22/6/2006 00:16:00 O poeta como guia da humanidade
Por Léo Mackellene
A pergunta. Mais importante que as respostas é a pergunta. Sem a pergunta nada existiria. Sem a pergunta, o universo não teria surgido. A vida é uma resposta de Deus para a pergunta que ele fez a si mesmo quando se descobriu um Deus “o que estou fazendo aqui?” disse ele. A pergunta, o negativo da palavra, sua escuridão, sua estrutura profunda. Cavem o terreno da palavra, mergulhem-na e no fundo, na base, nas profundezas da palavra encontrarão a pergunta. Como um código genético. Como uma essência guardada em segredo. Como uma pérola, uma pérola negra, escura, escondida.
Tudo pergunta. A pergunta é uma falha na malha da realidade. Um buraco negro. O desconhecido que provoca medo e angústia, pavor e esperança. Eis a pergunta, ad infinitum. Porque nenhuma pergunta se encerra em sua resposta imediata. O horizonte é sempre mais além. A pergunta é o enigma, o mistério. E todo bom orador, todo guia deve começar com a pergunta. Nenhuma resposta é universal, nenhuma. Cada um traz consigo as respostas que lhe cabem. E é papel do guia, do educador, do professor, do profeta, do guardador de rebanhos (como queiram chamar!) não mostrar a resposta, mas fazer ver, torná-la visível. Nisso consistem as minhas aulas: em fazer ver fazendo perguntas. Respostas? Para mim só as minhas e as de outros com as quais eu concordar, é sempre assim, não?! Questão de identificação! Toda a ciência não é mais do que a expressão organizada, sistematizada de nossasubjetividade. Tudo, em verdade, é subjetivo. Por mais presunçosamente universal que possa desejar ser a ciência, mas tudo termina e começa nesse terreno absorto da subjetividade. Essa terra fértil de mistérios e silêncios. Não existe nada fora do homem, fora do ser. Nem mesmo deus! Minhas verdades e no entanto só minhas. Quem quiser que concorde com elas. Ou, mais uma vez, como professor, cientista, filósofo, retórico ou seja lá como queiram chamar, meu papel é convencê-los de que estou certo. Nietzsche já dizia que a língua é uma vontade de domínio. E o que não é a ciência senão essa tentativa constante de convencer o outro através de argumentos? A língua não serve para comunicar nada, mas para convencer! É um instrumento de domínio. Convencer o outro é fazer com que ele pense do jeito que se quer que ele pense. Uma vontade de domínio configurada pela ciência. A formalidade e a formatação de seus textos é apenas mais uma linguagem, mais uma forma da língua, mas que continua sendo língua.[1]
A palavra, uma vez pronunciada, torna-se pública. Publicar um livro, assim, é abdicar de seu patrimônio; ela não é mais nossa, mas de quem as toma por suas. Porque as palavras são deuses que cá estão para nos guiar, pela boca e pelo punho dos poetas. E os professores são os intermediários dessa relação. Os professores são o elo entre os guias (os poetas) e os alunos.
Não tive pai. Nem tenho filhos. Poderia evocar aqui a célebre frase do último capítulo de Memórias Póstumas... “não tive filhos. Não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria” para me consolar, mas eu seria uma raposa que não alcançou as uvas. Prefiro dizer que não sei. Não sei se isso é bom ou ruim. O fato é que não tenho filhos. De qualquer forma, esse fato simplório, à primeira vista, é responsável por outra coisa, de suma importância para a minha vida. Porque não tive pai, os poetas e escritores, pensadores e filósofos, todos eles foram meus guias. Não tive filhos e por isso escrevo poesia, ensaios; por isso escolhi ser professor. Traços que formam minha personalidade e minha maneira de ver o mundo. É preciso tentar entender-se e entender o outro; mostrar a ele coisas que ele já sabe, só não sabe que sabe; e aprender com ele o que já sabemos, mas esquecemos. Faz parte de nosso acordo com a vida: modificar as pessoas e o mundo, nós mesmos. E isso implica trabalho, isso implica um esforço mental imenso, de auto-avaliação constante inclusive. Eis o meu lema: amar, aprender e guiar. Clarice diz, na sua última entrevista, antes de ir-se para sempre de seu corpo físico, “eu cuido do mundo. Estou sempre ocupada porque o meu papel é cuidar do mundo”. Eis o papel de quem imagina: cuidar do mundo. Afinal de contas, o mundo é culpa de quem imagina, não de quem vive.
