O amor, como a atmosfera, nos envolve, nos alimenta. Também pode envenenar. O amor é o mais intenso dos sinônimos da vida, o mais permanente, o que de fato salva. O amor nos consome e nos consuma. Na coletânea de crônicas O Amor Esquece de Começar, Fabrício Carpinejar, autor dos aclamados livros de poemas Cinco Marias, Como no Céu/Livro de Visitas e As Solas do Sol, comparece pela primeira vez vestido em prosa, em linguagem fluente, conversando quase num sussurro generoso – porque o que ele nos traz são notícias, impressões, e mais, a força impactante, reconfortadora e capaz de fazer nascer o ser que sempre fomos. Só que, desta vez, completos. O amor nos toma, mesmo antes de abrirmos a porta e percebermos sua entrada. Convém não deixá-lo ir embora, convém deixá-lo entrar. O Amor Esquece de Começar é um alerta, um aviso, uma porta aberta.
Carpinejar, desta vez, abre a sua guarda, única forma (exposição plena na ação corajosa e generosa de ser quem é) para chegar ao coração de seu tema: a paixão, que nos envolve, que nos abandona muitas vezes ressecadas, que nos ressuscita, que leva quem ama e mesmo quem não ama na direção do inesquecível, do definitivo, da salvação que nos mergulha no perder-se para se encontrar. Sem posses, mas possuídos. Desarmados, mas enfim saboreando o alimento supremo: nossa alma gêmea, que nos olha num silêncio a narrar por gestos suaves o que o discurso mais inflamado nem cogita.
O amor é uma surpresa e uma confirmação. Um renascimento para quem até então não o encontrava. Um espelho a mostrar a beleza e o vigor a quem sempre soube identificá-lo. O Amor Esquece de Começar é esse espelho. A mulher, principal interlocutora de seus textos certeiros, não está sozinha. O homem também pode participar dessas revelações que, apontadas numa direção, atingem todos e tudo. O amor, afinal, é o sentido da vida e o conforto para a assustadora dimensão do universo. “Quero recuperar o romantismo, uma visão cristalina e verdadeira das relações amorosas, um cuidado na fala, a sedução”, revela Carpinejar. “Sem idealismo, mas com idealização. A expectativa e a confiança fazem bem ao amor e não podem ser abolidos. Desejo, com as mulheres, o consenso das mãos durante o dia e dos pés durante a noite.”
Leia a “orelha” do livro, por Martha Medeiros
Alguns críticos, quando querem falar mal do trabalho de alguém sem ser demasiadamente ofensivos, dizem: "Fulano, como cineasta, continua um grande músico". Pois eu digo que Fabricio Carpinejar, como cronista, continua um grande poeta, e isso é um elogio, pois não o divide em dois: soma. Fabricio seria poeta até mesmo se fosse convocado a escrever obituários, laudos periciais e relatórios de diretoria. É poeta sem chance de fuga. E que poeta.
Em seu livro de estréia como cronista, escolheu o tema mais recorrente na poesia - o amor - e fez uma exaltação às mulheres, todas as dele (mãe, esposa, filha, amigas) etodas as que ele conhece a fundo sem jamais ter posto os olhos. Ele domina o universo feminino a ponto de demonstrar uma cumplicidade inquietante com nossa solidão e nossas vertigens mais secretas. Como na crônica "Quando Ela Goza", em que descreve uma mulher após o orgasmo: "Quase chorava de tanto que se expulsou. Quase chorava de tanto que se recebeu de volta".
Fabrício flutua entre a concisão e o esbanjamento. Às vezes deixa as palavras à solta, como se elas não tivessem dono, como se não fosse ele a escrevê-las e sim elas a si próprias, livres do patrulhamento do autor, e então de repente ele interrompe este passeio com um frase rápida e genial, a exemplo da crônica em que condena os namoros longos e planejados: "Não faço futuro, caso logo para fazer passado".
Entre o nonsense a realidade, Fabricio Carpinejar é mestre em acertar no alvo, ora nos emocionando muito, ora nos emocionando bastante - as duas únicas reações que se pode ter diante deste livro escrito às ganhas. "Eu sou embaralhado de desejos", revela.
Ele nos atordoa, de fato. "Se você não entender o que quero dizer, estaremos quites". Fabricio, a gente só não entende como esta sua convulsão emocional pode ser tão exata.
Martha Medeiros
EDITORA BERTRAND BRASIL E LIVRARIA DA VILA CONVIDAM
para o lançamento do livro de crônicas
"O AMOR ESQUECE DE COMEÇAR",
de FABRÍCIO CARPINEJAR
que será antecedido por debate com
IVANA ARRUDA LEITE E JOÃO CARRASCOZA
e leitura de textos por DENISE SILVEIRA E FERNANDO CHUÍ
na quinta (16/3), a partir das 19h30,
na LIVRARIA DA VILA
Rua Fradique Coutinho, 915
Vila Madalena São Paulo
Fabrício Carpinejar é poeta, jornalista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Filho do casal de poetas e escritores Maria Carpi e Carlos Nejar, nasceu na cidade de Caxias do Sul em 23 de outubro de 1972. Foi diversas vezes premiado: Prêmio Destaque Literário da 46ª Feira do Livro de Porto Alegre (2000), Prêmio Nacional Fernando Pessoa da União Brasileira de Escritores/RJ (2000), Prêmio Literário Internacional Maestrale/San Marco (2001), Prêmio Açorianos (2001 e 2002), Prêmio Nacional Cecília Meireles (2002), Prêmio AGES (2003), Prêmio Nacional Olavo Bilac (2003) e Prêmio O Sul (2004). Do autor, a Bertrand Brasil publicou também Cinco Marias(2004), Como no Céu/Livro de Visitas (2005) e As Solas do Sol , que acabou de ser relançado em uma edição revista pelo autor. Serão reeditados, também pela Bertrand, Um Terno de Pássaros ao Sul, Terceira Sedee Biografia de uma Árvore.O autor foi traduzido ao alemão por Curt Meyer-Clason e assinou contrato com a Éditions Eulina Carvalho, de Paris, para a edição francesa de Cinco Marias. Participou de antologias no México, Colômbia, Índia e Espanha. E-mail: carpi@terra.com.br