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27/9/2008 22:36:00
O paradoxo de Kalakow (ou boas razões para o suicídio artístico na era digital)




Por Olavo Amaral


         O jornalista americano Calvin Ambler, em Angústia Digital, cita como uma das grandes causas de frustração no “novo mundo” da web 2.0 o paradoxo de Kalakow (do filósofo polonês Krzysztof Kalakow, morto recentemente e um dos primeiros críticos teóricos da internet, ainda em sua era incipiente no princípio dos anos 90). Segundo o filósofo, um dos grandes paradoxos de uma futura sociedade digital seria o de que em um futuro próximo um indivíduo qualquer poderia falar para bilhões de pessoas ao mesmo tempo, mas seguiria sendo capaz de ouvir apenas uma pessoa por vez. Kalakow argumentava que tal paradoxo fora mantido dormente por séculos devido ao monopólio dos meios de comunicação por parte da indústria cultural: como não mais do que uns poucos tinham o poder de falarem e serem ouvidos, o grande alcance de grito dos poucos falantes contrabalanceava a limitada capacidade de atenção dos muitos ouvintes.

         E aí veio a web e mudou tudo. Subitamente se tornou incrivelmente fácil falar para o mundo inteiro. Mas isso não parece ter facilitado em nada a tarefa de ser ouvido.

         E de alguma maneira todo mundo parece ter sido pego de surpresa pelo processo. E a maior parte da autodenominada classe artística e de seu séqüito segue vivendo estranhos sonhos empoeirados de glória que já perderam o sentido. Cineastas aspirantes gastam anos planejando seu primeiro longa-metragem em 35 milímetros pra ser visto por meia dúzia de pessoas em festivais obscuros enquanto adolescentes filmam bobagens com um celular e acumulam o primeiro milhão de hits no Youtube. Colecionadores de vinil seguem acumulando espólio feito toupeiras sem se dar conta que o Napster fez do seu esforço um capricho inútil. Amantes da literatura sonham escrever um livro que vá mudar o curso do mundo sem se dar conta que o mundo já não tem mais tempo de ler, e muito menos de ter seu curso alterado por isso. Fanzines culturais seguem imprimindo-se em tiragens de centenas quando com três cliques do mouse qualquer um se faz disponível pra alguns bilhões de pessoas. Secretarias da cultura e velhas senhoras organizam feiras do livro e exaltam um meio moribundo enquanto a cultura de verdade se reinventa todos os dias dentro dos computadores às suas costas. Músicos processam os próprios fãs por piratearem música enquanto outros mais inteligentes ganham milhões oferecendo-a a preço livre. E críticos seguem terminando suas matérias com o preço dos discos e livros resenhados, como se isso ainda tivesse alguma coisa a ver com o que eles representam. No fim das contas temos satélites, smart drugs e camundongos fosforescentes, mas a maioria dos ditos artistas continua olhando pra sua “obra” com a mesma mentalidade de um fabricante de sapatos.

         Quando a arte se liberta da casca da indústria, ela se torna subitamente fugidia, arisca e avessa a definições. E ao invés de conviver com a dúvida de onde ela se esconde, a maioria prefere continuar se apegando à casca morta, tentando sugar uma essência que ela já não possui.

         Cegueira? Talvez não. Talvez melhor seria chamar de temor presciente. Talvez estejam todos simplesmente antevendo com temor que a morte iminente da indústria cultural detonará de vez a bomba do paradoxo de Kalakow, e colocará os que até então eram “os artistas” em competição com bilhões de everymans anônimos numa imensa cacofonia de vozes que será o suficiente para fazê-los inaudíveis. E assim seguem se juntando todos como mariposas em volta de uma vela que se apaga, devido à confusão e o pavor que a imensidão escura lá fora inspira. Como aristocratas enfurnados em palácios enquanto a Bastilha desaba, seguem os rituais de todos os dias, colocam suas perucas e empanturram-se com os já escassos brioches, com uma pressa e angústia poucas vezes vista. E pra quem olha de fora o espetáculo é meio ridículo. E por vezes excruciantemente longo.

         Mas enfim, o ser humano médio nunca foi muito brilhante mesmo, e talvez esperar isso do artista médio fosse mesmo meio injusto. Mas a verdade é que quase ninguém é mais retrógrado do que o artista médio hoje em dia. E talvez por isso os seus sonhos sejam cada vez mais como aquelas bandejas de iogurte, cujo prazo de validade sempre expira antes que dê pra comê-las inteiras. E fingir que o prazo não existe é uma forma bastante burra de contornar o problema. Kalakow pode nem ter existido, mas sua consagração não há de tardar. E eu, pelo menos, estou calando a boca, queimando minhas próprias páginas e saindo do palácio sem fazer alarde. Quando tudo for abaixo, melhor mesmo é estar do lado de fora.

 

 

 

 

[Texto inicialmente publicado no jornal Vaia, www.jornalvaia.com.br/]

 

 

 

 

 

 

Olavo Amaral é de Porto Alegre. Autor do volume de contos Estática (IEL, 2005), além de ter participado da antologia Contos de Oficina 34 e colaborado com alguns sites e jornais literários. Também atua como roteirista de cinema, colaborando com a produtora Clube Silêncio desde sua fundação, e atualmente finaliza seu primeiro curta-metragem como diretor. Nas horas vagas, é médico e pesquisador em neurociências. Grita para o vazio em http://taquilalia.blogspot.com E-mail: olavoamaral@yahoo.com.br

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