13/9/2009 22:44:00 Byron e Keats por Augusto de Campos: entre a juventude e a longevidade
Por André Dick
Video Portrait - Augusto de Campos | agosto de 2009 Pipol
Augusto ao lado o holograma POEMA BOMBA, realizado com Moysés Baumstein em 1987
Na penúltima estrofe do poema “Ad augustum per angusta” (1951-1952), do início de sua trajetória poética, Augusto de Campos escreve:
- Onde estou? – Em alguma Parte entre a Fêmea e a Arte Onde estou? – Em São Paulo Na flor da mocidade.1
Naquele período, Augusto ainda não havia escrito “Poetamenos” nem criado, com Haroldo de Campos e Décio Pignatari, a poesia concreta. Fazia, de qualquer modo, uma poesia excepcional, aos 21 anos, preparando-se para o movimento concreto, caracterizado, como todo movimento de vanguarda, por ideias críticas agudas. No entanto, não é correto afirmar que, como as vanguardas mais comuns, a poesia concreta negasse o passado. Como escreve Giorgio Agamben, em Infância e história, “a vanguarda, quando é consciente, não se dirige jamais ao futuro, mas é um esforço extremo para encontrar uma relação com o passado”.2 Foi o que os concretos fizeram, valorizando a tradição de poesia visual, que vem de Mallarmé e cummings, buscando elementos de acréscimo, sempre sob o ponto de vista verbivocovisual, em Joyce, Pound e João Cabral de Melo Neto. Num trecho do ensaio “Resiste, Ro”, em que escreve sobre a obra poética do cunhado, Ronaldo Azeredo, Augusto faz um depoimento revelador: “Com a cega animação da juventude, acreditávamos que a poesia concreta ia salvar o mundo. E conspirávamos, catacúmbicos, contra o lirismo nacional, o verso e a sintaxe”.3 Ele volta a reafirmar tal ideia, de maneira mais aprofundada, logo na introdução de Byron e Keats: entreversos, seu mais recente livro de traduções lançado pela Editora da Unicamp:4
Uma das poucas vantagens da longevidade é a de poder reconfigurar conceitos e preconceitos, uma disposição que me fez reconciliar-me com poetas aparentemente tão distantes dos meus projetos juvenis de poesia como Rilke e Byron, por exemplo. Considero um privilégio ter sobrevivido para reavaliá-los e valorizá-los como merecem, e dedicar-me, apaixonadamente, a verter exemplos de suas obras mais inventivas para nossa língua sob a perspectiva da crítica criativa, da crítica-via-tradução.5
Acrescenta afirmando que Byron, “nos heroicos tempos de combate da poesia concreta” era “um entre outros símbolos do romantismo piegas, marcados com a imagem estereotipada do poeta aventuroso e confessional”.6 Perceba-se a longevidade a que se refere Augusto: diante de ideias da poesia concreta, ele faz uma revisão de conceitos. E volta a fazê-la, lembrando de Thelonius Monk, que depois de uma apresentação, com sua rigidez, falava cometer “erros certos”. Para Augusto, a poesia concreta foi um erro certo, pois, como ele escreve, “nos anos 50, para renovar a poesia, não havia outra alternativa, ante o neo-romantismo encalistrado e o beletrismo conservador, subjetivo ou engajado, que grassavam entre nós”. Desse modo, Augusto afirma que “o momento impunha uma regeneração de conceitos, um reequilíbrio ecológico para arejar nosso ambiente poético”,7 o que fez que fossem deixados de lado outros poetas, como Rilke, Eliot e Lorca, além do próprio Byron, recuperado sob o influxo da descoberta de Sousândrade. É interessante que Augusto ainda explique os motivos da poesia concreta, e de ter traduzido, depois, poetas não inseridos na teoria – e exemplares, como Rimbaud, Rilke, Maiakóvski, Marina Tzvietáeiva, Emily Dickinson, os provençais, Dante, Valéry, entre outros. Por meio de Byron e Keats, Augusto retoma sua prática tradutória de notável talento, se utilizando de um arsenal de rimas, de encadeamentos precisos e de uma relocalização desses românticos na história da poesia, apontando semelhanças em suas obras, na modernidade de composição. Augusto seleciona 800 versos da narrativa poética D. Juan, de Byron, e algumas estrofes de Childe Harold, além de quatro odes de Keats, duas delas já publicadas em Linguaviagem (“Ode sobre uma urna grega”e “Ode a um rouxinol”), e duas inéditas (“Ode sobre a melancolia” e “Ode sobre a indolência”), acrescidas de dois sonetos (desatacando-se o ótimo “Ao gato da sra. Reynolds”) e um pequeno fragmento do longo poema Endymion. Mas o que Augusto, em momentos precisos, mais faz é retomar temas característicos de sua própria poesia, configurados desde seu primeiro livro, Viva vaia, mas intensificados em Despoesia e NÃO: a relação intrínseca entre morte e vida, palavra e afasia – inseridas num discurso byroniano extremamente corrosivo. Em alguns momentos da narrativa poética D. Juan isso fica claro:
