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Cultuando os amadores e os amantes
por Edson Cruz







 
5/7/2007 21:37:00
Caiu na rede é peixe




Por Edson Cruz (ele mesmo)

 

Sem dúvida nenhuma, uma das questões que o advento da internet veio problematizar e questionar, é a noção de autoria. Essa palavrinha/conceito só passou a existir de fato na literatura, se não estou enganado, a partir do século XIX. Antigamente, pelo menos na chamada Idade Média latina, tínhamos uma noção de “autoridade” que estava relacionada diretamente ao discurso, e não a figura de um indivíduo propriamente dito.

 

No romantismo é que se gera a idéia de um indivíduo artístico, a figura do “gênio” e a do “marginal”. Como propõe Foucault, em sua palestra para a Sociedade Francesa de Filosofia (em 1969), mereceria um estudo mais pormenorizado saber “como é que o autor se individualizou numa cultura como a nossa, que estatuto lhe foi atribuído, a partir de que momento, por exemplo, se iniciaram as pesquisas sobre a autenticidade e atribuição [de autoria], em que sistema de valorização foi o autor julgado, em que momento se começou a contar a vida dos autores de preferência à dos heróis, como é que se instaurou essa categoria fundamental da crítica que é ‘o-homem-e-a-obra’...”

 

Se não continuo enganado em meu raciocínio, creio que foi o próprio Foucault quem demonstrou que a noção de autoria interessava ao poder estabelecido, a igreja etc., pois com ela se podia melhor aferir as penas e culpas de determinados discursos transgressores.

 

E eu, nessa pequena reflexão, invisto-me da autoridade e do discurso de Foucault para valorizar a autoria de meu texto, recheado de citações, e quem sabe me livrar das penalidades cabíveis a minha inapetência intelectual, ou, o mais importante, seduzir o incauto leitor aos argumentos de “meu” discurso. Mas, mesmo assim, leitor cúmplice, assinarei meu nome no final, ou no começo como podes bem notar.

 

Em todo caso, anote bem o que dizia o grande Michel: “Assim que se instaurou um regime de propriedade para os textos, assim que se promulgaram regras estritas sobre os direitos de autor, sobre as relações autores-editores, sobre os direitos de reprodução, etc, – isto é, no final do século XVIII e no início do século XIX –, foi nesse momento que a possibilidade de transgressão própria do ato de escrever adquiriu progressivamente a aura de um imperativo típico da literatura. ...”

 

Você pode notar, prezado, que eu ainda me dou ao trabalho de colocar aspas (pois sou “intelectualmente honesto”) aos discursos que me aproprio, mesmo você, talvez, não sabendo se a ordem dos fatores, ou da fatura, apresentada poderia mudar drasticamente o produto.

 

Para finalizar o rosário de citações de Paul-Michel, anote mais essa – mas me dê o crédito também, pois eu também penso assim, talvez, não com as mesmas palavras, claro – de nosso filósofo de última hora: “...os discursos ‘literários’ já não podem ser recebidos se não forem dotados da função autor: perguntar-se-á a qualquer texto de poesia ou de ficção de onde é que veio, quem o escreveu, em que data, em que circunstâncias ou a partir de que projeto. O sentido que lhe conferirmos, o estatuto ou o valor que lhe reconhecermos dependem da forma como respondermos a estas questões.”

 

Percebeu, mon chéri, o que isso significa? Se ainda não, então, leia rapidinho o texto de outro grande autor plagiado e diluído mundialmente, o Borges de Pierre Menard. Aquele texto fundamental onde Borges prova que o autor do Quixote não foi o fidalgo Cervantes.

 

Agora que já enchi bastante a lingüiça desta página em branco, devo dizer que esse palavrório todo é para chamar à atenção ao livro de Cora Ronai, Caiu na rede acabou.

 

Ela tenta entender e analisar a inocência, ou a cara-de-pau de muitos que repassam textos, na internet, como se fossem seus, ou de autores consagrados, omitindo, ou rasurando, a autoria real do texto.

 

 

“Acontece de tudo. Acontece da Clarice Lispector fazer um poema coisa que ela nunca fez.”

