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18/05/2010 10:11:00
A visão do negativo



Por Homero Gomes
 

Às vezes é impossível não sentir os dedos formigarem pedindo impressões. Eu escrevi para os autores, que se tornaram amigos. São textos com destinatários, mas de vida útil longa. Aqui, o primeiro deles.



                                                 * * *


            Vi uma foto do Fernando
            
Sem oferta nem nada;
           
Peça arrebanhada
           
Das distribuidoras.
            Poderia continuar assim tal como no seu impactante Vi uma Foto de Anna Akhmátova, mas seria piegas. Até porque o exemplar de Armada América tem uma capa que me incomoda. Talvez, você tenha pensado nisso, Fernando, com a imagem de marinheiros americanos segurando uma imensa bandeira dos EUA.
           
O seu livro-poema também possui uma imagem que me incomoda, mas de outra maneira.
           
Falo de um e de outro,
           
da foto que um estampa
           
e da ausência que outro mostra escandalosamente.
           
A ausência estarrece mais que uma sinfonia de britadeiras.
           
Entretanto, deixarei isso em suspenso por enquanto. Deixarei a foto de Anna pra depois. Falemos da sua, Fernando. Agora, é minha vez.
           
Pois quero dizer que vi sua foto
           
Sentado numa cadeira branca,
           
Relaxado,
           
(poltrona de couro, talvez)
           
Esparramado,
           
Provavelmente no convés de uma embarcação.
           
Ou seria num terraço?
           
Vi sua foto de óculos escuros
           
E imaginei, em você, o último bon vivant.
           
Mas antes de te conhecer.
           
Saber de suas angústias.
           
É claro que o que estou fazendo aqui não é poema, apenas a prosa cortada, despencada na intenção de te divertir. Será que reencontraremos o prazer da criação, amigo? Ou, ao menos, o prazer da leitura despreocupada?
           
E como achei divertida a foto. De alguma maneira aquela camisa xadrez e os óculos escuros passaram uma imagem, não de deboche, mas de realização, de sucesso, à la burguesia. Ok, man, uma paródia debochada.
           
Vejam a bandeira hasteada
           
No meu iate,
           
Feito o Rei da Vela,
           
(Dá-le, Oswald)
           
É vermelha e branca,
           
Mas não levamos nenhum americano aqui.
           
Como lá, ele nem aparece.
           
Precisa?
           
A alma dele se esparramou
           
Pelo mundo, sua doutrina
           
Infiltrou-se.
           
Mas it`s all right.
           
Qualquer problema,
           
Estouramos escolas, hospitais,
           
Crianças e aleijados.
           
Como se, pela única foto colorida que conheço de você, enviasse uma mensagem. Outra. Além daquelas percebidas nos contos do pequeno volume. Baby, the american way of life is a little piece of shit.
           
Nação de assassinos,
           
Cães e abutres,
           
Que uivam e desossam
           
A carne nesse deserto.
           
A digressão é resultado da agulha por dentro da unha, mas sem dor. É a sede de movimento sem o poder. Porque estamos atados, já que no money. Nem power. Only powder.
           
A foto de Anna é assim. Vamos a ela. E a visão que você teve, Fernando, ao olhar a foto, ao perceber os traços, as roupas, os cortes, as proporções me disse principalmente uma coisa: entre poeta e poesia existe uma relação incestuosa. A poesia nos pega de jeito. Só há uma escolha, entre duas: escrever ou matar-se. Suicídio físico ou ideológico; ainda estou pensando qual dos dois seria mais difícil executar. Mas isso seria assinar um atestado de humildade e servidão para Wall Street. O deus dinheiro.
           
Vi uma foto do Fernando
           
E quis reler "A Flor da Inglaterra".
           
E desejei uma guerra mundial.
           
(De preferência a última, pra foder geral)
           
Glorifiquei as torres caídas por terem caído.
           
Lamentei meu desterro e os calos dos pés.
           
Por isso a foto de Anna Akhmátova me incomoda tanto, não há o que fazer; apenas permanecer, gerar esses bastardinhos que o mundo deixou e deixará em paz. Você diria isso bem alto.
           
Disse, aliás. Vi uma Foto de Anna Akhmátova é a visão desembaçada dos nossos poetinhas e punheteiros; "de nossos poetas emplumados" segurando covardemente seus empregos públicos, suas posições, sentando nas velas de sebo com candelabro e tudo.
           
Vi uma foto, eu dizia,
           
A dele e a dela
           
No livro dele, no seu livro.
           
O que já serviu para que eu virasse o rosto
           
De vergonha.
           
Não dele
           
Nem dela,
           
Não de você nem de Anna.
           
Mas do que chamamos de poesia brasileira. Não sei se chegaremos a tanto um dia. Ser colônia dá nisso.
           
De algum modo estamos melhorando. Nessa relação incestuosa, não se faz mais o convencional; a alcova está mais livre, desavergonhada, experimenta configurações novas – sem liturgia nenhuma.
           
Vi uma foto que estampava
           
Nossa incapacidade de enfrentar fuzilamentos.
           
Ao menos, estamos mandando ver na
           
Mamãe.
           
Não vi muita coisa,
           
E talvez esteja enganado.
           
Vi essa foto e talvez tenha visto coisas demais.
           
Embarcações?
           
Poltronas burguesas?
           
Seja como for, Fernando, a poesia e o poema ficam. O poema, nas palavras que estão e virão; a poesia, em tudo.
           
Nossos corpos apodrecem, os versos apenas envelhecem, pois o tempo corrói o que lhe apetece. Mas tenho a desconfiança, sinto aquele cheiro, de que seu longo poema (enfim, mais um poeta com mania de poema longo, como eu) permanecerá como retrato de nossas atuais e "contemporrâneas" imbecilidades, de nossas doenças incuráveis, de nossa visão de mundo,
           
Pois eu, como você,
           
Fernando Monteiro, amigo,
           
Vimos algo que ninguém mais vê.
           
Se é que vimos direito por trás dessas superfícies todas.






    Autor: Fernando Monteiro
    Título: Vi uma foto de Anna Akhmátova
    Fundação Cultural Cidade do Recife 2009


                                                 * * *


 

Homero Gomes (Curitiba/PR, 1978). É escritor. Autor dos trabalhos ainda inéditos Sísifo Desatento (contos) – finalista do Sesc de Literatura edição 2007 – e Jamé Vu – que foi publicadona internet durante o primeiro semestre de 2010. Colaborou com Rascunho, Cult, Germina Literatura, Ficções e TriploV. É colunista do site Página Cultural: www.paginacultural.com.br. E-mail: homero.gomes@gmail.com

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