Pode até ser. Mas até o calendário é subjetivo, depende de cada cultura. A hégira muçulmana ¾ grosso modo: data da morte do profeta do Qu’ran Maomé, por exemplo, marca o início do tempo para os árabes; mas isso aconteceu em mais ou menos 632 d.C.

¾ Sim, mas o fato ocorreu.

¾ Exato! Mas a percepção desses fatos é que é diferente. Ora, a manifestação do ser transparece o próprio ser, não é isso o que Sartre diz bem no comecinho de “O ser e o nada”? O que as ciências, principalmente as ciências humanas, devem prestam conta não do homem em si e por si, mas da representação que o homem faz de si mesmo, porque tudo símbolo.

Uma palavra é meia palavra. Uma palavra é meio caminho andado. Pra bom entendedor, meia palavra é pouco. Um conceito é a marca de um passado. Há uma história por trás do conceito. Uma história da leitura individual, da formação deste indivíduo, isto é, um conceito é uma memória. A psicolingüística nos diz que a percepção lingüística (auditiva e visual) está imbuída de memória, além, é claro, das relações emocionais momentâneas, relações ligadas àquele momento específico.

Isso sugere que uma palavra nunca é só uma palavra, estrutura visível ou audível; uma palavra é uma ilha cercada de conceitos e imagens por todos os lados. A palavra é um repositório de memórias.

A memória não é memória coletiva, é individual. Cada indivíduo tem a sua. Dessa maneira, a percepção de uma palavra é também particular. Assim, a palavra que eu digo não é a mesma palavra que você escuta, apesar de parecerem as mesmas.

¾ Como pode haver comunicação assim? Como é que as pessoas se entenderiam se fosse desse jeito?

¾ É que parece existir uma intersecção entre os conceitos. Essa intersecção é a palavra.

Então, se a manifestação do ser transparece o próprio ser; se a compreensão da manifestação sempre depende da percepção; se a percepção está imbuída de memória ¾ e a observação de uma simples frase como

A UINVRESSIDDAE DE LORDNES DSECOUBIUR QEU PUCOO IPMORTA A ODERM DAS LTERSA NSA PAALVRAS SE PEOL MNOES A PIRMERIA LTERA ETSVIER NO LGUAR CRTEO

pode nos provar isso de que a percepção está imbuída de memória; se a memória é individual; se o conhecimento das coisas só pode ser atingido por meio das palavras ¾ e uma palavra nunca é só uma palavra, mas também um conceito, uma visão de mundo; é que podemos pensar que a formação do próprio conceito sobre as coisas, o que forma a nossa visão de mundo, é sugerida pelo social, mas mantida por cada indivíduo, ou seja, é individual. É como Wittgenstein nos sugere em seu Tratado Lógico-Filosófico, “a formulação de problemas filosóficos repousa sobre o mau entendimento da linguagem”.

Veja por exemplo estes versos de Camões em Lusíadas

E também as memórias gloriosas

daqueles Reis que foram dilatando

a Fé [e] o Império, e as terras viciosas

de África e de Ásia andaram devastando.

 

(...)

 

Em vós se vem, da Olímpica morada,

dos dous avôs as almas cá famosas;

ua, na paz Angélica dourada,

outra, pelas batalhas sanguinosas.

Em vós esperam ver-se renovada

sua memória e obras valerosas;

os Reis “heróis” aos quais Camões se refere e vangloria, para a alegria d’El Rei, não são heróis pra nós (até rimou), são homens cruéis e covardes; homens sem nenhuma honra, homens que não mereciam respeito, que o obtinham pelo medo que causavam. Esses heróis para nós não passam de ladrões, usurpadores, estupradores, corruptos, desonrados, injustos, enfim. Como Oswald Andrade no Manifesto Antropofágico, diz “Não foram cruzados o que vieram. Foram fugitivos de uma civilização em decadência”. Eles não simplesmente “andaram devastando”; o que aconteceu aqui foi um massacre, um genocídio ¾ sempre necessário lembrar, por mais truísmo que seja.