 

“Passar texto sem autor é passar atestado pra si mesmo de desinformado".

"Passar adiante o que se recebe sem conferir a veracidade da fonte, é testemunhar sem ter visto o crime"

 

Reprodução parcial do primeiro capítulo

 

"Ao ler a maioria dos apócrifos que circulam pela internet.BR, não é difícil perceber que a confusão raras vezes nasce da maldade ou da simples vontade de passar trotes. Em sua vasta maioria, os textos são cômicos ou motivacionais, `lições de vida` - o que, sem grandes psicologismos, basta para revelar o que está por trás da falsa atribuição ou do `esquecimento` do nome do autor: a vontade irrefreável de espalhar conselhos e risadas entre o maior número possível de pessoas, aliada à ignorância e a um senso peculiar do que é direito autoral."

 

Caiu na rede acabou, de Cora Ronai

 

Veja uma reportagem sobre a questão:


     

 

 

 

Enquanto escrevia esse texto, conversava (no MSN) com o desenvolvedor de sistemas e fera na área de informática, Claudio Soares, sobre as implicações internéticas do assunto. Veja o que ele diz.

 

 

edson cruz says:

mande tuas considerações sobre o assunto. estou debruçado no texto, agora, e as colocarei em diálogo qse autoral...

C.Soares says:

qual o enfoque vc está dando?

 

o que é um autor?, Foucault

Pierre Menard, Borges

 

interessante

Borges é um bom exemplo

 

mas, nada muito desenvolvido. meio paródico e citações pra lá e pra cá...

 

estava lendo algo sobre o texto instantes que atribuem a Borges

mas caso tenha lido o ensaio Imortalidade de Borges Oral...

 

é. um bom exemplo Menardico...

 

seria difícil aceitar (fora a questão estilística) que Borges o teria escrito

 

mas fale dos "metadados"

 

claro

recentemente comentei no meu blog o Adobe Digital Editions que funciona em conjunto com a Adobe Digital Editions Protection Technology (ADEPT)

é sabido que diversos padrões (baseados em XML) estão sendo desenvolvidos...

para (como mais uma camada sob o texto) fornecer mais informaçoes sobre o texto (e outras mídias veiculadas na internet)

por exemplo

toscamente a HTML possui uma área com comandos <meta>

lá vc coloca algumas informações a mais

mas isso é muito básico

 

pra mim já é complicado...

 

toda a série de serviços que estão revolucionando a internet

 

talvez, não para o Pipol...

 

vcs são um exemplo sabia

chamamos genericamente de WEB 2.0

isso significa que o usuário tb cria conteúdo

esse conteúdo precisa de alguma forma ser protegido

 

uau!

 

não somente os livros que colocamos a disposição para venda ou cópia grátis

nos EUA é mais comum, mas deverá chegar (nem que seja na marra ao Brasil)

há algumas semanas o mercado editorial americano se reuniu em torno desse assunto

http://conferences.oreillynet.com/toc/

 

posso reproduzir esse nosso bate-papo no texto? sem problemas autorais... he he

 

claro

 

bleza.

 

esse é o nosso papel para dar um pouco de luz nesse nosso mercado editorial tão lento

pois então

  todo esse movimento vem à reboque do movimento de software livre

todas as questões em relação a composições colaborativas (o software linux é um exemplo) tanto em relação à produção, qt a distribuição...

ofereceram alguns modelos

agora, no momento que a web deixa efetivamente de seguir o modelo broadcast (um para muitos) e torna-se bidirecional ou multidirecional

esse tópico torna-se cada vez mais importante

voltando aos metadados

 

sim...

 

o autor, escritor preocupa-se com o texto

 (a publicação e as preocupações legais em geral ficavam com a editora)

o autor de hoje precisa ser mais participativo nesse tópico pois, hoje, tb está distribuindo seu texto diretamente

o pessoal da informática (estou desse lado tb, he he he )

está definindo os padrões que vão por baixo do texto e que serão lidos pelos programas e seviços web especializados

eu penso que essa preocupação deve estar tb na cabeça dos autores

e editores claro

copiar um texto na internet é fácil

a tecnologia facilita tudo

mas a distribuição e comércio não pode ser inibida por esse aspecto inevitável

a adobe evoluiu o tal do flash paper

para o Adobe Digital Editions

por dentro criou um mecanismo que evita que vc copie um ebook comprado e instalado em um determinado computador

é claro que a própria noção de direito autoral está sendo repensado com a internet

 

sim...

