18/12/2008 00:44:00 Os livros mais bacanas de 2008 - Parte I
Vários autores
Enfim o ano acabou. As leituras continuam, talvez agora, nas férias, é que realmente se iniciem. Em todo caso, pelo menos entre escritores e pessoas ligadas à literatura, as leituras são as mais variadas. Ficou claro pelas respostas à pergunta básica que enviamos, por email, a colaboradores, interlocutores e demais leitores: quais os 3 livros mais bacanas que você leu em 2008? E por quê?
Reparem que não perguntamos qual o melhor, nem os merecedores de prêmios literários ou outra coisa do tipo. A pergunta também não especificava que deveriam ser livros editados em 2008.
Aproveitem. A nata da literatura contemporânea brasileira está aqui representada — nas indicações e por quem as fez.
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Os três livros bacanas que li em 2008
- Cidades Invisíveis - ITALO CALVINO
- Dom Pedro II - Biografia - JOSÉ MURILO DE CARVALHO
- Grande Sertão: Veredas - GUIMARÃES ROSA
Nicolas Behr é poeta.
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Li muita coisa neste ano 8, gostei de muita coisa, inclusive de leituras velhas de um século (Anatole France, imagina). Escolheria o romance Acordados de Ana Rüsche, os inteligentes, belíssimos poemas de Icterofagia de Dirceu Villa e, agora, um livro de poesia em prosa de Damaris Calderón, a poeta cubana que reside em Chile, chama-se Duro de roer, eu descobri neste ano no Chile, mas é de uma década atrás. São três leituras que me instigaram, gostei mesmo.
Alfredo Fressia é poeta e tradutor uruguaio.
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Três livros em 2008
Os três livros que mais me marcaram neste ano tratam de três grandes escritores (Henry James, Machado e Rimbaud)- "O mestre", de Cólm Tóibin, "Um defunto estrambótico", de Valentim Facioli, e "Rimbaud na África", de Charles Nicholl. Mando um texto em anexo com os títulos e explico por que.
O Mestre - Colm Tóibín (Companhia das Letras) – O título vago e a capa chegam a sugerir alguma coisa devota e esotérica, mas é outra coisa – uma quase perfeita reconstituição fictícia calcada na vida muito real do escritor Henry James. Escrito com talento ímpar, mergulhando em fatos via imaginação, dá a impressão do retrato mais fiel possível de um escritor cuja vida particular foi cercada de mistério e reserva.
Um defunto estrambótico– Valentim Facioli (Nankin ) – Releitura de “ Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, feita com exemplar acuidade psicossocial por Facioli. A perversidade, a tortuosidade de Cubas, símbolo maior de um Brasil social e economicamente esquizofrênico, foi captada e explicada com perícia, e ao terminar o livro, senti vontade imediata de reler o romance.
Rimbaud na África (Os últimos anos de um poeta no exílio – 1880-1991) (Nova Fronteira) – A vida de Rimbaud pós-França, quando troca a poesia pelo exílio e o comércio na África, me desperta um interessante incessante, que faz com que eu leia tudo que se escreveu sobre o Vidente. Ele me parece heróico de uma maneira que ninguém mais o foi. Este foi o melhor dos livros que encontrei sobre o assunto, muito completo e sem querer (nem poder) esgotar o mistério do poeta.
Chico Lopes é escritor.
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A Trilogia de Máximo Górky, da Cosac Naify, esteve comigo por alguns meses este ano. Infância, Ganhando meu pão e Minhas universidades fazem parte de uma antologia universal da melhor literatura. O impacto da leitura me resgatou o prazer de ter um livro nas mãos, a vontade de não deixá-lo de lado, não apenas pela maestria da linguagem, ou pela curiosidade despertada pela intensa narrativa (uma sucessão de eventos extraordinários da Rússia czarista), mas principalmente porque Górky revisitado recupera para nós a importância da obra literária, longe das modinhas, firulas, esvaziamentos, poses. Górky é a vocação legítima do escritor, algo que precisa estar bem determinado entre nós, pois é muito comum no Brasil e na nossa época a falsidade ser entronizada pela reiteração do mesmo, sepultando não apenas a diversidade, mas a própria literatura. Escrita antes da revolução de 1917, a trilogia de Górki nada tem a ver com o realismo socialista, arapuca em que o autor foi enredado anos mais tarde. Os textos mantém a atualidade, o frescor, o brilho e a contundência originais, como se tivessem sido escritos hoje de manhã.
Outro autor que destaco é Rubens Jardim, o poeta que lança seu primeiro livro em 30 anos. Membro importante do movimento Catequese Poética dos anos 60, Jardim transcende suas origens e no extraordinário "Cantares daPaixão" busca no caos primordial da palavra (lá onde as falas impositivas não apitam) a força que falta à poesia brasileira.
Nei Duclós é escritor.
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Em primeiro lugar, disparado: Bolívia Jakasikawa, de Raimundo C. Caruso e Mariléia Leal Caruso.
Nesta situação de tragédia, aqui [ela foi uma das desalojadas na inundação de Santa Catarina], deixo de votar nos outros dois.
Urda Alice Kluger é escritora e pesquisadora.
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Sim, um deles foi releitura:
1. Retrato do Artista quando Jovem, de Joyce. 2. O que acaba de ser lançado pela 7Letras: "Do Jeito Delas: vozes femininas em língua inglesa". organização/ensaios Marcia Cavendish Wanderley, Carlos Eduardo Fialho, Sueli Cavendish. Tradução dos poemas de Jorge Wanderley: as poetas traduzidas são Sylvia Plath, Marianne Moore, Emily Dickinson, Hilda Doolittle, Anne Sexton, Louise Bogan, Elisabeth Bishop, Denise Levertov, Edna St. Vincent Millay, Edith Sitwell, Patricia Hooper, Elinor Wylie. A revista Bravo listou-o entre os 10 melhores lançamentos de setembro. 3. O Homem sem Conteúdo, de Giorgio Agamben.
Sueli Cavendishi é ensaísta e pesquisadora.
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Travessias Singulares - Coletânea de textos, crônicas, contos de diversos autores sobre a figura paterna. Uma coletânea curiosa sobre uma figura tão pouco explorada na nossa literatura. Participações que vão de Machado de Assis a Raduan Nasser. Organizado por Rosel Bonfim Soares.
A editora é baiana e nova: Casarão do Verbo
A Torre Ferida por Um Raio - De Fernando Arrabal. O autor espanhol, conhecido por sua dramaturgia, foi escolhido num sebo no centro da cidade de São Paulo. Não conhecia o romance de Arrabal, mas a luta surda entre dois enxadristas contém toda a dramaticidade dos palcos. Da década de 80 A Torre... é um romance curto, cheio de mistérios e atualíssimo.