Os próprios jesuítas, pelo menos os “soldados” da Igreja, que os generais ficaram foi na Europa, os próprios jesuítas imaginavam que aquela multidão de aborígines era a manifestação de uma prova missionária promulgada pelo próprio Deus como forma de testar a sua fidelidade, por isso as campanhas se chamavam Missões. Mas foram, só aqui no Brasil, dados de Darcy Ribeiro, cerca de 40 mil índios reunidos nas aldeias do Recôncavo Baiano, em meados do século XVI, atacados de varíola, morrendo quase todos. Ora, mesmo esse dado “objetivo” não foi capaz de convencer padres e jesuítas que sua campanha estava equivocada, pois que eles interpretavam essas mortes como mais um golpe, mais uma nuance da “prova de Deus”.

Ou então, a invasão... ou melhor, a entrada em Jerusalém pelos Cruzados no século XI que é relatada pela história oficial como um grande feito corajoso, de heróis que enfrentaram bárbaros perigosíssimos e endemoniados. Mas se lermos, por exemplo, o relato do escritor libanês Amin Maalouf, encontraremos uma cena completamente diferente.

Em 15 de julho de 1099, milhares de guerreiros loiros entraram em Jerusalém matando adultos, velhos e crianças, estuprando as mulheres e saqueando mesquitas e casas. As ruas se transformaram numa imensa poça de sangue. Os poucos sobreviventes tiveram de enterrar os parentes rapidamente antes que eles próprios fossem presos e vendidos como escravos. Dois dias depois, não havia sequer um muçulmano em Jerusalém. Tampouco havia judeus. Nas primeiras horas da batalha, muitos deles participaram da defesa do seu bairro, a Juderia. Mas, quando os cavaleiros invadiram as ruas, os judeus entraram em pânico. A comunidade inteira, repetindo um gesto ancestral, repetindo um gesto ancestral, reuniu-se na sinagoga para orar. Os invasores bloquearam as saídas, jogaram lenha e atearam fogo à sinagoga. Os judeus que não morreram queimados foram assassinados na rua.

Isto é, a percepção, inclusive de fatos históricos é motivada por interesses, portanto, subjetiva.

Estudar a cultura africana, por exemplo, pode nos dar a nítida visão de como aquele povo foi negado, de como aquele povo foi subjugado. O Renascimento europeu, por exemplo, pra ficar só num dos movimentos mais importantes da Europa, se não for o mais importante, tem raízes africanas, dos árabes que viviam desde a região central da África, passando pelos extremos Leste-Oeste africano. Há referência, inclusive a Salah al-din, o sultão muçulmano do Sudão no século XII, no Inferno de Dante Alighieri, sem falar que a concepção de A Divina Comédia, apesar de ser cristã e os ideais cristãos serem platônicos, mas a concepção de A Divina Comédia é aristotélica, quando Dante assume a idéia de que o caminho da virtude é a Razão, ali representada pela figura de Virgílio, o poeta de Eneida.

Essa concepção aristotélica de Dante sugere por si uma influência dos árabes com os quais o sul da Europa manteve forte contato durante toda a Idade Média, pois foram os árabes que guardaram, por assim dizer, a filosofia de Aristóteles. O comércio de livros era um dos mais rentáveis negócios desse período. As escolas em mesquitas para o povo na Idade Média, hospitais públicos, os campos agrários comunitários, enfim. A maior biblioteca do mundo antigo: Alexandria, na África; a civilização de ouro do mundo antigo, e que nos deixou legados inacreditáveis e feitos que até hoje não compreendemos, como as Pirâmides, pra ficar no mais conhecido, a civilização de ouro do mundo antigo: o Egito, na África; santo Agostinho, africano; o celeiro do Império Romano: Cartago, na África; o jazz, o blues, o rock, o samba, o ska, o mambo, o hip hop, o chorinho, o tango, o afoxé, o rythm blues, o reggae... tudo isso: negro. E aí eu me pergunto? Por que poucos sabem disso? Por que não tem qualidade ou por que estes foram silenciados?

