A poesia de Gabriela Marcondes não me veio pelos livros. Afinal, esta é sua estréia. Conheci os seus textos pela Internet. A partir do final dos anos 1990, a “rede” tornou-se a mais revolucionária forma de divulgação de poesia no mundo, transformando-se no melhor meio de vencer a barreira do desprezo das editoras, da implicância das livrarias e da rasura da grande imprensa.
Através da Internet eu travei contato com alguns dos poetas que hoje considero mais significativos no país: Micheliny Verunschk, então morando em Arcoverde, PE, Lau Siqueira, gaúcho radicado em João Pessoa, Greta Benitez, curitibana, e Valéria Tarelho, de São José dos Campos. Depois de lê-los, tornaram-se meus amigos de carne e osso.
Com Gabriela Marcondes só a primeira parte ocorreu até agora. Jamais a vi. Não sei como sorri. Só a conheço através de seus textos. Esta é, creio, uma vantagem enorme da Internet. Antes de travarmos conhecimento com a pessoa, conhecemos seus textos. Isto, sem publicação em livro, era impossível antes do advento da rede. Só conhecíamos inéditos quando entrávamos em contato diretamente com o autor. O que poderia influenciar nosso julgamento. Agora não. Antes da pessoa vem o texto.
E os textos de Gabriela Marcondes me chegaram como pequenas porradas poéticas, diretos de esquerda no meu queixo, já tão calejado e um tanto cansado das duas vertentes poéticas que me parecem predominantes no Brasil contemporâneo: a poesia bem comportada, bonitinha mas ordinária, dos neoparnasianos arcaizantes, que se dedicam a criar requintes postiços e defender o retrocesso; ou a gratuidade retratista ingênua e simplista dos neodrummondianos redutores.
Ou seja, os poemas de Gabriela são janelas se abrindo para deixar entrar o ar fresco da experimentação, da pesquisa com a poesia de todas as formas possíveis. Nada mais instigante se considerarmos o crescente conservadorismo da sociedade e da literatura brasileira de hoje. Os poetas que procuram experimentar, inventar algo sempre renovado, são considerados passadistas que não sabem que o “make it new” poundiano morreu... Quem matou? O mesmo conservadorismo que transformou até o sonho político de transformações da nossa sociedade em um enorme pesadelo de corrupção e mesmice.
Os poemas visuais de Gabriela são impressionantes. Revelam uma busca incessante de novas relações entre os significantes e os seus respectivos significados. Trata-se de uma poesia em que se percebem articulações formais, condensamentos lingüísticos, descobertas originais e que pode, assim, conquistar um público leitor que ainda tem que ser alfabetizado para o poético, para o jogo lúdico das formas. A aproximação do sinal de exclamação a uma lágrima de ponta cabeça guarda todo o sabor da descoberta e do ludismo infantil e revela um aspecto inusitado da linguagem. Já a descoberta da palavra ADEUS camuflada sob a palavra SaUdADE é daqueles achados poéticos que, exatamente por serem aparentemente tão óbvios, ficarão para sempre incrustados na nossa língua.
Por sua vez, os seus textos “em verso”, no “inverso” do livro, mostram um poder de síntese extraordinário para traduzir epifanias das mais diversas que pipocam ao sentir atento na cidade grande. Observe-se o poema “Ipanema”:“Ipanema arde / o ópio das cores / o óbvio de uma tarde / além do mar / eu rio / em pleno janeiro / posso tudo / se nem / cinema / se vem / poema. Ou o haicai moderno de “Dobradura”: “Sentimento origami / Marco, dobro, e pronto / Caio fora do tatame.”
A poesia de Gabriela Marcondes, sempre inventiva e atenta, lúdica e brilhante, surge, assim, como um sopro de ar fresco e experimental no ambiente cada dia mais conservador em que vivemos, poética e existencialmente. Viva Gabriela, cujos poemas mostram que ainda é possível sonhar com o dia em que a invenção vencerá o medo.
VIDEOVERSO, (Ed. 7 Letras). O livro tem a participação da designer Roberta Range, orelha de Clarice Zahar e apresentação de Frederico Barbosa: Lançamento VIDEOVERSO dia 07/10 as 19h na Casa das Rosas (Av. Paulista 37) - SP e dia 11/09 as 19h no Espaço Cultural Valansi (Rua Martins Ferreira, 48) - RJ.
Outros poemas:
Inutencílios
versos são sutis utensílios
para conjugar o nada
beijos de borboleta.
bateu cílios e voou.
Texturas
Não te preocupes em me decifrar,
sou costurada com a linha da ambigüidade,
vestida de discursos de calar.
Não procure em mim suas verdades
minha bainha não foi feita,
toco em todas as texturas.
Minha cor não foi eleita,
sou camaleão sem cura.
Sou verso de intuição,
pergunta possível,
tentativa de explicação.
Meu verso é repleto de possibilidades,
não possuo seqüência, não possuo métrica.
Sou cúmplice da dualidade,
rima anacrônica perdida na realidade.
Não te preocupes em me decifrar.
Latitude
nos subúrbios de si
descobrir aos poucos
a matemática do medo
a tradição das coisas se quebra
diante das perguntas do presente
move-se cuidadosamente
por entre latitude dos atos
Papiro
No impenetrável palimpsesto
dorme o verso que procuro.
No revés do que vejo
a idéia que salta através do muro
oferece aos olhos um caleidoscópio.
No dédalo das entrelinhas
o sentido que ilumina o escuro.
Código desta grafia secreta
que perambula pela poesia bêbada
adormecida na inaptidão do poeta.
Sobremesa da eternidade
poetas são abutres
dos próprios desejos
mastigam com binóculos
os próprios medos.
Gabriela Marcondes é carioca, médica com pós-graduação em clínica geral e endocrinologia. Tem poemas publicados em sites literários e pequenas antologias poéticas. Foi selecionada no Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody e ganhadora do Concurso Nacional Poesia Voa. Teve videopoético incluído do Festival Cortacurtas no Rumos do Itaú Cultural. Desenvolve também um trabalho musical com o qual participou do Cenas da música contemporânea, PLUG - festival de musica eletrônica, Casa dos criadores, Luckystrike lab: music entre outros. Está lançando seu primeiro livro VIDEOVERSO pela editora 7letras. E-mail: gabmarcondes00@gmail.com
Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Frederico Barbosa no Cronópios.