Editora Nova Fronteira
O Casamento do Céu e do Inferno & outros escritos - De William Blake. Tenho que admitir que escolhi esse livro por dois motivos tortuosos: um porque conheci William Blake através de um filme: o Dragão Vermelho, continuidade do Silêncio dos Inocentes. E aqui deixo meu depoimento a favor do cinema como divulgadora de literatura. E para falar da queridíssima Editora L&PM, que faz um dos trabalhos editorias mais bacanas do país: ótimos autores a preços populares !!!!
O poeta inglês é um homem dotado de força espiritual e demonstra esse Amor Divino em seus poemas. Esse singelo livro foi comprado ao preço de 15 reais, tradução de Alberto Marsicano e o poema original inglês. Quer mais respeito que isso???????
Thereza Dantas e jornalista.
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Aí vão minhas preferências.
"Exercícios críticos - leituras do contemporâneo" (Editora Argos) - João Cézar de Castro Rocha - Reunião de ensaios de um dos mais competentes críticos da minha geração.
"Poderosa 4" (Editora Fundamento) - Sérgio Klein - Mais uma história da série infanto-juvenil Poderosa, do escritor mineiro que vem ganhando cada vez maior destaque em sua área.
"40 novelas de Luigi Pirandello" (Cia das Letras) - Para quem só conhece a genialidade do dramaturgo italiano, uma ótima oportunidade para se aproximar de sua obra de ficção, na excelente tradução de Maurício Santana Dias.
Luiz Ruffato é escritor.
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3 livros de 2008
O fazedor
Jose Luis Borges
Tradução de Josely Vianna Baptista
Editora Companhia das Letras
Em ‘O fazedor’, Jorge Luis Borges anota no epílogo que este livro é a sua obra mais pessoal, não por ser de alguma forma confessional, mas “precisamente porque é pródiga em reflexos e interpolações”, ou seja, é reveladora de seu modo de pensar e escrever.
É lugar comum situar Borges como o pai da literatura fantástica latino-americana, ou como um reinventor de lendas e fábulas medievais. Em sua “Autobiografia” (1899-1970)escrita com Norman Thomas de Giovanni, Borges declara que a sua obra de estréia “Fervor de Buenos Aires”, “era essencialmente romântica”. E prossegue: “Tenho a sensação de que tudo o que escrevi depois não foi mais do que o desenvolvimento de temas apresentados em suas páginas; sinto que durante toda minha vida estive reescrevendo este único livro”. Toda literatura é uma reescritura (paródia).
No plano espiritual o autor de “Ficções” é discípulo de Chesterton, Wells, Poe, Conrad, Kafka, Stevenson, Kipling, entre outros. É comum também considerá-lo como um bruxo que habitou a torre de Babel (o universo) para investigar os mistérios do “Livro da Criação”. Borges mistificou os leitores ao imitar vários idiomas de épocas distintas. Escreveu ensaios sobre livros que nunca foram escritos. Inventou histórias que poderiam ser reais. Imaginou biografias de autores que nunca existiram. É antes de tudo um autor satírico, autor exemplar de idéias, arquiteto de labirintos, descobridor do fantástico no real.
Sobre a construção de sua estética, Borges anota no prólogo do livro “Elogio da Sombra” que “não sou possuidor de nenhuma estética. O tempo ensinou-me algumas astúcias: evitar os sinônimos, que têm a desvantagem de sugerir diferenças imaginárias; evitar hispanismos, argentinismos, arcaísmos e neologismos; preferir as palavras habituais às palavras assombradas; intercalar em um relato traços circunstanciais, exigidos agora pelo leitor; simular pequenas incertezas, já que, se a realidade é precisa, a memória não o é; narrar os fatos (isto aprendi em Kipling e nas sagas da Islândia) como se não os entendesse totalmente. Tais astúcias ou hábitos não configuram certamente uma estética. Além do mais, descreio das estéticas. Em geral, não passam de abstrações inúteis...”
Quase tudo já se falou do escritor que conta/canta a história da eternidade. Do ensaísta que se transforma em contista, do historiador que recupera o memorialista, do biógrafo que inventa o ficcionista e do poeta que sucede ao lingüista.
Também já se falou muito do Borges como narrador e personagem de suas histórias. Mas é o próprio Borges, autor do texto “Borges e Eu”, incluído em “O Fazedor”, que narra para o leitor os dois Borges fundamentais: “Eu permanecerei em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas me reconheço menos em seus livros do que em muitos outros ou do que no laborioso rasqueado de uma guitarra. Há alguns anos tentei livrar-me dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de Borges e terei que imaginar outras coisas. Assim minha vida é uma fuga e tudo eu perco e tudo é do esquecimento, ou do outro. Não sei qual dos dois escreve esta página”.
Folhas de Relva
Walt Whitman
Tradução e prefácio de Rodrigo Garcia Lopes
Editora Iluminura
Walt Whitman é o grande poeta da Revolução Americana. Ele é o avô dos beatniks.
Whitman no prefácio do extraordinário “Folhas de Relva” anota que, “é isso o que você deve fazer: Amar a terra e o sol e os animais, desdenhar as riquezas, dar esmolas a todos que pedirem, defender os dementes e os loucos, dedicar sua renda e trabalho aos outros, odiar os tiranos, não discutir sobre Deus, ter pacência e indulgência com as pessoas, não tirar o chapéu para o que é conhecido ou o que é desconhecido nem a nenhum homem ou grupo de homens, acompanhar livremente as poderosas pessoas analfabetas e os jovens e as mães de família, ler estas folhas ao ar livre em todas as estações de todos os anos de sua vida, examinar de novo tudo que foi dito na escola ou na igreja ou em qualquer livro, rejeitar tudo que insulte sua própria alma, e sua própria carne será um grande poema e terá a fluência mais rica não só na forma de palavras mas nas linhas silenciosas de seus lábios e rosto e entre os cílios de seus olhos e em toda junta e todo movimento de seu corpo... O poetanão vai gastar tempo com trabalho desnecessário. Ele sabe que o solo está sempre pronto e arado e adubado... outros podem não saber mas ele sabe. Ele vai direto à criação. O maior poeta não moraliza nem dá lições de moral... ele conhece a alma. A alma tem aquele orgulho ilimitado que consiste em jamais reconhecer qualquer lição que não seja a sua. O maior poeta não possui tanto um estilo marcante e é mais um canal de pensamentos e de coisas sem acréscimo nem diminuição, e é o canal livre de si mesmo”.
