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8/9/2005 22:44:00
O lugar do coletivo na pós-modernidade



Por Nete Benevides







 

Por que será que apesar de todas as facilidades da vida moderna o homem contemporâneo não consegue estabelecer laços afetivos que lhe produzam satisfação pessoal? Por que será que mesmo diante de tantos avanços científicos e tecnológicos ele ainda se acha angustiado? 

         Na obra O Mal-estar da pós-modernidade”, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, argumenta que, isso acontece, sobretudo, porque corresponde à característica da pós-modernidade, uma sociedade marcada pelo capitalismo pós-industrial, consumo exacerbado, movimento constante, efemeridade e fragilidade dos laços afetivos entre as pessoas. O impacto desses fenômenos nos relacionamentos afetivos interfere nas relações transformando-as “em amores líquidos”, reflete Bauman, que amparado nas idéias dos pensadores franceses Jacques Derrida e Emmanuel Lévinas, vai chamar atenção para a baixa cotação da alteridade dos indivíduos que vivem este tempo, para o irreconhecimento do outro em todas as relações de um modo geral, permitindo, dessa forma,  o “bloqueio” de um exercício cotidiano que envolva questões éticas como, tolerância, respeito, solidariedade, etc.

         Assim, substitui-se o “investimento” no amor e no outro pela prática das “redes de relações”, uma vez que, conforme afirma o sociólogo Michel Maffesoli em sua obra “A Contemplação do Mundo”, as cidades contemporâneas desta sociedade são povoadas por “tribos”. Maffesoli defende que na sua pluralidade de origens e comportamentos, as sociedades não nascem da redução da diversidade até chegar a um elemento centralizador único, mas da conjunção de elementos díspares, que formam uma grande “colcha de retalhos”.

         Se na sociedade pós-moderna destaca-se fundamentalmente o movimento cotidiano de entrar e sair das “redes de relações”, esta prática não permite que as relações humanas possam amadurecer e nem exigir dos indivíduos um “investimento afetivo”. Tudo isso provoca: a incapacidade de se manter laços duradouros, a substituição da durabilidade pela transitoriedade e pela novidade, o encurtamento do período de tempo entre o desejo de sua realização e a utilidade e desejabilidade das posses de sua inutilidade e rejeição.

         Neste cenário, Zygmunt Bauman observa que, a “síndrome do consumismo” nos conduz a presença de reciprocidade entre velocidade de aquisição e lixo, tudo o que vem a ser descartado. Porém, a pós-modernidade “não se fundamenta em  distinções precisas e simples, mas em uma complexidade que integra tudo e seu contrário” destaca Maffesoli, naquela obra, acrescentando que o estilo de um homem ou de um determinado grupo nada mais é que a cristalização da época em que este homem vive, o que lhe permiti servir de revelador da complexidade social deste quadro geral que exprime sincronicamente, a vida social.

         Esse estilo funciona como uma linguagem comum e nos remete a compreensão do social como interação e como vivência de momentos em que é partilhado o convívio entre as pessoas e onde se estabelece laços e uniões que se criam e permanecem presentes na memória das pessoas. Essa idéia compreende as atitudes emocionais, as formas de pensar e agir e nos fazem entender, nesse quadro social, a relação que se estabelece entre subjetividade, intersubjetividade e intra-subjetividade.

         A vida social, de acordo com Michel Maffesoli, é uma seqüência de co-presença, ou como disse Rimbaud: “Eu é um outro”, pois é preciso partir da alteridade, que se acha no âmago do eu, para compreender a sociedade pós-moderna, sobretudo porque apesar do pensamento racional ainda nortear o comportamento e as atitudes dos homens que têm o poder de dizer e fazer, esta sociedade trás na essência de sua caminhada características que lhe associa a temática de Dionísio, deus grego da versatilidade, do jogo, do trágico e do desperdício de si mesmo. Assim, como no domínio desse mito reina a ambigüidade, a narrativa fragmentada e a magia como metáfora, a pós-modernidade, em sua particularidade, também, deve aliar contrários fazendo-os entrar em sinergia e permitindo uma originalidade ao seu tempo histórico. Desse modo, as culturas se interpenetram e suas diversas temporalidades contaminam as formas de ser e pensar e, neste sentido, a história registra uma mitologia plural e diversificada. 

         A socialidade maffesoliana se remete a um sentimento de comunidade que é marcada, predominantemente, pelo corpo coletivo sobre o individual. No estilo pós-moderno o particular se apaga para dar lugar ao típico, podendo se observar  nesse cenário, por exemplo, o “tipo musical”, “tipo político”, “tipo guru”, etc. O viver social como estilo de um tempo, está permeado por imagens e simbolismos que constituem a vida em uma grande ou banal aventura, aonde coexistem emoção e razão; tornando mais próximas as experiências vividas-em-comum. Este processo ético-estético coloca em jogo uma “paixão operante” cuja vitalidade constitui a base de toda “socialidade” ou solidariedade de base.

         A solidariedade de base reafirma o ethos do viver comum, aglutinando os indivíduos pela vontade de “ligação” instaurada pelo simples fato de estar-junto, envolvidos pela “banalidade” da vida cotidiana. Este sentimento de agregação, este compartilhar, acentua, conforme Maffesoli, o caráter ético da emoção estética; ele  faz com que o pertencimento aos grupos, ou as “tribos”, se transformem no “cimento”[1]que sustenta a vida social. Portanto, esta “argamassa” que fundamenta a comunidade também está apoiada por elementos “objetos” e concretos, são eles: a ação militante, os grandes eventos culturais, a moda, a caridade, a ação voluntária etc. Todavia, esses elementos devem ser reconhecidos como pretextos cuja função é possibilitar e legitimar a relação de alguém por outrem.

