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15/1/2009 16:43:00
Palavra parelha



Por Anibal Beça

 

Aníbal Beça, ou de como as folhas da selva encobrem a poesia

Por Carlos Nejar

 

Anibal Beça, poeta da Amazônia, sob quem nutre a raiz da fecundidade, capaz de trabalhar com habilidade na arte poética em todas as formas, desde o soneto ao haicai, tem vocação genesíaca.

Talvez a vocação generosa de sua terra, talvez a vontade tão absoluta ou imperiosa de se exprimir, a ponto de a linguagem ser metamorfose, que não é propriedade ovidiana e sim, propriedade de abismo.

A variedade dos seus ritmos e imagens se mescla à variedade de um mundo que exige sempre mostrar a indefinível face. E qual a face? São muitas e nenhuma, pois a linguagem se disfarça e toma muitas vozes para preencher a espessura do silêncio. E a espessura do silêncio é por onde a palavra nos vê ou assombra.

Há, por vezes, certo preconceito com a fecundidade, mormente num tempo de raquitismo criador, juntando a impotência à inveja, a pequena obra como grande proeza, desde que nasça de tempo. A verdadeira proeza é a mescla de qualidade e invenção, não importando o tempo que a produziu. E é inegável a visão peculiar de Aníbal Beça, a multiplicidade dos ritmos e das formas, o que vislumbrava William Blake em um de seus provérbios:”A exuberância é beleza”.

Há que haver na criação o espaço societário e respeitoso entre os poetas do menos e os poetas do mais, descabendo a mera avaliação daqueles em oposição a esses, quando todos se completam, conforme sua própria natureza e respiração do pensamento. O bosque deve conviver, harmoniosamente, com a floresta, ou vice-versa, porque ambos são importantes para o universo vivo.

Essa avidez de chama, avidez de refinamento da palavra, a avidez do ludus que persegue musicalmente a lógica, ou deixa-se arrebatar por ela, a favor do tempo do poema, a avidez de dizer ou bradar a existência das coisas, como se elas não pudessem repousar, a avidez de tudo cobrir com palavra, ou de a palavra não se calar nunca, faz com que admiremos, comovidos, esta sinfônica poética de signos e sonhos.

Sobretudo, pela maneira operosa com que, ao ser lida e nos lendo, também nos descobre.

 

 

 

***

 



Palavra parelha, reunião ímpar

Por Astrid Cabral     

 

 

         Se com Filhos da várzea Anibal Beça incorporou-se de maneira definitiva à literatura do Amazonas, desde Suíte para os habitantes da noite passou a figurar entre os poetas mais importantes da literatura nacional contemporânea. 

         Tal conceituação decorre da confluência de vários fatores. Apontaria, em primeiro lugar, ao lado de extraordinária versatilidade, a total consciência criadora, que preside a elaboração de cada trabalho de sua autoria. Não resta dúvida de que, em todas as épocas, o escritor, e sobretudo o poeta (artista por excelência do verbo), esteve voltado para os meios e recursos da enunciação, atento, pois, não só às idéias expressas, mas também aos elementos musicais e imagéticos que as acompanham. No entanto, nos dias em que vivemos, essa consciência formal adquiriu um relevo ímpar, extrapolando o campo literário. Há 40 anos Mac Luhan já detectava a tendência da forma sobrepor-se aos elementos puramente referenciais. Ao declarar que “the medium is the message” assinalava a importância fundamental que o veículo adquiririu, passando de simples condutor a integrante da informação, fenômeno que conquistou, com muita ênfase, a área da publicidade. Assim, mais que nunca, o culto da forma, e em particular da palavra, se instaurou e se estabeleceu de maneira impositiva e hegemônica.

O fato é que, a obra de Anibal, ao lado da emergência de grande leque temático, distingue-se por seu envolvimento apaixonado com a linguagem e a metalinguagem, em particular com os aspectos musicais da poesia, não fosse ele também compositor premiado e reconhecido na área da MPB.

Sem ser um simbolista anacrônico, pois sua cosmovisão está impregnada também da aguda percepção da realidade circunstante, e não apenas das inefáveis iluminações, da atmosfera etérea e misteriosa, típica da torre de marfim, não se pode ignorar o extraordinário peso do elemento musical em todo o seu trabalho.  