E prossegue: “Em breve não existirão mais sacerdotes. O trabalho desles está feito. Eles podem esperar um pouco.. talvez uma ou duas gerações.. sumindo gradualmente. Uma raça superior deverá tomar o seu lugar... as gangues dos Kosmos e os profetas da massa deverão tomar seus lugares. Uma nova ordem deve surgir e eles devem ser os sacerdotes do homem, e cada homem será seu próprio sacerdote”. O que mais dizer deste poeta que anotou em seu caderno: “Regras e Composição: Um estilo perfeitamente transparente, cristalino, sem artifício, sem ornamentos... Clareza, simplicidade, nada de sentenças tortuosas ou enevoadas”. Para o crítico Harold Bloom, “a originalidade de Whitman tem menos a ver com seu verso supostamente livre do que com sua inventidade mitológica e seu domínio da linguagem fugurativa. Suas metáforas e argumentos, criando metro, abrem a nova estrada ainda mais efetivamente que suas inovações na métrica”.
Humano, Demasiado Humao II
Friedrich Nietzsche
Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza
Editora Companhia das Letras
Pode-se dizer que Nietzsche é o último dos metafísicos. Para ele, “nada do que é espiritual me é estranho”.Esta sentença é uma versão do aforismo de Terêncio que anotou: “Nada do que é humano me é estranho”.
Humano, Demasiado Humano trata de assuntos variados e interessa não apenas aos filósofos mas a todos que se interrogam sobre as idéias e as ações humanas.Nietzsche anota no fragmentoHumano e belo demais: “A natureza é bela demais para você, pobre, mortal” _ não é raro termos esse sentimento; mas algumas vezes, observando intimamente tudo que é humano, sua abundância, força, delicadeza, complexidade, senti que tinha que dizer, como toda humildade: “também o homem é belo demais para os homens que o contemplam!” _ e não apenas o ser humano moral, mas qualquer um. Já no fragmento intitulado Bens móveis e bens de raiz, pode-se ler: “Quando a vida tratou alguém de maneira totalmente rapace, tirando-lhe tudo o que podia em matéria de honras, alegrias, seguidores, saúde, propiedade de toda espécie, talvez este alguémdescubra mais tarde, após o assombro incial, que é mais rico do que antes. Pois somente então ele sabe o que lhe é tão próprio que ladrão nenhum pode tocar: e, assim, talvez saia de toda a pilhagenm e desordem com a nobreza de um grande proprietário de terras”.
Em Ecce homo, o filósofo anota que “a doença deu-me igualmente o direito a uma completa inversão de meus hábitos; ela permitu, ela me ordenou esquecer; ela me presenteou com a obrigação à quietude, ao ócio, ao esperar e ser paciente... Mas isto significa pensar!... Apenas meus olhos puseram fim à bibliofagia, leia-se ‘filologia’: estava salvo dos livros, nada mais li durante anos _ o maior benefício que me concedi! _ Aquele Eu mais ao fundo, quase enterrado, quase emudecido sob a constante imposição de ouvir outros Eus ( _ isto significa ler!), despertou lentamente, tímida e hesitantemente _ mas enfim voltou a falar. Nunca fui tão feliz comigo mesmo como nas épocas mais doentias e dolorosas de minha vida: basta olhar Aurora, ou “O andarilho e sua sombra’, para compreender o que foi esse ‘retono a mim’: uma suprema espécie de cura!... A outra apenas resultou desta”.
Pedro Maciel é escritor.
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leituras willerianas:
2008: ano de apresentar tese, apresentar projeto de pós-doc, dar cursos de surrealismo, poetas malditos, poesia e cidades, palestras de misticismo e poesia, poesia e corpo, oficinas - como li .... Releituras, principalmente - para certificar-me de que sempre é possível descobrir mais nesses autores que já se conhece de ponta a ponta, Baudelaire, Lautréamont, Rimbaud, Pessoa.... Redescobrir algo, também, nos bons contemporâneos, em um Herberto Helder. Às novidades. Ensaio: Kabbalah and Eros, de Moshe Idel, Yale University Press, 2005 - já conhecia, dele, o ótimo Cabala, Novas Perspectivas, pela ed. Perspectiva. Poesia: a coletânea Women of the Beat Generation, de Brenda Knight, Conary Press, Berkeley, 1996 - bastante poesia, depoimentos e relatos sobre as mulheres ligadas à geração beat, uma boa surpresa, lê-se como se fosse uma narrativa. Também uma boa leitura, O Mundo Mágico, a antologia de poesia moderna colombiana organizada por Floriano Martins e Lucila Nogueira. Curioso, este ano nenhuma narrativa em prosa me empolgou especialmente. Desatenção minha.
Claudio Willer é poeta, ensaísta e editor.
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1. eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios - marçal aquino
a concisão da linguagem de marçal é um tiro a queima-roupa.
seu texto é hipnótico.
ele conduz a narrativa em vários planos e o leitor se movimenta entre eles sem dificuldade alguma.
quando cheguei ao último capítulo eu protelei sua leitura, só pra curtir mais o romance e tentar adivinhar o final.
quando finalmente o li vi que a prorrogação tinha sido uma grande besteira minha, pois o livro se encerra de forma arrebatadora.
2. todos os cachorros são azuis - rodrigo de sousa leão
uma narrativa de várias frentes.
sempre desconstruindo e construindo pra desconstruir de novo.
um olhar oblíquo sobre a realidade revelando em linha reta onde está a loucura do mundo.
é preciso pôr os olhos sobre os cachorros e não cachorros azuis e multicolores.
3. rita no pomar - rinaldo de fernandes
a forma descontínua como a narradora (rita) conta sua história ao seu cão e ao seu diário cria uma atmosfera de cumplicidade e intimidade entre o leitor e a personagem.
tudo é muito bem maquinado e escrito neste romance, onde a vida por um triz da morte é a matéria prima em tempo integral.
Amador Ribeiro Neto é poeta e professor.
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"Ódio sustenido", de Nelson de Oliveira - Nelson reafirma, nesta coletânea de contos, a sua linha ficcional que aproveita situações absurdas, bizarras. E sempre com um texto muito bem elaborado, saboroso de ler.
"Antonio", de Beatriz Bracher - Achei interessante neste romance, além da técnica narrativa, dos "relatores" que repassam a trajetória do protagonista, como a autora flagra uma visão a classe média paulistana em relação ao universo do sertão (no caso, o sertão de Minas). Uma visão da diferença, montada em clichês de vários matizes. Uma visão que não deixa de fixar, na estrutura profunda do livro, o preconceito, a convivência por contiguidade com os migrantes pobres que aportam na Paulicéia.
