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22/7/2007 15:18:00
Sortilégios da linguagem



Por Italo Moriconi




         Um livro de estréia em poesia é ato de coragem e rito de passagem. Afirmação de linguagem, com tudo que isso significa de auto-exposição arriscada de um eu capturado na sua interioridade real/inventada. Nada mais arriscado para o sujeito que buscar expor figuradamente a anatomia e a fisiologia dessa interioridade através da máscara poética - arte do fingimento, prática do factício que se disfarça (cf. o poema “Feitiço”). Ao nascer poeticamente no livro de estréia, o sujeito criado, alter ego virtual e gramatical do criador, oscila entre a demarcação efetiva de um campo semântico (que terá que ser forçosamente singular, idiossincrático) e o perigo de dissolução na incerteza de si, entre os escolhos e os aprioris da linguagem. O nascer da voz poética se dá sempre na posição da corda bamba. A corda bamba da poesia, de que falou Cacaso.

 

Feitiço

 

algo assim tão

inatural

que chega a ser

outra natureza

 

algo sim não

mais factício

por demais tal

coisa feita

 

que de tão artifício

vira arte

vira livro

vira ofício

 

 

         E rito de passagem. Entrar no circuito editorial, alternativo ou consagrado, pode ser percebido como inaugural pelo público leitor mais amplo, mas para o poeta representa o coroamento de um processo que vem de longe, vem de trás, enraíza-se freqüentemente na infância, na adolescência. Para o público, o livro de estréia é cartão de apresentação e indicador de taxa de potencial. Para o poeta, dá por encerrada uma longa fase formativa, feita de tateios, aprendizagens, paixões de leitura. Preparar um conjunto de poemas para primeira edição em livro é ato de releitura, auto-reflexão, rigor consigo próprio, auto-reorganização exigente. Quando o poeta decide lançar o primeiro livro, é porque julga ter atingido patamar razoável de elaboração e voz própria.

Eis o que define um bom primeiro livro: nele, o poeta simultaneamente mata sem piedade mas também recupera, transfigurada em linguagem escrupulosa, a pré-história infantil do sujeito. Sambaquis do sujeito, sambaquis da linguagem. Sortilégio, de Edson Cruz, claramente realiza o duplo movimento, concretizando essa estrutura paradoxal: registra o irredutível de uma intuição poética primeira, ao mesmo tempo que ajusta contas com seu passado semi-clandestino. O jogo entre uma juventude tornada antiga e a elaboração madura em processo pode ser constatado, em Sortilégio, através da presença contrastante porém complementar de poemas curtos e poemas de maior fôlego, solidamente apoiados num tipo de versificação rigorosa porém flexível, ou seja, não rígida. A forma tradicional do verso funciona para Edson Cruz como um apoio, como um referente construtivo indescartável, mas não dogmático.

 

Palimpsesto

 

toda poesia já

escrita

 

não se equipara

a toda poesia

 

inscrita

a poesia jaz

 

 

Temos portanto, de um lado, a leveza e o minimalismo das formas essenciais, os poemas curtos atravessados por sutilezas semânticas e sonoras, o atavismo do epigrama e da inscrição lapidar (tumular) como fontes universais de poesia, formas arquetípicas preenchidas pelo arranjo novo, pelo léxico singular. De outro, o caráter profunda e meticulosamente pensado de cada solução apresentada. Se Edson Cruz é poeta estreante em livro, por certo é também mais que apenas um aprendiz, como se pode verificar principalmente nos referidos poemas de maior fôlego, que compõem a seção “Parabolês”, assim como nos poemas “Gonfotérios na Paulista”, “Linguagem”, “Ouriço”, “Sambaqui”, além do notável “Sinal verde”.



Ouriço

nenhum mulato negro índio

nem esta nódoa nativa, mula

das índias ocidentais

 

nada com a cor de piche melhorada em pixels

neca de pepitas douradas

nenhures nonada

 

zero em exercer exercitar se excitar

nulo deste aguadouro viscoso

seiva preciosa de vida escoada

 

a conta-gotas

 

chega deste papo besunto

arranjo de flores tardias

aulas, estórias, assuntos

 

assuntos a luz dos dias

chega de aulas de história

realidade feliz que não chega

 

chega.