Pensar. E pensar, como bem lembra o sábio chinês Lin Yutang , “pensar é uma arte, não uma ciência”. Eis a tarefa mais árdua: pensar. Mas não simplesmente pensar. Essa luz azul que a tudo mina e destrói. Não. Mas pensar a luz avermelhada de sangue. O rubro ardor de coisa viva: pensar com sabedoria. E para pensar é preciso conhecer tudo e conhecer-se em tudo: na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na miséria e na “riqueza”. Pensar e fazer pensar. Não mostrar conclusões mas fazê-los chegar a conclusões por si próprios! Não só as conclusões que já conhecemos e temos por certas, mas outras, que sequer imaginamos. Ensinar a dúvida, ensinar o terreno fértil de possibilidades da incerteza. A incerteza, a semente, o núcleo, o olho do conhecimento. Amai as dúvidas, meus queridos! Amai as dúvidas! Só existe diversidade no mundo porque existe a dúvida. Somos tantos porque existe a dúvida. Duvidamos, logo existimos.
Toda verdade, científica, religiosa ou estética, é uma crença, apenas uma crença. Estruturas lógicas e lógicas desiguais temos em toda parte! As moléculas de água se organizam e portanto têm uma lógica diferente da lógica pela qual se organizam, por exemplo, as moléculas de ar e assim por diante, mas nem por isso deixam de ser lógicas e equilibradas. O mesmo se dá com o pensamento. O religioso há de encontrar provas circunstanciais para confirmar o que acredita. O cientista do mesmo jeito. O artista ainda mais. E se o primeiro chega ao nível Deus antes de todos os outros, isso se dá não por falta de provas, mas por lidar com questões mais elevadas que a ciência ou a arte. Mas a essa incógnita, a essa fronteira do saber, ponto em que não é permitido saber mais, chegaremos fatalmente à resposta “Deus” por qualquer das vias. Deus seria a fronteira, o limite. Além dali, inexistimos. E Deus é a palavra, o verbo, a fronteira, a pele que nos reveste e reveste as coisas, nosso elo com o mundo real.
Quanto à literatura, que é a arte da palavra, ler é conversar. Ler é aprender e ser guiado pelos livros. Os livros, no entanto, não são páginas rabiscadas com palavras, apenas. Os livros são pessoas falando, conversando, debatendo, pensando sobre o mundo e sobre as coisas do mundo. Sobre o homem e sobre a vida. Sobre a alma e sobre a morte. A história e a política. A ciência e a sabedoria. E ouvi-los, dialogar com eles, é a chave. Os livros serão nossos guias. O poeta é o grande sábio, o grande profeta. Haveremos ainda de restabelecer à literatura o papel que lhe cabe na História: o papel de guia da humanidade.
Estudar literatura, quando o foco é de fato a literatura e não a teoria literária. A teoria literária é um desvio, um pensamento sobre a literatura, muito aquém dela. A teoria literária é um pensamento de força-menor, pelo menos de freqüência mais baixa do que a vibração, a ressonância da Literatura. O foco primeiro deveria ser o próprio texto literário. Estudar literatura, quando o foco é a própria literatura e não a história da literatura, com suas escolas literárias definidas pelo cânone (e, portanto, pelo filtro do poder vigente), com a presunção de conhecer e determinar os principais temas de cada época, com sua pretensão de dar a autores (o que convêm ao poder) o título de melhor autor não sei de quê e não sei da onde; de dar a eles o título de Ronaldinho-fenômeno-das-letras; estudar literatura quando o foco é a própria literatura é procurar entender, ver e viver o mundo de outras tantas maneiras, explorando as possibilidades vivenciadas pelos autores, discutindo com eles, debatendo com eles, discordando deles, dialogando com eles, aprendendo.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Viver tudo de todos os lados.