"Inimigos", de Pedro Salgueiro - A coletânea de contos do cearense Pedro Salgueiro vale pela qualidade da prosa poética, pela novidade de trazer motivos caros à tradição regionalista na forma de curtas e preciosas alegorias.
Rinaldo de Fernandes é escritor e professor.
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"Noiva", do Renato Resende. Editora Azougue.
Alberto Pucheu é escritor e ensaísta.
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Três livros Três homens
“Ler é sempre reler um pouco”- Fernando Batalha
De entre as largas dezenas de livros que degustei este ano, no meio das centenas que ficaram por ler e apenas catrapisquei em diagonal e se quedaram à espera de oportunidade – nada mais que por acaso, pois o leitor intemerato é, creio eu, uma espécie humana vivendo um pouco entre o sonho e a realidade ocasional - as obras que gostarei de epigrafar são de recorte muito diverso.
1.A primeira, “La ciudad sin tiempo” (assim no original, pois que eu saiba não teve tradução em português) de Enrique Moriel, aliás Francisco González Ledesma (Poble Sec, Barcelona, 1927), aliás o conhecidíssimo e algo mítico Silver Kane doutros espaços de escrita, é um romance torrencial e fundacional, uma estória plasmada através dos séculos que nos arrasta, nos surpreende e nos inquieta da primeira à última página.
Simultaneamente tenebrosa e encantatória, a sua publicação foi como um soco em cheio no imaginário catalão e no (in)consciente colectivo espanhol, que aliás correspondeu entusiasticamente catapultando esteromance seminal para o primeiro posto dos mais comprados (e mais lidos, o que nem sempre é o mesmo...) do tradicionalmente arguto leitor espanhol.
Livro perturbador (não aludo propositadamente ao enredo, pois é um romance de enigma...) tenho a esperança de que um editor brasileiro ao mesmo tempo competente e exigente - sei que os há em terras de Santa Cruz! - o apanhe com as sete mãos e lhe possibilite viagem triunfal, pois é uma das reais obras-primas ultimamente saídas no espaço ibérico.
“Yo leo hasta los papeles del suelo”, disse em entrevista a Juan Pardo este escritor que durante vários anos se ocultou sob o pseudónimo agora revelado. E dele disse Hermes Cerezo, a encerrar uma evocação justamente emocionada que lhe fez no maior jornal de Barcelona: “Hoy en día, las novelas de González Ledesma son difícilmente localizables. Espero que alguien subsane esta ausencia y que no ocurra como con Gironella, Joseph Roth, Sándor Marai”.
Por esta confraria citada se verifica e se pode aferir desde logo a qualidade de Moriel...
2.A segunda, obra em 3 tomos que adquirira há um par de anos, só há uns meses a pude percorrer efinalizar com a atenção e o encanto que merece a qualquer um que não tenha perdido a frescura de saber olhar “oque, como dizia Kipling, se oculta para lá dos montes”.
Trata-se de “A volta ao mundo de um novelista” do grande Vicente Blasco Ibañez. Sim, o de “Os quatro cavaleiros do Apocalipse“, de “Sangue e arena”, de “A catedral” e tantos outroscomque, de juntura com o seu devotado amigo e pintor valenciano Joaquin Sorolla, encheu a sua época de verticalidade e de alto talento.
A mais bela reflexão sobre “a viagem” não a fez portanto o tal político luso avis rara que deu duas vezes a volta ao planeta sem sair do gabinete e recebeu, por tal feito, os correspondentes emolumentos... Nem o tal escritor de sucesso que faz viagens de propósito para depois escrever volumes que os interessados e os artolas irão consumir com ripanso. Nem sequer o estimável Xavier de Maistre, com o seu “Voyage au tour de ma chambre” que nos compraz e nos excita pela evidente convicção e o eficaz discurso literário.
De facto, quem me parece ter feito a tal superlativa reflexão que em 10 páginas iniciais arruma de vez a questão, foi mesmo este autor que, nascido em Valencia, por obra e graça da sua acção em prol do seu povo teve de se exilar vindo a morrer em Menton, o belo jardim dilecto nas doces terras da Provença.
O livro foi publicado em Espanha, na França, nos E.U.A. faz este mês precisamente 85 anos. É pois um livro antigo – como se tivesse sido escrito mesmo agora. Leiam as páginas sobre Nova Iorque, sobre a China, sobre as ilhas perdidas do Pacífico e depois venham falar comigo. Sujeito de razão e coração este Ibañez e ainda por cima um democrata de antes quebrar que torcer.
Recomenda-se aos aventureiros/as com estaleca e aos muito adultos – ou seja, a todos os que souberam conservar o seu vibrante coração de adolescente sem remorsos.
3. Por último quero destacar a obra “Almas cinzentas” de Philippe Claudel (Dombasle-sur-Meurthe, na Lorena, 1962) , que foi Prémio Renaudot de 2003. Este autor, que no mesmo ano viu o seu livro “Les petits mécaniques” galardoado com o Prémio Goncourt para novela, faz parte do brilhante grupo de romancistas e novelistas que desde os fins da última década do século transacto vêm dando um cariz novo à ficção francesa – que extraíra no meio-século as suas melhores galas de obras à semelhança de “A semana santa” de Aragon ou “Adoração” de Jacques Borel - nos seus embates com o pensamento de uma sociedade que perdeu em grande parte a certeza de que as pessoas de bem eram garantes de uma cidadania sem esqueletos escondidos. Reflexão sobre o poder das personalidades tradicionais (juizes, sacerdotes, militares de topo), “Almas cinzentas” é também uma incursão pelo universo da culpa: a culpa de se ser despossuído, fraco e imbele, mas também de ser ser humano, demasiado humano num tempo esgotado, onde as sombras desfilam sem cor e sem alma excepto a do cinzento que lhes é próprio.
Resta acrescentar que Philippe Claudel, cujo universo de mágoas e de crimes é paralelo, embora lhe esteja nos antípodas, ao do mundo descrito pelo seu famoso homónimo dos anos trinta, enveredou nos tempos mais chegados pela realização cinematográfica, o que tem sido aliás comum a alguns dos mais destacados jovens novelistas franco-britânicos em actividade.