Por que conhecemos Aristóteles, Platão, Scheneider, Foucault, Sartre, Descartes, Bachelard mas não conhecemos Farias Brito, Lourenço Filho (que não são apenas colégios em Fortaleza!), Joaquim Nabuco, Rui Barbosa e muuuuitos outros que, nem sequer podemos imaginar, existiram? Por que falamos tão pouco em Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Paulo Freire, Edison Carneiro? Será que tem a ver com qualidade do pensamento destes senhores? Será que não tem a ver com controle das informações? Será que não tem a ver com o fato de que nós fomos (e seremos cada vez mais) silenciados? E quem controlou essa informação? Quem nos quer silenciosos? Será que podemos mesmo confiar no critério Tempo? Ora, e isso não é por acaso expor (ou deixar de expor) subjetivamente dados objetivos.

¾ O dado objetivo é uma verdade, uma certeza.

¾ E o subjetivo, não?

¾ O subjetivo é o reino das incertezas!

¾ Ora, as verdades em que eu acredito estão vinculadas à uma ideologia, qualquer que ela seja. A ideologia não está além da realidade, não é algo pra deleite, não é coisa pra passar o tempo ou pra ficar só divagando sobre alguma coisa como um bom aristocrata fazendo a sua digestão, não! A ideologia é a base sobre a qual serão construídas todas as suas ações, que serão baseadas, por sua vez, no que eu acredito. A maior prova da existência de Deus é que as pessoas se guiam por essa existência no seu dia-a-dia. É como Fernando Pessoa dizia

O mito é o nada

que é tudo.

O mesmo sol claro

é o mesmo sol que abre os céus

é o mito brilhante e mudo

o corpo de deus vivo e desnudo

 

Este, que aqui aportou[1],

foi por não ser existindo

sem existir nos bastou.

Por não ter vindo

foi vindo e nos criou

 

ssim a lenda se escorre

ao entrar na realidade decorre

embaixo a vida

metade de nada morre.

A Ideologia é, portanto, o terreno fértil em que floresce a própria vida.

Vamos imaginar agora a ciência e o lugar onde ela se propaga na mente das pessoas, ou seja, a escola. Ora, o próprio termo “educação” vem do latim Educere, que gerou espontaneamente (por conta da sua conotação) uma outra palavra em português: “indução”. Ali, na sala de aula, estamos lidando com a formação do indivíduo, a base de todas as suas ações e atitudes perante si mesmo e perante o mundo. E o que é o professor senão aquilo que Althusser e Durkheim já disseram: um aparelho ideológico?

A ciência, por sua vez, jamais é neutra. É impossível uma impessoalidade. O

cientista é quem “escolhe” a área em que vai trabalhar! E mais que isso: o mesmo cientista é quem “escolhe” as teorias que lhe vão pautar o trabalho.

Paulo Freire, em seu livro A África ensinando a gente, sobre sua experiência na África “Portuguesa” pós-revolução (1975) diz que

Do ponto de vista do colonizador, os colonizados não tinham história antes da sua chegada à terra dos colonizados. Nesse sentido, os colonizados deveriam agradecer aos colonizadores o fato de eles terem posto os colonizados na história. Da mesma forma, os colonizados não tinham cultura, antes da chegada dos colonizadores. A língua dos colonizados sempre foi chamada de dialeto feio e pobre. Só a língua do colonizador é uma língua que tem possibilidades históricas, que tem flexibilidade para expressar a ciência, a técnica e as artes. A arte do colonizado é folclore, a arte do colonizador é cultura (risos).