 Pode-se afirmar que a criação poética não constitui para ele apenas práxis, inesgotável atividade de experimentação, mas é sobretudo o grande motivo sobre o qual debruça o pensamento, diria mesmo o tema axial de toda a sua obra. Realidade de que tem absoluta consciência e que o faz declarar: a poesia é quem me rege e Minha meta é a linguagem derramada. E ao dizer derramada diz, sobretudo, manifesta de maneira fecunda e constante.

Veja-se a imensa produção de sua lavra, onde a eloqüência dos poemas longos (em que o referencial enfrenta o risco de se esgarçar e a emoção de se diluir) alterna-se com a extrema concisão dos haicai, em total fidelidade ao expresso em “Profissão de fé”: Meu verso quero enxuto mas sonoro. Aliás, esse soneto é basilar na apreensão de sua arte verbal. Nele, Anibal menciona não só a importância dos elementos melodia e harmonia, como também os vínculos  pessoais com a tradição, pois ...sigo o rumo/dos mares mais remotos navegados, e mais adiante, sem o temor do velho, para encerrar resumindo seu fazer num eterno retorno renovado. Renovado sim, pois o poeta, ainda que reverencie grandes poetas antecessores, através de constante diálogo com eles, transcende erudição e convenções com liberdade e ousadia. Basta lembrar de passagem os poemas “Rastafala”, que fecha a Suite para os habitantes da noite, e “Rabo de foguete” de Ter/na colheita.        

         Em 1998, Anibal Beça, em bela coedição da Biblioteca Nacional com a Editora Sette Letras, reuniu cinco livros de poemas sob o título Banda da Asa.  Desta vez, após pequeno intervalo de tempo, novamente consolida outros cinco livros, em eloqüente sintoma de fecundidade. Trata-se agora de Palavra Parelha e outros poemas, que eu diria outros livros (a saber: Cinza dos minutos, Chuva de fogo, Lâmina Aguda e Colheita de cabeceira), pois não estamos diante de composições avulsas, e sim de conjuntos coesos, organizados em torno de propostas temáticas e estéticas bem definidas, excetuando-se apenas o conjunto intitulado Lâmina Aguda, onde se constata certa fragmentação da unidade.

         Palavra parelha estrutura-se em sete cantos, o que logo nos remete a aspecto fundamental do poeta. É que, para Anibal Beça, a palavra poética é sobretudo canto/canção. Note-se que, a relevância da categoria poundiana da melopéia não se evidencia somente na elaboração de textos ricos em recursos sonoros (ritmos, rimas, aliterações, anáforas etc). Surge também, explícita, na definição de cada peça verbal, no decorrer da reunião: berceuse, ópera, cançoneta, balada, cantiga, pavana, bolero, toada, sonatina, chorinho, baião, cantaria, canto, ciranda, pentacanto, etc. Toda uma sequência classificatória reitera, aqui, a variada nomenclatura musical que presidiu a composição da Suite para os habitantes da noite. Creio que, na poesia brasileira, só na obra de Cecília Meireles ocorre essa constante ênfase na concepção da poesia como música verbal.

         Palavra parelha é um poema cosmogônico. Aborda a criação, o parto da palavra, não na esfera diminuta do individual, e sim na esfera mais ampla da espécie humana. Suprindo a ignorância que temos dos acontecimentos fundadores pelo poder imaginativo, pela invenção da mente, o poeta rememora o passado genesíaco da criação do primeiro casal, da comunicação entre eles e finalmente da instituição da palavra. A aventura da parelha humana/ se dá pela ventura da palavra. O desdobramento narrativo, em cima de fatos abstratos, apoia-se no lastro da tradição bíblica (Lilith/Eva) e, secundariamente, da helênica, imbricando-se na paisagem natural concebida e descrita pelo poeta. Estamos diante de um tema solene, de imensa magnitude, e o modo pelo qual Aníbal atenua tanta distância temporal e cognitiva é pela escolha de versos curtos (redondilhas e hexassílabos), capazes de neutralizar o sentimento de desproporção e introduzir um pouco de intimidade, facilitando o acesso para o leitor. Após os 7 cantos, os 5 poemas que constituem a “Síntese”, mencionam o aparecimento da palavra potável/ do cavalo patável que rega a sede do verbo.   