         Além disso, essa estruturação de base, ou socialidade de base, está igualmente vinculada aos “palcos” onde se desenrolam as cenas da vida cotidiana: os shoppings, eventos esportivos e culturais, mega-eventos religiosos, a vida nos condomínios e as relações de vizinhança de toda a ordem. São esses “cenários” que ajudam a compor as formas que caracterizam a vida social, lembrando que formas e conteúdos são uma e mesma coisa.

         É preciso concordar com  Michel Maffesoli quando afirma a ligação existente entre a emoção estética e a socialidade (ou solidariedade de base), porque é esta relação que possibilita a emergência de um viver ético-estético-afetivo, que surge da ambiência comunitária e se fortalece pelos princípios de simpatia social. Trata-se mesmo de empatia porque tal sentimento pode ser compartilhado através da generosidade de espírito, da proximidade e da correspondência mútua entre as pessoas.

         A noção de empatia ressalta a emoção comunitária; isto é, um movimento em direção ao outro que assinala a disponibilidade de compartilhar experiências que brotam das razões e das sensações do “pluralismo societal”. Portanto, esta orientação em direção ao outro, esta correspondência social, é acentuada pela idéia de empatia e se constitui em característica exemplar do “estetismo”, ou estilo-estético-afetivo.

         O estilo-estético-afetivo exalta a idéia de um sentimento de religare aos sentidos sociais, ou ainda, de “religação” ao outro; por isso permite pensar uma ética-estética nascida da vida de todo dia, isto é, dos significados dos vivenciados-comum na qual ética é um compromisso “sem obrigação nem sanção”, nenhuma outra obrigação que não seja aquela de se agregar, “de ser membro do corpo coletivo” e neste sentido, conforme Maffesoli, o estilo estético: ao se tornar atento à globalidade das coisas, à reversibilidade dos diversos elementos dessa globalidade, e à conjunção do material com a imaterial, tende a favorecer um estar-junto que não busca um objetivo a ser atingido, não está voltado para o devir, mas empenha-se, simplesmente, em usufruir dos bens deste mundo, em cultivar aquilo que Michel Foucoult chamava de “cuidado de si” ou “uso dos prazeres”, em buscar, no quadro reduzido das tribos, encontrar o outro e partilhar com ele algumas emoções e sentimentos comuns. No balanço cíclico dos valores sociais, assiste-se ao retorno do ideal comunitário, em detrimento do ideal societário. Uma tal pulsão comunitária é encontrada no que chamei de tribalismo pós-moderno, cujos efeitos se fazem sentir tanto nas efervescências juvenis, quanto na multiplicação das agregações que foram elaboradas a partir dos gostos sexuais, culturais, religiosos ou até mesmo políticos. Agregações que não mais se devem a uma programação racional, mas, ao invés disso, repousam sobre o desejo de estar com o semelhante, com o risco de excluir o diferente. É a “homossocialidade”, que predomina em todos os domínios e que não deixa nada indene: a política torna-se uma história de clãs, a universidade ou a imprensa fragmentam-se em igrejinhas concorrentes e opostas, as instituições, sejam elas quais forem, dividem-se em grupos, mais ou menos hostis, com muita freqüência em luta entre si.  (Maffesoli, 1995, p.54). 

 

         Então, qual é mesmo o lugar do coletivo na pós-modernidade? Do mesmo modo que na Idade Média observamos o “estilo teológico” e durante a modernidade verificamos o “estilo econômico”, na pós-modernidade vem sendo elaborado o “estilo estético” e uma nova ordem se esboça. É a partir dessa ordem que se deve buscar, conforme Nietzsche, “a profundidade na superfície das coisas”. Para isso, é necessário olhar novamente para as coisas e, nesse novo olhar buscar uma identificação (que é um conceito mais “móvel” que a identidade) com as várias culturas e “tribos”, apreendendo e apreciando cada coisa a partir da nossa coerência interna e não a partir de um julgamento exterior que dita o que ela deve ser, como se fosse possível estabelecer a supremacia de um código, principalmente, quando compreendemos que a idéia central da trajetória do “aprender a viver” possui a mesma dimensão filosófica de se “aprender a morrer” - angústia maior do homem.


 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

BAUMAN, Zigmunt. O Mal-estar da pós-modernidade. São Paulo: Zahar, 1998. 

MAFFESOLI, Michel. O Templo das Tribos. O Declínio do individualismo nas sociedades de massa. Trad. Maria de Lurdes Menezes. Rio de Janeiro: Forense  Universitária, 1987.

MAFFESOLI, Michel. A Conquista do Presente. Trad. Márcia de C. de Sá Cavalcante.  Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

MAFFESOLI, Michel. A Contemplação do Mundo. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1995.

MAFFESOLI, Michel. No Fundo das Aparências. Trad. Bertha H. Gurovitz. Petrópolis: Vozes, 1996.

 

 



[1] Termo que o sociólogo cunhou para designar o que da liga às matérias, misturando-se ou não aos outros elementos.  

 

 

 

 

Nete Benevides é Mestra em Artes Cênicas, Arte-educadora, Atriz e Diretora Teatral.

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