Ezra Pound foi um grande sujeito. Em muitos e vários aspectos. Foi um grande poeta e um grande divulgador da poesia de seu tempo, apesar de suas posições políticas controversas – que mais pertenciam ao seu lado esquizo-napoleônico e suas ilusões de grandeza econômica. Apesar disso, ajudou muitos artistas, alguns que nem conhecia pessoalmente, simplesmente para que não parassem de produzir. Convenceu seu pai a vender selos raros para pagar a operação de vista de Joyce; correu atrás de bolsas do governo para que Eliot se dedicasse somente à escrita; encaminhou à publicação dezenas de poetas desconhecidos que hoje fazem parte do nosso cânone mais recente. Nesse sentido, foi um grande amante da arte e um visionário, tal como foi um grande conhecedor de literatura, ressuscitando para a modernidade toda uma tradição que ameaçava perder-se no esquecimento, de Li Po a François Villon. Com a sua poesia, fundou uma “escola” que atinge, ainda que pela tangente, os versos de qualquer poeta contemporâneo. Mas, sobretudo, foi um grande tradutor, e suas contribuições às teorias da tradução são tão importantes quanto sua obra literária. Ouso dizer que, num sentido amplo, Pound foi pioneiro, carregando a tarefa de colocar a tradução, de maneira mais radical, em conformidade com as transformações de nossa época.
Em 1937, Niels Bohr, outro grande sujeito, contemporâneo de Pound, escreveu: O aspecto crucial, neste ponto, é o reconhecimento de que qualquer tentativa de analisar, à maneira habitual da física clássica, a individualidade dos processos atômicos, condicionados pelo quantum de ação, é frustrada pela inevitável interação dos objetos atômicos em exame com os instrumentos de medida indispensáveis para esse fim. (...) Quero apenas enfatizar que é justamente essa impossibilidade de distinguir com clareza o sujeito e o objeto, na introspecção, que proporciona o espaço necessário à manifestação da volição.
Bohr, atuante de uma área convencionalmente aceita como (e até então, de fato) distante da de Pound, foi grande em sua poesia das partículas, tornando-se um dos maiores físicos do século XX e um dos pais da física quântica. Foi discordando dele e de teorias que subjazem ao pensamento científico de hoje, que Einstein pronunciou sua famosa frase: Deus não joga dados. Aqui contextualizada, essa frase é central no embate ideológico que venho trazer. Deus, entendido como o paradigma hegeliano da razão universal, como o espírito absoluto dando conta do problema da permanência nos séculos precedentes, é posto em xeque bem no seio do pensamento científico. Mesmo para Einstein, iniciador deste processo, era difícil se abrir para todas as possibilidades que se apresentavam. Era um momento de ruptura tão radical que se deu em quase todas as áreas do conhecimento humano e exigiu uma revisão epistemológica profunda em prol de uma nova abordagem filosófica e científica no Ocidente. Levantava-se, contra a clássica divisão kantiana entre sujeito e objeto, uma perspectiva poética de interação entre homem e natureza, por tanto tempo em lados opostos do microscópio. Para compreendê-la completamente, a própria estrutura do entendimento exigia uma mudança igualmente radical: era preciso realinhar o pensamento a um ângulo novo do mundo (pelo menos para o Ocidente). A filosofia tradicional trabalhava com categorias como tese e antítese; na nova filosofia das partículas, tese e antítese mostravam-se simultaneamente autênticas e mesmo complementares, já que uma mesma entidade podia ser, concomitantemente, contínua e descontínua, verdadeira e falsa, real e irreal. Uma mesma partícula podia apresentar-se em dois lugares ao mesmo tempo, podia sumir e reaparecer em outro lugar antes mesmo que houvesse sumido. A física já não podia ser usada como parâmetro delimitador ou condenador do possível – e o impossível começava a tomar forma. A pretensão de um universalismo normativo e de um racionalismo de verdades inquestionáveis se mostrava, definitivamente, dentro do próprio terreno da metafísica, como a mais fajuta das ilusões – e a coexistência hoje, em termos práticos, da física quântica e da física clássica é a maior prova disso.
