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23/1/2007 00:06:00
Trevisan e Rubem Fonseca: os repetentes



Por Astier Basílio

 

 

Dalton Trevisan e Rubem Fonseca lançaram mais um livro de contos este ano respectivamente "Macho Não Ganha Flor" (Record) e "Ela e Outras Mulheres" (Cia das Letras). Os dois têm muitos pontos em comum. Ambos são referências da literatura nacional, influenciaram gerações, já tem lugar deles garantido na historiografia oficial de nossas letras. O sexo, mais em Trevisan, e a violência, em Rubem Fonseca, foram temas nucleares da ficção brasileira devido principalmente a eles. Eu sei que estou sendo reducionista, o talento deles como narradores extrapola essa categorização simplista feita.

Eles têm outras semelhanças. Ambos são arredios. Rubem Fonseca é tiração de onda. Não dá entrevista, não se deixa fotografar só aqui no Brasil, mas, quando vai ao exterior profere palestra, tira foto faz tudo o que tem direito. Trevisan, ao que me parece, é legítimo. Nem aqui e nem alhures quer contato com o mundo. Ele tá certo. Se eu escrevesse como ele talvez fosse assim. Deus sabe o que faz.

Mas, voltando aos livros. Não só os lançamentos deste ano, como os últimos da dupla, a sensação que se tem ao lê-los é a de um irremediável déjà vu. Ressalva elementar seja feita: Não, eles não escrevem mal, longe disso. São textos bem escritos, narrativas que não destoam da qualidade da grife construída por cada um. Todavia, não pertencem mais ao nosso tempo, às urgências do agora, do hoje. Quando uma supresa se repete vira cacoete e do espanto para o enfado.

Veja bem: eles foram revolucionários, importantes, quando surgiram, com temas novos, situações não abordadas, enfoques e uma espécie de "fotografia" diferente - pra usar um termo de cinema. Mas, e agora José? Os anos, as décadas passaram e os competentes profectos andam a repetir os mesmos contos livro pós-livro.

Quem nunca leu nenhum dos dois corra à livraria adquira já o seu! Mas, quem já leu alguma coisa deles nos últimos 10 anos, pode passar sem ler estes aí.

Agora os velhinhos contistas não estão a sós no campo do `control c, control v`. Manoel de Barros é um clássico exemplo de autoplagiário contumaz e em série. O pior é que ele não repete o mesmo poema, repete é os mesmos versos!!! e isso há um tempão. Ele se repete tanto que dá até para aprender seu estilo. Vou criar agora uns versos à la Barros: "árvores me pertencem, sou praticado pelos ventos, uma rã me língua". E o pior é que Manoel de Barros (epígono de segunda classe de Guimarães Rosa,este sim, um mago da palavra, um mestre) consegue até mesmo ter até seguidores.

Paciência. Há quem goste de reprise. Há quem aprecie as mesmas coisas. Há gente pra tudo. Problema nenhum pra quem não espera mais da vida. Mas, há sempre esperança. Quanto a Trevisan e a Fonseca considero-os autores póstumos que de tempos em tempos são achados alguns "inéditos" em casa e as editoras publicam para satisfazer a gana dos fãs.

Nem tudo está perdido em casos de artistas "vale a pena ver de novo". Pegue-se o caso de Wood Allen que depois do intragável moisaco-de-si-mesmo "Melinda e Melinda" conseguiu fazer o belo e diferente "Match Point".

Porém, quem nasceu pra Jackie Chan nunca chega a Bruce Lee.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Astier Basílio é poeta, mas, quer mesmo é ser dramaturgo, se considera reacionário e sua poesia já chegou até a ser elogiada por poetas como Affonso Romano de Sant`Anna e Lêdo Ivo. Sim, é amigo de Alexei Bueno, que chegou a lhe escrever até prefácio em livro. E-mail: astierbasilio@gmail.com

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