         Em “Sinal verde”, encena-se com mestria dramática o ato de nascimento tanto do sujeito quanto do sujeito poético. Este alegoriza aquele. O sujeito nasce ao destacar-se da realidade dada e optar pela solidão: “’se não quer ir ao culto / que fique aí, sozinho!’ / (...) fiquei ali, e ainda estou...”.  Como se pode ler também na seqüência inicial do livro, o lugar destacado do sujeito conecta-o de imediato com sua finitude, com a morte, presença infinita, presença do infinito. Em “Palimpsesto”, a poesia sela o pacto entre a linguagem e o núcleo irredutível de solidão do sujeito: a poesia é inscrição, é linguagem que jaz, é registro residual do que foi. A poesia fala do que está ausente, do que se ausenta. Daí se constrói uma poética do débris, dos restos, daquilo que cai e se deposita no fundo. Como se lê no poema “Linguagem”: “tudo que o tempo não / esquece nem se envaidece”. O sujeito se debate entre aspiração, irrealização, ilusão, tal como está explicitado nos poemas curtos, constituindo, por outro lado, o cerne temático de poemas como “Cidade imaginária”, “A vasta nuvem” (um diálogo com o fantasma de Drummond) e “Tartaruga de um olho só”. Considero excelente o nível poético conseguido por Edson Cruz na abordagem da relação entre o sujeito e suas construções ilusórias. São poemas que mobilizam complexos maquinários imagéticos, trabalhados obliquamente por uma linguagem elíptica e deslizante que recupera o caráter enigmático da intuição poética.



Sinal verde

 

tantos anos se arrastaram

já não me lembro de minha infância

será que a tive, ou foi um sonho?

 

tudo se resume a uma noite

noite de escolha e enfrentamento

ali, me fiz na solidão azul

do nascimento

 

“se não quer ir ao culto

que fique aí, sozinho!”

 

fiquei ali, e ainda estou...

em casa escura e sobressaltada

por sombras e faróis relampejando

abandonado de deuses e de afetos

 

não dormi, como não durmo agora

não fugi, como nem posso embora

ali, a vontade de meu eu se impôs

minha porção de dor se amarelou


permaneci na infinitude do possível

e assim abraço o totem

de vida que sutil me resta

 

na contingente luz verde que se revela

aceito humilde e resignado

o gentil açoite da morte que me espera.



         Registre-se que os poemas mais elaborados afastam a poética explorada por Edson Cruz, ou pelo menos parte dela, de um hipotético “modo Cacaso de ser”. Se os poemas curtos buscam um tipo de equilíbrio entre ludicidade e densidade que não entra em contradição com o espírito da poesia dos anos 70, em contrapartida vejo afinidade desta poesia de estréia, já tão madura, particularmente nos poemas mais longos, com as vertentes mais culturalistas ou cultivadas que se impuseram no cenário poético brasileiro a partir dos anos 90. Se o poema curto traz à baila uma poesia em estado de dicionário (para evocar aqui a expressão de Drummond), nas mãos de Edson Cruz o dicionário é mobilizado também para descobrir conchas e pérolas escondidas há tempos - os sortilégios da linguagem, que cabe ao poeta recolocar em circulação, até para arejar a linguagem nossa de cada dia, impregnando-a da cifra, signo do jogo entre ausência e presença residual. Jogo do ser, jogo do sujeito, ponto de fuga entre esquecimento e desejo.

 

 

 

 

 

 

 

Italo Moriconi – escritor e professor. Autor de A Provocação Pós-Moderna (ensaio acadêmico, 1994), Ana Cristina César – O Sangue de uma Poeta (perfil biográfico, 1996) e Como e Por Que Ler A Poesia Brasileira do Século XX (ed. Objetiva, 2002). Organizou as antologias Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século (ed. Objetiva, 2000) e Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século (ed. Objetiva, 2001). Editou Cartas de Caio Fernando Abreu (ed. Aeroplano, 2002). Publicou 3 plaquetes de poesia: Léu (1988), Quase Sertão (1996) e História do Peixe (2001). Recentemente teve trabalhos publicados nas revistas Grumo (Rio/Buenos Aires) e Margens (Belo Horizonte/Salvador/Buenos Aires). E-mail: italomori@alternex.com.br

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