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18/9/2009 18:00:00
Desdobramentos
da biblioteca digitalizada





Por Pedro Doria
 



A semana foi de polêmica nos EUA. No centro está um acordo firmado em outubro de 2008 entre Google, sindicatos de autores e editoras a respeito do sistema Google Books.

Desde que iniciou o processo, em 2004, o Google já digitalizou entre 7 e 10 milhões de livros. A briga é por quem paga o direito autoral. Cerca de um terço dos livros está em domínio público; outro terço é de autores conhecidos que têm editores que os representam. O problema está no terço cujo copyright ainda vale, mas não há endereço ou pista dos proprietários. O acordo diz que se o autor é desconhecido, o Google não deve nada.

Na semana passada, acabou o prazo para quem tivesse o interesse de questionar o acordo perante o tribunal. No dia 7 de outubro próximo, um juiz decidirá se vale ou não.

Os opositores argumentam que o interesse do Google é um só: quer autorização judicial para ignorar que existem leis regendo o copyright.

Talvez seja. Mas há vantagens jamais imaginadas em digitalizar todos os livros do mundo. A primeira é óbvia: busca. Onde está aquela passagem? Que livro trata desse assunto? Tudo fica a uma palavra-chave de distância.

Mas há outras. Pesquisando o material que não é polêmico por estar em domínio público, um linguista contratado pelo Google descobriu que o folclorista irlandês England Howlett, do século 19, havia plagiado livros de autores menos conhecidos. Morreu sem jamais ter sido descoberto. O Google, parece, condena não apenas os plagiários de hoje mas também os de ontem.

Há usos ainda mais surpreendentes para vários milhões de livros digitalizados.

Em 2007, um dos engenheiros da equipe do Google Books criou um pequeno programa para extrair endereços de dentro de livros e jogá-los num mapa. Imaginou a oportunidade para que fãs de determinados autores pudessem fazer turismo seguindo passos de personagens.

Outro engenheiro olhou a invenção e imaginou o que resultaria se, em vez de mapear os locais citados em um único livro, juntasse vários volumes. Por exemplo: todos os livros publicados na década de 1830.

O mapa é uma explosão de pontos na Índia e no litoral chinês, muito na Europa ocidental e um pouco na Rússia, no litoral da América do Sul principalmente no Peru, na Colômbia e no Brasil terminando, pesadamente, com a Costa Leste dos Estados Unidos.

Jogue para a década de 1860 e a mancha de pontos citados nos EUA começa a se mover em direção ao oeste e ocupar um bom naco da América do Norte.

Repentinamente, forma-se um mapa da concentração de vida intelectual no planeta durante o século 19: Índia, Europa Ocidental e EUA, com bolsões localizados noutros cantos.

Como interpretar o mapa não é algo elementar, mas esse é apenas um dos primeiros usos surpreendentes de tantos dados aglomerados.

O Google talvez esteja forçando a barra para derrubar judicialmente o direito de autores. Mas as vantagens de ter acesso a toda essa informação são bem maiores do que sequer imaginamos, hoje.




NOTA DA REDAÇÃO: Texto publicado no Caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo


 

Pedro Doria é Editor-Chefe do Estado de S. Paulo digital.
E-mail: pedro.doria@grupoestado.com.br  Twitter: http://twitter.com/pedrodoria

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