Estes foram apenas 3 livros. Correspondendo a 3 homens. Neste caso dar relevo a tal facto não é dispiciendo. Dito isto, cumpre assinalar que, porque um rol é um rol, ficaram de fora depois de uma meditação compenetrada obras como “Alguns gostam de poesia” de Milosz e Symborska, “O doutor Gion” de Hans Carossa, “Musk” de Percy Kemp, o excitante conjunto de entrevistas “La edad de oro” de Vicente Molina Foix ou “Escritura conquistada” de Floriano Martins, os “Poesia vertical” de Juarroz e “O movimento das coisas” de Gérard de Cortanze ou, the last but not the least, o monumental ensaio “O século dos intelectuais” de Michel Winock.
Mas isso seria outra (pequena) história...
Atalaião, Dezembro de 08
Nicolau Saião é poeta português.
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Aí vai minha lista:
Caixa Preta, de Amós Oz. Porque esse romance epistolar capta as oscilações entre amor e ódio em uma família dissolvida com uma sutileza impressionante.
The De-definition of art, de Harold Rosenberg. Porque os ensaios deste inexorável crítico de arte, se fossem mais lembrados, teriam evitado o vazio teórico que assola as exposições contemporâneas.
O Herói Devolvido, de Marcelo Mirisola. Porque Mirisola pode ser, e é, o escritor mais irritante de nosso tempo, mas transita da podridão para o sublime como poucos.
Ivan Hegenberg é ficcionista e pesquisador em artes plásticas.
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Vamos lá, nesta ordem:
1) Um livro de crítica: A arte brasileira em 25 quadros 1790-1930 de Rafael Cardoso, Editora Record.
2) Um livro de pesquisa histórica: Domingos Sodré: um sacerdote africano de João José Reis, Editora Companhia das Letras.
3) Um livro de ficção: Rocambole, de Ponson du Terrail, seis volumes, 1857-1870, edição Companhia Brasil Editora 1946.
Os dois primeiros foram editados em 2008. O terceiro achei num sebo e é sensacional...
João Carlos Rodrigues é escritor, ensaísta e pesquisador.
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Lá vai:
“O filho eterno”- Cristovao Tezza (Record) “Os de minha rua”- Ondjak (Linguageral) “A equação que ninguém conseguia resolver” Mario Livio (Record)
Affonso Romano de Sant’Anna poeta, ensaísta e conferencista.
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Legal a enquete. Lá vai.
Três romances que li este ano e de que gostei muito:
Em O segundo tempo, Michel Laub utiliza como pano de fundo uma partida de futebol entre dois tradicionais times gaúchos para falar das relações afetivas entre dois irmãos e para tecer considerações sobre a condição humana e sobre a sociedade brasileira no final da década de oitenta. Chega-se a pensar que o romance tem traços biográficos, tal a impressão de veracidade causada pela narrativa.
Seda, do italiano Alessandro Baricco, cativa o leitor pela concisão e pelo lirismo. Em capítulos curtos e com um enredo tecido sutilmente, tomamos contato com a pequena odisséia do personagem Hervé Joncour, pacato cidadão francês e comerciante de seda de meados do século XIX que se vê enredado em um romance platônico com uma mulher que conhece em suas idas e vindas ao Japão.
Depois de dez anos sem escrever um romance, Gabriel García Márqueznarra em Memória de minhas putas tristes uma história de amor entre uma ninfeta e um homem de noventa anos. O narrador do livro é um culto e entediado jornalista provinciano que comprova a tese tão cara ao autor colombiano de que não envelhecemos por dentro: envelhecemos por fora, envelhecemos para os outros.
abração daqui,
Ovídio Poli é escritor.
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Dois romances e uma coletânea de poemas: Todos os cachorros são azuis, de Rodrigo Souza Leão, O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza e Diálogos e Sermões de Frei Eusébio do Amor Perfeito, de Mafra Carbonieri.
Os três, pelo mesmo por que: um ponto de vista inesperado que se expressa num estilo muito feliz. No primeiro, é um esquizofrênico que atravessa suas fases; no segundo - um pai que não quer o filho com síndrome de Down mas acaba visceralmente envolvido; no terceiro, um frade ateu e mulherengo que vergasta os despudores de nossos órgãos representativos.
Entre as obras de não fiçcão: Tratado de Magia, de Giordano Bruno (Martins Fontes), por sua originalidade; A escada de Wittgenstein, de Marjorie Perloff (EDUSP), por sua atualidade; e o ensaio de Giorgio Agamben sobre Res Amissade Giorgio Caproni (Garzanti) por sua agudeza.
Aurora Bernardini é professora, ensaísta e tradutora.
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Vamos ao trabalho:
Os três melhores livros que li este ano foram: 1 - "O Filho Eterno", de Cristovão Tezza, pela qualidade literária. Um romance emocional mas sem emocionalismo. Ou seja, perfeito equilíbrio narrativo. Até porque falar de filho, em qualquer situação, é muito difícil. 2) "Rita no Pomar", de Rinaldo de Fernandes, que revela um narrador sensível e com o controle dos elementos internos da ficção. A solidão da personagem e sua longa confissão a Pet demonstram que toda narrativa precisa de harmonia; melhor dizendo, de uma sólida harmonia. 3) "Vidas Secas", de Graciliano Ramos, porque é preciso revistar esse texto todos os anos, sobretudo pela técnica e pela concisão, além do humanismo pleno. E pelo óbvio: estamos comemorando setenta anos da publicação deste livro".
Aí está, amigo. Qualquer coisa mande às ordens,
Abs de Raimundo Carrero é romancista e mestre oficineiro.
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Os tres livros mais bacanas que eu li este ano são:
Testo Junkie, Beatriz Preciado (Ed. Grasset, France, 2008)
No creo que haya un ensayo más original, más cáustico y revelador que el escrito por Beatriz Preciado, documentando la aplicación de sus múltiples dosis de testosterona en gel, ajena al protocolo clínico de cambio de sexo. Todas nuestras viejas ideas de libertad sexual, formas de resistencia y mecanismos de poder se ven desafiados por la filósofa española, creando un libro que además injerta la (auto) ficción en el discurso filosófico, contaminándolo y abriendo nuevas rutas para el pensamiento crítico de las sociedades farmacopornográficas en las que actualmente habitamos. LA RESURRECCIÓN DE KARL MARX EN CUERPO TRANSGÉNERO, DELEUZE VOLCADO A LA PRAXIS, DESTRUCCIÓN Y VISIÓN LUMINOSA DE LA FICCIÓN, FILOSOFÍA COMO POESÍA DEL SER O FILOSOFÍA DE VIDA (NIETZSCHE), CHANGER LA VIE (RIMBAUD).
