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5/11/2006 15:26:00
A formação e o sentido do Brasil em Jorge Amado e Aluísio Azevedo



Por Léo Mackellene

 

O Cortiço é um caso singular na Literatura Brasileira. Sobre ele, professores de antropologia cultural, história e sociologia se debruçam para encontrar chaves para a compreensão do que poderíamos chamar de “brasilidade”, a formação e o sentido do Brasil, o que nos define como povo, nos diferencia do resto do mundo.

 

Em O Cortiço, podemos encontrar desenhadas estruturas sociais e disparidades de classe convivendo num mesmo espaço urbano. O contraste entre o sobrado de Miranda e o “Cortiço de S. Romão” é demonstrativo disso. A construção da identidade brasileira através da miscigenação de culturas, o mesmo do contato entre povos diferentes, com diferentes costumes, por exemplo. O português, o mulato, a cocote afrancesada, o grupo de italianos.

 

Ali, a origem dos problemas sociais que enfrentamos hoje. A impunidade e a hipocrisia de João Romão, sendo agraciado com o título de Membro Honorário do Clube dos Abolicionistas, ao mesmo tempo em que noutra sala esvaía-se sua companheira de todas as horas, a negra Bertoleza, sob o julgo do antigo dono que lhe viera recapturar, tendo sido informado pelo próprio João Romão, que queria livrar-se dela. O processo de urbanização da cidade e seu crescimento desordenado. O ódio e o rancor às forças armadas municipais (ou federais), pintado mais tarde também por Jorge Amado, em Seara Vermelha, quando faz menção à invasão dos soldados nas propriedades dos pequenos agricultores explorados já pelos latifundiários. Tanto nesta como naquelas, os soldados são pintados como grupos muitas vezes mais violentos do que os cangaceiros, no caso de Jorge Amado, e mais cruéis do que os grupos rivais dos dois cortiços, em Aluísio Azevedo, que alguns críticos têm interpretado como semente das favelas e das gangues que assolam as cidades.

 

Kênia Souza Rios, em seu livro Campos de Concentração no Ceará, faz uma observação interessantíssima a respeito desse problema enfrentado pelas cidades quando estas se urbanizam. Segundo certo ponto de vista, a principal causa deste problema é o êxodo rural como tentativa de fugir da seca, da fome e da miséria.

A cidade que queria ser moderna e civilizada estava sendo ocupada por um indesejado fluxo de transeuntes, uma assombrosa procissão trazendo a miséria em olhares e gestos. Homens e mulheres eram obrigados a pedir esmolas para garantir a sobrevivência. Rostos e corpos denunciavam a todo instante a situação extrema em que se encontrava o Sertão.

Cenas angustiantes, pouco a pouco, transformavam a cidade em palco de miséria e luxo, habitando estranhamente o mesmo cenário.

(...)

O pavor por parte da burguesia dominante com a chegada dos retirantes estava presente nos jornais da capital, diariamente. Exigia-se do governo medidas extremadas para conter os flagelados.

(...) A cidade dos ricos declarou a caça e o aprisionamento de mendigos.

(...) A partir daquele dia, tornava-se terminantemente proibido mendigar pelas ruas da cidade.

(pp. 29-30)

Tal condição fez surgir o que a autora chama de Campos de Concentração, enormes galpões em que se enfurnavam miseráveis para que ali vivessem bem distantes dessa burguesia, sob o olhar vigilante da polícia. Ou mesmo os conjuntos habitacionais, como Conjunto Ceará e Conjunto José Walter, surgidos nas décadas de 70 e 80 em Fortaleza para isolar os indesejáveis, nas regiões periféricas, em espécies de cidades-dormitório. Como não lembrar-se d’O Cortiço aqui?

 

Condição também vislumbrada por Jorge Amado em Seara Vermelha, no entanto, no campo. O que O Cortiço representa para decifrar a cidade, o livro de Jorge Amado representa para decifrar a condição atual do campo. Ali, os miseráveis não se aglomeram em galpões ou conjuntos habitacionais financiados pelo Governo Federal. Ali, os miseráveis vivem como vassalos, arrendados a uma terra que não lhes pertence e obrigados a comprar no armazém do mesmo senhor de suas terras, o grande latifundiário, outrora chamado senhor feudal. Segundo Manoel Correa de Andrade, esses “novos vassalos” seriam remanescentes da Abolição da Escravatura que não fora acompanhada por uma Reforma Agrária que pudesse por fim distribuir a terra de forma igualitária para essas famílias de ex-escravos, indivíduos agora livres que, sem qualquer qualificação para a indústria que fazia ruir o antigo sistema escravocrata, tinham essas duas saídas: tentar a sorte nas cidades quer se urbanizavam ou se submeter ao julgo do grande latifundiário que tinha poder inclusive sobre seus corpos.

 

Um outro problema tocado pel’O Cortiço é a prostituição e a prostituição infantil na figura-tipo de Pombinha e da filha de Jerônimo, órfã de pai vivo. Personagem curiosamente retomado por Jorge Amado em Seara Vermelha: Jerônimo, pai de Marta que, no decorrer do romance, também por força das circunstâncias, torna-se prostituta.