Ser a mesma coisa
de todos os modos possíveis,
ao mesmo tempo realizar em si toda a humanidade
de todos os momentos,
num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
(...)
Sentir tudo de todas as maneiras,
ter todas as opiniões,
ser sincero contradizando-se a cada minuto,
desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,
e amar as coisas como Deus.
(A Passagem das Horas, F. Pessoa)
E que melhor maneira de “sentir tudo de todas as maneiras” senão vivendo o que os poetas viveram, aprendendo com eles, ouvindo suas memórias, pensando sobre sua experiência,ouvindo-lhes contar suas histórias, senão com literatura?
“Os poetas sabiam intuitivamente muitas coisas que eu bem penara para aprender” declarou Freud. Se é através do sonho que o futuro se comunica; se o poeta é o homem dado ao sonho; se o poeta é o que trata do que poderia ser, como diz Aristóteles; se o poeta é aquele que pré-vê, que antecipa o que vem; a poesia é uma profecia. Mas é que o conhecimento é um fantasma que ronda o universo, um espírito a habitar os homens, às escuras, a revelar pouco a pouco os segredos do mundo.
A sensibilidade maior capta mais rapidamente essas “informações”. E a sensibilidade é anterior ao próprio saber, por isso é mais vital.
E quem sabe o que se passa no escuro das nossas entranhas, nas profundezas da alma? Só quando ela se manifesta, só quando ela quer, dialogamos. As entranhas são o segredo do universo e só se manifestam na insatisfação, na dor. A dor segue para lembrar que existimos, para mostrar quem é que está no comando. Só através da dor pode-se chegar perto (apenas chegar perto) da cura, do sol, do segredo.
We dance around in a ring and suppose,
but the secret sits in the middle and knows.
(Robert Frost)
Ou,
Ainda que o gesto me doa,
não encolho a mão: avanço
levando um ramo de sol.
(Thiago de Melo)
Que tamanha vaidade a daquele narciso que se afoga em si mesmo (como Nietzsche em sua introspecção, sua esquizofrenia) e se perde na selva escura de seu meio caminhar (como Dante). O saber é uma tradição infinita, um conhecimento jamais atingido em sua totalidade e possível de o ser por qualquer homem. O mundo não cabe na cabeça de um só homem. Enlouqueceria aquele que ao menos encarasse a verdade nos olhos. Eis as serpente do medo a petrificar. Como disse Nietzsche, em Além do Bem e do Mal, há um grau de sabedoria além do qual homem algum seria capaz de suportar.
O pensamento é um impulso elétrico, parte do que os físicos chamam de Energia Unificadora, que captamos como uma antena capta ondas de rádio. Mas o pensamento não está solto no ar, como as ondas de rádio, está em todas as coisas. Não é só o corpo que pensa, o mundo inteiro pensa! Eis os verdadeiros sábios, eis os verdadeiros mestres.
A tradição é um processo infinito, caminha junto da sabedoria que há, que havia, que haverá e a poesia a acompanha por todos os lugares, é a amante predileta da sabedoria. Está antes de toda verbalização. Antes de Dante, de Nietzsche, de Tiago de Melo, de Robert Frost; antes de Aristóteles, de Freud, antes de Pessoa; antes de Lin Yutang; antes de Clarice; antes de Machado; antes dos (decifráveis, mas intraduzíveis) hieróglifos do Antigo Egito, ou das inscrições rupestres, marcas de um passado longínquo do qual só nossa parte inconsciente, essa parte que sente (e sente saudade), é capaz de antever, antes até do próprio homem.
A Tradição é tradição desse sentir, que é infinito. Esse sentir qual a sensação de um calor maternal que fez da vontade e do desejo um motivo para fazer surgir o universo inteiro. De uma energia que os antigos chamavam de fogo sutil e que hoje reconhecemos como magnetismo, o universo se expande ressoando, da menor à maior matéria concentrada, dos átomos ao mó, a sua canção Eterna.