 

   um exemplo, são os textos que já publicamos no Cronópios

primeiro o que é mais importante para o autor? a burocracia das editoras ou a facilidade (sob alguns poucos riscos) da publicação on line?

Quando se publica em jornal, tb corre-se o risco de ter parte do seu texto copiado

isso sempre existiu

mas, hoje a questão é maior

existe todo um modelo de negócios que está sendo definido

os livros não fugirão  à regra

pois a web é 85% ou mais ainda baseada em texto

basta olhar as ferramentas sociais como blogs, wikis, etc...

logo, penso, quando vc levanta a questão do que seja o autor, eu pergunto...

quem efetivamente é o autor

um texto que criamos sempre vem inspirado em outro

 

boa. vc chegou onde eu queria...

 

sempre foi assim

vc falou de Borges, Foucault, eu acrescento Barthes e Levy

Maurice Blanchot tb

 

ops..

 

Pierre Levy

 

mandou bem...

 

não o Claude Levy Strauss

 

claro. o caçador de índios...

 

todos eles eu pesquisei para o Santos Dumont Numero 8

 

brincadeira...

 

que discute isso o tempo todo

existe uma frase que repito no meu livro

 

soube arrematar com uma boa propaganda. agora dê o link...

 

quem é o pensador que pensa o seu pensamento?

mas o Schopenhauer já falava isso

quando lemos estamos pensando o pensamento de outro

 

e muitas outras coisas contraditórias...

 

eu só estendi (por causa da internet) para o ato de escrever

 

ou paradoxais...

 

isso mesmo

sabe Edson, eu trabalho com internet há muito tempo

 

mas, o papo está ficando longo. preciso terminar a matéria. dê o link...

 

desde quando isso não era popular

quando eu falo certas coisas a respeito da "morte do autor"

os escritores podem até ficar revoltados

 

"morte ao editor"?

 

mas a questão é que a web é colaborativa por natureza

também

por que não precisamos mais deles

pelo menos da forma como eles existem hoje

todos precisaram agregar valores ao seu workflow

as editoras tb precisam fazer isso

 

workflow, uau!

 

essa coisa que tenho lido nos jornais...

(vem outro termo interessante 

slush pile

 

putz...

 

já escutou falar?

 

no

 

a tal da pilha de livros que enviam para as editoras e sequer são lidos

 

ah, essa já...

 

muitas vezes são incinerados e jogados fora

 

  tô sabendo. ou servem de niveladores para mesas mancas...

 

hoje em dia só passa por isso quem quer

 

he he he

 

para resumir

todos os problemas que colocam em termos de autoria, distribuição, edição estão sendo redefinidos pelo pessoal das empresas de informática

e não pelos professores, autores, etc... (alguns dos principais interessados)

sabe por que?

 

diga.

e dê o link...

 

porque insistimos em caminhar olhar para ontem

tudo mudou

 

boa frase pra encerrar: tudo mudou...

 

ontem coloquei os versos de uma musica do Bob Dylan de 1964

no ponto lit

  veja se não se aplica ao nosso caso

literalmente

 

Come writers and critics

Who prophesize with your pen

And keep your eyes wide,

The chance won`t come again

 

traduzindo...

escritores e criticos que profetizam com suas canetas...

e mantenham seus olhos abertos

a chance não virá novamente

 

   great

 e vc não passou o link

 

que link?

link do santos dumont numero 8?

 

sim

 

tudo sobre o livro está  no blog http://santosdumontnumero8.blogspot.com

os primeiros capítulos podem ser baixados em http://www.universodoslivros.com.br/dumont.php

   esse texto aqui (nota do autor) já dá uma idéia de que o livro é mais do que um romance sobre Santos-Dumont: http://santosdumontnumero8.blogspot.com/2006/07/dois-elevados-aos-cubos.html

 

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