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22/6/2009 15:46:00
Artistas provocadores
(ao Dulcinéia Catadora)




Por Marco Aqueiva
 

(na busca do intrinsecamente utópico o coletivo como alternativa
ao papelão deposto inutilizado,
adicionado de dissonância reencantadora)

     


A capa de papelão ali. Junto dele. Capa e papelão. _______________ Capa é uma extensão ou uma cavidade finita de matéria que nos dá a sensação de segurança? Papelão é papel fecundo. Não negarei a pose. Mas é preciso de alguma forma fazer bandeira desta convulsão incontida. Estou por dentro da capa. Seria muito despedaçar estrelas ao vivo? _______________ E tu a perguntar-me. Você, é você, tem idéia do que todos vocês estão fazendo? Não penso, e continuo a responder com a face tranquila que me foi dada para exibir. _______________ A luz forte me chateia. E o pior é que sempre enfrentei a luz forte com a resignação de que holofotes não deixam sombra. O que me faz sentir que esta fantasia de poeta é minha falsa vida e que o deserto que se abre a minha frente tem duas pupilas um conjunto completo de marfins tensos fazendo vibrar as margens do entendimento.

Seu jeito assim compenetrado pode nos dar alguma esperança? Olhei para a capa. _______________ Dissipo-me nesta casa de espelhos sob falsos enigmas. A câmera não coincide com minha lealdade ao papelão. Que direção dá conta do mínimo? Insuspeitas verdades fuzilantes de tuas pupilas deslizam de tua boca anunciando, _______________ anunciando alguma clareza. Não sei de ângulos e pose, não há como livrar-me da coisa viscosa e inconsistente por baixo de tudo. A vergonha confessa do piso molhado e do tombo.

A luz é traiçoeira, faz noite o que não está imediatamente próximo. É em alguma penumbra entre a luz sem renúncias e o deserto de teu rosto que me faz levantar após o tombo de estar próximo e ainda não poder dizer. Mas dizer mesmo o quê? _______________ Não estou no conforto de casa e zuuuuup não poderia exibir minhas incertezas e excessos.

A rachadura que me conhece despatriado, sem endereço num tempo que me aceite, ronda-me com aquela graça de feira circence: malabares mambembe bufão. Bundão. Sei de teu sacrifício. Mas não posso deixar de considerar que teu sacrifício tem algo de guloso adiposo glamuroso. O meu também. Igualmente.

Não é para qualquer um ser espetáculo e sombra, um espelho surreal de nosso tempo. Pressentir as razões no silêncio e na indiferença. A capa se acolhe; o papelão te escolhe. Mesmo que seja só aqui. Via tevê.

Capa e papelão preparando olhos do futuro? Sabe-se lá do papelão que sai das árvores como papel, transita nos frutos por entre as mãos dos homens que vacilam. O papelão é hoje dos loucos, das putas e dos poetas.

Mas então que loucura e delírios resistem às capas? Tu tens idéia do que fazemos, ou deixamos de fazer?

                     





 

Marco Aqueiva, poeta, autor de Neste embrulho de nós (Scortecci, 2005), vencedor do III Prêmio Literário Livraria Asabeça, é professor de literaturas brasileira e portuguesa no ensino superior. É o idealizador, editor e administrador do Projeto Valise 2008 no endereço  http://aqueiva.wordpress.com

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