Livrarias de belo aspecto e lugares “nobres” para adquirir livros são coisas que podem ser questionadas ironicamente, de vez em quando. “Essa doce obsessão” eu encontrei numa banca popular, já como velho item de sebo, numa dessas edições com cara de livreco romântico e tolo perfeitamente descartável, até pela capa (a fotografia de uma noiva e o perfil de um homem), que pode pegar algum incauto por razões que a história contida no livro esmagará. Não faltam a essa capa sequer aquelas letras salientes, em ouro, para “valorizar” o produto descaradamente barato. Quem pode imaginar que por trás dessa banalidade comercial toda se encontra uma obra-prima, o que pode ser, inclusive, a maior novela escrita por Patrícia Highsmith?
É um dos melhores livros existentes sobre o fenômeno chamado paixão. “Essa doce obsessão” simplesmente pega um sujeito comum chamado David Kelsey e nos mostra a sua vidinha numa pensão de uma das infindáveis cidadezinhas medíocres do interior dos E.U.A. Ele é o típico sujeito bonzinho, de comportamento aparentemente impecável, que agrada aos idosos e convive em harmonia com os outros hóspedes. É um empregado modelar numa fábrica de utilidades de plástico (e até nisso parece uma paródia do sujeito consumadamente medíocre).
David tem um amigo que gosta de beber e não se dá com a mulher, o típico marido que gosta de dar as suas escapadas, mas que vive sob o jugo daquela mulher de quem gosta tanto de reclamar (conhecemos inúmeras variações dele, no Brasil; entre os homens brasileiros, uma mulher como essa é rotulada de “patroa” e, a certa hora da reunião do boteco, o sujeito olhará para o relógio e voltará para casa, nervoso, por causa dela, que descreve como uma chata, mas de quem ele dependerá, canino e ressentido, pelo resto da vida). A história de Kelsey seria um epítome de banalidade nauseante se ele não estivesse apaixonado por uma certa Anabelle, que logo saberemos quem é. Mas perceberemos também, rapidamente, que o amor de Kelsey por ela é irremediável.
Irremediável no mais amplo sentido da palavra. Kelsey é tão apaixonado por Anabelle que, por ela, construiu um mundo à parte, forjou um novo nome, uma nova identidade numa cidade não muito distante, onde mantém uma casa com os móveis com que queria presentear a moça, refúgio onde se tranca para...vamos dizer, amá-la.
Tudo bem se ela estivesse presente na tal casa. Não está, claro. Há bom tempo se casou com outro, vive uma vida alheia à de David e, pior, não passa de uma moça comum perseguida por ele, admirador incansável de quem quer se livrar, mas não consegue, por amabilidade, compaixão, por uma ligeira lisonja inconfessada (porque todo mundo gosta de ser amado, ainda que o amoroso seja algum indesejável).
DEMÊNCIA E POESIA
A perícia e a crueldade de Patricia Highsmith brilham neste livro com uma intensidade particularmente apropriada: sua maneira crua, irônica e fria de tratar os absurdos humanos encontrou nessa história o veículo mais apropriado.
Tudo nela é absolutamente banal, transparente e...inaceitável. Uma velha canção popular brega brasileira trazia um resumo da “ópera”: “Quem eu quero não me quer/quem me quer, mandei embora”. Porque David, que ama sem tréguas e sem esperanças uma mulher indiferente a ele, tem uma mulher que o ama, completamente, e também sem esperanças. A admiradora de David é uma hóspede da pensão, e caberá a ela ir descobrindo, aos poucos, quem seu amado é – ela praticamente só valerá para que David seja vislumbrado mais amplamente pelo leitor. É sempre assim, com Highsmith: o lugar-comum é o abrigo do Inferno, os chavões comportamentais escondem o psicopatológico em estado bruto, e o outro é Outro mesmo, quer dizer: enigma hostil, fechado.
O masoquismo obstinado de David, quem já não o conheceu em alguém por aí? Quanto mais Anabelle dá provas de que não o quer por perto, mais ele se obstina em idolatrá-la, produzindo cartas que vão causando no leitor um incômodo desesperado, pois o que se está vendo, com uma lupa que o estilo maniacamente preciso de Highsmith fornece, é a evolução de um caso de demência. O mais terrível nisso tudo é que o que Highsmith faz, na verdade, é pôr o dedo numa ferida universal, trivial, quase como se estivesse, por crueldade, topando um desafio – escrever uma história de amor comum para virar de ponta-cabeça toda espécie de consolo e conforto piegas que essas coisas oferecem a pessoas que querem e precisam se iludir.
David se parece muito com qualquer pessoa apaixonada: ele simplesmente defende a lógica de seu amor, que não tem lógica alguma, com a mais cândida fé. Crê que vai casar-se com Anabelle, que ela é prisioneira do marido (quando ela na verdade ama o sujeito, embora ele seja feio e grosseiro). Que ela é uma mulher incomum, dotada para a música clássica (quando é uma moça simples, que um dia interessou-se por piano, esqueceu-se disso, casou-se e pronto). Highsmith está parodiando um clássico, o “Werther”, de Goethe, onde o sujeito leva tão longe a sua paixão que se suicida por uma mulherzinha bastante banal. As razões que David elabora para seu amor vão num crescendo, aprisionando-o cada vez mais na teia do equívoco. Mas só o leitor percebe. David é um protótipo de normalidade, para todos. É precisamente nessa normalidade que a insanidade se instala, soberana e sorrateira, e a escritora a observa desenvolver-se como um entomólogo obcecado pelos movimentos de um inseto raro.
