Outros silêncios? Não seriam os poemas de José Geraldo Neres antes outras palavras? O poeta nos diz que a lona do circo/ rasga a tempestade/ das secas: para o senso comum, é a tempestade que rasga a lona do circo. Em vez de cantar, o sabiá chora. Em lugar do mais previsível corpo serpenteando pelo deserto, o deserto serpenteia/ o corpo cego. E o sol balança a rede, deslocando a familiar rede que balança ao sol. Inverte sentidos, subverte relações de significação. É algo assemelhado à relação diante do espelho, no qual o reflexo é o inverso fiel do objeto refletido. Por isso, diz ele, as palavras rasgam o espelho. Fora dos trilhos da razão prosaica, suas imagens surreais vão ao encontro de novos sentidos: é o pintor, novamente citando-o, de um quadro invisível; ou melhor, tornado visível por meio do poema. A significação não é destruída, porém renovada; a palavra, desgastada pelo uso comum, pela subordinação à lógica instrumental, retorna enriquecida e vitalizada.
Não é o caso, aqui, de reabrir um confronto entre adeptos da criação espontânea e formalistas. Mas, em um panorama literário como o brasileiro, no qual predominam adeptos de uma poesia a frio, pensada, cerebral, fruto da razão mais que da emoção, José Geraldo Neres se destaca por figurar entre os autores que nadam na contracorrente, no contrafluxo. Para ele, o valor poético está associado à imagem, tal como proposta por Pierre Reverdy: como aproximação de realidades diferentes, sendo tanto mais forte quanto mais distantes forem as realidades por ela aproximadas. Por isso, sua lógica é aquela que rege os sonhos, com seus deslocamentos e condensações. E sua escrita é, utilizando uma de suas imagens fortes, aquela da mão sonâmbula. A voz, não propriamente do inconsciente, mas daqueles momentos em que a cisão entre consciente e inconsciente é superada.
Nesse registro, escrever livremente, de modo inspirado, também é dialogar com a poesia. É o que se vê em suas referências aos representantes do primado do pensamento analógico: de Murilo Mendes e García Lorca, passando por Octavio Paz, até os contemporâneos como Herberto Helder e Roberto Piva, além de alguns autores mais raros, como o croata Radovan Ivsic. O intertexto, às vezes evidente em menções e citações, porém mais frequentemente implícito, pode ser transcrição, leitura criativa; mas é, principalmente, o encontro de muitas vozes que convergem nesta dicção tão pessoal. Algaravia, câmara de ecos? Sim – mas este é, adverte-nos o poeta, o eco das árvores. E aqui temos, como um dos exemplos de possibilidades da decifração de imagens, um sutil comentário de Baudelaire: para o poeta das sinestesias e correspondências ocultas, árvores têm, sim, vozes; a natureza fala por meio de suas formas e cores; e essa fala irá multiplicar-se e ampliar-se através dos poemas futuros, a exemplo destes de Outros silêncios.
O eco das árvores, poema escolhido para encerrar o livro, é um depoimento por imagens. Nele, é formulada uma ousada poética: ao longo de seus versos, não apenas menciona autores, de William Blake, passando por Whitman, até chegar a Octavio Paz e contemporâneos, mas os transcreve; e alterna as transcrições com imagens originais, suas. Mostra, assim, que poesia não apenas é diálogo; porém, que este diálogo o leva a descobrir-se como outro, dispersando-se na medida em que leio o que escrevo. / Eu não existo aqui mesmo. O poema mal sabe de mim. É, como experiência pessoal, vivência, a reprodução do que havia sido declarado, e também vivido, por Mallarmé: A obra pura implica a desaparição elocutória do poeta, que cede a iniciativa às palavras, pelo choque de suas desigualdades mobilizadas. O importante a observar, aqui, não é apenas que essa poética da supremacia do verbo poético sobre seu emissor foi adotada; mas que o autor de Outros Silêncios se mostra à altura dela.
José Geraldo Neres também vem se destacando pelo trabalho como agente e difusor cultural, no movimento Palavreiros, e na administração cultural do município de Diadema. É um poeta em tempo integral. Sua atuação é coerente nos dois planos, da criação pessoal e da ação cultural. Em ambos, contribui para arejar e dinamizar a cena poética brasileira. A boa recepção de sua poesia, atestada por prêmios literários, participações em antologias, coletâneas e edições artesanais que precederam a publicação deste Outros silêncios, não apenas confirma a presença de um poeta de valor: é o indício de uma renovação.
OUTROS SILÊNCIOS
de JOSÉ GERALDO NERES
...na margem de si mesmo ser o pestanejar do instante, o incêndio e a destruição e o nascimento do instante e a respiração da noite fluindo enorme na margem do tempo, dizer o que diz o rio, larga palavra semelhante a lábios, larga palavra que não acaba nunca, dizer o que diz o tempo em duras frases de pedra, em vastos acenos de mar cobrindo mundos.