A maior parte dos professores, antes da revolução, era de Portugueses. Havia alguns africanos educados na Europa [é que fazia parte das estratégias européias de aculturação, levar negros para serem educados segundo as verdades européias e voltarem para a África exercendo profissões administrativas e de magistério]. Aquilo que se transmitia às crianças é que era a ideologia do sistema colonial facista. Nisso não há dúvidas! Por exemplo, uma aluna minha tinha uma afilhada que uma vez chega em casa e diz ‘Madrinha, eu estou indignada, porque a professora disse-nos que aqui em África na há frutos!’. Quer dizer, frutos são pêras, uvas, maçãs. O resto não são frutos. (risos)

Quer dizer, a educação era canalizada dentro de um sistema que era necessário manter. Era um ensino que dizia aos africanos que eles não tinham história, nunca tiveram história, que sua história começa a partir da chegada dos portugueses.

Ora, estudar o processo de colonização africano e observar o que é um professor em sala de aula, como eles agiam, acreditando que estavam agindo de outra forma; observar como todo esse processo se deu por aqui no Brasil, e em todas as outras colônias; observar as disciplinas que nasceram na época da Ditadura Militar no Brasil (OSPB e Moral e Cívica) para fazer propaganda pró-ditadura; observar como os livros de geografia do ensino básico dos EUA já não mostram, no mapa mundi, a Amazônia como território brasileiro, mas sim como área de preservação florestal “protegida” pala ONU (e a ONU, como todo jornalista sério sabe ¾ que o diga José Arbex Jr., da revista Caros Amigos ¾ sabe que a ONU é um órgão regido pelos países aliados e que não tem nenhum poder sobre os EUA, que o ateste o Protocolo de Kyoto); ver como Hitler usou a escola e a ciência como meio de divulgar e legitimar suas idéias; observar tudo isso nos dá a nítida face do que é um professor numa sala de aula: divulgador de uma ideologia sutil, quase invisível. Só percebida por indivíduos um pouco mais atentos, em vigília, como dizia Debord. O que nos prova que os dados podem, sim, ser objetivos, mas a percepção desses dados é construída e, portanto, subjetiva.

Quando analisamos a história da humanidade, por exemplo, não analisamos as sociedades historicamente, analisamos livros históricos sobre a história da humanidade. Estes livros históricos, no entanto, não refletem nem sequer um terço do que as sociedades históricas (no percurso da humanidade) eram; quando muito, são visões (geralmente) particulares (de cada escritor) sobre determinado(s) fato(s). Passam esses fatos, por mais que levemos em conta aspectos da época que estamos retratando, pelo filtro de nossa consciência, e, querendo ou não, quando observamos qualquer época tenderemos à infiltração do que temos aprendido por nossas próprias experiências. O que quero dizer é que a verdade sobre um passado jamais será completa posto que nossa percepção está envenenada por nossa vivência atual e passada, nossas experiências; posição com a qual concorda João Dummar Filho (1999),

Cada pesquisador, a partir de suas reflexões e do estudo das idéias e teses existentes, formula sua própria tese, interpretando o mesmo objeto sob novo prisma, participando dessa forma do rico processo dialético da ciência.

Ora, se não existe mensagem dada e sim construída (Piaget), entende-se que mensagem alguma existe por si só; por conseguinte, a história não está completa até que se lhe socorra ao amparo um ser pensante –pelo que se tem por “Ser Pensante”- atribuindo-lhe nomes, conceitos, funções e interpretações (ou sentidos). Haverão de concordar comigo que os sentidos, principalmente os sentidos respectivos às ciências humanas, não são universais, atemporais e/ou a-espaciais; os sentidos se alteram “acompanhando” a evolução histórica, dialética, do conhecimento, já nos dizia Hegel. Se os sentidos se alteram e, por mais que se tenham registros históricos sobre específico fenômeno social e/ou natural, não se pode saber ao certo como as pessoas de determinada época recebiam uma determinada questão  ou um determinado fato social. Podemos concluir, portanto, que um mesmo fato pode ter várias interpretações (ou sentidos), dependendo do instante histórico, do lugar, da comunidade e da história individual dos indivíduos que o interpreta (Jauss). Não está correto? Então, subentende-se que a interpretação é externa (ou de outra forma, posterior) ao próprio fato, posto que ele não a dita, simplesmente torna-a perceptível.