 

Em O Cortiço, desleva-se qualquer condição humana como resultado de um destino Romântico, que estaria acima dos personagens, ou de fatalidades machadianas contidas nas pequenas escolhas. Aqui, não é o acaso também senhor do que acontece. Aqui, cada fato é a perpetuação de um passo anterior na dança social. O ontem sobrevive ao hoje, porque lhe é conseqüência. Cada acontecimento, cada desfecho de cada personagem d’O Cortiço está, portanto, preso, diretamente vinculado à ação de todos os seus personagens. Razão e conseqüência. Ação e reação. E o mecanismo social descrito por Aluísio Azevedo continua ad infinitum a fabricar suas vítimas e seus algozes. Característica também observada em Seara, quanto a Artur, por exemplo, o capataz, ciente de sua condição e da condição dos colonos da fazenda sob seus cuidados e que, mesmo assim, sob ordens de seus patrões precisa dar àqueles que teriam sido seus companheiros a notícia de que eles deveriam partir, ir embora dali, já que a fazenda teria sido vendida a um senhor que não queria nenhum dos antigos moradores por lá, exceto, claro, o próprio capataz.

 

Michel Scheneider diz que todos os livros do mundo compõem uma única obra que é a obra humana. Cada livro assim seria um pedaço, uma parte dessa grande obra que, somada à outra complementaria a informação e o pensamento sobre esse mesmo homem. Assim, é curioso mencionar aqui a noção de “capataz” recuperada pela Literatura Africana, em Luandino Vieira, escritor angolano. “Capataz” é como é chamado o policial, o substantivo “policial” foi, pouco a pouco, sendo substituído no falar angolano, pela insígnia “capataz”. O que nos revela algo a respeito de como o policial se comportava e de como a população o entendia, condição também apontada em O Cortiço.

 

Todos somos miseráveis, já dizia Victor Hugo. Se não o somos financeiramente, somo-lo por miséria de alma, de espírito, de imaginação, de vontade. Não existem personagens principais em O Cortiço. Por mais insignificante que possa parecer um personagem, Henriquinho que seja, personagem que aparece pouquíssimas vezes e quase sempre mudo; por menos importante que ele pareça, é de se lembrar que é também por conta dele, de Henriquinho, que Leocádia e Bruno se separam, numa cena típica de casados que se descobrem em pleno adultério; o que faz com que mais tarde Bruno procurasse a mulher através dos favores de Pombinha, para que lhe escrevesse uma carta a Leocádia e fornecendo à jovem Pombinha, que acabava de se tornar mulher, oportunidade para fazer, num dos momentos mais sóbrios da Literatura Brasileira, uma longa reflexão a respeito do poder sutil do elemento feminino sobre a vaidosa e fanfarrona brutalidade masculina.

Encarando as lágrimas de Bruno, ela compreendeu e avaliou a fraqueza dos homens, a fragilidade desses animais fortes, de músculos valentes, de patas esmagadoras, mas que se deixavam encabrestar e conduzir humildes pela soberana e delicada mão da fêmea.

(O Cortiço. 1992, p. 128)

Não há elementos centrais em torno dos quais outros personagens orbitam. Há sim agregados, tanto nos romances de Machado quanto n’O Cortiço. O velho Botelho e seu também páreo equivalente, o velho Libório, agregado, à sua maneira, ao cortiço. Cada elemento da narrativa é uma engrenagem para o funcionamento do cenário, da história, da própria vida daqueles indivíduos. E cada um contribui para o desfecho da história, do destino (hehe!) daqueles indivíduos. Que teria sido de Jerônimo se este não tivesse se desgostado do antigo emprego? Que seria de Florinda sem seu amante? Que destino teria ela? Que seria do cortiço sem as chamas da renovação, antes uma benção que um castigo da Bruxa? Que seria de Zulmira sem o adultério de sua mãe, responsável pela mudança de sua família para o sobrado em Botafogo? E o que seria de Bertoleza e João Romão se Miranda não tivesse para ali se mudado? Que outra sorte teria a negra?

 

Alguns teóricos reduzem a questão a um aforismo muito em voga na época da publicação do livro. “O homem é produto do meio”. Exemplo claro disso é Jerônimo, que, ao chegar no cortiço, é descrito como homem perseverante, observador, dotado de certa habilidade, homem bem disposto e cheio de virtudes, homem comportado e que começa a ser respeitado tanto pelos trabalhadores que lhes eram subalternos na pedreira de João Romão, quanto pelos moradores, seus compartícipes, do cortiço; após certo convívio e de ter-se apaixonado por Rita Baiana, tendo decidido abandonar a mulher e a filha para ir morar com ela, pouco a pouco vai, na voz de Aluísio Azevedo, “abrasileirando-se”, fazendo-se preguiçoso, amigo das extravagâncias e dos abusos, luxurioso e ciumento. Além, claro, não poderíamos deixar de mencionar, Pombinha, a estimada, casta e inocente filha de Isabel, que vai se transformando, por influência de sua “madrinha” Léonie, a mulher de casa aberta, cocote francesa, numa perita nos vícios da carne, chegando a ser a meretriz mais requisitada do alto e do baixo Rio de Janeiro. Ou ainda, na desamparada filha de Jerônimo, cuja mulher, após ter sido abandonada pelo marido, convalesce em crises de depressão que culminam numa figura desequilibrada, agressiva e sem mais cuidados com a filha.