De minha parte não vejo saída, Até que alguém me possa convencer. Que a vida é morte e eu chego a acreditar Mais do que a vida um afazer de ar.8
Quem sabe a eternidade ainda vem Para tornar o velho e o novo iguais O homem que espera a morte tão temida Passa dormindo um terço de sua vida.9
Um sono sem sonhar, noite tranquila É tudo o que se quer ao fim do dia. Mas a argila se move sob a argila! O Suicida que a dívida inadia E salda de uma vez, sem dividi-la, (Para desgosto do credor que a cria) Deixa a respiração que lhe é devida Mais por temor à morte que ódio à vida.10
É a poesia – e a mente é como o alento, Pipa entre a vida e a morte a vacilar. Sombra que a alma lançou ao pensamento, Uma bolha que eu sopro da lembrança Para brincar, só, como uma criança.11
Inevitável lembrar de poemas como “afazer” (com seu “poesia afazer de afasia”12), “pessoa” (“um som que não soa / no ar que não é / quase se pessoa”13), “viv” (viver vivente tentando viver sabendo que vai morrer tentando não morrer sabendo que vai morrer sem saber quando tentando viver tentando não morrer sabendo que vai morrer”14) – todos de Despoesia (aqui colocados em leitura linear) –, ou mesmo de poemas iniciais, como “Diálogo a um”: “O rio que eu fui secou-se nesta rua / Sem mais cor ou saída. / / Tu és o suicida dos teus braços, / O morto sem epitáfio, / Eu túmulo e te abrigo. / – Sou o Poeta. O que jaz, sendo vivo”.15 Nos poemas do mais recente livro de Augusto de poemas próprios (apesar desse termo, em seu caso, ser um tanto “impróprio”), NÃO, há esse extremo com a morte e a vida, em poemas como “morituro” e “oco”. A teoria da recusa às glórias vãs, ao sucesso que dobra os joelhos, ao sucesso fácil – que Augusto mostra em Poesia em recusa, mais destacadamente em alguns poetas russos, como Marina Tzvietáeiva e Boris Pasternak –, o poeta revê em outros trechos de D. Juan:
11
“Para que publicar”, se são baldados Louros e lucros quando o mundo pesa? Para que ler, beber, jogar os dados? Para esquecer tudo o que se despreza. A mim me faz lembrar dias passados Que eu vivi na alegria ou na tristeza E o que escrevi, atiro na corrente; Vingue ou não, é o meu sonho e a minha mente.16
12
Se eu tivesse certeza do sucesso, Nenhuma linha mais escreveria: Tanto eu batalho e com tamanho excesso Que o fracasso não pesa na poesia. Não sei bem se o exprimo, quando o expresso, Mas a sinceridade é que me guia. No jogo há duas formas de prazer: Uma é ganhar, a outra é perder.17
13
Minha Musa não gosta de ficção Reúne unicamente um rol de fatos Com alguma reserva ou restrição Mas fala de coisas humanas e atos – E é onde encontra uma contradição; Pois a verdade dói nos meus retratos, E se eu corresse atrás da minha glória Teria que inventar uma outra história.18
Lendo essas traduções, é indispensável ler o que Augusto escreve sobre Byron: “Seus versos são fluentes e perfeitos e suas rimas, para nem falar das paronomásias e assonâncias, são riquíssimas”.19 Byron acaba “vertendo poesia em prosa e prosa em poesia em versos inauditos de rimas sintagmáticas”, constituindo-se num precursor de Corbière, Rimbaud e mesmo em certos aspectos dos Cantos poundianos. Ele seria, em contraposição a Keats, “carnal e concreto”, crítico do mundo, por meio de D. Juan, que expõe as “falácias da sociedade de sua época”. Keats, por sua vez, seria “internalizado, introvertido, metafísico, visionário da alma e da linguagem”.20 A poesia de Keats Augusto recupera num ensaio já publicado em Linguaviagem e no ensaio final desse Byron e Keats: entreversos, “Dos cantos de Byron ao gato de Keats”, com sua habitual erudição, citando Pound, Corbière, Borges, Sousândrade e alguns teóricos. A leitura de Keats atinge um universo, como afirma Augusto, além do cotidiano mais imediato, de crítica corrosiva, presente na narrativa poética D. Juan. Alguns de seus versos se aproximam dos interesses de Augusto pela música de vanguarda ou pela tradição provençal. Versos como esses de “Ode sobre uma urna grega”:
A música seduz. Mas ainda é mais cara Se não se ouve. Daí-nos, flautas, vosso tom: Não para o ouvido. Daí-nos a canção mais rara, O supremo saber da música sem som: 21
Ou esses de “Ode a um rouxinol”:
Ah! um gole de vinho refrescado longamente Na solidão do solo muito além do chão, Sabendo a flor, a seiva verde e a relva quente, Dança e Provença e sol queimando na canção!22
