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15/08/2012 13:36:00
Dante: entre o erudito e o profundo (III)



Por Jediel Gonçalves



      Dante e Shakespeare: preparações
      para uma poética “teológica” futura


       A comparação que podemos estabelecer entre Dante e Shakespeare pode ser fascinante! Até onde sabemos, entretanto (e previsivelmente), é uma comparação que nunca foi suficientemente enfatizada. A interpretação do mais profundo só é possível entre pares. Há grandezas e complexidades de perspectiva diante das quais a crítica e a mera erudição se revelam absolutamente insatisfatórias. Nesse caso, qualquer compreensão só pode limitar-se ao factual. Por meio da própria organização de suas peças e das afirmações de certos personagens, Shakespeare elaborou uma definição do palco, do teatro e da natureza da representação que viria a se tornar canônica (embora o tropo subjacente do mundo como um palco e o da vida descrita e refletida no universo do teatro já remontassem a um passado considerável). Sempre se reconheceu que o gênio shakesperiano para exprimir sua fé nos poderes restauradores e terapêuticos da música e para sugerir as analogias entre a musicalidade e o sentido erótico era virtualmente incomparável. A classificação do poeta ao mesmo tempo como um amante e um lunático referida por Teseu no Sonho de uma noite de verão é uma imagem cômica estabelecida há muito tempo. Dante cita artistas e escritores cuidadosamente caracterizados e se encontra com eles. São personagens que, curiosamente, nem chegam a existir na profunda universalidade do elenco de Shakespeare. Já cheguei inclusive a ponderar se não é Feste, na Décima segunda noite, que, embora obliquamente, melhor incorpora a visão de Shakespeare sobre a persona dos artistas, cuja esquiva tristeza mais se aproxima daquilo que repousa no núcleo do criativo (o poeta e o pintor em Timão de Atenas não têm importância alguma). Não é possível encontrar em nenhuma passagem de Shakespeare qualquer discurso teórico sobre estética, e muito menos qualquer sugestão que descreva sua experiência pessoal com a criatividade. Provavelmente só os sonetos continuam sendo a única obra de Shakespeare que nos permite estabelecer alguma comparação provisória com as composições de Dante.

       Em nenhum outro momento de sua obra poderíamos descobrir tantas revelações sobre o indivíduo como nos sonetos. É bem provável que algum subtexto secreto tenha perdurado nesses textos inesgotáveis, com sua dinâmica de um movimento perpétuo e com suas combinações sempre novas que se reagrupam a cada leitura. O soneto 38, How can my Muse want subject to invent (Como à minha Musa pode faltar assunto), desafia todas as expectativas. A paráfrase de Horácio e Ovídio em Not marble, nor the guilded monument (Nem o mármore, nem o dourado monumento), do soneto 55, promete bem mais do que seria lícito. Why is my verse so barren of new pride? (Por que meu verso é tão indiferente ao novo?), no soneto 76, desenvolve o cumprimento hiperbólico de um amante. Alguns sonetos descrevem um bloqueio para continuar a compor, outros um mestre rival. Em nenhum deles pode-se encontrar qualquer reflexão elaborada sobre o que significa ser Shakespeare nem sobre o que significa ser um criador supremo. As constantes invocações da Musa em sua obra são inteiramente convencionais. É possível que exista alguma ironia que nos escapa em all my best is dressing old words new (o meu melhor é renovar velhas palavras) ou no reconhecimento, no mesmo soneto 76, that every word almost doth tell my name (que cada palavra quase fala meu nome). Não há um mundo todo impenetrável nesse almost?

       Aqui pode ser estabelecido um absoluto contraste com Dante. Dante é uma figura formidável na história da teologia filosófica do Ocidente e um teórico político de primeira ordem. Os comentários do poeta italiano específicos sobre a linguagem, o estilo, a alegoria e a retórica representam uma forma excepcionalmente elaborada de crítica e semântica. Em certos trechos do Paradiso, a pressão das análises metafísicas e epistemológicas ou mesmo o movimento de uma teoria da história chegam quase a deslocar o impulso lírico. Por outro lado, já houve qualquer outro temperamento mais indiferente à teoria e à abstração que o de Shakespeare? Será que já houve qualquer outra sensibilidade mais aberta às múltiplas instabilidades da existência humana ou aos mais incontrolados excessos do ser, cujo poder palpita muito além dos limites da lei ou da razão? É quase um lugar-comum o reconhecimento da absoluta impossibilidade de se apontar qualquer teologia definida ou sistemática na obra de Shakespeare. É uma lacuna que sempre desconcertou um T.S. Eliot ou um Wittgenstein. Todo músculo de Dante, por outro lado, parece se incendiar quando sua criação se defronta com o mistério teológico; exatamente como acontece com Marlowe quando decide eleger para tema de seu Doctor Faustus a limitação do homem em relação à capacidade divina de perdoar. São impulsos diametralmente opostos à universalidade concreta de Shakespeare e à sua observadora neutralidade perante a existência. Como em nenhum outro autor (Montaigne, talvez, seja o que o que mais se aproxima de perspectiva), o “eu sou” de Shakespeare sempre coincide com o “isto é” daquilo que chamamos de realidade.

