Filme: O Homem Duplo, de Richard Linklater, 2006 (em cartaz nos cinemas)
De modo muito oportuno, chega aos cinemas mais uma adaptação de uma obra de Philip K. Dick. "A Scanner Darkly", nomeado por aqui de "O Homem Duplo", é um filme diferente de outras versões cinematográficas de livros do autor, como "Blade Runner", "Total Recall" e "Minority Report". Nesses, a ênfase estava em uma ação movimentada, centrada em protagonistas que tiveram seus atributos heróicos ressaltados para se conformar aos ditames de Hollywood. Em "O Homem Duplo", o tema é a ambigüidade que as pessoas são forçadas a assumir, em uma sociedade de vigilância total, fragmentada pela paranóia de um inimigo invisível.
E esse lançamento é ainda mais oportuno à luz de um incidente real ocorrido em Boston há alguns dias. Uma campanha de marketing lançada pelo Cartoon Network para promover o desenho "Aqua Teen Hunger Force" espalhou dezenas de placares eletrônicos de um metro quadrado em várias grandes cidades dos Estados Unidos, com LEDs representando um dos personagens do desenho.
Mas em Boston, o público e as autoridades confundiram esses painéis com dispositivos terroristas, o que desencadeou uma reação de pânico que levou à paralisação de boa parte da cidade. Durante um dia inteiro, foram mobilizados bombeiros, policiais, esquadrões anti-bomba e até o Departamento de Segurança Interna. Estima-se que o alarme falso tenha custado cerca de US$ 1 milhão para a prefeitura de Boston. A Turner Broacasting Corporation, dona do Cartoon Network, se comprometeu a indenizar a cidade em US$ 2 milhões.
O personagem representado nos painéis da campanha do Cartoon é um "Mooninite", ou um selenita. Lembra um dos alienígenas do arqueozóico videogame "Space Invaders". Os selenitas de Boston foram uma falsa invasão alienígena, ecoando sinistramente os tempos da Guerra Fria, onde a ficção usava a metáfora dos extraterrestres para filtrar e condensar o pânico (real ou imaginário) de uma invasão soviética. Os marcianos dos romances e filmes nos anos 50 e 60 eram quase todos russos comunistas disfarçados. Ainda antes, Orson Welles, em sua famosa adaptação radiofônica de "A Guerra dos Mundos" de H.G. Wells em 1938, causou pânico similar em um grande número de pessoas que acreditaram que os EUA estavam realmente sendo invadidos por marcianos.
Em muitos de seus romances e contos, os heróis de Philip K. Dick são "homens duplos" - como era o próprio autor, que tinha a vida marcada por episódios de psicose. Em "Blade Runner", Rick Deckard vive a dualidade de ser um policial especializado em eliminar andróides rebeldes e ser ele mesmo um andróide. Em "Total Recall", o trabalhador blue-collar descobre acidentalmente que é na verdade um super-agente secreto, que teve sua memória apagada por "saber demais". Em "Minority Report", o policial que usa paranormais para identificar e prender assassinos antes que eles cometam seus crimes descobre que ele é o próximo criminoso.
A história de "A Scanner Darkly" se passa em um futuro não muito distante (no livro escrito em 1977, esse futuro era 1994), Los Angeles é assolada por uma droga sintética altamente viciante, chamada simplesmente "D". O agente Fred é um policial de narcóticos disfarçado, que informa seus superiores, relatando entre outros casos as atividades de um grupo de viciados e traficantes da substância D, incluindo um homem chamado Bob Arctor. Mas o agente Fred e Bob Arctor são a mesma pessoa, mas que não sabem um da existência do outro. Arctor vive em um estado de esquizofrenia induzido pela droga, com lapsos de memória e concentração. Ele observa gravações de si mesmo, através de um scanner, descrito no livro como um tipo de gravador/projetor holográfico. O agente Fred tem seu anonimato garantido por um traje que muda continuamente sua aparência (o scramble suit), enganando dessa forma os milhões de câmeras e sensores que vigiam a todos.
O título "A Scanner Darkly" foi inspirado por um versículo da Bíblia. Na Primeira Epístola aos Coríntios (1:13), são Paulo diz: "Porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas, quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido". (Na versão em inglês: For we know in part, and we prophesy in part. But when that which is perfect is come, then that which is in part shall be done away. When I was a child, I spake as a child, I understood as a child, I thought as a child: but when I became a man, I put away childish things. For now we see through a glass, darkly; but then face to face: now I know in part; but then shall I know even as also I am know.). Philip K. Dick substitui o espelho de são Paulo por um aparato tecnológico, mas as imagens continuam sendo filtradas "em enigma": um gigantesco aparelhamento de investigação, que no final das contas nada revela. A visão é obscura.
No capítulo 11, Bob Arctor/Fred pensa consigo mesmo: "O que um scanner vê? Quero dizer, o que realmente vê? Um scanner de infravermelho passivo me vê - nos vê - clara ou obscuramente? Eu espero que ele veja claramente, porque eu mesmo não consigo me ver ultimamente. Eu vejo somente um borrão. Um borrão do lado de fora, um borrão por dentro. Eu espero, pelo bem de todos, que os scanners sejam melhores. Porque se um scanner vir apenas obscuramente, como eu mesmo vejo, então estamos amaldiçoados e permaneceremos amaldiçoados até a morte, conhecendo muito pouco e entendendo errado até esse pequeno fragmento".