A morte volta a marcar presença em outros versos de “Ode a um rouxinol”:
Às escuras escuto; em mais de um dia adverso Me enamorei, de meio-amor, da Morte calma, Pedi-lhe docemente em meditado verso Que dissolvesse no ar meu corpo e minha alma. Agora, mais que nunca, é válido morrer, Cessar, à meia-noite, sem nenhum ruído, Enquanto exalas pelo ar tua alma plena No êxtase do ser!23
Augusto assinala, não sem certo espanto, que Keats escreveu essas odes aos 23 anos: a perfeição por meio da juventude, que Augusto destacara em Rimbaud: “Quando o escrever é mero degrau para os assomos da vaidade ou do poder, quando se publicam tantos livros de poesia antes de se ter feito os poemas, será útil rememorar o caso-limite Rimbaud, a perfeição do que fez, tão jovem, e o despreendimento com que deixou de fazer, tão cedo”.24 Para Augusto, é notável que Keats, tão jovem, tenha feito versos que sintetizam o contato com o desconhecido, com o cosmos em que a música se reduz a silêncio, o sujeito se pauta por uma nota que reverbera no vazio. Assim como o jovem Rimbaud, que abandonou a poesia tão cedo. Em Augusto de Campos, propriamente, o cansaço, em certos momentos, se evidencia mesmo na introdução: “O que ofereço à leitura não é uma edição crítica ou comentada, afazer útil e louvável, que não desprezo, mas que me poupo de cumprir, aos meus 78 anos”.25 E acrescenta: “Não me seria impossível, embora penoso e cansativo para minha idade”. As evidências desse cansaço existencial obviamente não são óbvias – e o quase mea culpa de não apresentar, como se precisasse, diante da qualidade de suas traduções, uma edição crítica ou comentada. Não é preciso: em Augusto, o sinal desse cansaço existencial tem a vitalidade da juventude, em matéria de criações tão exatas para o leitor contemporâneo. Juventude e longevidade são dois extremos que se tocam em sua obra, de forma destacada num poema publicado em NÃO: “rapid / alenta / mente / o tempo / avança / fujo de mim e assisto à minha fuga / aquiles não alcança a tartaruga / só o tempo não se cansa / e ruga a ruga / o velho mata em si / sua criança”.26 Na obra de Augusto, o que mais se pensa é que o “velho” nunca mata em si sua “criança” – mas, sim, se renova continuamente.
1 CAMPOS, Augusto de. Viva vaia: poesia 1949-1979. 3. ed. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2001, p. 47.
2 AGAMBEN, Giorgio. Programa para uma revista. In: Infância e história: destruição da experiência e origem da história. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2005, p. 163.
3 CAMPOS, Augusto de. Resiste, Ro. In: À margem da margem. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 159.
4 Por essa editora, Augusto lançou, em 2008, Emily Dickinson: não sou ninguém. As capas dos livros trazem, no título e na autoria, a mesma tipologia, em design de Augusto de Campos; tipologia semelhante à de seu poema “tour”, em que Augusto escreve: “Bemvindo / às catacumbas / aqui / jazem os poetas / em suas tumbas / não dizem o que / fazem / no fim do / mundo / nenhum sol / nenhuma fresta / que lindo / nem um só / resta / ninguém mais / perturba / o barulho da festa”. In: NÃO. São Paulo: Perspectiva, 2003, p. 113. A capa de Emily Dickinson era verde; a de Byron e Keats é azul, como a do livro NÃO. Atrás de cada livro, há o retrato de seus autores, trazidos por Augusto de suas “tumbas” para o leitor contemporâneo.
5 CAMPOS, Augusto de. Introdução. In: Byron e Keats: entreversos. Campinas: Editora da Unicamp, 2009, p. 9.
6 Ibidem, p. 10.
7 Ibidem, p. 10.
8 Ibidem, p. 65.
9 Ibidem, p. 81.
10 Ibidem, p. 83.
11 Ibidem, p. 87.
12 CAMPOS, Augusto de. Despoesia. São Paulo: Perspectiva, 1994, p. 23.
13 Ibidem, p. 17.
14 Ibidem, p. 117.
15 CAMPOS, Augusto de. Viva vaia: poesia 1949-1979. 3. ed. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2001, p. 28.
16 CAMPOS, Augusto de. Byron e Keats: entreversos. Campinas: Editora da Unicamp, 2009, p. 89.
17 Ibidem, p. 91.
18 Ibidem, p. 91.
19 Ibidem, p. 11.
20 Ibidem, p. 12.
21 Ibidem, p. 141.
22 Ibidem, p. 147.
23 Ibidem, p. 151.
24 CAMPOS, Augusto de. Rimbaud livre. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1993, p. 21.
25 CAMPOS, Augusto de. Introdução. In: Byron e Keats: entreversos. Campinas: Editora da Unicamp, 2009, p. 14.
26 CAMPOS, Augusto de. NÃO. São Paulo: Perspectiva, 2003, p. 45.
André Dick é poeta e ensaísta, autor de Grafias (Instituto Estadual do Livro e CORAG) e Papéis de parede (7Letras/Funalfa Edições). É doutor em Literatura Comparada pela UFRGS. E-mail: henriquedick@hotmail.com