Por outro lado, a evidência dessa crise limítrofe da dualidade sujeito/objeto já não era tão nova para a filosofia e já vinha sendo debatida pelo menos desde os românticos, mais radicalmente com a poste-rior atuação de Martin Heidegger – culminando no pronunciamento da conferência “A coisa”, em 1949, que encerrava de uma vez por todas, nos termos do pensamento, a noção do mundo como objeto amparado pela subjetividade. Nesse ensaio, o filósofo partia da crítica à metafísica tradicional para fundamentar um novo ethos humano, baseado em imagens ancestrais e poéticas. Era quase a revolução do retorno às origens – esta origem que nos chama para as coisas como as coisas nos chama para a terra. Mas foi Pound, entretanto, quem proclamou essa revolução no âmbito da crítica literária, aproximando-se do pensamento hermenêutico de Heidegger e da mecânica quântica. O poeta americano, que por um lado se assumia pagão e por outro flertava com a pragmática, pregava o fim de qualquer tipo de abstração no estudo da obra de arte. Não deveriam existir biombos críticos entre leitor e obra – a crítica só era possível a partir de um contato direto com o texto, através de um exercício de escuta (o que, segundo Heidegger, é o princípio de toda abertura e interação) para deixar em segundo plano o se pensar sobre. No ABC da literatura ele diz claramente: se alguém quiser saber alguma coisa sobre poesia, deverá fazer uma das duas coisas ou ambas, i.é, olhar para ela ou escutá-la. E, quem sabe, até mesmo pensar sobre ela. Para ele, não importava a quantidade de livros que se lesse sobre uma determinada obra, só saberíamos algo a respeito quando estivéssemos realmente diante dela. Era a crítica da ação, a pragmática do rito em prol do mito e da inserção total na coisa. O crítico deveria deixar de ser um intermediário para ser também um leitor, deixando de ser a obra matéria em função dessa crítica.
O interessante é notar que Pound, instigado pelo make it new, formulou suas diversas modalidades críticas como exercícios práticos e criativos. Essas modalidades variavam desde a discussão do fazer artístico e do exercício de estilo até o ato de musicar, compor e – o que mais nos interessa aqui – traduzir poemas – tradução entendida como exercício lúdico de inventividade e intuição. Ora, práticas como musicar ou exercitar estilo se aproximam muito do processo artístico, e é preciso que o crítico seja, antes de tudo, um artista, que através de um fundamental envolvimento com a obra possa finalmente re-criá-la numa instância terceira. Para isso é exigida desse crítico (ou tradutor, no nosso caso) uma abertura para o que Heidegger dizia ser a poiesis que opera na obra, pois a leitura se faria justamente na ação do leitor enquanto escuta desse silêncio que emana das coisas desde o princípio dos tempos. Assim, um crítico estaria muito mais próximo de um violinista interpretando uma peça de Bruch do que de um pesquisador diante de seu objeto de estudo. Esse artista da crítica ou da tradução é justo aquele que apreende, com sua própria particularidade, a essência da poesia em sua particularidade própria – as diferenças da obra enquanto sua própria diferença.
Haroldo de Campos falava da tradução poundiana como uma arte ativa de traduzir (o que significava tentar recompor no idioma, senão a melopéia, pelo menos, quando possível, a fanopéia e a logopéia do texto original). Para Pound, a tradução que merecia ser equiparada ao original era aquela que se autonomizava, tornando-se “outra” em relação a uma tradução meramente auxiliar. Tradução como traição – o que obrigava a desfazer o fantasma da fidelidade ao original, fosse semântica ou mesmo formal. Importava, antes de tudo, a presença do tradutor.
No ensaio Hölderlin und das Wesen der Dichtung, Heidegger se reveste de nobreza ao definir o ser humano como aquele que deve testemunhar o que é. É nesse testemunhar, como atestação de seu pertencimento à Terra, que ele se realiza como linguagem. E, contra a proposição de a essência da linguagem reduzir-se a mero meio de comunicação, é a própria poesia que torna a linguagem possível, não o contrário. A poesia, então, como essência da essência da linguagem, não pode ser simplesmente traduzida por uma transposição abstrata de uma língua para outra, mas unicamente por meio desta abertura à escuta essencial da obra na qual opera – a tensão entre o poder-ouvir e o poder-dizer que permite o diálogo. Assim, tal como acontece na criação do poeta, a tradução criativa deve ser também fruto do confronto direto entre uma escuta e uma fala, articulação pela qual o tradutor se dá na recriação como agente desse diálogo. Resultado então do poder-ouvir a obra para re-nomeá-la através do poder-dizer, no novo poema permanece não só a essência do poema original, mas a própria essência do tradutor, ao tentar reescrever o dizer originário do poeta original dizendo originariamente. Quando Heidegger fala do papel do poeta, pode-se até mesmo fazer um paralelo com o tradutor poundiano: O dizer do poeta (tradutor) consiste em surpreender esses signos (da obra original) para em seguida significá-los ao seu povo (através da recriação). Esse surpreender os signos é um recebê-los, mas é também, ao mesmo tempo, um dá-los de novo; pois no “primeiro signo” o poeta já discerne também o Consumado e coloca corajosamente na sua palavra o que ele percebeu, para pré-dizer o Ainda-não-consumado. O tradutor é, como o poeta, aquele que surpreende os signos e o pré-diz, porém a partir de signos já pré-ditos.