       Mas toda a discrição de Shakespeare em relação às gramáticas e à fenomenologia da criação pode encobrir escrúpulos tanto de uma consciência religiosa e filosófica quanto estética. Esplendidamente dotado com um talento por hipótese ilimitado de autodisseminação – e com o poder, já tantas vezes discutido, de se transformar tanto em Iago quanto em Cordélia, tanto em Ariel quanto em Caliban –, Shakespeare só pode ter experimentado em si mesmo os indícios de uma analogia com Deus. Ou tal suposição seria só outro equívoco ingênuo? Embora nenhum documento possa atestar tal hipótese, é difícil acreditar que o criador do terceiro e quarto atos do Lear ou de uma ficção tão definitiva como Hamlet não vislumbrasse, mesmo que intermitentemente, paralelos possíveis entre seu próprio projeto de “gerar a vida” e o do Criador. Tolstói, um exemplo razoavelmente análogo, sempre considerou de modo ambivalente sua capacidade criativa. O criador de Anna Karenina ou de Ivan Ilich sentia-se como um rival de Deus. De acordo com sua própria definição, existiam dois ursos lutando na floresta. Era um sentimento que misturava ao mesmo tempo um orgulho descomunal e o terror.

       A criatividade de Dante circunscreve-se a si mesma nos limites da doutrina cristã. Mesmo em seu nível mais arrebatado, é uma criatividade que constitui uma imitatio Dei (uma “imitação de Deus”, um princípio de analogia moral com os atributos das ações de Deus que ganhou certa instância de reconhecimento filosófico por ter representado um dos pontos de partida do Guia dos perplexos de Maimônides) sancionada por uma convicção tomista na legitimação epifânica e divinamente inspirada da imaginação poética. A “ficção verdadeira” da Commedia continua a criação – e cria, por assim dizer, num segundo nível. A simples habilidade do artesão para impor ordem à resistência da matéria e dos eventos empíricos já comprova por si só a existência de uma ordo universi, como ensinamento de Santo Agostinho. O triunfo estético, que é sempre virtualmente “musical” (isto é, harmônico), torna tal “ordem” e “tal ordenação” fenômenos perceptíveis à sensibilidade humana. Nenhuma convicção semelhante, pelo menos até onde se pode compreendê-lo, sustenta Shakespeare. Ao contrário: por desenvolver sua obra absolutamente inerme, ele acabaria se arriscando se se entregasse a qualquer análise mais penetrante ou autoconsciente da questão da rivalidade com Deus inerente à poiesis. Mestres posteriores (Gustave Flaubert, por exemplo) revelaram-se amargamente conscientes do paradoxo de sua própria morte em contraposição à sobrevivência triunfante de seus “fantoches” (de “fantoches” como sua Emma Bovary, por exemplo, que nasceu de marcadores semânticos inscritos numa página). É difícil afirmar se um grito tão intenso do sujeito estava ao alcance da sensibilidade de Shakespeare e de seu tempo. Concomitantemente, entretanto, Deus era uma presença formidável. Será que alguém poderia, sem se arriscar eternamente, rivalizar-se com o que fosse de Seus direitos e Suas capacidades de concepção ou de Seus poderes para procriar? Será que alguém poderia – numa suprema blasfêmia – chegar a superar, de algum modo enigmático, tais poderes? Será que existem muitos homens ou mulheres cuja existência possa ser comparada à vida tão prodigamente concebida de Hamlet, Lady Macbeth ou Próspero? Será que existem muitos, ainda, cuja expectativa de vida consegue aproximar-se vagamente dessas presenças imortais? Não foi por acaso que Shakespeare tivesse sabiamente decidido nem se colocar a questão da criação que Dante, imbuído de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, jamais poderia – nem deveria – ignorar.

       Dante oferece, assim, um acesso privilegiado a praticamente todo nosso tema, enquanto a abstenção de Shakesepeare – ele é o deus absconditus de nossa questão – torna tal acesso inevitavelmente problemático. Talvez fosse o momento de voltarmos nossa atenção para certos motivos de Dante à guisa de coordenadas. São motivos que deverão nos ajudar a redescobrir determinados conceitos de criação artística, como a fala adâmica, hoje perdidos ou esquecidos. São motivos que servem para mapear tudo que ainda é fértil na tradição que herdamos. Refletindo “a partir” de Dante poderemos vislumbrar contornos das novas histórias à nossa frente e das narrativas inquietas que chamamos de teorias.



                                               * * *

Jediel Gonçalves é Doutorando e membro-pesquisador em língua e literatura francesa da École Doctorale da Université de Provence, membro-doutorando do laboratório Centre Interdisciplinaire d’Études des Littératures Aix-Marseille e autor das obras Marcel Proust: Quand écrire, c’est peindre e Proust et le théâtre: la poétique de la représentation théâtrale, que se interessam por temas como: metáfora narrativa, intervenções e traduções das artes plásticas na literatura, relações intersemióticas entre imagem e texto, recepção da imagem plástica no
texto literário e poéticas das representações intersemióticas. E-mail:
prof_jediel@yahoo.fr

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