A base dessa doença de David, tão disseminada no comportamento humano, é simplesmente essa coisa tão comum, mas tão ignorada (deliberadamente): o fato de não sabermos quem os outros são. O fato de amarmos sempre um produto de nossa fantasia, não a pessoa real que lhe deu origem e que pode ser, inclusive, totalmente divergente dela.. O que Proust afirmava acerca da natureza doentia do amor – uma febre sem reciprocidade – Highsmith assinaria embaixo, com fervor absoluto.Proust, em sua “Busca...”, vai enumerando casos onde há uma constante: o amor como mal-entendido, nascido de um desejo de poesia, de fuga, de uma determinada necessidade subjetiva, em geral desconhecida em sua extensão delirante pelo portador, e isso será encontrado no amor do Barão de Charlus pelo violonista Morel, belo e canalha; no cego amor de Swann por Odette, não mais que uma “cocotte” que ele endeusa como uma obra de arte; no equívoco completo que é a relação do Narrador com Albertine, uma mulher que, sufocada pelo ciúme de seu amante, procurando esconder seu gosto real por outras mulheres (e outros homens), e, acuada pela possessividade dele, não vê outra saída senão multiplicar suas identidades de fuga, seus movimentos clandestinos, produzindo mentiras como quem respira. Proust também toca com maestria em outra questão: o amor infeliz de um homo por um heterossexual que parece condescender, por amizade, com ele. Creio que disso Highsmith pode ter tirado seu apaixonado infeliz: Roger Ebert, em seu livro “A Magia do Cinema”, ao comentar “Pacto Sinistro”, extraído de um livro seu, diz que ela era lésbica, mas se apaixonava por mulheres heterossexuais...A analogia com o impasse proustiano se impõe.
O grande amor de Kelsey acabará gerando duas mortes, para maior desespero do infeliz. São acidentais, mas parecem criminosas, e ele passará a ser objeto de uma investigação policial. Só que nunca saberá quem é perseguido – se ele, Kelsey, ou se o homem irreal cuja identidade forjou para viver com uma Anabelle que não existe numa outra cidade, sob nome falso. É dilacerante. Claro que teria que chegar o momento em que sua cisão interior o tornaria duplo no pior sentido.
Highsmith, brincando de maneira cruel com esse estereótipo do romantismo – o amor idealizado -, tirando um sarro dos Werthers deste mundo, está dizendo o óbvio: que a loucura perigosa está por aí, em qualquer canto, como uma tarântula à espreita dentro do cidadão normal, afável, tranqüilo, confiável. Que esse sentimento, a four-letter word (como disse alguém num trocadilho intraduzível) tão banalizado, de que as pessoas se orgulham tão facilmente (quantas pessoas, ao chorarem com uma canção romântica, não se acham o máximo de sensíveis?), de modo algum pode ser sempre levado como uma prova de uma grande sensibilidade e de uma humanidade nobre. Pode ser sim prova de um desajustamento patético à mais necessária e básica sensatez.
Por outro lado, é preciso entender que esse equívoco é fonte de Beleza na vida de muita gente, que o próprio Proust afirmava que, sem esses movimentos provocados pelo amor, ainda que amor por objeto dúbio e com caráter psicopatológico, a água da alma permaneceria estagnada. Um ou dois minutos de bom-senso, e David estaria salvo, mas também perderia a única poesia que há em sua vida estúpida, conformista e sem sentido. Quanto à garota simples que ama David sem esperanças, pensa-se um pouco naquela loirinha, de óculos, vivida por Barbara Bel Geddes, em “Um corpo que cai”, de Hitchcock; ela está apaixonada por Scott (James Stewart), que só tem tara é pela mulher do Além, Madeleine/Judy (Kim Novak), e é compreensível: que mulher de carne e osso pode fazer frente a uma idealização? Mas a miragem que Scott persegue dá uma idéia da natureza involuntariamente fantasiosa e descompassada de todo amor.
A realidade assustadora de nossa vida interior fora de controle, vida que é nosso deleite e nossa perdição e que faz vítimas que não podem senão se enredar mais e mais em suas próprias motivações, é o terreno pelo qual Highsmith trafega com soberbo talento. E esta escorregadia realidade é que é nosso terror. Não os monstros fáceis dos livros de terror ou os “serial killers” de livros policiais, sobre os quais a leniência do leitor já lançou as teias do comodismo, da previsibilidade.
Para Highsmith, o que está em questão está perigosamente perto. Ou dentro. De todos nós.
Chico Lopes é escritor (“Nó de sombras” e “Dobras da noite”, contos, IMS-SP, 2000 e 2004)
e crítico de cinema do Instituto Moreira Salles de Poços de Caldas, MG.
E-mail: franlopes54@terra.com.br