As bases desse método de tradução que os concretistas brasileiros, na onda classificatória de Jakobson, chamaram de transcriação ou recriação, Pound demonstrou nas próprias traduções, tal como se propunha o método. Apesar de equivocado em muitos pontos como pensador da literatura, ele acertava ao acabar com o ideal metafísico de uma máquina semântica que teria a capacidade de traduzir um poema para outra língua somente transpondo sua estrutura e na qual o tradutor não fosse nada mais que o operário lingüístico dessa transposição. A crítica poundiana instaura assim uma nova era na compreensão da prática tradutória, bem distante das tradi-cionalmente aceitas até então. Cummings parecia ter já percebido esse paralelo entre Pound e a revolução emergente na ciência, ao declarar que ele foi para a poesia desse século o que Einstein foi para a física. Aliás, foi Einstein quem disse que a imaginação é mais importante que o conhecimento. Nesse sentido, as traduções do poeta americano abrem mão de uma tentativa de fidelidade e se lançam no imaginário, indo corajosamente aonde nenhum tradutor jamais esteve. Suas traduções foram muito criticadas, não compreendidas. Ele mesmo admitia não conhecer bem muitas das línguas nas quais se aventurava, mas, segundo Borges, com isso ele refletia as formas inatingíveis e não o fundo, quando o essencial do verso seria sua entonação e não o sentido abstrato.
A tradução, como o universo, recusava-se a ser linear e causal e se lançava na periculosidade do desconhecido. Deixava de correr numa linha cronológica sucessiva, perdendo-se na abertura infindável do que Bachelard chamou pedagogia da ambigüidade, fruto desse novo real que se inscrevia num inconstante devir-ser. E isso por simples conclusões: se não há uma língua abstrata que atue como Ideal semântico para uma tradução verdadeira, o próprio conceito de originalidade parece discutível, e se, ao nível da partícula, não há diferença efetiva entre futuro e passado (o tempo circula simultaneamente nos dois sentidos), se um corpúsculo só pode determinar-se ente enquanto possibilidade constante de não-ente e se o tradutor é aqui um co-autor do texto original, podemos nos perguntar muito seriamente sobre qual é a origem da obra traduzida. Seria, por exemplo, a Ilíada de Homero realmente o original que Carlos Alberto Nunes e Haroldo de Campos traduziram, ou uma possível versão de diversas traduções existentes? Ou, mais ainda, a síntese grega de todas as outras que foram escritas em outras línguas?
Chegamos finalmente à proposição de uma tradução quântica, ou de uma quântica tradutória, cujo resultado de seus experimentos seria tão imprevisível quanto o estado do gato de Schrödinger antes de a caixa ser aberta. Nessa tradução quântica se perde todo e qualquer sentido de autoria e originalidade, de tempo e espaço. Toda obra origina-se a partir de si mesma, enquanto uma crosta contraplacada da memória de todos os textos já escritos e ainda não escritos. A memória, por sua vez, caminha tanto em direção ao passado quanto em direção ao futuro. Na verdade, a única diferença efetiva entre essas direções para a memória é que, voltada para o passado, ela se perfaz numa dinâmica constante de esquecimento e lembrança, cujo equilíbrio entre ambos vai sendo regulamentado segundo a configuração das possibilidades futuras. Voltada para o futuro, essa dinâmica da memória se perfaz esquecimento que, através das possibilidades passadas, dá lugar à lembrança, enquanto constante revelação do presente. É assim que, através da progressão temporal, lembramos enquanto realização o que ainda não havia acontecido. Conseqüentemente, numa dinâmica efêmera, o perfazer-se presente viabiliza um passado perfeito – eterno perfazendo. Desta feita, nem mesmo um texto “original” escaparia de ser ele mesmo a tradução de um texto jamais escrito. Um texto do repertório clássico, por sua vez, não deixa de ser a tradução do texto de um jovem escritor. Tudo é uma tradução de tudo e, por isso mesmo, sempre uma obra original, pois como diria Heidegger, originária. É a íntima relação com o presente que pode originar sempre. Relação com o presente tem menos a ver com o momento da confecção da obra do que com o momento em que ela é acionada. Orlando Furioso, portanto, é uma obra original do século XXI à medida que alguém a leia (ou a traduza), resignificando-a e atualizando-a no instante de sua leitura. Nós mesmos somos sempre uma tradução do outro à medida que o resignificamos em nossas palavras e atos.