Um aspecto central do livro e da adaptação para o cinema de "A Scanner Darkly" é o consumo de drogas. No livro, há uma ampla descrição da cultura dos usuários de drogas. As iniciais "Scanner Darkly" também são as iniciais de "Substance D", que os personagens da história chamam de "Slow Death". O uso prolongado da Substância D faz a consciência se dividir em duas partes. No livro, são várias as teorias sobre a origem da SD: seria uma droga criada pela União Soviética como parte de um plano comunista para destruir a resistência dos EUA; teria sido enviada por alienígenas para iluminar ou escravizar a humanidade; ou ainda seria um complô do governo ou das grandes corporações para dominar a população.
Por meio de testes psicológicos, os superiores do agente Fred descobrem que o vício por D o tornou incapaz de cumprir suas tarefas como policial. Bob Arctor tem uma namorada, Donna, que o leva para uma clínica de reabilitação chamada New-Path (novo caminho), onde Fred/Bob Arctor experimenta os terríveis sintomas da abstinência da droga. Entretanto, a colônia de reabilitação onde Bob Arctor está internado é na verdade um centro de cultivo da planta que dá origem à Substância D, uma delicada flor azul à qual o autor dá o nome científico de Mors ontologica, ou "morte ontológica": a morte do ser ou a essência da morte.
A versão de "A Scanner Darkly" para o cinema foi dirigida por Richard Linklater. O diretor usou o recurso de rotoscopia, que aplica desenhos sobre atores filmados por câmeras convencionais, transformando a ação em desenho animado. A técnica existe desde o começo do século 20 e foi usado pelo próprio Linklater em seu filme "Waking Life", de 2001. Mas em "A Scanner Darkly", a transposição de pessoas reais para essa imagem "cartoonesca" ressalta dramaticamente a distorção psíquica da narrativa, sugerindo estados mentais alterados em uma comunidade de consumidores de drogas, e altamente vigiada pela tecnologia.
Os temas da Philip K. Dick nesta história são profundamente atuais. Em primeiro lugar, a idéia de um estado de vigilância absoluta, com a polícia usando tecnologias sofisticadas para esquadrinhar cada metro quadrado do espaço urbano, fora e dentro das casas. Em segundo, a ambígua relação entre o comércio de drogas ilegais e a força policial que deveria reprimi-lo. E, acima de tudo, a noção de que a abolição das liberdades civis e do direito à privacidade servem a um bem comum - violentar a vida privada das pessoas com o propósito de protegê-las, ou de proteger a comunidade.
O próprio Philip K. Dick reconhece em "A Scanner Darkly" um livro semi-autobiográfico. Em uma entrevista em 1977, ano de lançamento do livro, o autor relaciona o enredo com a paranóia do período Nixon - não apenas por parte do governo, mas dentro da contracultura de Berkeley, da qual ele foi um participante muito ativo. O autor diz que sua casa foi invadida diversas vezes na sua ausência, que seus papéis foram remexidos, alguns roubados. Ele conta que seu advogado tinha certeza que havia sido uma ação de agentes do governo, mas que ele mesmo não tinha tanta certeza. Devido a essa natureza semi-autobiográfica, o livro teve uma gestação difícil. Tessa Dick, esposa do autor na época, disse que ele escreveu o livro todo em duas semanas, e passou os três anos seguintes reescrevendo-o.
Passados exatos 20 anos, aquela situação política e social dos Estados Unidos se repete como farsa: uma nação poderosa que tem seus princípios abalados pelo medo e pela perda progressiva dos direitos civis e das liberdades individuais. O caos causado por uma campanha aparentemente inofensiva de um desenho animado é sintoma de uma preocupante histeria coletiva. Como na época dos marcianos radiofônicos de Orson Welles, seres ameaçadores se escondem em todos os cantos: uma sociedade em pânico contínuo vê monstros em qualquer sombra inofensiva.
A articulista Lisa de Moraes, do Washington Post, comenta que o incidente de Boston é uma espécie de punchline amarga para a terrível piada iniciada em 2001. Lisa identifica uma escalada de reações cada vez mais violentas a essas campanhas de marketing, pranks criados para chamar a atenção de um público cada vez mais entorpecido. Ela recorda que em abril de 2006, o estúdio Paramount promoveu o filme "Missão Impossível 3" instalando 4.500 caixinhas "com aparência de bomba" nas máquinas que vendem o jornal Los Angeles Times. Os aparelhinhos tinham luzinhas e fiozinhos, e tocavam o tema do filme quando um cidadão comprava seu jornal. A polícia também foi chamada e chegou a explodir uma máquina de jornais. Mais de 50 pacientes e funcionários do Hospital dos Veteranos foram evacuados, depois que um dos funcionários levou um jornal para o hospital.
Em Boston, os dois jovens responsáveis pela instalação dos painéis iluminados com os selenitas correm o risco de serem processados e passar alguns anos presos. A acusação é de "incitar o medo e intranqüilidade", em um país já cheio de medo e intranqüilidade. Em "O Homem Duplo" todos os espaços públicos e privados são cobertos por uma grossa camada de vigilância eletrônica - algo que as autoridades de Boston e do restante dos Estados Unidos devem desejar ardentemente.