Cinza dos minutos, cujo título nos remete à cinza poética bandeiriana, inicia-se com o emblemático poema “Anúncio”, onde a temática metalinguística se entrelaça com a amorosa, introduzindo, portanto, os dois veios que serão explorados no livro. Segue-se belíssima série de oito sonetos em torno da amada e amiga, a quem convoca ajuda para viver a vida por inteiro e em quem vê a chama /pluma de pássara renascida/vinda com teu fogo e não com cinzas. Aí, lê-se também as quadras em que confessa o motivo pelo qual escreve e onde o pessimismo aflora em manifesto nihilismo: vivo e escrevo o nada do nada.  Após reconhecer a própria ignorância, nunca me soube de mim, chega, pela análise, a identificar a contradição pessoal que lhe rege o ser solto de amarras e  preso atormentado. De qualquer modo rejeita ser menestrel choroso e assume, no magistral soneto “Picadeiro”, totalmente inconsutil, sem pausa do primeiro ao último verso, o papel de doce vagabundo/ que me faz rir da dor doída à beça. Afinal, apesar dos pesares, como já declara no poema “Paso doble com Valéry”, a vida vale a pena.

Chuva de fogo, o livro seguinte, impõe-se pelo erotismo assumido de modo dionisíaco. Como devasso réu, confesso fauno / no vinho das delícias me declaro. Estamos diante de um canto pagão que recusa a interdição bíblica, como é tranquilamente expresso em “Cantiga de sábado”:

         Foram 7 os meus desejos

         7 vezes consagrados

que a vida só vale a pena

          levada nos seus pecados.

O poeta, afastando sentimentos de culpa e remorso geradores de tristeza, faz a opção pela alegria, cuja intensidade pode até conduzir à morte: somente na alegria é que me morro. Verso que parece aludir à sensação de morte característica do êxtase amoroso.

Lâmina aguda se ressente da falta de unidade. Aí se encontram variados temas e formas: poemas longos, ode, sonetos, formas orientais de haibuns e renga. Mas é seguramente, o mais pungente de todos os livros. O tom é sempre cortante e doloroso, como sugere o titulo, salvo nos poemas em que se ocupa da reflexão sobre o formal e que se destacam pela originalidade. Refiro-me a: “Dois pontos”; “O ponto”; “A vírgula”. Os elementos da pontuação linguística são avaliados, sinal da atenção do poeta voltada, também, para o contraponto do silêncio que habita as pausas.

Em Lâmina Aguda, Anibal Beça comparece conectado ao mundo contingente, inventariante da contemporaneidade. Lembro as composições  “Do cinematógrafo ao bug do ano 2000” e a “Ode ao Cyberpoeta”. No entanto, o sentimento de nostalgia prevalece sobre o de celebração. O poeta se debruça sobre a sina da morte (o prestamista virá com seu alfanje/cortar a prestação da hora) e produz “Berceuse da morte cronológica”, comovedor encadeameneto de reflexões e evocações.  Outra composição que se destaca pelo forte teor emotivo, é aquela em que o poeta rememora a casa dos avós paternos, intacta apenas na aparência exterior, pois já não passa da ruína de um mundo desmoronado, e de impossível reconstrução fora da memória.

Cantata de cabeceira é o último dos cinco livros. Reúne poemas em torno de autores, verdadeira galeria de vultos literários. A lista é bem longa e vai dos modernistas brasileiros mortos, capitaneados por Dummond, até representantes de gerações mais próximas, com especial destaque para o irmão maior Mário Faustino que se foi nos Andes nas asas rijas/ Metálicas/ de um condor de mala suerte. O circuito nacional amplia-se para incluir Camões, Pessoa, Bashô e Rimbaud, mais um grupo de hispânicos, liderados por Juan Carlos Galeano.  Estudiosos da poesia de Anibal disporão de farto material de pesquisa sobre a cultura literária de que se nutre o poeta, bem como de sua intensa rede de afetos,  sua efusiva ternura.  Em perfeita simbiose, louva cada um, na dicção poética típica do homenageado.  Mais que poemas dedicados, são poemas desentranhados da vida e obra de companheiros, tanto em aspectos referenciais quanto formais.   

Cerca de 10 dos poemas, que encerram esta cantata, distingüem-se pelo forte acento amazônico. Menciono “Ciranda manauara”, “Toadas de boi-bumbá”, “Águas de Manaus”. O “Pequeno oratório para São Jorge de Lima”, ao fim da coletânea, realiza em prosa poética uma espécie de sincretismo entre a figura do popular São Jorge e os lances oníricos sobre cavalos mágicos da Invenção de Orfeu.