A história, neste sentido, é uma farsa contada pela classe dominante, afinal, quem detém o poder determina o que deve ser considerado verdade ou não. O fato é que a história é contada por livros financiados por empresas privadas (ou a Aristocracia, no caso da história do período Pré-mercantilista e mercantilista) ou pelo governo que, por sua vez, é financiado por empresas privadas que, nada mais normal, visam manter em conta seus interesses particulares. Dessa maneira, até as leis são criadas pelo estado para defender e legitimar a ilegitimidade dos fatos e feitos dos dirigentes da sociedade e do estado. Até as leis são redigidas numa suposta língua oficial, importada da Europa por submissão bélico-cultural, a qual o cidadão simples não tem acesso, distanciando-o cada vez mais de seus direitos. Tal qual dizia a boneca Emília nas páginas de Monteiro Lobato, “A verdade é uma mentira bem contada”.

Quando analisamos, por exemplo, os textos de Sófocles, Homero e Píndaro, é que temos certeza de que a sociedade perfeita da Paidéia, descrevendo uma Grécia Harmoniosa –entre classes- é uma grandissíssima farsa. As mulheres renegadas à cidadania somente no reconhecimento dos filhos e consideradas como seres inferiores. Os escravos. As classes, quase castas sociais, refletidas nas hierarquias do Olimpo de Homero e Hesíodo.

É o filósofo cearense deleusiano Daniel Lins quem diz “Não sabemos, tagarelamos!”. Um poeta inglês chamado Robert Frost escreveu um longo poema sobre isso.

We dance around in a ring and suppose

But the secret sits in a middle and knows

Tudo é uma enorme especulação, uma imensa conspiração. Nunca sabemos o que é bom ou o que é mal para nós. Nunca podemos saber o que de fato é a verdade. E é bom que seja assim, pois se houvesse mesmo objetividade, o conhecimento cessaria e a interpretação do mundo seria unívoca, ditatorial. Como diz Milan Kundera em A insustentável Leveza do Ser

Nossa visão é limitada por uma dupla fronteira: a luz intensa que cega e a escuridão total. Os extremos delimitam a fronteira para além da qual a vida termina.

É essa subjetividade que nos mantém vivo. Vivemos por um longo, longo tempo até que algo ou alguém nos mate. Tudo o que fazemos é placebo. Serve apenas para passar o tempo. Por isso é que Kurt Cobain cantava

Here we are

Now, entertain us.

Tanto faz correr ou dormir, dá no mesmo. Não é a vontade o que nos move é o medo. A verdade é só uma crença qualquer, uma mentira bem contada. Escrevo tanto porque não sei de nada e fico tentando me convencer de que sei de alguma coisa. Mas é como Daniel Lins diz, “não sabemos, tagarelamos!”.

Continuamos...  e é tudo. E tudo acontece sem o nosso consentimento...  

Em Indiana Jones e a última cruzada, o personagem principal tinha que pegar o Santo Graal. A última provação dele antes de encontrar o cálice era atravessar um abismo pisando numa ponte que ele não conseguia ver. A ponte só existiria se ele acreditasse nela; se no meio do caminho ele tivesse dúvida, a ponte desapareceria e ele cairia lá embaixo. Ora, se uma mentira tem quem acredite nela, essa mentira acaba se tornando verdade, não?

Numa época em que o áudio-visual impera e substitui o conhecimento mais profundo das coisas, o olhar se impõe nos tornando escravos do seu império. As imagens visíveis são apenas a aparência daquela verdade mais profunda e íntima do ser, aquela que está no escuro, escondida e silenciosa. O que está em silêncio é o que precisa ser ouvido. Compor uma canção ou um poema é traduzir a voz silenciosa do infinito.