Acordados, Ana Rüsche (Ed. Amauta, Brasil, 2007)
Una prosa magistralmente poética, entrelazada con rabia y elegancia, uno de los poquísimos casos de escritura sin miedo que podemos encontrar en las cercanías. Técnicamente impecable, sin que esto se convierta en discurso o charlatanería modernólatra. Las historias reflejan la devastación humana al interior de las sociedades farmacopornográficas anteriormente citadas. La densidad y rigor de su escritura están en relación directa con el espesor de la experiencia ahí condensada. Poesía y prosa no distinguen límite y cualquier concretud aquí va más allá de cualquier delirio tipográfico, su extremo lirismo instala la feroz poesía de los cuerpos devastados durante la era del látex y la profilaxis.
A ordem secreta dos ornitorrincos, María Alzira Brum (Ed. Amauta, Brasil, 2008)
Con una prosodia que nos recuerda a los mejores momentos de Cortázar y con un humor que habría celebrado Augusto Monterroso, María Alzira Brum elabora una de las propuestas más arriesgadas y sólidas que ha conocido la prosa brasileña en el último tiempo, saliendo, como el conejo de Alicia, por agujeros inesperados. La vida como ficción total, el conocimiento como forma de encuentro y la sensualidad tropical llevada a una confrontación con las ideas establecidas de civilización, evolución y mestizaje. La literatura aquí quiere representar nuevas formas de vida y de lectura, quizás revirtiendo la propia idea de "lector-hembra" que formulara en su momento Cortázar, mutando hacia un texto-fiera, donde lector y autor se penetran mutuamente.
Se fosse possível colocar 4, eu acrescentaria esse:
La orilla africana, Rodrigo Rey Rosa (Ed. Seix Barral, España, 1997)
Alan Mills é poeta e ensaísta guatemalteco.
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Meus 3 livros:
Casimiro de Brito, Portugal - Livro das Quedes, poesia.
O poeta foge dos esquemas da contemporaneidade e mergulha profundamente na tradição lusófona para voltar com um produto de beleza formal contundente. Parecia-me ler Jorge de Lima em Livro dos Sonetos e na Invenção de Orfeu em alguns momentos - ambos o que há de melhor em nossa poesia. Ao merguilhar na tradição, Casimiro não se dretgém no já-dito e oferece soluções surpreendentes em cada um dos seus poemas.
Romério Rômulo - Matéria Bruta, poesia.
Livro de dicção (v.Owen Barfield) poética forte, grave, fundada nos estratos mais puros do indivíduo humano. Dificilmente se encontrará, na poesia dos dias correntes, poeta mais completo: seu corpo reage a dentes, diria Cabral, à realidade circundante, sertão mineiro. Sem ser regionalista no sentido histórico do termo na historiografia crítica brasileira, insere a rgião no mais basilar de seu verbo apolíneo, Dionisos presente, domando as forças anárquicas da permanente entropia do mundo em-fora.
Alejo Carpentier - Os Passos Perdidos, romance.
Ao fugir de uma vida árdua em Nova York, um musicólogo viaja para uma das raras regiões do mundo aonde a civilização não chegou – as altas extensões do rio Orinoco,tendo como missão a coleta de instrumentos musicais indígenas para uma das galerias de um museu organológico. À medida que ele penetra os labirintos da floresta, a viagem se revela também uma volta às etapas históricas mais significativas da América, ao tempo dos passos perdidos da humanidade: um lugar onde o progresso desvaneceu. Fascinante. Com a revolução barroca de sempre de Carpentier. Empolgante no mínimo.
Maria da Conceição Paranhos é escritora.
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Lá vai, sem pudor, radicalizando: Ismar Tirelli Neto – Synchronoscopio; L. Mutarelli Jesus Kid; Marcelino Freire, Rasif- mar que arrebenta, pessoas que nunca vi.
bj
Heloisa Buarque de Hollanda é escritora, professora e editora.
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Os três, hmmm... deixa ver. Já sei: Kafka, Kafka e mais Kafka. Por quê? Leiam que vocês saberão.
Beijos, Jeanette Rozsas é escritora.
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Lá vai, sinteticamente:
O Filho Eterno - Tezza se superou e mereceu todos os prêmios; Vida y Destino, de Vasili Grossman - Li a resenha no El País e fui atrás. É o "Guerra e Paz" da II Guerra Mundial, um impressionante painel da vida na União Soviética durante os anos da guerra, com o heroísmo, a violência stalinista e os paradoxos da época em um painel magistral; As Benevolentes, de Jonathan Littell - Outro livro sobre a II Guerra Mundial, onde o franco-americano Littell escreve sob a perspectiva de um oficial nazista e mostra que o mal é tanto mais malvado quanto mais complexo do que pensamos. Não pode ser lido antes de dormir.
Felipe Lindoso é escritor e antropólogo.
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O Volume do Silêncio - João Anzanello Carrascoza.
O livro, que é uma antologia, traz um lirismo bonito aliado a uma visualidade muito bem realizada. Além disso, trata de dramas humanos e vem em um tom levemente elegíaco. As histórias são bonitas e sensíveis, e, em geral, falam de relações familiares.
Famílias Terrivelmente Felizes - Marçal Aquino.
O livro traz os primeiros contos do Marçal Aquino, reunindo dois livros e alguns dispersos. O livro tem muita ação, mas não só isso, como o próprio título enseja. Uma parte do livro é mais experimental e a outra traz contos com histórias mais definidas. Há uma visualidade importante e a leitura é gostosa e rápida. De repente, encontro o Piauí em um dos contos.
O Romance que Explodiu - Carlos Emílio C. Lima
O livro traz contos fantásticos realizados com muita imaginação. São textos diferentes de todos os que já vi, a começar pelos títulos. De repente, seres estranhos, possibilidade de aparecem novos mundos, distorções do tempo e do espaço, entre outras coisas do tipo. O estranho e o fantástico são uma constante. Grande parte dos textos está na Cronópios.
Ivaldo Ribeiro Filho é poeta e advogado.
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Os três livros são:
1. A Filha da Fortuna, de Isabel Allende. Editora Bertrand - 476 páginas. Gostei do romance porque é uma viagem ao final do século XIX, onde descobri detalhes sobre o nascimento da Califórnia tomada pela febre do ouro e as reações inusitadas das pessoas diante da miséria e da possibilidade da fortuna fácil. História protagonizada por Eliza Sommers, uma jovem chilena que foge do Chile em busca das pepitas de ouro latentes no coração de seu amante.
2. Poemas de amor e Terra, de Luiz de Aquino UCG - Editora da Universidade Católica de Goiás, 2007 - 78 páginas O livro prima pelo resgate da poesia romântica adaptada aos dias de hoje, onde a cada verso filtra-se a luz solar e revela-se a força da natureza.