Na recente reunião de Palavra parelha, encontramos a retomada do mítico que estruturou a “Balada do desespero”, mas não o intenso experimentalismo tipográfico espacial, de herança concretista, que se observa em algumas composições de Banda da asa, nem tampouco a emergência do dramático, através das polifônicas vozes que surgem nas baladas finais da “Suíte para os habitantes da noite”. Há, porém, um sensível adensamento de cosmovisão, fruto de inegável maturidade, um aprofundamento filosófico face à condição humana e à ineroxabilidade do destino. Em meio às intensas preocupações estéticas, desponta, vigoroso, o pungente depoimento do ser que não veio beber/ mas imolar-se na sede.

 

                                                                 

***

 


Uma seleta do livro:

 

 

 

ANÚNCIO

 

Inventa mundos nuevos y cuida tu palabra;
el adjetivo, cuando no da vida, mata.

Vicente Huidobro

 

 

É preciso urgente cortar os excedentes.
Nada de adiposidades.
Estamos em crise.
Os adjetivos que me perdoem,
os substantivos são mais esbeltos,
e a Nova Era recomenda que sejamos seletos.

 

Há uma pena de andorinha voando à toa.
Há um redemoinho que nos afunda a proa.
Há uma onda marejada que não se escoa.

 

É preciso pôr um bêbado no timão do barco.
Que saiba das marés pelo trago das estrelas,
que saiba afundar levantando um brinde,
e mesmo nos destroços saber-se príncipe
salvo do rescaldo para o cetro da palavra:
La parole est morte. Vive la parole!

 

Há uma paixão em cada esquina torta.
Há um resto de angústia celebrando a morta.
Há um boi no labirinto procurando a porta.

 

É preciso correr atrás da utopia que se fez distante
para que ela volte a habitar os dias mais comuns,
e faça que o sonho se pareça ao sonho,
mesmo sob o manto pessimista da névoa,
afiando o sabre na pedra que restou da cachoeira.
Ah, nuvens vermelhas, derramai vossa chuva de fogo!

 

Há um canto entravado na garganta.
Há um sufoco que já não me espanta.
Há um espelho que já não me encanta.

 

É preciso fugir do tempo perdido.
O que ficou pra trás encantou-se com a serpente,
e todos os dias buscamos novos corredores:
aléias renovadas para as pegadas recentes.
Salvemos aqui a parelha dos pés que suporta a canga
nesse itinerário do agora recolhendo ontens.

 

Há um solitário na mesa de um bar.
Há um suicida na voragem do mar.
Há um reclamante do verbo amar.

 

É preciso, finalmente, se apaixonar todos os dias.
Experimentar o gesto no corpo da amada.
Imprimir no toque a tatuagem serena
para que fique perene quando for saudade:
A vida se amplia num flash de coisas pequeninas,
e o que ficar são ecos de melodia transitória.

 

Há um desejo que me faz cantor.
Há uma paixão saída da sua cor.
Há um amor na contramão da dor.

 

 

 

 

***

 

 

O ponto

 

 

De ponta a ponta me aponta um .

no apronto da escritura.

Seguido ou final

há-de se entretê-lo

nos cascos do poema

cavalo passado do passo ao trote

                                                 e

                                                  ao

                                                     solto

                                                          ga

                                                            lo

                                                               pe

                          

                                       Na senda branca:

                                       meu dasafio.

Fio em que meu ato

desata desatentos pontos

                                    de vista

nem sempre convergentes.

Às vezes o . é pedra subindo ladeira

para depois rolar ladeira abaixo

e novamente subir ladeira acima.

Outras, o . empaca teimoso

asno turrão

no meio do caminho

no meio da selva selvagem

Gosto

        em especial

 do . rolado

no verde relvado

dos campos de futebol:

No . como na bola

- sua pareceira -

há que saber parar

                    para fazer o gol.

 

***

 

Dois Pontos

 

No meu caminho
dou de encontro

com :

tisnados em paralelas
à espera da sentença
dialogando
     com o chão
 
Essa conversa de pés
claudicante
     tartamuda
gagueja
    em tropeções
naquele que vem embaixo
 rebatendo em eco
para o que está acima
  pássaro preto
  no telhado azul
         Pelo vão desses
:

de cabeça me arremesso
 aventura em travessão
no sonho que não se quer
  linha reta
       horizontal

 O . de cima leva sonhos
           Epifania
 O
. de baixo lavra a pedra
           Epitáfio

 

***

 

A Vírgula

  

para o poeta Margarito Cuéllar

 

 

 

Desde sempre
– para embalar meus passos –
carrego comigo uma vírgula.