A verdade está além da luz. É a luz apenas a instância visível da matéria e não a própria matéria. Há, inclusive, quem diga que essa aparência é uma ilusão dos sentidos. O olhar aqui serviria não para nos certificar de que tal coisa existe de fato, mas justamente para nos enganar. Pelo olhar percebemos o limite físico das coisas, ou o limite do que elas aparentam ser que está ligado diretamente ao simulacro, àquilo que simulamos representar funcionalmente dentro da intrincada gama da malha social.

Raul Seixas é quem diz (canta) “e você ainda acha que é um doutor, padre ou policial que está contribuindo com a sua parte para o nosso belo quadro social” (ri)

Nunca vivemos tanto na caverna de Platão como agora, no século XXI, resultado de toda a exploração e o deslumbramento das “novas imagens” trazidas à tona pelas novas tecnologias: a fotografia; as fotografias postas em seqüência veloz (o que nos causa a ilusão do movimento: o cinema, que Carlos Emílio chama de “espelhos eletrônicos”); a realidade virtual, enfim, todo o mundo agora pode ser encontrado atrás de um vidro, como se estivesse aprisionado numa lâmpada de gênio, mas o gênio está adormecido (ou mesmo morto). Quem poderá tirá-lo de lá?

Tomamos por verdade aquilo que vemos enquanto não damos a volta toda em torno daquilo que queremos conhecer e enxergamos apenas um fragmento desse objeto. Dizemos que conhecemos tal lugar ou que conhecemos tal pessoa sem nunca termos ido até lá ou sermos apresentados a essa pessoa justamente por tê-los visto por fotografias, pela TV ou pelo cinema. Neste ínterim, confundimos até o que sentimos quando certos acontecimentos nos vêm de uma maneira manipulada e nos fazem acreditar que não é aquilo que sentimos, mas aquilo que pensamos, ou não é aquilo que pensamos, mas sentimos.

O quanto assustados ficaremos nós quando descobrirmos que por detrás de toda cor existe o negro? Que o negro é a essência de toda cor? Que as cores outras que não o negro dissimulam toda a verdade contida no escuro, escondida no negro? Pois sim, o negro está presente em tudo e se diz-se por aí uns certos ópticos que o negro é a ausência de luz, como podem eles justificar que, sendo a luz responsável pela visão, ou seja, que só se pode ver através da luz (e aqui independe de como ela se propaga, se através de ondas ou partículas), como então enxergamos o negro, se este é a ausência total da luz? Ilusão ou ingenuidade crer que onde há luz não há trevas. Ora, o que é sempre bom ou sempre ruim? A luz não sucumbe o negro, posto que basta a luz ir-se e o negro retoma seu lugar. A luz, quando muito, esconde o negro e encobre o escuro. Mas ele ainda existe.

A civilização é o lugar do olhar exacerbado, do olhar do outro sobre nós, aquele olhar que compete e que, por isso, precisa rebaixar o outro. O olhar que denuncia, que acusa, que torna vulnerável. Embora seja pelo próprio olhar do outro que nos definamos; nossa visão sobre nós mesmos é parcial e incompleta sendo o olhar do outro sobre nós o complemento de nossa visão.

No documentário Janela da Alma do brasileiro João Jardim há um relato de José Saramago em que o olhar é fortemente questionado. Ele conta um caso que lhe aconteceu na infância e que nunca mais esquecera. Quando criança, havia ido ao teatro e no cenário havia uma grande fachada com uma abóbada de prata por cima. Encantado com seu brilho e inconsciente de que se tratava de um cenário, Saramago resolveu dar a volta inteira. Foi a sua perdição (ou bendição): atrás daquilo que se apresentava para ele tão belo, havia um monte de madeira sem brilho algum pregada com pregos, suja de poeira e cheia de teias de aranha. Daí ele tira a conclusão e o ensinamento de que “para conheceres as coisas todas, há de dares a volta toda”.

No mesmo filme, um fotógrafo cego exibe uma série de fotografias e dentre elas ele escolhe uma que foi tirada com sua sobrinha correndo por um campado (onde brincara ele na infância) com um pequeno sino na mão. Orientando-se pelo som do sininho, ele fotografou o invisível, o sino que, pelo tamanho, não aparece na foto. Ele chama essa fotografia de A Fotografia do Invisível.