Octavio Paz
o tempo
navega
além do rio
o tempo
prisioneiro
o tempo
além da vontade da água
porta parada
homem oco e seus relógios
nome deitado cego
escondido nas raízes da água
enterra sua sombra
nos galhos de um arco-íris
parado na porta
o tempo
voz no cortejo de punhais
sol afogado no peso e na dor dos pássaros
seu olho
no sangue do rio
e nas suas margens com seios de prata
língua de serpente no voo da lua
e na espera d’água
III
a dança conta a vida
como se chovessem noites
o ritmo desperta a água
nos olhos navalhas
o movimento enroscado no deserto dos pássaros úmidos
deus
– em seus pesadelos
penetrava nas almas e arrancava os olhos
a poesia não cicatrizava –
acorda
na última fila
ele
diante do espelho
a linguagem da queda
IV
sentir o silêncio da nudez
palavra aquática
nos olhos
o dilúvio de arco-íris
corpos líquidos
deslizam à deriva
águas sem margens
ondas se enterram
no lírico punhal
das pequenas mortes
V
as pálpebras escavam
um círculo
agarram o mar
metade luz
metade grande selva
no horizonte
constelações de peixes rápidos
no altar de estrelas
um grito invisível
ponteiros sem lágrimas
o demônio na sombra de um deus
barcos no pulso das nascentes
dois rios inimigos
lábios em forma de promessas
VI
as árvores cantam
levam meu corpo
suas raízes criaram asas
movimento de mulher de país infinito
meus olhos no aprendizado das horas
imagino um lago
espero um navio líquido
um peixe no céu
naufrágio alado
ave trançada em algas
mostra sua pele
um rio sem margens
ensina à nuvem
ser uma manada de palavras
uma metáfora suspensa
sentado no seu colo
a noite faz morrer uma estrela
o ventre na descoberta da água
exibe-se
atravessa o silêncio
os dias cobrem os ponteiros
rasgam o vento
e o que não existe
sangra o fogo
no seu dorso
água violenta
no rio
as árvores cantam
sombras se agitam
a uivar para as nuvens de martelos assustados
olhos selvagens na floresta de sobrancelhas
se agarram ao suicídio das casas
na tentativa de descobrir o segredo da terra
elas
reclamam que não conseguem sonhar direito
se encolhem de frio
querem comprar mais uma alma
mas se sentem arrastadas pelo espelho
uma paisagem de olhar amassado de sono
na sensação de serem devoradas pela areia
de serem um rio afogado
sussurram
somos
o castigo na espera de passar pelas sete portas
o ventre despovoado de raízes
a noite fechada dentro do homem
a estrada no limite do corpo
a segunda língua de tudo que não existe
a palavra que ninguém responde
a insônia das águas em sangue doente
o passo lento das casas e suas pálpebras pesadas
A CIDADE
anúncio percorrido por sapatos apertados
a infância
tarde enroscada numa esquina
a rua
pede outra lágrima
cobra pedágio
máquina vazia de cortar segundos
além do tempo úmido
o tempo
um cão ilumina a si mesmo
dentro da pele da morte
sua boca um rio de lençóis
o mistério desliza pela noite
um cego vigia a porta
a quem ele estende a mão?
como ajudá-lo a atravessar a porta?
nasce com um naufrágio atrás das orelhas
e seus olhos não possuem memória
não há claridade no caminho
apenas o cão com seus olhos de barro
no ventre paulistano
um MASP rachado
brinca de ser menino
de apunhalar as praças
memória devorada por suas tripas
templos & centopéias
cidade & anjos engraxates
nos lábios jogos noturnos
a porta & suas locomotivas
sinto as torres & o relógio sem nuvens
& o choque do cérebro
adormeço
– o suspiro da carne –
o girassol rói os olhos da morte
como atravessar espelhos se na vitrola
sugadora de desertos
os ponteiros se dissolvem
o tempo abre a janela de Breton
o abismo se imagina poeta
UM CORTE NO TEMPO
os telhados do mundo/mães
a escrita paira no ventre
minha janela de olhos de vinho
línguas línguas línguas
embriagam a cidade
lá está ela
e baixo os olhos quando vejo o
horizonte
sangue do meu sangue
respira por mim
– os olhos doem –
mergulha
se lambuza
na chuva
e eu ela
na chuva
os pelos em riste
chuva
esfrego o coração em algum dilúvio
línguas línguas línguas
pausa
o sol
de mãos postas
[inspirado no livro “visões do medo”,
de beth brait alvim]

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Esta obra foi realizada com o apoio do Ministério da Cultura do Brasil - Fundação Biblioteca
Nacional - Coordenadoria Geral do Livro e da Leitura, e da Secretaria de Estado da Cultura de
São Paulo - Programa Ação Cultural - 2008 (ProAc).