Com isso, para além de uma revolução das disciplinas, viemos testemunhando, desde a época dos nossos pré-socráticos quânticos, a extinção delas – no mesmo instante que, institucionalmente, elas se radicalizam cada vez mais. A esse respeito, o famoso físico Stephen Hawking, ao querer provar o fracasso dos filósofos, comete uma pequena gafe, demonstrando assim o seu próprio fracasso em filosofia. Na última página do livro Uma breve história do tempo, ele cita a frase na qual Wittgenstein afirma que a única tarefa que sobrou para a filosofia foi a análise da linguagem, ao que acrescenta um comentário pessoal: que decadência da grande tradição de filosofia de Aristóteles e Kant! Hawking aposta na decadência da filosofia, uma vez que ela não teria como acompanhar o refinado grau de aprofundamento e especialização das ciências no mundo moderno. Talvez sua maior tolice seja não perceber a ironia da frase e seu tangenciamento para uma questão mais profunda: a conclusão de que qualquer outro debate além daquele em torno da linguagem é desnecessário. O importante não são as respostas que a ciência possa trazer, mas as dúvidas que a linguagem sempre tenha colocado. A física moderna nada mais é que fruto de um delírio das questões impostas pela linguagem – fora da qual não é nem possível dar-se o conhecimento. Até mesmo a “Ciência” descrita por Hawking em seu livro padece do mal da imprecisão, frustrando-se na impossibilidade de um cálculo que abarque efetivamente todo o universo – e a verdade é que tal equação talvez nunca venha a existir. Essa ciência não é nada mais que uma escolha lingüística, um deixar-se entrever pela linguagem o próprio mundo, um delírio tão absurdo e autêntico como o mais fragmentário dos sonhos. As disciplinas, frágeis construções sobre a sólida base da linguagem, entram em extinção a partir do momento em que a linguagem passa a olhar para si mesma. Eis então a própria ciência indo ao encontro da frase de Wittgenstein, uma vez que a mecânica quântica ou a astrofísica se diferenciam das disciplinas clássicas justamente por serem naturalmente um constante diálogo com o próprio enunciado no qual se edificam, antes de se basearem em um pressuposto já dado e identificado à Verdade clássica.
Mais que uma revolução nos modos da crítica literária e da prática tradutória, o legado deixado por Pound nos coloca no eixo de um momento em que ciência e poesia se aproximam cada vez mais. Somando-se a outras ações, futuros investimentos em termos de reflexão e novas dinâmicas em relação ao real e à literatura, o mundo retorna ainda outra vez para o ecoambiente fundamental de interação entre homem e natureza. O progressivo desaparecimento das disciplinas dará lugar às traduções quânticas e suas maravilhosas realizações de mundo – como poesia máxima da linguagem: poesia da poesia. Eis o mundo ritualizando-se na palavra.
[Este texto faz parte do livro Ensaios Radioativos]

Ensaios Radioativos
Autor: Márcio-André
Editora: Confraria do Vento, 200 páginas
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da parceria Martins Fontes - Cronópios)
Márcio-André é escritor, tradutor, ensaísta e crítico de casas, autor dos livros Movimento Perpétuo e Intradoxos. Dirige a editora Confraria do Vento e coordena o projeto Arranjos para Assobio, de texturas poéticas e realidades experimentais, cujo trabalho com a "incorporação" da poesia o levou a se apresentar em Londres, Paris e Coimbra. Atualmente vive em Pripyat, catalogando objetos contaminados. E-mail:contato@marcioandre.com