22/3/2005 13:45:00 Crítica Acadêmica / Crítica Jornalística: Afinidades e Dissonâncias.
Por Maria Esther Maciel
De um lado, o olhar sistemático, que busca sondar – a partir de um referencial teórico muitas vezes inacessível aos não-iniciados – os dizeres e não-dizeres do texto literário, seus mecanismos de criação, suas cargas de complexidade, seus vínculos com o tempo e as referências culturais do autor. De outro, uma abordagem concisa do texto, a apreciação tangencial de temas e de recursos utilizados pelo autor, a avaliação crítica medida pelas exigências de uma pauta inflexível, numa linguagem direta, desprovida de citações e termos técnicos. Entre esses dois “approaches”, um campo minado, um espaço de tensões e dissídios.
É dessa dicotomia excludente e, por vezes litigiosa, que tem se amparado grande parte das discussões atuais em torno das dessemelhanças e tensões entre a crítica literária acadêmica e a jornalística, como se o exercício crítico estivesse irremediavelmente, e mais do que nunca, circunscrito à polarização entre o prolixo e o conciso, o profundo e o superficial.
No entanto, basta um olhar cuidadoso sobre o problema para que se possa atentar para a falácia dessa dicotomia e para os equívocos de uma visão esquemática das coisas. O campo da crítica literária é vasto e complexo, demandando um enfoque mais matizado e dialógico de cada um de seus espaços de atuação. Isso, porque nem a crítica acadêmica se resume a um tratamento fechado, meramente técnico e teórico de obras e autores, nem a crítica jornalística se circunscreve apenas à esfera da contingência e da imediaticidade. Em cada um desses espaços há linhas, diretivas e matizes diversos. E, entre eles existem, inclusive, os pontos de interseção.
Mesmo que, sob alguns aspectos, essas modalidades de crítica divirjam e se tensionem – já que cada uma tem especificidades de linguagem e de função –, elas não deixam também de se encontrar, contaminando-se reciprocamente. Vale dizer que não apenas está se ampliando a atuação de críticos acadêmicos nos suplementos e cadernos literários brasileiros, o que deles exige, inevitavelmente, uma abertura da linguagem a um conjunto mais heterogêneo de leitores, como também aumenta o número de jornalistas literários que buscam formação nos cursos de pós-graduação em literatura. O que não significa, entretanto, que não continuem existindo, tanto nas universidades quanto nos jornais, aqueles se afinam com os extremos de um e outro lado.
No que tange às diferenças entre a crítica acadêmica e a jornalística, pode-se dizer que uma das principais recai na função que cada modalidade assume no trato da obra literária. No âmbito da universidade, a abordagem de um livro/autor atende a critérios mais analíticos que judicativos, sendo que, na maioria das vezes, tais critérios se sustentam de preceitos teóricos oriundos de diferentes campos disciplinares, que vão da sociologia à psicanálise, da filosofia à semiótica, da lingüística à teoria da história, dependendo dos interesses e da formação de cada crítico. Privilegia-se, em geral, um repertório de livros e autores canônicos, e mesmo quando são escolhidos textos literários contemporâneos ou à margem do cânone, muitas dessas escolhas tendem (ou não) a confirmar/justificar linhas teóricas em circulação. A isso se acrescenta a busca do rigor analítico e de uma boa dose de erudição, legitimada por citações e referências bibliográficas.
No jornalismo literário, por seu turno, já existe uma preocupação mais evidente com a apreciação e a qualificação (ou, em certos casos, de desqualificação) do texto literário, com vistas não apenas à divulgação de um livro, de um autor ou de uma editora, como também à formação/modelação de um público leitor. As escolhas recaem geralmente em lançamentos recentes e escritores em evidência, podendo ainda ser determinadas por efemérides e necrológios, sempre a partir de um enfoque mais horizontal e pouco dado a elucubrações teóricas.
Nesse sentido, poderíamos afirmar que ambas as críticas condizem, cada uma sustentando suas particularidades, com os sentidos dicionarizados da própria palavra crítica, cujas matrizes etimológicas apontam para o verbo grego krino ou krinein, que significa tanto “separar, distinguir, interpretar, discernir”, quanto “julgar, apreciar e avaliar”. Enquanto a crítica acadêmica estaria mais afinada com o primeiro conjunto de infinitivos, a jornalística já se identificaria mais com o segundo, embora isso não ocorra de forma categórica e definitiva, visto que tais traços muitas vezes se embaralham e se confundem. Além disso, toda crítica não deixa de ser, explícita ou implicitamente, um julgamento de valor.No caso da acadêmica, a própria escolha de um autor ou uma obra como objetos de análise já implica um gesto valorativo. “Lire c’ est élire”, já afirmou Paul Valéry.
Outro ponto a ser considerado diz respeito ao lugar institucional que cada uma ocupa e que vai determinar o papel de uma e de outra atividades críticas. Sabemos que essa compartimentação de espaços e funções surgiu no século XX, com a implantação dos cursos de Letras nas universidades brasileiras. Sabe-se que até os anos 40 (consta que o advento no Brasil do primeiro curso de Letras deu-se em 1933), não havia uma demarcação de territórios no âmbito da crítica literária, já que esta possuía como topos privilegiado os jornais e revistas de grande circulação, nos quais atuavam intelectuais de prestígio, como Mário de Andrade, Tristão de Ataíde, Álvaro Lins, Augusto Meyer, Otto Maria Carpeaux, Sérgio Milliet e Antonio Candido, dentre outros. Com a concentração de estudiosos da literatura nos meios acadêmicos, uma nova configuração de espaços para o ofício da crítica se estabelece, sendo que, no âmbito das universidades, ela passa a receber influxos cada vez mais intensos das teorias que passam a legislar o saber literário, chegando mesmo a se legitimar e se institucionalizar enquanto uma ciência. O que acontece sobretudo após o advento do Estruturalismo nos anos 60. Essa institucionalização favoreceu, inegavelmente, a delimitação um modelo discursivo pautado nos princípios de objetividade, distanciamento e rigor conceitual, avesso às manifestações da subjetividade e à faculdade de julgar. Surgiram os jargões científicos, os conceitos cifrados, o vocabulário especializado, procedimentos estes que acabaram por se converter, pela força da repetição, em vícios que até hoje são equivocadamente tomados, pelos detratores do saber acadêmico, como as linhas de força ainda vigentes na crítica universitária.