Cada coisa que há é uma organização de átomos e de energia em si e individual; cada coisa é um organismo dependente de todas as outras coisas que há e reverbera para fora de si, através do sentido, de sua canção, de sua melodia preferida. O sentido inicia o jogo. O sentido ensina a libertar-se do corpo. O sentido é a mágica. Saber o sentido é ser o mago, o senhor da magia. O sentido é o espírito de uma palavra. E “sentido” vem de “sentir”. O coração, onde habitava toda memória que crescia do passado. E quem nos dá relato dessa memória encarcerada no coração do homem e da terra senão o poeta, senão a poesia, senão a literatura?
Mergulhar nas palavras, através do canal infinito das palavras, vencendo as barreiras do silêncio, vencendo as barreiras do terror, ultrapassando o fogo, ultrapassando os sentidos de qualquer cronologia, é uma viagem assombrosa na direção da origem.
No abismo profundo que há nas palavras, em todas as palavras.
Cada letra tem sua memória.
(A Cachoeira das Eras, Carlos Emílio Coréia Lima)
E é o poeta aquele que vai cavar a superfície da palavra. Aquele que vai direto à origem, o sentido. É o poeta quem vai lidar com a alma da palavra e ressignificar o que perdeu sentido.
as palavras envelheceram dentro dos homens separadas em ilhas.
as palavras se mumificaram, apodreceram nas promessas não cumpridas.
as palavras nada mais significam .
e, por acaso, a palavra imortal há de adoecer?
e, por acaso, o poeta não foi designado para vivificar a palavra de novo?
para colhê-la de cima das águas e oferecê-la outra vez aos homens do continente?
(As Palavras Ressuscitarão, Jorge de Lima)
Há um invólucro em cada coisa (ou em nós): a palavra. Ela é o limite. É a pele, a película que nos separa das coisas. As coisas, para nós, não são as coisas, são idéias; frágeis nebulosidades. A verdade que conhecemos, a verdade lógica que conhecemos é apenas a verdade das palavras. As palavras são o mais próximo que podemos alcançar da verdade, da realidade. A verdade é uma floresta nebulosa, porque a verdade não é a verdade, são palavras. Assim, reinventar o mundo é ressignificar as palavras.
A Tradição advém desse conhecimento oculto do todo, do universo que se manifesta em nosso corpo através desse sentir milenar. O primeiro sentido desenvolvido é o sentir. É no útero que o indivíduo esboçado no embrião, no feto, aprende suas primeiras lições, sentindo. Eis a literatura para nos dar testemunho desse sentir, desse sentir que vai dar sentido ao conhecimento. Que vai transbordar de força, de energia. Se são as reações químicas que equilibram o universo, é a palavra, a poesia que vai equilibrar o mundo.
Barthes nos diz que se por um excesso qualquer de barbárie o homem extinguisse da terra as ciências todas e só restasse a literatura, ela supriria todas as outras. Num romance como Robinson Crusoé, afirma em Aula, “há um saber histórico, geográfico, social (colonial), técnico, botânico, antropológico”. Na literatura o saber faz festa. É a literatura que simula a própria vida, as relações humanas, as conversas, os ensinamentos que se passam, os valores ou contra-valores da sociedade, mais fortemente numa situação natural de interação com o outro e não dentro de uma sala de aula abstrata (também aqui, mas mais fortemente lá).
É a literatura que reproduz todo o debate sobre a existência e sobre a pólis. É a literatura a linha-de-fronte do embate entre o conhecimento, a cegueira e a sabedoria.
Ah! Quanto aprendizado se estudássemos na escola todas as disciplinas através da literatura! Quanta riqueza de conhecimento se tivéssemos como professores os grandes escritores, os grandes pensadores! Não os que pensam sobre os pensadores; estes terão que encontrar seus próprios caminhos, inclusive eu. Mas não! Evitam-nos os livros, tratam a literatura nas escolas como castigo, assassinam a poesia nas escolas, nas universidades. Mas é que
Não se pode tolerar que indivíduos de casta inferior percam seu tempo com livros; além do quê, há sempre o perigo de eles lerem qualquer coisa que faça descondicionar as suas mentes, causando neles o indesejável hábito da reflexão.
(Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley)
O poeta, portanto, deve guiar da humanidade.
Não é à toa que nos movimentos de libertação dos países africanos à partir de meados do século XX, grandes poetas como Leopold Sedar Senghor, no Senegal, e Agostinho Neto, em Angola, tornaram-se, após o processo de Independência, presidentes-líderes destas jovens nações. Porque o poeta é para imaginar, para ver além do ser, ver além do que se vê. O poeta existe porque a vida não adianta, porque o dia não basta, não é suficiente, porque o real é um limite, é só o que é. E a literatura vai além do que é. A poesia é o que deveria ser. Mais: a poesia é o que deve ser, como deve ser a vida inteira, no planeta todo.
A poesia é uma profecia. Para garantir o futuro, surge o poeta. O poeta não se contenta. O poeta aponta o horizonte e vai, e quem quiser que vá com ele. Porque ele nunca está sozinho, mesmo só, ele vai com as nuvens, como ensina Jorge de Lima.
Eis a pior das maldições: morrer como se não houvesse existido, viver como se não tivesse nascido. A palavra era o lugar onde deus e os homens se encontravam, onde deus e os homens prestavam contas um do outro. Porque a palavra tinha poder, aliás, tem poder, mas seu controle está perdido. E quem há de recuperar esse poder? Quem há de cuidar desse poder? Quem poderá pensar esse poder? Quem poderá lidar com ele, manipulá-lo? O poeta. O poeta é o guardião do verbo original. No princípio era o verbo e o verbo era deus. O poeta está junto de Deus, à direita de Deus, seu filho predileto. O poeta é um Deus tornado animal.
O poeta não vai apenas embelezar a vida, torná-la mais bonitinha. O poeta vai torná-la viva, vai devolver à vida a sua grande alma perdida.
O mundo inteiro estremece no punho do poeta. É nele que o universo reverbera sua aparente quietude, sussurra e entra nele pelo que vê, cheira, escuta, sente. O mundo penetra o poeta em todos os sentidos. É nele que o universo todo se confessa. Os poetas são alquimistas; verdadeiros alquimistas das possibilidades infinitas. Professores de gramática chamarão de metáfora o que para eles é transmutação, antropomorfização inclusive do tempo. O poeta não morre, se funde com o tempo. Os poetas rompem a barreira do tempo e do espaço. Criar histórias, redimir o universo, remodelar a criação, prever o que virá. Podem ir e vir quando quiserem. Os poetas manipulam as idéias, convergem as palavras, submetem os significados, modificam a eterna esfera do medo. São responsáveis pelo mundo. O mundo inteiro é culpa de quem imagina não de quem vive.
Se o universo é aquilo que tememos e amamos. Se vivemos entre esses dois mundos, n’algum lugar entre o amor e o medo. Se somos a intersecção do que temos, do que perdemos e do que sonhamos. Se somos uma aglutinação, um óbulo, um coágulo no mundo, um tumor maligno dentro das veias do tempo, os homens são deuses mortos. E os poetas são aqueles que regressaram ao templo original, o corpo, e celebram a vida. Só o poeta tem a força capaz de nos guiar, de nos manter vivos, de equilibrar o mundo. Pois são eles que submetem a linguagem. Remodelam os deuses todos segundo sua própria vontade, porque são descendentes diretos do Verbo. E porque são seus filhos mais diretos, cabe-lhes o dever de continuar a criação.
É a palavra que nos salvará. É o verbo que nos há de curar por dentro. Por isso penetra pelos sentidos e fecunda-nos com novos mundos, novos sonhos, novos horizontes. Eles alcançam o que é longe e impossível. Só os poetas podem nos salvar. Neles, o universo existe, se manifesta. Neles a vida segue mestra em sua meta: curva e reta. No poeta é que tudo termina e recomeça.