Ora, repito aqui a fala extremamente desgastada e, portanto, banal, do Mr. Keating em Sociadade dos Poetas Mortos. “Quando achar que conhece alguma coisa, olhe de outra forma”.

A ciência é uma construção entre outras e se se a privilegia, minimizando as demais, mesmo sabendo que essa construção não se sustenta, como já vimos, quando tenta abranger manifestações diversas de um mesmo objeto através da elaboração de um conceito que visa simplesmente a generalização, assim, ou se distanciando do objeto ou excluindo as diferenças que a desmentem, contradizem-na e a destroem, sob o eufêmico e singelo título de Exceções, se poda toda e qualquer verdade que não se construa sob os moldes da verdade científica, numa ditadura, sem tamanho, do saber.

Sérgio Paulo Rouanet fala a respeito de um dos maiores, senão o maior, inimigo das postulações universais que caracterizam o objetivismo, Michael Foucault.

Foucault sempre demonstrou o mais soberano desprezo pelo objetivismo do saber e da ciência. O saber não é objetivo, porque sua validade é comprometida por uma gêneses extra-científica e funciona a serviço de fins extra-científicos. Isso se aplica especialmente às Ciências Humanas. Elas são finalizadas, funcionalizadas, por contextos não científicos, repousam num subsolo fundamentalmente não científico. (p.166)

Ou então o filósofo argentino contemporâneo Ernesto Sábato,

Se as normas da ciência pura são adequadas para um triângulo ou um espectograma, não o são para o homem e seus problemas existenciais. É que é tão ilusório pretender conhecê-los desse modo como tentar conhecer Paris mediante o exame de sua cartografia. (...) Quanto mais extremadamente se tentou racionalizar o homem, mais brutalmente reagiram as potências inferiores. [2]

Eu não seria tão benevolente. Eu diria que não só a ciência exata é que pode resguardar seu conteúdo objetivo, porque também é dita através de palavras e as palavras não são objetivas. As palavras têm caráter de verdade, servem para isso, ou para ocultar uma verdade mostrando uma segunda verdade. Ora, é como o filósofo italiano contemporâneo Anselm Jappe diz “quem detém o poder determina o que deve ou não ser considerado verdade”, mas aqui é uma outra discussão.

A ciência traz também ouros problemas; dentre os quais o mais grave é a especialização, que leva à fragmentação e, conseqüentemente, à perda da noção do todo, ao princípio que Erich Fromm, da escola de Frankfurt, em seu livro Psicanálise da Sociedade Contemporânea(1959), chama de “Alienação”, ou abstração, abstenção, melhor dizendo.

Um modo de produção e experiência em que a pessoa se sente como um estranho. Poder-se-ia dizer que a pessoa se aliena de si mesma. Não sente como se ela fosse o centro de seu próprio mundo, como o criador de seus próprios atos, tendo sido os seus atos e as conseqüências destes transformados em seus atos e as conseqüências destes transformados em seus senhores, aos quais obedece e aos quais quiçá até adora. A pessoa alienada não tem contato consigo mesma e também não o tem com nenhuma outra pessoa. Percebe a si e aos demais como são percebidas as coisas: com os sentidos e com o senso comum, mas, ao mesmo tempo, sem relacionar-se produtivamente consigo mesma e com o mundo exterior (p. 129)

Ora, tal alienação (ou abstração ou abstenção) leva à exacerbação do indivíduo, que implica, por conseguinte, na negação do outro, em outras palavras, do diálogo. Num âmbito maior, nos arrasta para a exclusão social.