3. O menino e o maestro, de Ana Maria Machado (livro infantil) Ilustrado por Maria Inês Martins Mercuryo Jovem, 2006 - 46 páginas Ana Maria Machado prestou uma linda homenagem a Mozart, contando a história de Teleco, um menino pobre do morro do Rio de Janeiro de hoje, que assim como Mozart, trazia inato o talento da música, que o menino teve a oportunidade de começar a desenvolver através do tamborim e depois se estendeu em outros instrumentos musicais. Uma boa história para todas as idades.
Madalena Barranco é escritora.
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Dentre os vários livros recebidos/comprados/lidos no ano de 2008, destaque especial para três, todos de escritores brasileiros:
Aleijadinho e o Aeroplano: o paraíso barroco e a construção do herói colonial (Guiomar de Grammont, Civilização Brasileira/Editora Record, Rio de Janeiro, RJ, 2008): seria simplesmente uma tese!? Um longo ensaio!? Uma ficção!? Uma biografia!? O grande exercício intelectual e estético são as interconexões na leitura, reunión de gêneros literários, em mais de 300 páginas e dezenas de referências bibliográficas nacionais e estrangeiras, numa temática instigante. Polêmica magnífica. A filósofa, historiadora, professora da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), doutora em Literatura Brasileira (USP) e premiada escritora mineira Guiomar de Grammont, numa linguagem envolvente, análise profunda e rica em informações, estuda com inteligência a construção do mito, a vida e a obra de Antônio Francisco Lisboa, natural de Vila Rica, MG, o Aleijadinho (1730-1814), artista plástico mais importante do Brasil de todos os tempos. A pesquisadora transita minuciosamente à procura de verdades ou verossimilhanças: a autoria ou não de determinadas obras atribuídas a Antônio Francisco Lisboa, a sua formação como entalhador, arquiteto, a origem familiar e o seu estilo escultural. Destaque especial para o capítulo 1 (A gênese do “herói barroco”), ao entrecruzar e refletir com lucidez os conceitos do “homem barroco” em Affonso Ávila e José Lezama Lima, para conceber uma visão admirável sobre o barroco mineiro. Outro capítulo que merece uma leitura mais atenta é o 4 (Aleijadinho, estilo e autoria). A partir das idéias de Michel Foucault e Roger Chartier, vai além e demonstra uma das questões centrais levantadas, controvérsia entre muitos historiadores contemporâneos: a ubiqüidade de Aleijadinho. E analisa as críticas, estudos estilísticos e ambigüidades que perpassam as várias teorias levantadas, sem jamais descaracterizar e refutar, por parte da autora, a genialidade do artista. Um dos melhores livros do ano - com ilustrações, digno de uma leitura atenciosa, calma e reflexiva -, que afirma e interroga o processo de formação do mito Aleijadinho através da História do Brasil, sem ficar preso aos discursos históricos oficiais e fórmulas herdadas.
Sortilégio (Edson Cruz, Editora Demônio Negro, São Paulo, SP, 2007): livro bilíngüe (português/espanhol) de estréia, repleto de artifícios poéticos sonoros. Enviesado por composições curtas, longas e singulares. Os limites invisíveis são enfeitiçados pela linguagem Sambaquis de signos em movimentos. Caieiras. Edson Cruz ferve a boa poesia, tal qual o “forno onde se calcina/ a cal da memória”. Como observa Eduardo Milan, “mescla auma ironia controlada que a veces, saludamente, desbarra em ira”. Na seção Parabolês - a melhor e mais consistente de todas - temos suítes longas e afiadas. Em Cidade imaginária, a rima desconcertante nutre a busca indignada, incessante, em meio às tempestades e o sol tórrido. O poema transcendental, em transe, diálogo com o Oriente e stand-by existencialista, reflete a roda do mundo, na qual “a cidade é imaginária, pura névoacármica”. Ao multiplicar-se em partituras preciosas, processo sólido da escrita, Edson Cruz, editor-fundador do Portal de Literatura & Arte Cronópios, apresenta-nos uma antologia - o livro lembra uma antologia - afirmativa/reafirmativa, com vôos prodigiosos para o futuro. Intrépido “feito gato no cio” é um quelônio pertinaz “na contingente luz verde que se revela”, e antevê/vê com maestria “o sândalo na onda indo noutra direção”.
Um dia, o trem (Fernando Fiorese, Nankin Editorial, São Paulo, SP, 2008): poesia da mais alta qualidade, impactante, com imagens engenhosas, sem jamais cair no excesso de sentimentos. Na realidade, o livro tem um lirismo com requintes grandiosos. Metafísico. Caminhos, ir e vir - um devir - que pulsa na tensão pai-filho-pai-filho, enlace com ternura, articulados num ritmo extraordinário; a sagrada confluência, ou encruzilhada, de versos, prosas, ressonâncias e enigmas silenciosos. Híbrido. Lembra uma Maria Fumaça percorrendo seus trilhos numa viagem reflexiva, sinuosa, sem perder o tom e flashes poéticos, indagando quem é ela/ele na travessia e para onde vai - o menino, o pai, por extensão, quem somos nós e para onde vamos. Fernando Fiorese, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que comemora com Um dia, o trem 25 anos de publicação do seu primeiro livro, sussurra paisagens/passagens em bitolas amplas de letra, forma e ferro, banhados pelo despertar do carvão e da fumaça, de uma maneira bem mineira. Cinematográfico. Murilamendes falando, telegrafa e desloca o tempo, a temperatura e as estações: "as pessoas são frases, fases". A sua bagagem é um trem-metáfora, um parêntese que apita eternamente. "A infância é ferroviária".
PS: não poderia deixar de mencionar a excelente revista comemorativa dos dois anos da Confraria do Vento (Editores Márcio-André, Ronaldo Ferrito e Victor Paes, Editora Confraria do Vento, Rio de Janeiro, RJ, 2007). Recebi o exemplar em 2008 - assim como o livro mencionado acima do escritor Edson Cruz. O projeto gráfico, visual, ensaios (distinção para Poesia e Imagem, de autoria do argentino Raul Antelo), poesias, contos, traduções e imagens (Jean Baudrillard e Fernando Figueiredo, exímios) são “Make it new”. Renovação, qualidade e pluralidade. Vamos aguardar o próximo número...
José Aloise Bahia é jornalista e escritor.
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Órfãos do Paraíso, de Milton Hatoum. Terceiro livro do romancista amazonense que leio e releio, cada vez gosto mais. Desde o seu primeiro Relato de Um Certo Oriente, é dos meus prediletos.
Itinerário, do poeta e romancista cubano Miguel Barnet. Lírico que nos ensina como é trabalhoso alcançar a beleza da simplicidade.