A cadeia continuava e continuaria interminavelmente; o cortiço estava preparando uma nova prostituta naquela pobre menina desamparada, que se fazia mulher ao lado de uma infeliz mãe ébria.

(O Cortiço. 1992, p. 201)

Em Seara Vermelha, dá-se algo parecido. “O sofrimento não faz ninguém ficar bom, o sofrimento só piora a gente, só faz a gente ficar ruim”, preconiza um paciente do doutor Epaminondas. Ao chegar em Pirapora, lugar onde os retirantes da seca passavam por exame médico antes de seguir ao destino tão desejado, São Paulo, Epaminondas espera ser recebido pelo seu antecessor (que deveria, talvez, estar deixando o cargo para aposentar-se ou seguir para um posto melhor), com toda a solenidade e empenho pelo trabalho exigido pela ocasião. Afinal, o médico, segundo Epaminondas, “tinha a obrigação de esperá-lo, de mostrar-lhe a repartição, transmitir-lhe o cargo, apresentá-lo aos demais”, enfim. Qual não é o seu espanto quando encontra o tal médico Diógenes de roupa branca, barba de pelo menos uma semana, avermelhada e rala que dava ao doutor um ar de louco; os cabelos por pentear, onde ele, Diógenes, metia as mãos que tremiam; a roupa suja, queimada em vários lugares pelos cigarros e pela cinza do charuto, sentado à uma mesa de bar bebendo cachaça. Epaminondas recrimina a atitude e o estado daquele seu colega de profissão, recusa um trago de cachaça oferecido pelo mais antigo, ao qual esse lhe aconselha a começar logo. “É tudo o que resta aqui”.

 

É esse médico recém-formado, polido e responsável que, depois de presenciar o massacre da seca e das condições a que a seca (fenômeno natural mas de responsabilidade política − ou seria melhor dizer de irresponsabilidade política?) teria relegado aquelas criaturas, aqueles retirantes que repetiam intermitentemente as mesmas histórias de sofrimento, a mesma dor das mortes de parentes pelo caminho, a mesma miséria, as mesmas doenças, vê-se, ele, o doutor Epaminondas, num estado tão deplorável quanto o de seu colega Diógenes.

 

Sentia-se esgotado. E era um cansaço que vinha de longe, de semanas e meses, um ódio contra tudo aquilo que o rodeava: o calor de Pirapora com sua poeira entrando pelo nariz, pelas orelhas e pela boca, as conversas das comadres nas casas pacatas, o ruído do rio, as doenças dos imigrantes, os pedidos, as lágrimas, as histórias dramáticas. Cansado da enfermeira, cansado até de Filó, a rapariga com quem dormia a maioria das noites e que o esperava no cabaré. Só uma coisa desejava: ir embora, largar a cidade, o consultório, as papeletas quase inúteis, não ver mais a cara dos outros funcionários, não ouvir mais a voz da enfermeira Amélia comandando os imigrantes: − O Próximo! Besteira... O próximo... Eles lá sabiam o que queria dizer o próximo... Em nenhuma das suas significações. A Bíblia (seria mesmo a Bíblia?) falava que não se devia fazer o mal ao próximo. O difícil é estabelecer exatamente o conceito do bem e do mal. Ai daquele que o tentasse a sério: ficaria louco... (1984, p. 147)

 

Ou seja, o homem é de fato produto do meio. É isso o que fica claro no final da leitura dos realistas e naturalistas. Antes de uma simples constatação do romancista, isso é uma forma desesperada de contestação de uma realidade que se configura inerte até os dias de hoje, quase dois séculos depois. 

 

Em atitude de clara denúncia das condições sociais em que vivia o povo e o homem, negadas pela literatura brasileira até aquele momento, e assim também o fora pelos seus intelectuais, legisladores e políticos. O poeta lança mão da palavra como força, do grito como fonte, do canto como arma para tentar fazer, enfim, justiça com as próprias mãos.

 

Retomo então para concluir a reflexão feita páginas atrás: quanto aprendizado se estudássemos na escola todas as disciplinas através da literatura! Quanta riqueza de conhecimento, se tivéssemos como professores, como guias, como mestres, os grandes escritores, os grandes pensadores! Ah! Quanto aprendizado! Quanto aprendizado!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

Léo Mackellene é escritor, poeta e professor de Literatura Africana, Literatura Brasileira, Literatura Comparada, Sociolingüística e Língua Brasileira na UEVA –Universidade Estadual Vale do Acaraú, em Sobral-CE. E-mail: escambo@hotmail.com

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