O jornalista Nivaldo Manzano[3], conta (e reflete sobre) uma historinha muito interessante

Anos atrás, ainda adolescente, entrei numa loja de propriedade de um levantino, na rua José Paulino em São Paulo, local onde se concentravam comerciantes imigrados do Oriente Médio; perguntei pelo preço de uma calça e, sem dizer palavra, saí, para ver se encontrava em outra parte uma de valor mais acessível. Atrás de mim na calçada, vinha alguém dizendo: “Senhorrr, quanto paga?”. Na hora, estranhei, mas não me fixei na coisa. Somente mais tarde na vida, compreendi o alcance transcendental da angústia do homem: eu não lhe havia dado oportunidade de praticar comigo o ritual da pechincha. O homem fez-me retornar a sua loja para ouvir a minha contraproposta.

Vim a aprender tempos depois que a busca de preço justo é a manifestação, no plano do comércio, de um valor antropológico e ético central na cultura árabe e, por extensão, islâmica. É o reconhecimento desse valor que a define ¾ o valor da diversidade. Ao valor da diversidade opõe-se o pensamento único, que pretende sufocá-lo.

Se fizermos uma análise da pechincha, notaremos que ela tem uma estrutura algébrica. A linguagem algébrica, que não exclui a aritmética, estabelece equivalência entre qualidades, enquanto a aritmética estabelece uma identidade entre quantidades. A aritmética soma 1 melancia e 3 bananas e obtém o produto abstrato 4, no qual não se distingue banana de melancia. Diferentemente, na álgebra se realizam operações de equivalência (x=3y), cujo resultado não elimina as diferenças qualitativas entre os termos.

A operação aritmética obedece ao princípio da identidade (A=A), ou da exclusão: “ele ou eu”. Esse é também o princípio regedor do pensamento único, que exclui do espaço de possibilidades a perspectiva de outrem. Diferentemente, a operação algébrica obedece aos princípios da inclusão e do reconhecimento, que incluem necessariamente a visão de outrem. A cultura da aritmética leva à intolerância; a cultura da álgebra à tolerância, à reciprocidade e ao respeito mútuo. O valor da diversidade se caracteriza por enfatizar a singularidade irredutível de cada pessoa, de cada comunidade, de cada cultura. Em contraste, o valor por excelência da cultura ocidental individualista é a identidade, que aplaina as diferenças, para reduzir tudo à abstração da universalidade, da homogeneidade ou da indiferenciação.

Essa última questão nos leva a uma outra discussão que foge do meu intuito aqui nesta carta, mas pode ser acompanhada através da leitura de meu livro A Idade das Sombras, que aborda questões sobre a constituição da Cultura Ocidental, fazendo analogia com a “Idade das Trevas”, também conhecida como Idade Média; aproveitando trabalhos científicos reconhecidos pelo meio acadêmico em diversas áreas do conhecimento como Educação, Epistemologia, Fenomenologia, Metafísica, Filosofia, Sociologia, Psicologia, Antropologia, Teologia e Ocultismo, Mística, Astrologia, Alquimia, Estética, etc; alcançando uma visão mais ou menos ampla sobre o homem contemporâneo.

A concepção que mostro, em verdade, não quer destruir a verdade, ou lançar o homem em desesperança, não, pelo contrário; quer sugerir uma abertura para o outro, para o novo, para aquilo que ainda não foi visto. Quer nos pôr em xeque, mas apenas para impedir violências, intolerâncias, impedir fundamentalismos.

¾ Eita que palavra na moda!!!!

¾ hehe! Impedir que nos matemos por verdades que, no fim, são apenas crenças.

 

 

 



[1] E aqui ele está falando de Ulisses, o herói da Odisséia de Homero, que no retorno de Tróia para Ítaca teria fundado uma cidade que ficou conhecida por “Ulisses bonna” que, com o tempo evoluiu para a forma conhecida hoje como “Lisboa”.

[2] SABATO, Ernesto. 1994. p.20

[3] no artigo Cultura islâmica – fonte da cultura ocidental, publicado pela revista “Caros Amigos” de dezembro de 2001

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Léo Mackellene é poeta, músico e professor de Literatura Comparada, Literatura Africana e Língua Brasileira na UEVA - Universidade Estadual Vale do Acaraú. E-mail: escambo@hotmail.com

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