Uma , que é um feto

 

sempre pronta a abortar
na gravidez de meus versos.
Às vezes mostra-se abutre
nos seus vôos espirais:
um redemoinho doce e gelado
como sorvete em cascalho
  vendido nas ruas,
pedinchona como os olhos de meninos;

outras, caçadora de andorinhas arribadas
  no solstício do verão:
um gavião que sabe de curvas e
  das esquinas do vento.

 

Por dever de fato e de direito
faz-se urgente que confesse:

 

gosto mais da , bailarina,

 

que dança no compasso da lua crescente
    – sua prima-irmã –
e conhece as solas das nuvens viageiras.

 

 

 

***

 

 

 

RETICÊNCIAS

 

 

páro

diante da nudez do rumo

 

dorsal me curvo

espinha por 3 vezes

 

com uma viseira de antolhos

espio a fala do Outro

 

antes da primeira pedra

lanço-me em 3 pulos

       nunca em cima do muro

senão a pausa

o esgar pontuando o cáustico

                                             sorriso

se voam da voz as ...

 

nuvens

nomeiam-na

                       CUMULUS

e a chuva

lava a relva e

                       vai

                              e

                               leva

e é só silêncio

 

 

se me rendo à tinta

retrai-se ao peso

                           a mão taciturna

pousada

            ave emplumada

 

as ...

no lago gelado

se vão

            CISNES

na pauta que podia ter sido valsa ...

 

 

 

***

 

 

 

Pousadave 

para Paulo José Cunha

 

 

Veio vindo mansa
pluma apetecida
ao sabor dos ventos
 
Não era grave
nem serena
apenas pena
 
Ponte pênsil
na palma da mão
pousada palavra
 
Viageira veio vindo
embalada sem trapézio
no vôo que se sabe vôo
 
Pareceu-me prece
ladainha das nuvens
leveza de salmo
 
ave avoando ave
ao ter no chão
altar do céu



 

***

 

 

As palavras  

As palavras são escamas

que vão-se indo brilhando no lombo das águas,

desfiando estrelas,

afiando crescentes sabres lunares

para a pugna de obscenos peraus.

 

Lá onde dormita o touro,

bastião dos sabás,

cruzado em cascos de mica,

estandarte a escorrer o sangue-Sebastião,

salvífica linfa onde se banham rochedos em perene oblação.

 

Ó mar das tormentas!

Sal dos esquecidos,

porteira azul do impossível e do possível,

presto e manso,

recorrente quando a procela se avizinha.

 

Salva-me de mim

do lastro incandescente

da flamejante saliva

na lápide da língua

lixa de fogo a laxar

maravalhas de pedra

finos alfinetes

cravados

silentes

latentes

na macia almofada

alongando sonos

alagando sonhos.

 

Lava-me de quê?

Salva-me de quem?

 

 

***

 


Nossa Língua

para o poeta Antoniel Campos

 

O doce som de mel que sai da boca
na língua da saudade e do crepúsculo
vem adoçando o mar de conchas ocas
em mansa voz domando tons maiúsculos.
É bela fiandeira em sua roca
tecendo a fala forte com seu músculo
na hora que é preciso sai da toca
como fera que sabe o tomo e o opúsculo.
Dizer e maldizer do mel ao fel
é fado de cantigas tão antigas
desde Camões, Bandeira a Antoniel,
este jovem poeta que se abriga
          na língua portuguesa em verso e fala
          nau de calado ao mar que não se cala.

 

 

 

***

 

  

 

    Palavra parelha
    Autor: Anibal Beça
    Editora: Galo Branco, 400 páginas
     (consulte usando a ferramenta de busca de livros 
     da parceria Martins Fontes - Cronópios)
 

 

 

 

 

 

Anibal Beça, é poeta e jornalista, autor, entre outros, de “Noite desmedida”, “Filhos da Várzea”, “Suíte para os habitantes da noite” (VI Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira) “Banda de Asa” e “Folhas da selva – haiku”. Desde 2005 está à frente da presidência do Conselho Municipal de Cultura de Manaus. E-mail: anibal.beca@vivax.com.br 

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