Mas sabemos que, com o pós-estruturalismo e com o que Roland Barthes chamou de “retorno do sujeito à cena da escrita”, a fixidez passou a dar espaço à flexibilidade, a especialização abriu-se à transdisciplinaridade, o pensamento deixou-se contaminar pelos poderes da imaginação. Sobretudo nos anos 90, a crítica acadêmica passou a incorporar outras possibilidades de discurso, fazendo do ensaio (e não mais do tratado) sua via por excelência de expressão.
Creio que a entrada de poetas e ficcionistas no corpo docente dos cursos de Letras também contribuiu para isso, assim como também contribuiu a difusão, nas disciplinas de literatura, de textos críticos escritos por escritores como Borges, Calvino, Octavio Paz, T.S. Eliot, Paul Valéry, dentre outros, que trouxeram de volta a alguns setores da crítica acadêmica o “frescor” ensaístico do jornalismo literário que predominou no Brasil até por volta dos anos 40. Para não mencionar de novo a crescente atuação de acadêmicos nos jornais e revistas culturais do país (são muitos os professores-resenhistas) e a procura, cada vez mais evidente, por parte de jornalistas, dos cursos de pós-graduação em estudos literários. Isso tudo acaba por diminuir tanto a distância entre a crítica acadêmica e a jornalística, quanto a oposição entre elas,como já bem afirmou João Alexandre Barbosa.
Mesmo com relação à linguagem, percebe-se que muitos críticos de formação acadêmica já têm buscado se desviar dos jargões teóricos e do excesso de citações, sem com isso abdicarem do rigor e da consistência. Da mesma forma, não são poucos os jornalistas literários que hoje procuram se esquivar do mero release, para assumir um trabalho crítico mais apurado, e até mesmo autoral, que converte o ato de resenhar também em um exercício de reflexão e lucidez. O que não quer dizer que os acadêmicos ortodoxos e os jornalistas de superfície deixaram de existir ou que os traços inerentes a cada modalidade crítica tenham se dissipado. Como eu disse, cada campo de atuação encerra, ao mesmo tempo, suas especificidades, sua diversidade e seus pontos de confluência com outros campos, e não deve ser tratado de maneira esquemática e dicotômica.
Hoje, podemos dizer que a crítica literária experimenta uma grande diversificação, graças a essas conjunções, disjunções e desdobramentos variados de suas funções e modalidades textuais. Seja através de teses e dissertações acadêmicas, seja através de artigos especializados, ensaios e resenhas, ela vive, a meu ver, um momento importante. E creio que é no gênero ensaio – compreendido como uma forma híbrida e assistemática de escrita – que ela encontra seus maiores pontos de fulgor.
O ensaio, como já observou Octavio Paz, não é um gênero fácil. Em um de seus extremos, tangencia o tratado; no outro, se constitui como um texto aberto, flexível, pouco afeita a coerções teóricas e a imperativos da razão. Deve ser conciso sem ser lacônico; ligeiro, mas não superficial; leve, sem perder a consistência, completo sem ser exaustivo. Não é o reduto de um saber impessoalizado e sistemático, mas um espaço móvel e transitório, aberto às manifestações da subjetividade e da criatividade. Dadas suas características contraditórias e até mesmo paradoxais, o ensaio se oferece, assim, como um topos de confluência entre a crítica universitária e a jornalística, podendo ser, inclusive, praticado nos dois campos.
A resenha, por sua vez, continua cumprindo sua função de apresentar, apreciar e qualificar obras literárias, num nítido intento de conjugar descrição e avaliação crítica, e de se inscrever na esfera do contingente. Não se confunde com a atividade ensaística, mas pode – em alguns casos – tangenciá-la. Além disso, está muitas vezes determinada pelas afinidades e idiossincrasias do resenhista. A responsabilidade ética, nesse caso, é grande, pois incide, de maneira evidente, na formação de um público, e pode contribuir para o sucesso ou o fracasso de um autor.
De qualquer forma, seja pela via do ensaio ou da resenha, creio que à crítica cabe potencializar as linhas de força do texto literário, flagrar seus pontos de tensão e irradiação, iluminar suas zonas de sombra, buscar os sentidos explícitos e imprevistos que o constituem. Elegância, erudição, rigor, criatividade e responsabilidade ética são atributos importantes a toda crítica que se preze, seja ela acadêmica ou jornalística. E não seria impertinente reivindicar, ainda, para ambas, uma dose de paixão –isso que Octavio Paz chamou de “amor imoderado, passional, pela crítica e seus precisos mecanismos de desconstrução, mas também crítica enamorada de seu objeto, crítica apaixonada por aquilo mesmo que nega”.
Maria Esther Maciel, poeta, ensaísta e professora de Literatura da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, mestre em Literatura e doutora em Literatura Comparada pela UFMG, com pós-doutorado em Literatura Comparada pela University of London. Lançou em 2004, pela editora Lamparina, a ficção O livro de zenóbia.
Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Maria Esther Maciel no Cronópios.