Tirem do mundo os poetas, a poesia, os artistas. Tirem-nos daqui. Veremos o que resta!
Pois se é temerário entrar desarmado no antro do leão, se é temerário o navegar pelo Atlântico num barco a remo, temerário ficar num pé só no alto da catedral de S. Paulo, é ainda mais temerário ir para casa a sós com um poeta. O poeta é ao mesmo tempo o leão e o Atlântico. Um nos afoga e o outro nos rói. Se sobrevivemos aos dentes, sucumbimos nas ondas. Um homem que pode destruir ilusões é, ao mesmo tempo, fera e dilúvio. As ilusões são para a alma o que a atmosfera é para a terra. Retirai esse brando ar e a planta morre, a cor empalidece. A terra por onde caminhamos é um ardente rescaldo. É magma o que pisamos e seixos de fogo queimam os nossos pés. Somos desfeitos pela verdade. A vida é um sonho. o despertar é que nos mata. Quem nos rouba os sonhos nos rouba a vida.
(Mrs. Dalloway/Orlando, Virgínia Woolf)
Qual herói dantesco, estamos numa floresta escura e densa e o poeta será nosso guia.
As coisas não são mudas, tudo apenas silencia e os poetas traduzem esses silêncios o tempo todo. O poeta é um porta-voz do amor que as coisas têm. O universo os alimenta com suas cores. Os poetas se alimentam com as dores do mundo, se alimentam de lágrimas para produzir todas as verdades que conhecemos, porque toda beleza é triste e só. Eis o poeta e sua alegria de compartilhar beleza.
Não há nada para ser percebido, mas inventado. Então, inventemos o mundo; sugere o poeta. Como um enxame de abelhas ferroando, inventemos tudo; conclui o poeta nos convidando a ouvi-lo. Vamos, então! Que o mundo não é uma verdade,
é uma invenção.
No entanto, que literatura haveríamos de levar em consideração para começar a estudar o mundo e o homem que habitamos, ou que nos habita? Que literatura utilizar para discutir filosofia, língua, história, geografia, geopolítica, cartografia, matemática, ciências, química, física, biologia?
Ora, se o homem é o parâmetro; se medimos o mundo a partir de nós mesmos, do que pensamos e sabemos, como sugere Kant; é preciso começar por aquela que possa nos dar uma pista de quem nós somos; aquela que possa revelar algo a respeito de pra onde caminhar; do porquê de estarmos aqui.
Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia, ajudando à missa, viu entrar a dama, que devia ser sua colaboradora na vida de Dona Plácida. Viu-a outros dias, durante semanas inteiras, gostou, disse-lhe alguma graça, pisou-lhe o pé, ao acender os altares, nos dias de festa. Ela gostou dele, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjunção de luxúrias vadias brotou Dona Plácida. É de crer que Dona Plácida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: − Aqui estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhes responderiam: − Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado a outro, na faina, adoecendo e sarando com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia.
(Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis)
− Aqui estamos. Para quê nos chamastes?
Eis a pergunta. O lugar onde o universo começa.
[1] Sobre o assunto, em maio de 2006, o site www.cronopios.com.br publicou um ensaio meu intitulado “A Subjetividade e a Objetividade nas Ciências Humanas”.
Trecho do ensaio “Almas Inacabadas” a sair pela Revista de Letras UFC em 2006.2. uma versão desse texto fora publicado na Revista Guèra-In-Fluxo, 2005.2, Fortaleza-CE, vinculada ao seminário anual Nietzsche e Deleuze, organizada por Fabien Lins e Leonardo Moreira.
Léo Mackellene é professor de Literatura e Sociolingüística na UEVA- Universidade Estadual Vale do Acaraú, em Sobral-CE. Tem textos publicados em revistas eletrônicas, impressas e em fanzines, além de escrever cartas para as pessoas que ama. E-mail: escambo@hotmail.com
Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Léo Mackellene no Cronópios.