La Vengeance du Gaia, de James Lovelock. O cientista norte-americano nos dá, em linguagem acessível, a verdade das causas e as trágicas conseqüências do aquecimento da Terra sobre a vida do planeta, berço e morada da humanidade. .
Thiago de Mello é poeta e conferencista.
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Por causa do ano Machado reli "O Alienista" e "Dom Casmurro", o primeiro a notável sátira contra o autoritarismo em geral e contra o autoritarismo em particular, o segundo aquele clássico e soberbo estudo sobre o ciúme. E li "Banquete com os Deuses", de meu conterrâneo, amigo e genial cronista Luís Fernando Veríssimo.
Abrs.
Moacyr Scliar é escritor e médico.
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Os 3 livros mais bacanas lidos em 2008:
- O livro das impossibilidades (Editora Record), de Luiz Ruffato
- O Filho Eterno (Editora Record), de Cristovão Tezza
- Uma História da Música Popular Brasileira (Editora 34), de Jairo Severiano
Luiz Ruffato amplia em “O livro das impossibilidades” sua concepção da saga do proletariado brasileiro de 1950 até a virada do século XX para o XXI, articulando a forma ao conteúdo com precisão e ousadia. É literatura de primeira.
Cristóvão Tezza mostra em “O filho eterno” a força criativa de sua literatura. Rompe temores e enfrenta desafios numa narrativa densa.
O pesquisador Jairo Severiano revela com conhecimento de causa a essência da MPB e mergulha nas entranhas da nossa música desde sua formação à sua consolidação. “Uma História da Música Popular Brasileira” é fonte segura de informação e leitura prazerosa.
Jorge Sanglard é jornalista.
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Olhai, desta vez, atendo seu convite e rapidamente. Também, porque foram três livros tão essenciais, tão marcantes, que não exigiram, now, uma intensa pesquisa interna...
AS BRASAS- do Sándor Márai -(Companhia das Letras -SP- 2008) duma intensidade exigente, que há muito não encontrava em páginas algumas...Como os dois protagonistas , passei uma noite em claro, sem conseguir ir dormir , antes deles... mexida e revolvida por sentimentos inteiros e movediços , compreendidos e nebulosos, que foram - devassados por atos ocasionais , confusos, determinantes... Amizades e amores mui complexos...me conduzindo numa leitura envolvida , o tempo todo, em linduras maiores !!
CARTA A D. - História de um amor- de André Gorz -(CosacNaify- SP- 2008) Narrativa duma sofrência no limite do inaguentável , também doída para o leitor seguir... Uma linda, linda história de amor , vivida e contada por um sociólogo marxista (!!!??) . História de entrega, de descoberta, de mudança de rumo e rota, de indignação, de aprendizagens constantes a procura de novas condições de vida para a mulher amada e de enfoques para sua militância. Declarações de desejo invejantes ,de amor , de entrega, de dependência da mulher que se esvai por um erro médico. ..Até o pacto de morte, por ser impossível a vida sem ela...
Um texto curto, uma edição primorosa (CosacNaify), proporcionando uma leitura doida, sofrida, dolorosa, dum amor tão intenso que nós, leitores, nos fraglamos " voyeuses " por várias vezes.
UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA - de Mia Couto- (Companhia das Letras- SP- 2008) Suceder de bonitezas , de sonoridades, de poeturas, de imagens visuais fortíssimas, de levezas humoradas , como se encontra -quase sempre- nas escrivinhações do Mia Couto... !!! Leitura deleitosa !!
Abração
e contente com a minha 1ª colaboração pros Cronópios em 2008...
Fanny Abramovich é escritora.
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Aqui vai:
"The Prestige" de Christopher Priest. Um romance de ficção científica sobre a competição entre dois mágicos de palco na época vitoriana. Contrapõe a magia de palco (que finge produzir coisas impossíveis) e a ciência (que produz coisas tidas como impossíveis). Literariamente, tem várias narrativas, umas dentro das outras, com narradores não confiáveis.
"O romance morreu" de Rubem Fonseca. Crônicas em que RF fala sobre assuntos que lhe interessam e que também me interessaram.
"Contos do Inverno" de Isak Dinesen. Histórias estranhas que não se esgotam na leitura ou na releitura, escritas numa prosa memorável.
abs
Bráulio Tavares é escritor e compositor.
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Meus prediletos em 2008:
Roberto Bolaño Putas assassinas
São treze contos, fatias de um único bife chileno. Bolaño mistura formas narrativas. Em Carnê de baile o conto que é uma enumeração de fatos feito lista de supermercado, as mercadorias são depoimentos objetivos de um poeta. Em Encontrocom Enrique Lihn o próprio Bolaño entra em cena narrando a proximidade infértil entre mestre e discípulo. Em O retorno, um famoso estilista compra um cadáver, o narrador é esse cadáver no melhor estilo Memórias póstumas Brás Cubas, tão cínico quanto o Machado de Assis, é como cadáver que o personagem vê o famoso em sua intimidade. Como o personagem diz, o necrófilo quer fazer sexo com alguém morto para se proteger, assim ele sabe que não será machucado e nem machucará. Impossível sair ileso da literatura desse chileno. Bolaño é um dos maiores escritores da América Latina.
Sándro Márai De verdade
Romance volumoso, não pelo número de páginas, mas na descrição pormenorizada de cada intenção por trás de um ato, quer ele do presente ou passado. É um triângulo amoroso, onde o filho de um industrial de Budapeste se apaixona pela empregada doméstica. Trata-se de uma família burguesa que ritualiza desde o café da manhã até a cerimônia de enterro. Se o autor fosse cineasta ele teria inventado e usado uma nano-câmera pela qual observaríamos o volume de um cílio e sua queda. Monumental.
William Faulkner O som e a fúria
Em algum momento se esbarra em William Faulkner, você pode adiar o encontro, sugiro encará-lo de vez. Digamos que a liberdade seja uma cota dividida entre leitor e escritor. Faulkner fica com cem por cento da liberdade, pois se o leitor não se entrega a ponto de reagir com os personagens, a leitura perde a força e o sentido. É o caso de O Som e a Fúria. William Faulkner é um Guimarães Rosa americano. Ou você ama ou você não precisa dele. A comparação também vale pela originalidade, o uso livre da palavra, a crueldade rústica. Em o ‘O som e a fúria’, Faulkner diz roseanamente: “O homem é o somatório de seja lá o que for”. É um autor violento e ousado, trata-se de um criador tão livre que é impossível alcançá-lo.
Andréa del Fuego é escritora.
[Continua...]
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